MELODIA DAS PEDRAS
Eu sei quão puro e belo é o sorriso de uma criança
De quem ama em inocência sob a fé e a esperança
Que crê que muda o outro em função da companhia
E que não vê a realidade sob o véu da fantasia
Eu sei o quanto é belo descrever a primavera
Desprezar o verão que chega queimando a terra
E só sonhar com os frutos saborosos do outono
Dos quais a dispensa vazia não lhes rouba o sono
Não sou assim, enxergo sempre a dor além das flores
Vejo sempre a tela cinza na qual se assenta as cores
E quão efêmeros são os sonhos construídos em quimeras
Embora sempre eu me derreta em lágrimas
E me comova em dor ao descrever as chagas
Sou duro ao açoitar dos ventos como as pedras
POR DO SOL
A ti eu quero contar os meus segredos
Os meus remorsos, tristezas e medos
Todos meus sonhos pueris inacabados
E as razões de meu viver assim calado
Quero colher pra ti as flores da primavera
Chorar contigo todas as dores e quimeras
E contigo me encharcar na brisa das cascatas
E do soar de teus suspiros ouvir as serenatas
Ter todas as noites os teus olhos por estrelas
Carícias de tuas mãos e delírios ao recebê-las
E assim eu ser feliz como nunca fora dantes
E ver no por do sol as cores lindas do firmamento
Teu braço ainda junto ao meu, consolo e unguento
Ternura de quem ama mais que paixão de amante
UMA AULA INESQUECÍVEL
Eu estava dando aula de física para uma turma de terceiro ano do segundo grau da rede pública a noite, no ano de 1980. Mal acabara de fazer a chamada, uma dúzia de marmanjos já se dirigia a porta de saída quando eu disse:
- Alto lá, hoje ninguém vai sair da sala, não!
- Que é isso professor! O senhor não sabe que a lei nos garante o direito de sair da sala para fumar a hora que bem desejarmos?
- Claro que sei, mas hoje ninguém vai sair, eu trouxe cigarros para quem quiser e podem fumar na sala à vontade. Alias, a nossa aula hoje será apenas um gostoso bate-papo. Trouxe cigarros, chicletes, revistas da Playboy e da Contigo, podem se servirem a vontade.
A aula virou um alvoroço. Logo todos estavam na maior folia, quando eu interrompi:
- Quem torce pro Flamengo? E pro Bota-fogo? Quem gosta de novelas? Que gosta de jogar uma peladinha? Quem gosta de forró? Quem gosta da feira do priquito? E assim por diante. Cada pergunta era seguida de um coral de adeptos num barulho ensurdecedor. Por fim, já depois de uma meia hora de farra, eu mudei de assunto:
- Quantos aqui têm menos de dezoito anos? Ninguém se manifestou.
- Quantos aqui tem menos de 21 anos?
Apenas duas meninas levantaram a mão. Então, um dos mais afoitos disse:
- Vamos lá professor, desembucha, aqui não tem crianças, podemos conversar sobre qualquer sacanagem.
Então eu prossegui:
- Quantos aqui o papai ou a mamãe veio trazer-los à escola hoje?
_ Qualé professor, tá zoando com a gente?
- Engraçado. Ninguém aqui é criança; todos gostam de mil e uma coisas legais para fazer a noite e, no entanto, vem para a escola para ficar do lado de fora da aula sem aprender coisa alguma. Eu, particularmente, só faço aquilo que gosto, mas não perco meu tempo simulando que quero aquilo que de fato não estou disposto a fazer. Se vocês fossem crianças, eu entenderia, mas como adultos, o que vieram fazer aqui? Estudar com certeza não foi, então não entendo a vossa inconsistência de propósitos.
- Ah professor, nós estamos cansados, Demos um duro o dia todo hoje. Ninguém aqui é filhinho de papai.
- Entendo bem o que vocês dizem, porque também não sou filho de papai. Aliás, eu moro daqui a 50 km, vou sair daqui as 23 horas, vou voltar para casa de ônibus, já trabalhei hoje de tarde outro emprego, faço 24 créditos na Universidade pela manhã onde lá estarei as 7 horas e sou casado, pai de dois filhos. No entanto, toda quinzena eu faço prova sobre algum livro que é muito maior do que este que eu passo um ano aplicando o conteúdo a vocês. O problema não é o berço, meu pai é operário e tenho oito irmãos, minha situação não é diferente da de vocês. A questão é outra, ninguém é culpado de nascer na merda, afinal ninguém escolhe onde nascer. O problema é que vocês gostaram de viver na merda e se deliciam com ela, porque na verdade já são todos uns merdas mesmo. Arranjam mil desculpas para justificarem o porque estão na merda, mas não fazem o mínimo esforço para sair dela. Estão aqui reprovados pela segunda ou terceira vez e, certamente ficarão mais uma porque estar na merda é de fato o desejo de vocês. A aula está encerrada!
