FLORES AO VENTO
Tudo são flores no coração da menina
Tão linda, tão meiga, nada de mal imagina
Enlouquece a família, incendeia a campina
Já seus rastros farejam, lobos em cada esquina
Quem consegue livrá-la, da tragédia eminente?
Como enfim desviá-la desta água corrente?
É fogo de capoeira em um relevo ascendente
Só no fim da queimada é que escuta a gente
Quantos sonhos perdidos em ações levianas
Quantas belezas mortas, sem sair do pijama
É tão triste ver ninas, sem sorrir virar madres
Pois legislam iníquos que decência não sabem
DESEJO A TI
Que nunca conheças em teu corpo a dor que ignoras nos outros
Que tuas mazelas nunca sejam a metade do que pensas que são
Que nenhum mal venha a ti na proporção que desejas a outros
Que a misericórdia que a ti derem seja maior do que a que ofereces
Que o desvelo que receberás na velhice seja maior do que o que dás aos teus avôs.
Que seus filhos te honrem mais do que honras aos teus pais.
Que ninguém esqueça a ti como já esquecestes aos que te amam
Que recebas maior perdão do que aquele que tens negado.
Que nunca cometam contigo a injustiça que cometes com outros.
Que nunca te desprezem como já desprezastes a outros.
Que todo o ódio contra ti seja quebrantado, ainda que teu ódio permaneça
Que ninguém te julgue com a dureza com que julgas as causas alheias
Que teus filhos não dêem metade dos problemas que observas nos filhos alheios
Que as tuas culpas sejam menores que aquelas que tu apontas nos outros.
Que ninguém deseje o teu fim como já desejastes o de alguém.
Que tuas mãos sejam tão limpas como são apurados os teus olhos.
Que a tua felicidade seja maior do que aquelas com as quais te solidarizas
BRISA DA TARDE
Que me venham os netos
Com suas doces inocências, seus sorrisos puros e regados de afeto
Que me venham as crianças
Atenção desmedida e sem hora, sem mendigos do tempo e partição de momentos
Que me venham os sonhos
Esperança numa nova gênese, que dê cor e brilho a meus olhos tristonhos
Que me volte a poesia
Na alegria do amor mais sincero, que brota nos beijos de quem as rugas não observa
Que me volte as palavras
Pra quem ainda de ouvir-me não cansa e que dorme em meus braços em canção de ninar
Que eu ouça o choro
De quem de fato não quer que eu parta, nem o espaço do quarto e lamentará minha falta
SAUDADE EM GOTAS
De repente, as flores se curvam ao tempo
Some o perfume de calorosos sentimentos
E a negra sombra da noite ao ninho invade
Regam agora os olhos, lágrimas de saudade
Não há mais festas de faceiras borboletas
Nem querem as vespas o sabor do seu mel
Tua alegria de primavera se tornou em seca
Nem os teus olhos ousam contemplar o céu
Adorna a tua face o teu choro cristalino
Num pranto de saudade do teu viver ladino
Onde o amor, tu sabes, por certo floresceu
Botões de esperança brotam dentre os ramos
Quem sabe o amanhã afugente os desenganos
E ainda volte o amor a morar nos braços teus
CORAÇÃO ABDUZIDO
De súbito, meu coraçãose descompassa, perde a contagem
O olhar embaça e não sabe mais o que é real ou miragem
Minha auto-estima, como um fugaz raio de sol, desaparece
Minha lucidez desaba como se agora pernas já não tivesse
Joelhos em terremoto, rosto em labareda, boca em cachoeira
Orvalha o corpo, some o discurso e nasce uma gagueira
Já nada mais me importa, senão o eu navegar contigo
Pra onde não interessa, na certa alcançarei o paraíso
A luz dos teus olhos me encandeia, perco os sentidos
Meu coração se vai, rendido ao teu olhar, abduzido
Quem eu sou, quem eu fui e o que eu quis ser, esquece
Vou para outra dimensão, que só quem já amou conhece
LAMPEJOS DE VIDA
Tenho medo,
Não da dor, a esta sempre suportei resignado
Não da velhice, ela é para poucos privilegiados
Não da deformidade, nunca pousei de manequim
Não dá solidão, há muito aprendi a andar sozinho
Não da debilidade, ela ensina-nos o que de fato somos
Não da morte, minha vida em Deus tem o seu dono
Temo muito,
Deixar de ser quem sou por vis lampejos
Partir antes da hora por de alguém desejo
Ao nojo que sempre sucede aos interesses
De que a fé que me sustenta, eu a perdesse
As companhias que são mantidas a contragosto
Ser aos que amo, um peso e os seus desgostos
Admito,
Respeito o abutre que da carne podre come a carcaça
Mas enoja-me o carcará que a carne viva estraçalha
Prefiro despacho abrupto a estancar rios de sonhos
Que a partida lenta regada em gotas de desengano
PENDÃO DA PÁTRIA
Ah meu pendão da pátria mutilado
Arvora ao céu, procura ar, asfixiado
Maldita podridão, em frente e aos lados
Abutres infestam o céu do meu cerrado
Atraídos pelo mau cheiro putrefato
Que exala entre a câmara e o senado
Pudesse eu arrancar tua bandeira
Arvorá-la bem longe da bandalheira
Desta praça da infâmia brasileira
PROSA DAS ROSAS
O caminho da saudade tu não deves percorrer
Lá as flores são mortas, tu as deves esquecer
Se as contemplas de volta, vês que murchas estão
Já são resíduos do tempo, adornos doutra estação
Segue em frente a jornada, novas flores hás de ver
Dourados sonhos de encantos esperando por você
O passado é um folclore, nada dele volta atrás
Deixe as vestes de mágoas, a maquiagem refaz
Quem anda de costas, perde o que à frente vem
Se acabrunha em escombros e mofa em desdém
Mais nada belo a frente conseguirá alcançar
Abre um largo sorriso, independente da dor
Vista-se de otimismo, plante e regue uma flor
Alegria infinita em outros olhos hás de achar
BAILA COMIGO
Abraçar-te-ei com tal ternura que cessará teu pranto
E aconchegada em meus braços tua alma descansará
Não mais sobre ti a dúvida estenderá seu turvo manto
Em elos de amor, pra sempre ligada a mim tu estarás
Balança livre e solta como quem confia
E desabrocha assim toda magia e sedução
Atrelada a mim, sua alma dança e rodopia
Cortejos de amor fazem agitar meu coração
Alheia aos riscos, entrega-te a mim em desatino
Se lança em sonhos e em fantasias do amor
Se amar-me é loucura que a condene o destino
Mas és feliz assim como jamais alguém sonhou
ESTRELA DA ALVA
Estrela da alva tão radiante e bela
Que nas madrugadas eu vivo a velar
Que loucura é amar-te de minha janela
Com uma distância infinda a nos separar
Te imagino linda e sem qualquer defeito
De sorriso aberto, pronta pra me amar
Nunca me ocorre que em seu sacro peito
Uma paixão por outro já possa habitar
Quanto mais distante, maior a loucura
De sua alma algures, a outro entregar
Paixão desvairada que a razão não cura
Tudo é formosura em seu imaginar
Não tem medo o cego da noite escura
Nem de desafeto, quem vive a sonhar
Mas se ver de perto, todas as agruras
Verás que os defeitos compõem o amar
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza