VELHO CHICO
Meu rio São Francisco, de longa história
Das antigas dores, das velhas memórias
Do serpentear tristonho entre a caatinga
E do morrer cansado em meio a restingas
Como o velho Chico, assim são minhas dores
O morrer de sonhos e o sofrer de amores
Cesta de amarguras a se arrastar no tempo
Desaguar de lágrimas a rolar sentimentos
Seus sonhos infantes de mil corredeiras
Morrem em Três Marias, amante faceira
Lá começa a sina de sua bancarrota
Amor de menino, paixões por canastras
Vai se ressentindo, vai perdendo a graça
Colhe águas de mágoas para lavar outras
DESENGANO
Eu nunca vi no olhar tanta tristeza
E nem do desamar tanta aspereza
Pela dor que se explode na certeza
A mim jamais terás de volta a mesa
Bem sabes, não sou do tipo leviano
Ferida sangra, mas não aceita panos
Marcas de dores e cicatriz dos danos
Porém jamais o acobertar de enganos
No teu olhar vazio a dor por despedida
Teus planos revelados, máscaras caídas
Nuas estão, tuas mãos frias e fingidas
Terás por companheiro o teu remorso
Fotos rasgadas, brindes e outros troços
Mas jamais o meu amor fiel e devoto
APAIXONAR-SE
Namorar é uma arte, mas apaixonar-se é algo subconsciente, é uma
psico-dependência de alguém baseada em critérios imaginários criados
pela carência oculta em cada um de nós.
Em todos nós há sempre um vazio intangível e desconhecido à razão, oculto nas recâmaras de dos nossos desejos, pronto a explodir em carência quando menos se espera. É algo assustador e insano como um grande vulcão adormecido.
Não dá para entender; Como alguém que se achava completo e seguro de si,
desaba de repente diante de outro ser, como se tudo o que seja ou fosse se
torne agora apenas um imenso vazio?
Apaixonar-se é o abandonar do concreto e consciente por algo utópico, imaginário
e inexistente. Na verdade, os amantes são todos alienados. Entorpecidos
por desejos ocultos capazes de fazerem do ser venerado o símbolo da
perfeição e beleza, baseados em parâmetros indescritíveis e fantasiosos,
mas ai de quem ousar censurá-los.
São loucos os apaixonados, mas são de fato felizes e jamais buscam a cura para si.
Todavia, quando por algum motivo a febre passa, se enchem de ódio e
amargura por perceberem o quanto foram iludidos por seus próprios
sentimentos. Entretanto, todos eles carregarão para sempre na alma uma
saudade imensa dos seus tempos de insanidade.
MUSA DO SOL
Vejo a ti como flor, como luz e como sol
Doce magia a encantar o entardecer
Pétalas de sonho adornando o girassol
E a razão maior de atrasar o anoitecer
Por ti o sol retarda sua descida no horizonte
E a noite enciumada o empurra abaixo em vão
Seus raios descarados fitam-na atrás do monte
Buscam de ti, musa linda, mais uma última visão
Assim a noite passa acelerada
O sol em desvairo contorna a terra a correr
Quer logo fazer chegar a alvorada
Para de novo te encontrar no amanhecer
ANJOS SEM ASAS
Desci a ladeira em velocidade para aproveitar a aceleração na serra que se aproximava. Foi quando o motor deu um grande urro com se o carro tivesse desengatado. Era mais ou menos quinze horas, eu, a mulher e três crianças em um carro quebrado na BR 101, entre Alagoinhas e Esplanada, duas cidades baianas. Desliguei o motor, tentei de novo, nada! Só aquele grande uivo que parecia um boi morrendo. Que situação, não existia ainda a rede para celular e eu também não tinha o carro assegurado. A cidade mais próxima ficava a uns vinte km, mas não havia como eu chamar um guincho. Não tinha como eu sair dali e deixar a esposa com as crianças naquele lugar deserto. Tentava pegar uma carona para nos levar ao povoado mais próximo, mas ninguém parava. Depois de mais de duas horas, já escurecendo, resolvemos que iríamos andando na beira da pista até o alto da serra para ver se víamos alguma coisa. Foi aí que parou uma carreta. Um cidadão moreno, rosto sisudo e voz meio rouca. E disse-me: "Você é louco, aqui é uma região de muitos assaltos". Expliquei a situação. Ele deu ré no caminhão pelo acostamento de cascalho e parou junto ao meu carro quebrado. Conferiu comigo o problema e disse: acho que é a bomba d'água. Pegou uma corda grande, amarrou o opala no caminhão e nos rebocou vagarosamente até a um posto de gasolina, a cerca de uns quinze km à frente. A esta altura as crianças estavam famintas e assustadas.
No posto o motorista da carreta me disse: põe a família para jantar enquanto tentamos dar um jeito no seu carro. Pegou suas ferramentas, abriu o motor do opala e retirou a bendita bomba d'água. Depois, desprendeu a carreta da boléia e disse-me: vamos à casa de um amigo meu que é dono de uma Alto Peças e ele nos venderá uma bomba nova. Isso já era mais de vinte horas. Entramos na cidade, tiramos o vendedor de sua casa e fomos à loja. Voltando ao posto, o caminhoneiro trocou a bomba d1água, mas não adiantou, o carro continuou pifado. Então ele disse: Já sei, é a corroa do comando de válvulas. Só que isto não se vende por aqui. Entramos novamente na boléia da carreta e fomos até a cidade de esplanada, a uns quarenta km onde ele chamou um mecânico que veio nos acompanhando em um buggy. Lá pelas vinte e duas horas, o mecânico deu o diagnóstico: é a corroa do comando de válvula. Eu tenho uma usada na oficina, mas só dá para trocar amanhã, pois vamos precisar de um torno para sacar a peça. O motorista então arranjou um local no posto para guardarmos o opala quebrado e foi com a boléia da carreta nos deixar numa pousada um pouco mais adiante. Chegando a pousada, lá pelas vinte e três horas, me dirigi ao cidadão para acertar os seus honorários, apreensivo em imaginar quanto seria tal custo. Foi aí que o cidadão me respondeu: "Quando encontrares alguém em dificuldades ajude-o com a mesma abnegação que eu te ajudei e me sentirei pago". Sem mais delonga se despediu, engatou a carreta na boléia e foi embora. No outro dia, o opala foi consertado seguimos nossa viagem. Foi assim que eu descobri que os anjos não têm asas.
QUANDO PARTE UM IRMÃO
Quando parte um irmão, destes a quem fomos unidos pelo coração, resta-nos a certeza de que ele sempre soube o quanto o amamos e que fizemos jus às oportunidades de honrá-lo com o nosso amor. Todavia, vale aqui registrar que este nos deu aulas de como amar a Deus de coração, não só com palavras, mas com a sua própria vida. Para mim ele será sempre um exemplo de humildade, de abnegação e de doação a causa divina. Amou sempre muito mais a obra de Deus do que a si mesmo, viveu mais modestamente que todos os que lhe serviam. Mas por certo está sendo recebido nos céus por aquele que se doou na cruz por todos nós. Sentirei muitas saudades, mas não lamentarei a sua partida. Ele sempre nos disse ser um peregrino rumo a terra prometida. Vai em paz meu amado pr. Sóstenes Apolos da Silva!
MEU FALAR
Se eu falei só aos teus ouvidos
Logo mais tudo será esquecido
Se eu falei o que querias ouvir
Nada eu fiz para a ti servir
Se meu falar não te incomodou
Meu discurso foi vão, não te ajudou
Se meu falar te ensoberbeceu
Fiz muito mal, foi um erro meu
Se no meu falar eu mexi contigo
Fiz meu o papel de irmão e amigo
E se o meu falar melhorou sua rota
Minha voz ganhou máxima nota
TEU BEIJO DOCE
Te vejo ao longe e me sinto um menino
Que na quitanda vive às balas desejar
Chora, dá birra e põe o pai em desatino
Até que os doces saborosos vá comprar
Eu imagino os sabores dos teus beijos
Nas vivas cores e fantasias da ilusão
Quanto mais penso, maior é meu desejo
Torta de amores recoberta de paixão
Vejo-te trufas e caramelos de muitas cores
Com coberturas saborosas a desmanchar
E com salpicos de marshmallow a adornar
Lembras-me frutas de exóticos sabores
Essências mágicas que me fazem delirar
Roubas-me o fôlego a ponto de afogar
PESADELO
Em loucos sonhos e soturnos pesadelos
Tua imagem assombrosa perambula
Mas nada mais do que já foi vai sê-lo
Sombra apenas desmascarada e nua
Não mais tuas vestes de cetim encantam
Nem mais teus olhos resplandecem a luz
És um eterno monumento ao desencanto
Atalho certo entre o jardim e a via-crúcis
Terás por companhia os teus remorsos
Em rotas tristes e caminhos escabrosos
Jamais há de dar-te as mãos a confiança
Suas tramas maquinadas em desatino
Retorno só te dará por certo o destino
Sentimentos de dor, desesperança
A FUGA
Fugirei para longe dos teus olhos onde o teu desprezo não mais me alcance. Entrarei no vagão do desdém rumo à terra do esquecimento, onde por certo a saudade não habita. Levo pouca coisa, apenas uma mala de rancores que por certo se desfará pelo caminho. Espero que o trem não demore, não quero que me vejas partir, pois por certo mais uma vez eu não resistirei o teu sorriso e todos os meus propósitos se desfarão na ventura avassaladora do teu beijo.