REVOLTA DAS ÁGUAS
Águas límpidas fagueiras, vivas em corredeiras,
felizes a cantar;
Planícies e florestas transformam-se em festa
sob o vosso comandar.
Águas inocentes, em um projeto indecente
vão te represar;
E seus braços viçosos, livres e vigorosos,
estão a canalizar.
Águas agora oprimidas, se arrastam sem vida,
num constante penar;
Vossa fauna sufocada, a morrer condenada,
não tem onde desovar.
Águas enclausuradas, sem canto, paradas,
jazem numa prisão,
Estais poluídas, opacas, sem vida,
cheiram a podridão.
Águas enraivecidas, revoltadas e unidas,
vão a barragem estourar,
E os restos tiranos deste casulo insano,
que se afoguem no mar!
TIMIDEZ
Maldito espelho, aguilhão da censura,
tão cruel, indiscreto, quer te recriminar....
seja um fio de cabelo, uma espinha, uma ruga
sempre encontra um jeito de a ti censurar.
Quando estou junto a ti, ficas a imaginar
se estás bela ou feia, o que de ti vou achar.
Neste crivo e receio, ficas tímida, inquieta,
vais despir-te sozinha, sob luz mais discreta.
Já não sabes querida, que não te posso julgar?
Vejo-te, parte minha, ao meu ser completar.
Não há júri ou tribuno na passarela do amor.
És sempre minha rainha, minha musa, minha flor
AVE CATIVA
Melhor ter um na mão que dois voando
é o que afirma um adágio popular,
expressa insensatez do ser humano
que, egocêntrico, a tudo quer domar.
Nas mãos do cativeiro o pássaro é mudo,
é triste, arrepiado e sem cantar.
Seu gorjear é pranto seco, absoluto,
pois lágrimas não possui para chorar.
Melhor é mãos vazias e ter à vista,
em graça, em alegria e em esplendor,
contida em doces amarras da conquista
aquela a quem tu chamas: meu amor.
A quem se ama, prende-se com carinho
e é por ternura que se deve cativar.
Então, se dando por inteira, em desatino,
a presa do amor não quer voar.
BRAÇOS ERRANTES
Braços meigos, infantes, gentis, saltitantes;
pureza e ilusão.
Braços unidos, dobrados, mansamente curvados;
fé e devoção.
Braços enfileirados, fuzil empunhado;
serviço à nação.
Braços abertos, espaçosos, gentis, calorosos;
amor e afeição.
Braços musculosos, servis, vigorosos;
labor e produção.
Braços levantados, vibrantes, agitados;
participação.
Braços desanimados, ociosos, cruzados;
crise e recessão.
Braços indoutos, insanos, revoltos, profanos;
fome e desilusão.
Braços magros, estendidos, fracos, abatidos;
mendicância de pão.
Braços enrijecidos, maléficos, agressivos;
violência e tensão.
Braços algemados, feridos, drogados;
morte numa prisão.
A CONQUISTA
Não a vejo, meu bem querer, como conquista
Ou por troféu que se premia a um vencedor
A vejo apenas como a razão maior já vista
Pra um coração se desmanchar de amor
Se por lauréus fosse, assim, minha corrida
E falsa a busca pra conquistar seu coração
Vazia e triste seria enfim a minha vida
Sem seu amor, só amargura e solidão
Que importa se conquistei ou fui conquistado
Na sedução não há derrotado ou vencedor
É uma batalha onde o orgulho é derrotado
Pra que almas enfim se unam em pleno amor
A PASSADEIRA
O ferro fumegando e mais trouxas chegando
que vão e que vêm em um ciclo sem fim.
Fazem da passadeira, filha da lavadeira,
mais uma pobre cativa de um mundo ruim.
Tem suas mãos ressecadas, sua pele queimada
e sua face cansada de um eterno sofrer.
Seu olhar contristado não vê futuro ou passado
pois o seu tempo é contado só em tarefas a fazer.
Parque, circo, gincana, folga ou fim-de-semana,
praia, livro e escola são coisas que nunca viu.
Não sabe sua idade, mas passou da puberdade
sem viver os encantos do mundo infantil.
Não tem carteira fichada ou horas de labor registradas,
nenhum salário a ganhar.
Só tem o pão por comida, roupas em trapo e a dormida,
mão-de-obra familiar.
Passa da seda ao chitão, do linho fino ao roupão,
só não passa a cortina entre o sofrer e o viver.
Já não estica a esperança, queimou sua infância,
dobrou e guardou seu querer.
Assim, engoma a sua sina, não é mulher nem menina,
pois nunca pode sonhar.
Em ferro e em brasas ardendo, vai seu viver padecendo
até a morte chegar.
A COTA DO DIA
- Moço me dá um real.
Não era um pedido qualquer, deste que se houve todo dia. Era um clamor sincero, com expressão e sentimento, daqueles que fazem doer a alma de quem ouve.
Virei-me. Era uma garotinha ruiva , cabelos anelados, olhos cor de mel, que brilhavam no reflexo da luz sobre as lágrimas que brotavam nos seus olhos.
- Não chore menina! Você quer um prato de sopa?
- Quero sim, mas não posso comer aqui. O dono da venda não deixa a gente comer. Depois ele briga com a gente. Eu quero mesmo é um real.
- Vai deixar sim! Quem está pagando sou eu. Ora essa! Garçom: traga-me um prato de sopa de frango aqui para a garotinha.
Meio a contragosto, o garçom trouxe a sopa. Já era tarde, umas vinte e trinta horas.
- Quantos anos você tem? Perguntei, quebrando o gelo, enquanto a menina se afogava na sopa.
- Acho que vou fazer seis em setembro, minha mãe é quem disse.
- Por que ainda não foi para casa? Onde você mora?
- Moro na estrutural. Ainda não fui prá casa porque só fiz "sete real". Está dentro do short, senão os garotos tomam.
- Ora, se fez sete reais, por que não foi embora?
Esta hora já é perigoso e ninguém vai te dar mais nada.
- É por isso que eu falei com o senhor. Eu só posso
ir para casa depois que fizer "dez real". Ontem eu só fiz "seis real" e meu pai não deixou eu entrar em casa. Dormi do lado de fora na porta.
- Não é possível! E sua mãe não fez nada?
- Moço. Meu pai é muito brabo. Ele bebe muito e
quando minha mãe fala alguma coisa ele esmurra e chuta ela. Ela está barriguda e doente.
Perdi o apetite. Paguei a conta, dei o troco para a menina e fui para casa revoltado. Não só com o acontecido mas, principalmente, por saber que amanhã ela voltaria e provavelmente com a exigência de uma cota maior.
TEUS OLHOS
Gemas preciosas de insólita beleza,
Da divina arte, o maior fulgor.
Mais que as esmeraldas rubis e turquesas
São pureza, encanto, brilho e esplendor!
Teu olhar fascina, encanta, arrebata
Rouba-me a calma, tira-me a razão
Sua beleza e charme são cordéis e amarras
Que me prendem a alma e o coração
Estes olhos mágicos, fórmula da loucura
São insanidade, perda do juízo
Mas, trazem a minh'alma paz e tal doçura,
Tiram-me da mágoa para o paraíso
Assim, diante deles eu já não sou mais nada
Sou eterno súdito desta admiração
Pronto a seguir-te em qualquer jornada
Que me prenda a ti minha fascinação
VOZES AO VENTO
Brada o poeta seus versos revoltos
Qual água em cascata do peito a jorrar
Da injustiça e descaso transborda o desgosto
É a voz dos que sofrem mas não ousam falar
Chora o poeta seus versos tristonhos
Sorrisos e prantos, do amor a ilusão
Fantasias desfeitas ou mantidas em sonhos
É o "glamour" da ventura, loucura e paixão
Canta o poeta a alegria do povo
Exalta em versos, da vida o prazer
Esquece a miséria, é Copa de novo
Deixa em sonhos e quimeras sua gente viver
QUADRO INACABADO
Contemple seu quadro, em breve a luz apaga
Os rabiscos de sonhos, frutos de ilusão vazia
A beleza da rosa em mofo e fumaça acaba
Seca e morre a trepadeira na primeira estia
Vão-se os cabelos, ralos e sem cores
Nova de novo só a lua, efêmera é a vida
Quadros inacabados, pintados de dores
Desfalece o atleta e ali finda a corrida
Retrato de quimeras na paredes do tempo
Marcos de angústias de um viver vazio
História de vida entregue ao relento
Viveu a primavera mas se esqueceu do estio
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza