MELODIA DAS PEDRAS
Eu sei quão puro e belo é o sorriso de uma criança
De quem ama em inocência sob a fé e a esperança
Que crê que muda o outro em função da companhia
E que não vê a realidade sob o véu da fantasia
Eu sei o quanto é belo descrever a primavera
Desprezar o verão que chega queimando a terra
E só sonhar com os frutos saborosos do outono
Dos quais a dispensa vazia não lhes rouba o sono
Não sou assim, enxergo sempre a dor além das flores
Vejo sempre a tela cinza na qual se assenta as cores
E quão efêmeros são os sonhos construídos em quimeras
Embora sempre eu me derreta em lágrimas
E me comova em dor ao descrever as chagas
Sou duro ao açoitar dos ventos como as pedras
CHAMADA DA TURMA A
Abria-se formalmente a chamada
Como o galo acordando a alvorada
Quando a voz altiva do mestre entoava
O intrépido nome: Adélia Maria Soto
Seguia-se o ritual em meio ao silêncio
Imposto pelo rito cívico do momento
Josés, Marias, Santos e Nascimentos
Holembergues, Cunhas e tantos outros
Entre sorrisos adolescentes disfarçados
Olhares discretos e os flertes delicados
Nasciam ali, sonhos pueris apaixonados
Até findar a chamada: Walter Gaia Soto
Como esquecer a doçura daqueles dias?
Entre as incertezas, sonhos e fantasias
Fazíamos da nossa esperança a alegria
Ignorando o muro social a ser transposto
Entre os nomes destes irmãos há muitas vidas
Muitos amores, realizações, paixões perdidas
Sonhos desfeitos e amizades hoje esquecidas
Refeitas foram, após a chuva, em novos rotos
O DIA DO DESDÉM
Teu filho querido já vira-lhe as costas
Tua amada abana asas de desdém
Tua voz ecoa mas ninguém se importa
Da solidão tua alma se tornou refém
Adianta velar a quem te menospreza?
E gorjear soturno lamentando a dor?
Quanto mais insistes mais ela se enfeza
E transforma em nojo tua canção de amor
O galanteio é surdo ao coração fechado
E a cortesia soa como uma provocação
Nada mais te resta, oh ser desdenhado
Vá entoar teu canto em outra estação
CATARATA
Onde quer que fores, leva a alma tua
Para que lá frente, não queiras voltar
A razão é afoita, mas muito insegura
E sozinha algures, se põe a chorar
A razão e a alma rusgam às escondidas
Passam a noite toda em ponderação
Mas ao clarim do dia, estão decididas
Marcham atreladas num só coração
Mata em tédio a alma, quem não se assume
Quem não se decide entre viver ou sofrer
Em remorsos e dores o seu viver resume
Pois de seus rancores não pode esquecer
Lágrimas são feitas pra lavar os olhos
Pra tirar a trava que nos impede ver
Muda teu caminho, fuja dos abrolhos
Põe um sorriso novo neste teu viver
MULHER PORCELANA
Mulher de face mui linda e tão fina tez
Que fascina e adoça este meu contemplar
Teu olhar quase oculto, não é timidez
É magia e mistério, a me fazer delirar
Os lindos traços que adornam teu rosto
São uma linda miragem sob o meu olhar
Para outras mulheres, inveja e desgosto
E de homens discretos, o embasbacar
Tua face tão linda é tal qual porcelana
No seu brilho, pureza e tão suave cor
Até das mentes mais puras o afago reclama
Provoca os tropeços, a gagueira e o rubor
Quando doce é mirar-te em tanta beleza
Neste doce sorriso e em teu jeito de ser
Apagas amarguras, amenizas as tristezas
Trazes aos moribundos, uma razão pra viver
A FUGA
Fugirei para longe dos teus olhos onde o teu desprezo não mais me alcance. Entrarei no vagão do desdém rumo à terra do esquecimento, onde por certo a saudade não habita. Levo pouca coisa, apenas uma mala de rancores que por certo se desfará pelo caminho. Espero que o trem não demore, não quero que me vejas partir, pois por certo mais uma vez eu não resistirei o teu sorriso e todos os meus propósitos se desfarão na ventura avassaladora do teu beijo.
PARAÍSO FERIDO
De carrmesim, você tingiu o meu paraíso
Manchou de dor o que era belo ao meu olhar
Daltônico de amor, a ver um mundo impreciso
Tateio as cegas, sem o amor mais contemplar
Quando a dor nos cobre os olhos, tudo é mágoa
Só de tristeza são todas as nuvens no arrebol
O sangue mancha o lindo azul das puras águas
E até as plantas sangram em flor na luz do sol
SEU AMOR NU
- Já viu o seu amor despido?
Nu de orgulho, chorando contigo?
- Já viu o seu amor sonhando?
Ele se projeta sozinho ou está te levando?
- Já viu o seu amor intercedendo por alguém?
Se ele só lembra de si, lembrará de você também?
- Já viu o seu amor na oração?
Vê fé em suas palavras ou pura simulação?
- Já viu o seu amor falando da carreira?
Ele faz o que fala, ou só conversa asneiras?
- Já viu o seu amor malhando?
Trabalhando sol a sol e de noite estudando?
- Já viu o quanto seu amor é paciente?
Cuidando dos avós ou dos pais doentes?
- Ou seu amor só se despe das roupas?
Um confete de enganos a seduzir uma louca?
MUSA DO SOL
Vejo a ti como flor, como luz e como sol
Doce magia a encantar o entardecer
Pétalas de sonho adornando o girassol
E a razão maior de atrasar o anoitecer
Por ti o sol retarda sua descida no horizonte
E a noite enciumada o empurra abaixo em vão
Seus raios descarados fitam-na atrás do monte
Buscam de ti, musa linda, mais uma última visão
Assim a noite passa acelerada
O sol em desvairo contorna a terra a correr
Quer logo fazer chegar a alvorada
Para de novo te encontrar no amanhecer
MEU FALAR
Se eu falei só aos teus ouvidos
Logo mais tudo será esquecido
Se eu falei o que querias ouvir
Nada eu fiz para a ti servir
Se meu falar não te incomodou
Meu discurso foi vão, não te ajudou
Se meu falar te ensoberbeceu
Fiz muito mal, foi um erro meu
Se no meu falar eu mexi contigo
Fiz meu o papel de irmão e amigo
E se o meu falar melhorou sua rota
Minha voz ganhou máxima nota
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza