Lista de Poemas

QUADRO INACABADO



Contemple seu quadro, em breve a luz apaga
Os rabiscos de sonhos, frutos de ilusão vazia
A beleza da rosa em mofo e fumaça acaba
Seca e morre a trepadeira na primeira estia

Vão-se os cabelos, ralos e sem cores
Nova de novo só a lua, efêmera é a vida
Quadros inacabados, pintados de dores
Desfalece o atleta e ali finda a corrida

Retrato de quimeras na paredes do tempo
Marcos de angústias de um viver vazio
História de vida entregue ao relento
Viveu a primavera mas se esqueceu do estio
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APENAS POR GOSTAR





Por gostar de ti ...
Verei nos teus olhos o arrepender de enganos
Sentirei as tuas dores como se minhas fossem

Priorizarei tuas necessidade às minhas
Farei do teu sorriso a minha canção
Verei no nosso envelhecer uma suave valsa 


Por gostar de mim ...
Entenderei em teus olhos, quando não mais me quiseres
E partirei calado, ainda que de mágoas ressentido
Sufocarei a saudade e irei na busca de outros olhos
E farei da tua lembrança apenas uma pluma ao vento
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AMOR À PRIMEIRA VISTA


Umedecidos em dor pelo sofrer do puerpério
De brilho incandescente envoltos em mistérios
Aqueles olhos saudaram assim minha chegada
Como sois de amor na minha primeira alvorada

Celeste anjo de luz a receber-me em vida
Neste olhar de mãe acho sempre a guarida
Em todos os pesares, ardis e sofrimentos
Eterno pacto de amor, não só momentos

Olhos que brilham assim repletos de ternura
Mesmo quando a mim cabe apenas a censura
E quando a noite escurece e ressurge o pavor
Ainda nos olhos da mãe irradia o doce amor



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SONHO E QUEDA REGISTRADOS EM PEDRAS



A casa não era grande, mas era forte, construída em concreto e pedra. Ma verdade, eu temia que lobos e linces invadissem a minha casa durante a noite. Coisa que nunca tentaram. De qualquer forma, melhor era prevenir. Paredes fortes, portas e janelas de Ipê , além de travas e um pequeno porão subterrâneo com portas de aço. O lugar era nativo, destes que a gente sonha quando assiste filmes de faroeste. Era uma linda savana, que na primavera se revestia de flores parecendo um tapete persa. O rio ficava ao lado, a uns 200 metros da casa. Preferi fazer a casa mais distante e num altiplano temendo alguma enchente. Esta nunca aconteceu, as chuvas sempre forram constantes, mas regulares. Nunca me preocupei com a beleza da casa. Na verdade nossa casa era o jardim, lá comíamos e passávamos a maior parte do tempo.

Tínhamos tudo e nada, Tudo porque não havia lugar mais belo no mundo e nada porque, exceto uma geladeira a gás, tudo o mais era desnecessário. Televisão, computador e automóvel eram coisa inconcebíveis às nossas necessidades. Alguns vizinhos, na outra margem do rio e uma aldeia onde comprávamos os nossos suprimentos, sal, açúcar, e grãos, a apenas uma hora de barco à vela. Tudo corria assim tão belo, até que um dia...

Um dia chegou a Marcela, prima de minha amada. Veio da capital, por recomendação médica, passar uns dias no campo. Ela não era uma pessoa má, mas trazia no bojo o vírus da insaciabilidade. Nem ela mesma sabia, mas já estava morrendo por este motivo. Embora tivesse um bom salário vivia sempre planejando um futuro mais abastado. Seu verbo preferido era “trocar”. Trocar o apartamento, trocar o carro, trocar de cidade, trocar de emprego, etc. Coitada! A vida estava sempre longe do seu braço, embora possuísse um invejável equipamento de pesca. Um lindo corpo, bom emprego, bom salário, bom marido, lindos filhos e um ótimo apartamento de classe média, o qual acabara de ser reformado, pela terceira vez nos últimos cinco anos. Era algo compulsivo, ela vivia pra TV e a TV para ela. Tudo era bom até que um especialista da TV dissesse o contrário. Trouxe mais remédios na mala do que roupas para se vestir. Era comprimidos para prevenir celulites, para emagrecer , para amaciar o cabelo, e outros que nem ela sabia pra que, mas usava por recomendações de amigas. As vezes, o diabo veste prata, foi esta a cor da roupa que ela chegou, num salto extravagante como se fosse caminhar na passarela. Mas não o fez por mal, esta era sempre a sua indumentária. Não aguentou dois dias na nossa modesta casa. Tudo lhe era incômodo, mesmo a gente se desdobrando em paparicos. Mas estes dois dias foram suficientes para causar um estrago equivalente ao tsunami em Fukushima. Depois de dois dias, o vírus já havia se propagado.

Naquele dia eu me lembrei da caserna, lembrei-me do dia eu que eu assisti a expulsão de um tenente. Nunca tinha visto algo tão horrível. Ele estava de pé diante a tropa, quando o General rufaram os tambores. Primeiro o Bumbo, depois o surdo, e por fim o tarol. Os toques começaram fortes e rápidos, depois foram ficando lentos e pausados, como alguém que perde o fôlego. Em um movimento brusco, o general arrancou as medalhas e insígnias do uniforme do tenente, depois dois sargentos lhe rasgaram a farda em golpes bruscos de canivete, deixando-o apenas em trajes menores. Foi quando então a corneta cortou o céu com um piado triste e fúnebre, para que o pelotão lhe virasse as costas e o tenente fosse arrastado ao calabouço pelo corpo da guarda. Assim me achei naquele dia, o tenente em seu desterro. De repente, as pradarias perderam o encanto, a casa virou tapera, a tranquilidade um tédio, os amigos uns chatos, a natureza um presídio, os filhos uns farrapos, eu um incompetente e a visão do rio apenas um pesadelo. Tem horas que a nossa lama foge da gente e ficamos inertes a imaginar que estamos em um sonho, e que logo acordaremos. Mas era real, O céu desabou sobre mim como o Vesúvio em Pompeia. Já não havia onde refugiar-me. As vezes uma montanha de sonhas traz em seu bojo um vulcão adormecido. Calei-me, fui até o rio e pensei: a enchente que eu tanto evitei pegou-me de surpresa e no seu banzeiro não me sobrara nada, quem sabe a minha dignidade.

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FESTA DEPOIS DOS 100




Ela enfeita a casa todinha
Compra pizza, balões e velinhas
E se põe a festejar

Nem ela sabe o que canta
Vem sempre um nó na garganta
E logo ela põe-se a chorar

A sós com Deus comemora
Há muito, filhos, netos e noras
Não querem com ela falar

Setenta e três faz de fato
Os cem, ela acrescenta por hábito
Pra sua dor expressar

Há muito está sem marido,
Sem netos, sem amigos e sem filhos
Sem um telefone a tocar

Já faz 100 desde os cinqüenta
Suas festas são em roxo e magenta
Dor e tristexa sem par

Sem vida, sem sonhos, sem carinho
Sua festa é um escárnio ao ninho
Que um dia em amor quis montar
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NOITE FRIA



Chicoteia-me o tempo, a martelar sentimentos, meu amor não chegou
O café de desejos, com o sabor de seus beijos, moribundo esfriou
O ramalhete de rosas - rubicundas, ditosas, em tristezas murchou
Minha noite se esvazia e em cama rude e mui fria a minha alma chorou

Foi-se o sonho da ventura, só tristeza e amargura arde em meu coração
Nada alegra a minha alma, nenhuma música afaga o morrer da ilusão
Onde buscar um alento, lavar cruéis sentimentos e por fim a aflição?
Se não há curandeiro nem remédio caseiro que me cure a paixão

405

THE TIME



De repente, não quero nem saber porque,
Veio pedir-me um tempo entre eu e você.
Estremeci. Já não carecia mais explicação,
Um vácuo entre Ti e Me, surgiu então.

Já não precisava mais achar resposta
O desfazer do amor é chaga exposta.
A liberdade é o risco que o amor assume
Mas tudo escurece no apagar do lume

Quando se pede um “time”, de fato o time acaba
Fenecem as flores e brotam agora as mágoas
O relógio do amor para naquele exato momento
Passam a marcar o tempo a dor e ressentimentos
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A ROSA VERMELHA




  1. Pulei a cerca, a rosa eu apanhei com mui cuidado
    E bem acomodada a pus no fundo da maleta
    Meu coração pulava fazendo sacudir a camiseta
    Como quem carregava no bojo algo sagrado

    Nem sei como cheguei aquele dia à escola
    Mais rubro estava que a rosa que eu roubara
    Tremia como bambu que o vento assola
    E o meu suar contínuo já tudo denunciava

    Mas não podia recuar - Quem ama ousa,
    Ainda que insana seja a sua atitude

    Há muito já não pensava em outra coisa
    Senão o declarar de meu amor solicitude

    Mas quem seria assim a venerada donzela,
    Que desmoronava assim o meu juízo?
    Digo-vos: deste mundo a mulher mais bela

    Que fazia de qualquer lugar o paraíso

    Encanto assim, eu não ousaria descrevê-lo
    Nenhuma beleza à dela já passou perto
    Mas na luz do arco-íris, ainda a percebo
    Pois o Sol sempre sorri ao vê-la, é certo

    Cheguei cedo, bem antes da hora que o sino soa
    Deixei a encomenda à mesa, e me sentei calado
    Mas na chamada, quando me chamou a professora
    Já não pude responder, estava embasbacado!
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CASAMENTO EM DUBAI



Alguns casamentos são como Dubai, a mulher vive de arquitetar estruturas mirabolantes e o marido a se matar em cálculos de engenharia para equilibrar os recursos.
As loucuras se repetem e aumentam até o dia em um prédio desaba.

374

MARGARIDA



Ah! Margarida......
Que me realça as cores
Que me tinge de amores
E que me faz sonhar

Ah! Margarida....
Que enfeita os meus campos
Que me enxuga o pranto
E faz-me delirar

Ah! Margarida.....
Que dá vida aos meus sonhos
E ao meu viver tristonho
Consegue alegrar

Ah! Margarida .....
Mais bela flor nascida
Contigo doce é a vida
Apraz-me nela estar
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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.