CORAÇÃO ABDUZIDO
De súbito, meu coraçãose descompassa, perde a contagem
O olhar embaça e não sabe mais o que é real ou miragem
Minha auto-estima, como um fugaz raio de sol, desaparece
Minha lucidez desaba como se agora pernas já não tivesse
Joelhos em terremoto, rosto em labareda, boca em cachoeira
Orvalha o corpo, some o discurso e nasce uma gagueira
Já nada mais me importa, senão o eu navegar contigo
Pra onde não interessa, na certa alcançarei o paraíso
A luz dos teus olhos me encandeia, perco os sentidos
Meu coração se vai, rendido ao teu olhar, abduzido
Quem eu sou, quem eu fui e o que eu quis ser, esquece
Vou para outra dimensão, que só quem já amou conhece
SAPATINHOS
Tantos sapatinhos vazios
Flores de amor a murchar
Humanos que em desatino
Celebram o poder de matar
Perdem seu verde-esperança
Milhões de sapatinhos de amor
Nas leis que condenam crianças
Em funestos laços de horror
Usam com cinismo e escárnio
Da reprodução o bem-fazer
Tal qual quem joga baralho
Descartam a vida de um ser
Clama e chora a natureza
Sapatos vazios a postar
Denunciando esta torpeza
Orquídeas contra o abortar
SAUDADE EM GOTAS
De repente, as flores se curvam ao tempo
Some o perfume de calorosos sentimentos
E a negra sombra da noite ao ninho invade
Regam agora os olhos, lágrimas de saudade
Não há mais festas de faceiras borboletas
Nem querem as vespas o sabor do seu mel
Tua alegria de primavera se tornou em seca
Nem os teus olhos ousam contemplar o céu
Adorna a tua face o teu choro cristalino
Num pranto de saudade do teu viver ladino
Onde o amor, tu sabes, por certo floresceu
Botões de esperança brotam dentre os ramos
Quem sabe o amanhã afugente os desenganos
E ainda volte o amor a morar nos braços teus
NÃO QUERO AMAR-TE
Não quero amar-te, tu já bem percebes
O quanto eu blindo e guardo a meu peito
Fortaleza de assombros a dor entregue
Ruínas e vis restos de amores desfeitos
Não quero amar-te, mas não é por covardia
Sou volúvel como a brisa aos teus encantos
Mas é que o amar que me seduz, por ironia
Foge de mim e faz-me réu dos desencantos
Melhor vazio de ilusão estar ao teu lado
De seu carinho a cada dia, ser mendigo
Do que eu ver meu coração apaixonado
Cair no hades ao teu fugir do paraíso
Não quero eu te amar, pra quando fores
E ignorares tudo o que eu sinto por você
E não ver se transformar todas as flores
Somente em ódio e ignomínia do viver
O DIA DO DESDÉM
Teu filho querido já vira-lhe as costas
Tua amada abana asas de desdém
Tua voz ecoa mas ninguém se importa
Da solidão tua alma se tornou refém
Adianta velar a quem te menospreza?
E gorjear soturno lamentando a dor?
Quanto mais insistes mais ela se enfeza
E transforma em nojo tua canção de amor
O galanteio é surdo ao coração fechado
E a cortesia soa como uma provocação
Nada mais te resta, oh ser desdenhado
Vá entoar teu canto em outra estação
PENDÃO DA PÁTRIA
Ah meu pendão da pátria mutilado
Arvora ao céu, procura ar, asfixiado
Maldita podridão, em frente e aos lados
Abutres infestam o céu do meu cerrado
Atraídos pelo mau cheiro putrefato
Que exala entre a câmara e o senado
Pudesse eu arrancar tua bandeira
Arvorá-la bem longe da bandalheira
Desta praça da infâmia brasileira
NOME DE LUGAR
Você já deu nome a uma rua ou praça? È quase certo que não, mas eu, acidentalmente, batizei uma. Há cerca de quinze anos, a prefeitura de Sobradinho-DF criou o Conselho Participativo, que se reunia uma quinta feira por mês, para definir o que devia ser feito com o orçamento da cidade.
Eu tinha uma casa no conjunto G da quadra 13, em uma das ruas mais baixas da minha quadra. Infelizmente, quando ocorre qualquer entupimento na rede de esgoto, é por lá que transbordam os dejetos humanos.Tal fato aconteceu no ano de 1992, o esgoto vazava na esquina do conjunto H, uma rua abaixo da minha, e corria caudalosamente para o riacho, mas o mau cheiro não conhece fronteiras e invadia a minha privacidade. Procurei o a prefeitura, que ao invés de cuidar de resolver o problema, me mandou ir na quinta feira para registrar o fato junto ao Conselho Participativo.
Na quinta-feira, sai do meu trabalho e fui ao dito Conselho. Após duas horas de espera pude finalmente registrar a tragédia a que eu estava submetido. Aguardei mais de uma hora para ouvir o veredicto: eu deveria re-encaminhar minha demanda no próximo ano porque as obras prioritárias daquele ano já estavam definidas.
Deixei passar mais uma semana, foi então que, nas altas horas da madrugada, fui até ao local do transbordamento do esgoto com uma grande escada e fixei com arame uma enorme faixa em letras garrafais: ' NÃO ESTRANHEM O CHEIRO, AQUI ESTÁ O CU DO PT'. Menos de doze horas depois havia um alvoroço de máquinas trabalhando para resolverem definitivamente a questão. Todavia, aquela esquina é conhecida até hoje pelo incólume nome de 'CU do PT'.
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza