Lista de Poemas

NÃO QUERO AMAR-TE

Não quero amar-te, tu já bem percebes
O quanto eu blindo e guardo a meu peito
Fortaleza de assombros a dor entregue
Ruínas e vis restos de amores desfeitos

Não quero amar-te, mas não é por covardia
Sou volúvel como a brisa aos teus encantos
Mas é que o amar que me seduz, por ironia
Foge de mim e faz-me réu dos desencantos

Melhor vazio de ilusão estar ao teu lado
De seu carinho a cada dia, ser mendigo
Do que eu ver meu coração apaixonado
Cair no hades ao teu fugir do paraíso

Não quero eu te amar, pra quando fores
E ignorares tudo o que eu sinto por você
E não ver se transformar todas as flores
Somente em ódio e ignomínia do viver
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ESPELHO MEU

Quanto mais me observo mais me acho mais feio
Não é que eu piore, mas é que melhoro a visão
Quanto mais me observo, mas conheço meus erros
E muito mais descubro quão parte de mim eles são

Meus erros crescem como crescem minhas rugas
Toda pequenina mancha vira uma erupção
É que um mau sentimento por si mesmo não muda
É preciso de Cristo, sempre uma intervenção

Se há virtude do homem esta não o justifica
Nem há maldade pequena que se possa esquecer
Remissão só em Cristo, tudo o mais nada é

Na verdade o espelho é a palavra que explica
Mostra ao que se retoca a maquiagem a perder
Pois nenhum erro se extingue a não ser pela fé
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O DIA DO DESDÉM

Teu filho querido já vira-lhe as costas
Tua amada abana asas de desdém
Tua voz ecoa mas ninguém se importa
Da solidão tua alma se tornou refém

Adianta velar a quem te menospreza?
E gorjear soturno lamentando a dor?
Quanto mais insistes mais ela se enfeza
E transforma em nojo tua canção de amor

O galanteio é surdo ao coração fechado
E a cortesia soa como uma provocação
Nada mais te resta, oh ser desdenhado
Vá entoar teu canto em outra estação
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SAUDADE EM GOTAS

De repente, as flores se curvam ao tempo
Some o perfume de calorosos sentimentos
E a negra sombra da noite ao ninho invade
Regam agora os olhos, lágrimas de saudade

Não há mais festas de faceiras borboletas
Nem querem as vespas o sabor do seu mel
Tua alegria de primavera se tornou em seca
Nem os teus olhos ousam contemplar o céu

Adorna a tua face o teu choro cristalino
Num pranto de saudade do teu viver ladino
Onde o amor, tu sabes, por certo floresceu

Botões de esperança brotam dentre os ramos
Quem sabe o amanhã afugente os desenganos
E ainda volte o amor a morar nos braços teus

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ME DÓI

Me dói o eu não ver mais a poesia na tua imagem
Não perceber o amor que flui sobre a mensagem
Não ser capaz de remover a dor que a ti cinge
Nem crer que o desencanto com amor se extingue

Me dói ver-te passar as margens do caminho
Ver-te trocar meu doce amor por vis espinhos
E ver assim desfigurar-se o teu lindo rosto
Por desencanto e muitas máculas de desgosto

Me dói ver-te tomar por ignóbeis os meus afetos
Desprezar os que te amam e mendigar restos
De quem a muito já demonstrou não merecer-te

Me dói eu ver esvair-se de mim o venerar-te
Já não sentir mais solidão quando tu partes
Mas um alívio em meu coração por esquecer-te

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NOME DE LUGAR

Você já deu nome a uma rua ou praça? È quase certo que não, mas eu, acidentalmente, batizei uma. Há cerca de quinze anos, a prefeitura de Sobradinho-DF criou o Conselho Participativo, que se reunia uma quinta feira por mês, para definir o que devia ser feito com o orçamento da cidade.
Eu tinha uma casa no conjunto G da quadra 13, em uma das ruas mais baixas da minha quadra. Infelizmente, quando ocorre qualquer entupimento na rede de esgoto, é por lá que transbordam os dejetos humanos.Tal fato aconteceu no ano de 1992, o esgoto vazava na esquina do conjunto H, uma rua abaixo da minha, e corria caudalosamente para o riacho, mas o mau cheiro não conhece fronteiras e invadia a minha privacidade. Procurei o a prefeitura, que ao invés de cuidar de resolver o problema, me mandou ir na quinta feira para registrar o fato junto ao Conselho Participativo.
Na quinta-feira, sai do meu trabalho e fui ao dito Conselho. Após duas horas de espera pude finalmente registrar a tragédia a que eu estava submetido. Aguardei mais de uma hora para ouvir o veredicto: eu deveria re-encaminhar minha demanda no próximo ano porque as obras prioritárias daquele ano já estavam definidas.
Deixei passar mais uma semana, foi então que, nas altas horas da madrugada, fui até ao local do transbordamento do esgoto com uma grande escada e fixei com arame uma enorme faixa em letras garrafais: ' NÃO ESTRANHEM O CHEIRO, AQUI ESTÁ O CU DO PT'. Menos de doze horas depois havia um alvoroço de máquinas trabalhando para resolverem definitivamente a questão. Todavia, aquela esquina é conhecida até hoje pelo incólume nome de 'CU do PT
'.
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CORAÇÃO ABDUZIDO

De súbito, meu coraçãose descompassa, perde a contagem
O olhar embaça e não sabe mais o que é real ou miragem
Minha auto-estima, como um fugaz raio de sol, desaparece
Minha lucidez desaba como se agora pernas já não tivesse

Joelhos em terremoto, rosto em labareda, boca em cachoeira
Orvalha o corpo, some o discurso e nasce uma gagueira
Já nada mais me importa, senão o eu navegar contigo
Pra onde não interessa, na certa alcançarei o paraíso

A luz dos teus olhos me encandeia, perco os sentidos
Meu coração se vai, rendido ao teu olhar, abduzido
Quem eu sou, quem eu fui e o que eu quis ser, esquece
Vou para outra dimensão, que só quem já amou conhece
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CASAMENTOS E SONHOS

O casamento dos vinte é apenas uma planta baixa, lá se enveredam os sonhos de jardins suspensos, vista para o mar, suítes aromatizadas e tudo mais que a imaginação juvenil comporta. Lá não faltam os recursos nem a flexibilidade para se adaptar aos diferentes gostos. Só quando se assina o contrato é que se percebe que o projeto é falho. O solo não é suficientemente estável, falta coragem para encarar o duro desafio de estudar, levantar cedo, fazer concursos, etc. Também é a hora que se passa a perceber os materiais desejados têm que vir de longe, que custam caro e que muitos deles são inacessíveis. Aí é que o bicho pega, reduzir sonhos não é coisa fácil. A flexibilidade é boa para a ampliação, mas para contrair expectativas costuma ser indomável como uma mula. A incapacidade ou a falta real de desejo de cada um começa cobrar o preço e o projeto dos sonhos fica no alicerce com os protagonistas acusando um ao ouro pelo insucesso. Mas há também os casos em que um é o constritor e o outro apenas o projetista compulsivo, amplia o projeto a cada dia enquanto o outro se sufoca nas readaptações intermináveis e inconseqüentes. Um dia, a paciência se esgota e a obra para de uma vez por todas.

O casamento dos quarenta é algo mais prático, a casa já está com a laje feita e basta algum esforço para que a mesma seja concluída. O problema está na reforma, cada um dos protagonistas espera mudar o gosto alheio para que a casa venha ser aquela que sonhou na juventude. Um espera que o outro mude suas atitudes, que faça regime, que aprenda a cozinhar, que volte a estudar, que pare de beber, etc. É uma espécie de engodo consentido em que cada m acredita que o seu charme mudará as coisas. Quando a obra recomeça é que se percebe que ninguém muda ninguém, a parestesia da preguiça juvenil continua operante e agora amparada por muito mais desculpas, como cansaço, simplicidade, etc. Mais uma casa condenada ao monturo ou a ser eternamente inacabada pela falta de coragem de se derribá-la para começar uma outra. Assim jazem muitas edificações nas nossas cidades.

O casamento dos cinqüenta costuma ser uma edificação mais modesta. Não há grandes reformas a serem executadas. Já não há torres, adegas, mirantes e aquelas loucuras da inconseqüência juvenil. A reforma só é planejada com os materiais que se tem ao bojo, restos das construções que cada um já tentou edificar. As exigências de acabamento agora são bem modestas e o que importa é que no aconchego da tranqüilidade se possa viver em paz. Os protagonistas agora querem apenas uma janela com blindex de onde possam ver as construções alheias e refletirem como a vida poderia ter sido bem mais simples e a felicidade alcançada nas pequenas coisas.
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MELODIA DAS PEDRAS

Eu sei quão puro e belo é o sorriso de uma criança
De quem ama em inocência sob a fé e a esperança
Que crê que muda o outro em função da companhia
E que não vê a realidade sob o véu da fantasia

Eu sei o quanto é belo descrever a primavera
Desprezar o verão que chega queimando a terra
E só sonhar com os frutos saborosos do outono
Dos quais a dispensa vazia não lhes rouba o sono

Não sou assim, enxergo sempre a dor além das flores
Vejo sempre a tela cinza na qual se assenta as cores
E quão efêmeros são os sonhos construídos em quimeras

Embora sempre eu me derreta em lágrimas
E me comova em dor ao descrever as chagas
Sou duro ao açoitar dos ventos como as pedras
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POR DO SOL

A ti eu quero contar os meus segredos
Os meus remorsos, tristezas e medos
Todos meus sonhos pueris inacabados
E as razões de meu viver assim calado

Quero colher pra ti as flores da primavera
Chorar contigo todas as dores e quimeras
E contigo me encharcar na brisa das cascatas
E do soar de teus suspiros ouvir as serenatas

Ter todas as noites os teus olhos por estrelas
Carícias de tuas mãos e delírios ao recebê-las
E assim eu ser feliz como nunca fora dantes

E ver no por do sol as cores lindas do firmamento
Teu braço ainda junto ao meu, consolo e unguento
Ternura de quem ama mais que paixão de amante
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Comentários (2)

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Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço

            Nasci e cresci pobre, mas não tenho vergonha disso. Sofri na pele as injustiças da pobreza, mas mesmo assim vivi feliz pois não conhecia a sua verdadeira fonte. Saudei heróis forjados na podridão, mas vestidos no linho fino do engodo e da publicidade paga. Sobrevivi milagrosamente à miséria por puro lampejo da graça divina.
            Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
            Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
            Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha.  Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
            Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.