A COTA DO DIA
- Moço me dá um real.
Não era um pedido qualquer, deste que se houve todo dia. Era um clamor sincero, com expressão e sentimento, daqueles que fazem doer a alma de quem ouve.
Virei-me. Era uma garotinha ruiva , cabelos anelados, olhos cor de mel, que brilhavam no reflexo da luz sobre as lágrimas que brotavam nos seus olhos.
- Não chore menina! Você quer um prato de sopa?
- Quero sim, mas não posso comer aqui. O dono da venda não deixa a gente comer. Depois ele briga com a gente. Eu quero mesmo é um real.
- Vai deixar sim! Quem está pagando sou eu. Ora essa! Garçom: traga-me um prato de sopa de frango aqui para a garotinha.
Meio a contragosto, o garçom trouxe a sopa. Já era tarde, umas vinte e trinta horas.
- Quantos anos você tem? Perguntei, quebrando o gelo, enquanto a menina se afogava na sopa.
- Acho que vou fazer seis em setembro, minha mãe é quem disse.
- Por que ainda não foi para casa? Onde você mora?
- Moro na estrutural. Ainda não fui prá casa porque só fiz "sete real". Está dentro do short, senão os garotos tomam.
- Ora, se fez sete reais, por que não foi embora?
Esta hora já é perigoso e ninguém vai te dar mais nada.
- É por isso que eu falei com o senhor. Eu só posso
ir para casa depois que fizer "dez real". Ontem eu só fiz "seis real" e meu pai não deixou eu entrar em casa. Dormi do lado de fora na porta.
- Não é possível! E sua mãe não fez nada?
- Moço. Meu pai é muito brabo. Ele bebe muito e
quando minha mãe fala alguma coisa ele esmurra e chuta ela. Ela está barriguda e doente.
Perdi o apetite. Paguei a conta, dei o troco para a menina e fui para casa revoltado. Não só com o acontecido mas, principalmente, por saber que amanhã ela voltaria e provavelmente com a exigência de uma cota maior.
A CONQUISTA
Não a vejo, meu bem querer, como conquista
Ou por troféu que se premia a um vencedor
A vejo apenas como a razão maior já vista
Pra um coração se desmanchar de amor
Se por lauréus fosse, assim, minha corrida
E falsa a busca pra conquistar seu coração
Vazia e triste seria enfim a minha vida
Sem seu amor, só amargura e solidão
Que importa se conquistei ou fui conquistado
Na sedução não há derrotado ou vencedor
É uma batalha onde o orgulho é derrotado
Pra que almas enfim se unam em pleno amor
MENINA MOÇA
Ela é meio criança e meio menina.
Ora é pimenta, ora é bonina.
Ora é afoita, ora é insegura.
Ora é pirraça, ora é ternura.
Ora é madura e ora é infante.
Ora é calada, ora muito falante.
Ora é muito pacata e ora é pura energia.
Mas sempre da casa, a maior alegria.
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
No dia internacional da mulher, cabe-nos uma reflexão. Será que podemos comemorar? É verdade que já foi muito pior, mas nem por isso podemos dizer que estamos bem. Ainda são centenas os registros diários de agressões físicas contra esposas, sem que os agressores sejam sequer convocados a depor, que de lá serem julgados ou punidos.
A agressão física é normalmente o culminar de muitas outras agressões inconcebíveis a um viver digno. As mulheres são ainda, em muitos lares, vetadas do seu direito de ir e vir, do seu direito de expressão, de sonhar com uma carreira profissional, de visitar e ser visitada, de participar da definição orçamentária da família, principalmente aquelas que se dedicam integralmente às atividades domésticas.
Vivemos ainda numa sociedade hipócrita, onde muitas mães ainda ensinam as filhas para suportarem as afrontas e agressões domésticas para que o casamento seja mantido. Mas, que casamento é este que se quer manter? Para agradar a quem, se a parte mais importante dele está sendo ferida e desrespeitada? Dizem que o tempo cura todos os males, mas há alguns que a passividade do tempo só os transforma em moléstias crônicas.
Quem perde o respeito próprio perde a alegria da vida. Os sonhos de uma mulher não podem se resumir à vida dos filhos. Elas têm o direito de sonhar e viver realizações que não podem ser trocadas pela imagem obtusa de uma aparente estabilidade conjugal, caracterizada pelo ostracismo e submissão.
É preciso mudar a nossa cultura. Ensinarmos as nossas filhas que a dignidade vale mais que um casamento; que onde não há respeito pode existir tara e até paixão, mas nunca o amor. É preciso mostrar-mos que o trabalho externo ao lar é doloroso aos filhos, mas é o primeiro passo para a manutenção da dignidade.
É preciso que amemos e apoiemos as nossas mães, irmãs e filhas, não apenas em palavras, mas em gestos e atitudes, quando sofrem por buscarem para si o respeito acima da aparência, bem como o direito de serem livres e felizes.
A todas as mulheres neste dia, o meu respeito, carinho e admiração. Que o vosso sorriso, e não as lágrimas, seja sempre a expressão da vossa ternura. Que nosso país amanhã, lhes dê a justiça que lhes nega hoje.
Parabéns! Parabéns e parabéns!
BRAÇOS ERRANTES
Braços meigos, infantes, gentis, saltitantes;
pureza e ilusão.
Braços unidos, dobrados, mansamente curvados;
fé e devoção.
Braços enfileirados, fuzil empunhado;
serviço à nação.
Braços abertos, espaçosos, gentis, calorosos;
amor e afeição.
Braços musculosos, servis, vigorosos;
labor e produção.
Braços levantados, vibrantes, agitados;
participação.
Braços desanimados, ociosos, cruzados;
crise e recessão.
Braços indoutos, insanos, revoltos, profanos;
fome e desilusão.
Braços magros, estendidos, fracos, abatidos;
mendicância de pão.
Braços enrijecidos, maléficos, agressivos;
violência e tensão.
Braços algemados, feridos, drogados;
morte numa prisão.
BRASIL GOSTOSO
Você já ouviu o cantar do uirapuru?
Subiu as serras do Sul?
Visitou o Pantanal?
Percorreu o litoral?
Viu as musas dourando ao sol?
Sabe o que é um rouxinol?
Visitou a foz do Iguaçu?
Já viu uma tribo Xingu?
Sabe o que é pororoca?
Comeu cuscuz, tapioca?
Cruzou o agreste e o sertão?
Dançou xaxado e baião?
Foi do Iapoque ao Chuí?
Tomou tacacá e tucupi?
Gingou com os capoeiristas?
Comeu virado-a-paulista?
Dançou numa escola de samba?
Comeu a feijoada baiana?
Desceu, de trem, a Paranaguá?
Já foi ao Araguaia pescar?
Comeu do biscoito mineiro?
Já contemplou o Rio de Janeiro?
Andou de bonde no corcovado?
Foi ao Cristo e a São Conrado?
Foi a Mariana, a Ouro Preto?
A um rodeio em Barretos?
Foi a Olinda, a Salvador?
Ao pelourinho, ao elevador?
A Comandatuba, a Itaparica?
A Pomerode, a Curitiba?
E Brasília, a capital,
Você já viu beleza igual?
Antes de ir ao exterior,
Eu só lhe peço um favor:
Suba a Cento e Dezesseis
E desça, aos poucos, a Cento e Um
Pois um Brasil, como Deus fez,
Jamais verás em canto algum.
VISITA A MASMORRA
Desci a masmorra uma tarde
Para ver o que o homem tinha
Quando se punha face a face
Com sua alma mesquinha
Eu vi a ira nas pedras
Vi versos em sangue escritos
Vi vingança, desafetos
Escárnio, ódio e estrupício
Vi mágoas em alto relevo
Vi cicatrizes e feridas
Vi sombras de pesadelos
Amargos restos de vida
Eu vi a tristeza e a má sorte
Em dentes e unhas esculpidas
Eu vi a sombra da morte
Oculta em faces fingidas
Vi planos aterrorizantes
Angústia e mágoa explosiva
Vi a tristeza pulsante
Vi dor, malícia e intriga
Vi a vaidade desfeita
Vi arrogantes oprimidos
Vi soberbos na sarjeta
Eu vi valentes vencidos
Eu vi a miséria dos homens
A tristeza de arrependidos
Eu vi pensamentos profanos
Vi sonhos desvanecidos
Sai da masmorra em tormenta
Mui triste e apavorado
Por ver nas paredes cinzentas
O meu coração retratado
A PASSADEIRA
O ferro fumegando e mais trouxas chegando
que vão e que vêm em um ciclo sem fim.
Fazem da passadeira, filha da lavadeira,
mais uma pobre cativa de um mundo ruim.
Tem suas mãos ressecadas, sua pele queimada
e sua face cansada de um eterno sofrer.
Seu olhar contristado não vê futuro ou passado
pois o seu tempo é contado só em tarefas a fazer.
Parque, circo, gincana, folga ou fim-de-semana,
praia, livro e escola são coisas que nunca viu.
Não sabe sua idade, mas passou da puberdade
sem viver os encantos do mundo infantil.
Não tem carteira fichada ou horas de labor registradas,
nenhum salário a ganhar.
Só tem o pão por comida, roupas em trapo e a dormida,
mão-de-obra familiar.
Passa da seda ao chitão, do linho fino ao roupão,
só não passa a cortina entre o sofrer e o viver.
Já não estica a esperança, queimou sua infância,
dobrou e guardou seu querer.
Assim, engoma a sua sina, não é mulher nem menina,
pois nunca pode sonhar.
Em ferro e em brasas ardendo, vai seu viver padecendo
até a morte chegar.
SAUDADE
Saudade é a espera do amor ausente
Em que o tempo a cada instante eternizou
E a tudo faz passar indiferente,
Ignóbil, vazio e sem sabor
Saudade é o sorriso que desponta
Como a aurora que reluz ao teu chegar
Saudade é o embaraço a cada encontro
E meu rosto rubicundo ao teu olhar
Saudade é a fantasia não vivida
E o amor que não ousei te declarar
É o remorso de quem não faz a tentativa
De a tão formosa dama conquistar.
Saudade é a amargura da lembrança
De um amor que intensamente me envolveu
É uma mistura de tristeza e de esperança
De que um dia ele ainda volte a ser só meu
QUADRO INACABADO
Contemple seu quadro, em breve a luz apaga
Os rabiscos de sonhos, frutos de ilusão vazia
A beleza da rosa em mofo e fumaça acaba
Seca e morre a trepadeira na primeira estia
Vão-se os cabelos, ralos e sem cores
Nova de novo só a lua, efêmera é a vida
Quadros inacabados, pintados de dores
Desfalece o atleta e ali finda a corrida
Retrato de quimeras na paredes do tempo
Marcos de angústias de um viver vazio
História de vida entregue ao relento
Viveu a primavera mas se esqueceu do estio
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza