PENDÃO DA PÁTRIA
Ah meu pendão da pátria mutilado
Arvora ao céu, procura ar, asfixiado
Maldita podridão, em frente e aos lados
Abutres infestam o céu do meu cerrado
Atraídos pelo mau cheiro putrefato
Que exala entre a câmara e o senado
Pudesse eu arrancar tua bandeira
Arvorá-la bem longe da bandalheira
Desta praça da infâmia brasileira
LEMBRO-ME DE TI
Não nos presentes que recebi, sem regar datas ou horas
Nem no atrelar de mãos em jornadas fúteis mundo afora
Nem nos cabelos sedosos que acariciavam meu corpo
Nem na beleza daquele olhar, que jamais vi num outro
Nem na sonora voz do teu clarim a acordar-me a alma
Nem na serenidade tua, que a toda a angústia acalma
Nem as faceiras noites de amor a dar inveja à lua
Nem nos delírios néscios ao ver-te linda e nua
Nem nos abraços ternos quando a esperança era vazia
Nem no silêncio seco e austero de quem a dor partilha
Nem nos olhos cansados e tristes em vigília de mágoas
Nem no secar do pranto que em lágrimas desagua
Nem no sorriso desvairado que me tirava do sério
Nem no adornar do quarto em doces ritos de mistério
Nem nos sonhos construídos em dunas de cumplicidade
Mas no abismo deixado por um triste vazio de saudades
OBRAS DO ACASO
Por uma questão de habito, o Sr Wiliian Rosh guardava sempre m sua casa pequeninas peças de toda a natureza, sob a argumentação de um dia elas lhe seriam úteis em algum serviço. Habilidoso como ele era, não raras vezes recorria à sua caixa de bugigangas na busca de alguma determinada peça que lhe prestasse a um reparo específico, ou mesmo para reabastecê-la com os destroços de algum eletrodoméstico desmanchado. Com o passar dos anos, a caixa do Sr. Rosh tornou-se um verdadeiro arsenal de bagulhos tais como: porcas, parafusos, filamentos, molas, resistências e tantas outras, das quais ele nunca sobe quais eram as suas funções específicas.
Após a sua ultima mudança, O Dr. Wiliian Rosh Univac, como mais tarde ficou conhecido internacionalmente, recorreu a sua velha caixa em busca de um treco que substituísse um pino que desaparecera de seu guarda-roupa. Que surpresa! Com o movimento da caixa, as pequeninas peças haviam se rearranjado de tal forma que constituíram um aparelho que passou a ser chamado de calculadora de bolso, capaz de efetuar as quatro operações aritméticas, as funções trigonométricas, além da radiciação e a exponenciação. Tal fato revolucionou o mundo científico da época, iniciando a ciência da cibernética e dando origem aos primeiros computadores que foram lançados no mercado com o nome de UNIVAC.
Por mais ignorantes que fôssemos, em termos dos princípios científicos que regem o funcionamento de uma calculadora, não hesitaríamos em afirmar, categoricamente, que não é verdade o fato acima descrito. É simples, não cabe na nossa mente que um visor luminoso, um teclado codificado e conciso, um mecanismo de alimentação energética e um conjunto de circuitos microscópicos de magnetização lógica, dentre outras coisas, possam ter sido formados e se organizados logicamente ao acaso. Antes sim, deduzimos que ele é fruto de um projeto cuidadoso, construído e analisado por uma equipe técnica altamente qualificada, a qual previu e ponderou todas as interações dos componentes eletrônicos ali encontrados.
A calculadora, embora deslumbrante à nossa vista, não passa de um caco velho quando comparada com a obra que coroou a criação divina, quando no sexto dia, disse Deus: Façamos o homem a nossa imagem e semelhança. As funções realizadas pelo corpo humano, como a capacidade de questionar e decidir, de amar e odiar, o senso de lealdade e de direito, de reprodução e criação de utensílios, como a própria calculadora, são provas de que o ser humano e a vida não são frutos de uma junção aleatória de aminoácidos, que sob a tensão elétrica de descargas de relâmpagos, constituíram, há milhões de anos, a primeira célula viva e dela os demais seres vivos e suas espécies, como afirmam os evolucionistas. Não há dúvidas, a vida não é obra do acaso, mas sim o fruto da mente gloriosa de Deus, que na sua imensa grandeza fez, não só o homem, mas todo o universo.
VELHO CHICO
Meu rio São Francisco, de longa história
Das antigas dores, das velhas memórias
Do serpentear tristonho entre a caatinga
E do morrer cansado em meio a restingas
Como o velho Chico, assim são minhas dores
O morrer de sonhos e o sofrer de amores
Cesta de amarguras a se arrastar no tempo
Desaguar de lágrimas a rolar sentimentos
Seus sonhos infantes de mil corredeiras
Morrem em Três Marias, amante faceira
Lá começa a sina de sua bancarrota
Amor de menino, paixões por canastras
Vai se ressentindo, vai perdendo a graça
Colhe águas de mágoas para lavar outras
FINAL DO DIA
A dor sempre foi mal educada, não pede licença, invade a casa. Mas, quem abriria a ela as portas? A dor e vento sempre entram pelas frestas. Assim é a vida, os ventos que trazem os netos são os que levam os avôs. Poeira nós somos, como a poeira voamos e aos poucos ao pó nos integramos. Dói em nós saber quão curta é a vida, mas, por mais a espichássemos talvez ainda não desse em nada, pois não é o tempo que é pouco, talvez sejamos nós que nos apequenamos demais e não conseguimos desfrutar toda beleza da jornada. A gente pode em pouco viver muito ou em muito viver nada. Confiemos em Deus, não abramos espaço ao lamento, pois muitos dos que veem a tarde preferiam ter partido cedo. Meus sentimentos aos entes e lágrimas de solidariedade.
FLORES AO VENTO
Tudo são flores no coração da menina
Tão linda, tão meiga, nada de mal imagina
Enlouquece a família, incendeia a campina
Já seus rastros farejam, lobos em cada esquina
Quem consegue livrá-la, da tragédia eminente?
Como enfim desviá-la desta água corrente?
É fogo de capoeira em um relevo ascendente
Só no fim da queimada é que escuta a gente
Quantos sonhos perdidos em ações levianas
Quantas belezas mortas, sem sair do pijama
É tão triste ver ninas, sem sorrir virar madres
Pois legislam iníquos que decência não sabem
SAUDADE EM GOTAS
De repente, as flores se curvam ao tempo
Some o perfume de calorosos sentimentos
E a negra sombra da noite ao ninho invade
Regam agora os olhos, lágrimas de saudade
Não há mais festas de faceiras borboletas
Nem querem as vespas o sabor do seu mel
Tua alegria de primavera se tornou em seca
Nem os teus olhos ousam contemplar o céu
Adorna a tua face o teu choro cristalino
Num pranto de saudade do teu viver ladino
Onde o amor, tu sabes, por certo floresceu
Botões de esperança brotam dentre os ramos
Quem sabe o amanhã afugente os desenganos
E ainda volte o amor a morar nos braços teus
AMOR A LOUCURA
Amo-te loucura minha,
Que a mim liberta, que rompe as correntes.
Que me alucina, mas me faz ser gente
Que não aceita regras, nem se adéqua aos mandos
Que a dor não se entrega, nem aceita os danos
Que não venera o medo, nem os preconceitos
Que só obedece a alma no que lhe é direito
Que não se incomoda se é errada ou certa
Mas nada vê de longe, tudo apalpa e aperta
Que não vê o dolo em conhecer a vida
Nem aos desaforos, ampara ou abriga
Que não conhece cercas para a liberdade
Mas vive livre e plena em sua insanidade
Se alguém a condena, critica e apedreja
Não passa de escravo, a morrer de inveja
AMIZADE
Eu queria fazer como faz o passarinho
Saber de cada flor colher o carinho
Pra dizer ao amigo: não estás sozinho
Conte comigo nas agruras do caminho
Queria eu ter as palavras de conforto
O peito aberto pra amparar o sofrimento
Ter a esponja que apagasse o teu desgosto
Pra vê-lo sorrir em infantil desprendimento
Não desejo ser o teu amigo mais viçoso
Nem um molde para servir-te de exemplo
Nem uma foto em teu arquivo de saudades
Mas ser do teu sorrir o encher de gozo
Nos encontros do viver a qualquer tempo
E abraçar-te como a um amigo de verdade
UMA AULA INESQUECÍVEL
Eu estava dando aula de física para uma turma de terceiro ano do segundo grau da rede pública a noite, no ano de 1980. Mal acabara de fazer a chamada, uma dúzia de marmanjos já se dirigia a porta de saída quando eu disse:
- Alto lá, hoje ninguém vai sair da sala, não!
- Que é isso professor! O senhor não sabe que a lei nos garante o direito de sair da sala para fumar a hora que bem desejarmos?
- Claro que sei, mas hoje ninguém vai sair, eu trouxe cigarros para quem quiser e podem fumar na sala à vontade. Alias, a nossa aula hoje será apenas um gostoso bate-papo. Trouxe cigarros, chicletes, revistas da Playboy e da Contigo, podem se servirem a vontade.
A aula virou um alvoroço. Logo todos estavam na maior folia, quando eu interrompi:
- Quem torce pro Flamengo? E pro Bota-fogo? Quem gosta de novelas? Que gosta de jogar uma peladinha? Quem gosta de forró? Quem gosta da feira do priquito? E assim por diante. Cada pergunta era seguida de um coral de adeptos num barulho ensurdecedor. Por fim, já depois de uma meia hora de farra, eu mudei de assunto:
- Quantos aqui têm menos de dezoito anos? Ninguém se manifestou.
- Quantos aqui tem menos de 21 anos?
Apenas duas meninas levantaram a mão. Então, um dos mais afoitos disse:
- Vamos lá professor, desembucha, aqui não tem crianças, podemos conversar sobre qualquer sacanagem.
Então eu prossegui:
- Quantos aqui o papai ou a mamãe veio trazer-los à escola hoje?
_ Qualé professor, tá zoando com a gente?
- Engraçado. Ninguém aqui é criança; todos gostam de mil e uma coisas legais para fazer a noite e, no entanto, vem para a escola para ficar do lado de fora da aula sem aprender coisa alguma. Eu, particularmente, só faço aquilo que gosto, mas não perco meu tempo simulando que quero aquilo que de fato não estou disposto a fazer. Se vocês fossem crianças, eu entenderia, mas como adultos, o que vieram fazer aqui? Estudar com certeza não foi, então não entendo a vossa inconsistência de propósitos.
- Ah professor, nós estamos cansados, Demos um duro o dia todo hoje. Ninguém aqui é filhinho de papai.
- Entendo bem o que vocês dizem, porque também não sou filho de papai. Aliás, eu moro daqui a 50 km, vou sair daqui as 23 horas, vou voltar para casa de ônibus, já trabalhei hoje de tarde outro emprego, faço 24 créditos na Universidade pela manhã onde lá estarei as 7 horas e sou casado, pai de dois filhos. No entanto, toda quinzena eu faço prova sobre algum livro que é muito maior do que este que eu passo um ano aplicando o conteúdo a vocês. O problema não é o berço, meu pai é operário e tenho oito irmãos, minha situação não é diferente da de vocês. A questão é outra, ninguém é culpado de nascer na merda, afinal ninguém escolhe onde nascer. O problema é que vocês gostaram de viver na merda e se deliciam com ela, porque na verdade já são todos uns merdas mesmo. Arranjam mil desculpas para justificarem o porque estão na merda, mas não fazem o mínimo esforço para sair dela. Estão aqui reprovados pela segunda ou terceira vez e, certamente ficarão mais uma porque estar na merda é de fato o desejo de vocês. A aula está encerrada!
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza