VELHO CHICO
Meu rio São Francisco, de longa história
Das antigas dores, das velhas memórias
Do serpentear tristonho entre a caatinga
E do morrer cansado em meio a restingas
Como o velho Chico, assim são minhas dores
O morrer de sonhos e o sofrer de amores
Cesta de amarguras a se arrastar no tempo
Desaguar de lágrimas a rolar sentimentos
Seus sonhos infantes de mil corredeiras
Morrem em Três Marias, amante faceira
Lá começa a sina de sua bancarrota
Amor de menino, paixões por canastras
Vai se ressentindo, vai perdendo a graça
Colhe águas de mágoas para lavar outras
CASAMENTOS E SONHOS
O casamento dos vinte é apenas uma planta baixa, lá se enveredam os sonhos de jardins suspensos, vista para o mar, suítes aromatizadas e tudo mais que a imaginação juvenil comporta. Lá não faltam os recursos nem a flexibilidade para se adaptar aos diferentes gostos. Só quando se assina o contrato é que se percebe que o projeto é falho. O solo não é suficientemente estável, falta coragem para encarar o duro desafio de estudar, levantar cedo, fazer concursos, etc. Também é a hora que se passa a perceber os materiais desejados têm que vir de longe, que custam caro e que muitos deles são inacessíveis. Aí é que o bicho pega, reduzir sonhos não é coisa fácil. A flexibilidade é boa para a ampliação, mas para contrair expectativas costuma ser indomável como uma mula. A incapacidade ou a falta real de desejo de cada um começa cobrar o preço e o projeto dos sonhos fica no alicerce com os protagonistas acusando um ao ouro pelo insucesso. Mas há também os casos em que um é o constritor e o outro apenas o projetista compulsivo, amplia o projeto a cada dia enquanto o outro se sufoca nas readaptações intermináveis e inconseqüentes. Um dia, a paciência se esgota e a obra para de uma vez por todas.
O casamento dos quarenta é algo mais prático, a casa já está com a laje feita e basta algum esforço para que a mesma seja concluída. O problema está na reforma, cada um dos protagonistas espera mudar o gosto alheio para que a casa venha ser aquela que sonhou na juventude. Um espera que o outro mude suas atitudes, que faça regime, que aprenda a cozinhar, que volte a estudar, que pare de beber, etc. É uma espécie de engodo consentido em que cada m acredita que o seu charme mudará as coisas. Quando a obra recomeça é que se percebe que ninguém muda ninguém, a parestesia da preguiça juvenil continua operante e agora amparada por muito mais desculpas, como cansaço, simplicidade, etc. Mais uma casa condenada ao monturo ou a ser eternamente inacabada pela falta de coragem de se derribá-la para começar uma outra. Assim jazem muitas edificações nas nossas cidades.
O casamento dos cinqüenta costuma ser uma edificação mais modesta. Não há grandes reformas a serem executadas. Já não há torres, adegas, mirantes e aquelas loucuras da inconseqüência juvenil. A reforma só é planejada com os materiais que se tem ao bojo, restos das construções que cada um já tentou edificar. As exigências de acabamento agora são bem modestas e o que importa é que no aconchego da tranqüilidade se possa viver em paz. Os protagonistas agora querem apenas uma janela com blindex de onde possam ver as construções alheias e refletirem como a vida poderia ter sido bem mais simples e a felicidade alcançada nas pequenas coisas.
IPÊ ROXO
Calça pantalona roxa
Com pernas boca de sino
Folgada até altura das coxas
Mas com a bunda partindo
Cinto muito largo e branco
Parecendo uma barrigueira
fivela de prata ou de cromo
De cemitério uma porteira
Casaquinho alaranjado
Bordado e de seda fina
Com belos botões dourados
Ou na cor azul purpurina
Cabeleira em reboliço
Penugens enchendo a cara
No que da barba consigo
A lá Fidel , Che Guevara
Parecia um ipê roxo
Andando ponta a cabeça
Mas assim foi todo moço
Da geração que eu conheça
ANJOS SEM ASAS
Desci a ladeira em velocidade para aproveitar a aceleração na serra que se aproximava. Foi quando o motor deu um grande urro com se o carro tivesse desengatado. Era mais ou menos quinze horas, eu, a mulher e três crianças em um carro quebrado na BR 101, entre Alagoinhas e Esplanada, duas cidades baianas. Desliguei o motor, tentei de novo, nada! Só aquele grande uivo que parecia um boi morrendo. Que situação, não existia ainda a rede para celular e eu também não tinha o carro assegurado. A cidade mais próxima ficava a uns vinte km, mas não havia como eu chamar um guincho. Não tinha como eu sair dali e deixar a esposa com as crianças naquele lugar deserto. Tentava pegar uma carona para nos levar ao povoado mais próximo, mas ninguém parava. Depois de mais de duas horas, já escurecendo, resolvemos que iríamos andando na beira da pista até o alto da serra para ver se víamos alguma coisa. Foi aí que parou uma carreta. Um cidadão moreno, rosto sisudo e voz meio rouca. E disse-me: "Você é louco, aqui é uma região de muitos assaltos". Expliquei a situação. Ele deu ré no caminhão pelo acostamento de cascalho e parou junto ao meu carro quebrado. Conferiu comigo o problema e disse: acho que é a bomba d'água. Pegou uma corda grande, amarrou o opala no caminhão e nos rebocou vagarosamente até a um posto de gasolina, a cerca de uns quinze km à frente. A esta altura as crianças estavam famintas e assustadas.
No posto o motorista da carreta me disse: põe a família para jantar enquanto tentamos dar um jeito no seu carro. Pegou suas ferramentas, abriu o motor do opala e retirou a bendita bomba d'água. Depois, desprendeu a carreta da boléia e disse-me: vamos à casa de um amigo meu que é dono de uma Alto Peças e ele nos venderá uma bomba nova. Isso já era mais de vinte horas. Entramos na cidade, tiramos o vendedor de sua casa e fomos à loja. Voltando ao posto, o caminhoneiro trocou a bomba d1água, mas não adiantou, o carro continuou pifado. Então ele disse: Já sei, é a corroa do comando de válvulas. Só que isto não se vende por aqui. Entramos novamente na boléia da carreta e fomos até a cidade de esplanada, a uns quarenta km onde ele chamou um mecânico que veio nos acompanhando em um buggy. Lá pelas vinte e duas horas, o mecânico deu o diagnóstico: é a corroa do comando de válvula. Eu tenho uma usada na oficina, mas só dá para trocar amanhã, pois vamos precisar de um torno para sacar a peça. O motorista então arranjou um local no posto para guardarmos o opala quebrado e foi com a boléia da carreta nos deixar numa pousada um pouco mais adiante. Chegando a pousada, lá pelas vinte e três horas, me dirigi ao cidadão para acertar os seus honorários, apreensivo em imaginar quanto seria tal custo. Foi aí que o cidadão me respondeu: "Quando encontrares alguém em dificuldades ajude-o com a mesma abnegação que eu te ajudei e me sentirei pago". Sem mais delonga se despediu, engatou a carreta na boléia e foi embora. No outro dia, o opala foi consertado seguimos nossa viagem. Foi assim que eu descobri que os anjos não têm asas.
BRISA DA TARDE
Que me venham os netos
Com suas doces inocências, seus sorrisos puros e regados de afeto
Que me venham as crianças
Atenção desmedida e sem hora, sem mendigos do tempo e partição de momentos
Que me venham os sonhos
Esperança numa nova gênese, que dê cor e brilho a meus olhos tristonhos
Que me volte a poesia
Na alegria do amor mais sincero, que brota nos beijos de quem as rugas não observa
Que me volte as palavras
Pra quem ainda de ouvir-me não cansa e que dorme em meus braços em canção de ninar
Que eu ouça o choro
De quem de fato não quer que eu parta, nem o espaço do quarto e lamentará minha falta
ME DÓI
Me dói o eu não ver mais a poesia na tua imagem
Não perceber o amor que flui sobre a mensagem
Não ser capaz de remover a dor que a ti cinge
Nem crer que o desencanto com amor se extingue
Me dói ver-te passar as margens do caminho
Ver-te trocar meu doce amor por vis espinhos
E ver assim desfigurar-se o teu lindo rosto
Por desencanto e muitas máculas de desgosto
Me dói ver-te tomar por ignóbeis os meus afetos
Desprezar os que te amam e mendigar restos
De quem a muito já demonstrou não merecer-te
Me dói eu ver esvair-se de mim o venerar-te
Já não sentir mais solidão quando tu partes
Mas um alívio em meu coração por esquecer-te
DESENGANO
Eu nunca vi no olhar tanta tristeza
E nem do desamar tanta aspereza
Pela dor que se explode na certeza
A mim jamais terás de volta a mesa
Bem sabes, não sou do tipo leviano
Ferida sangra, mas não aceita panos
Marcas de dores e cicatriz dos danos
Porém jamais o acobertar de enganos
No teu olhar vazio a dor por despedida
Teus planos revelados, máscaras caídas
Nuas estão, tuas mãos frias e fingidas
Terás por companheiro o teu remorso
Fotos rasgadas, brindes e outros troços
Mas jamais o meu amor fiel e devoto
DESEJO A TI
Que nunca conheças em teu corpo a dor que ignoras nos outros
Que tuas mazelas nunca sejam a metade do que pensas que são
Que nenhum mal venha a ti na proporção que desejas a outros
Que a misericórdia que a ti derem seja maior do que a que ofereces
Que o desvelo que receberás na velhice seja maior do que o que dás aos teus avôs.
Que seus filhos te honrem mais do que honras aos teus pais.
Que ninguém esqueça a ti como já esquecestes aos que te amam
Que recebas maior perdão do que aquele que tens negado.
Que nunca cometam contigo a injustiça que cometes com outros.
Que nunca te desprezem como já desprezastes a outros.
Que todo o ódio contra ti seja quebrantado, ainda que teu ódio permaneça
Que ninguém te julgue com a dureza com que julgas as causas alheias
Que teus filhos não dêem metade dos problemas que observas nos filhos alheios
Que as tuas culpas sejam menores que aquelas que tu apontas nos outros.
Que ninguém deseje o teu fim como já desejastes o de alguém.
Que tuas mãos sejam tão limpas como são apurados os teus olhos.
Que a tua felicidade seja maior do que aquelas com as quais te solidarizas
CHAMADA DA TURMA A
Abria-se formalmente a chamada
Como o galo acordando a alvorada
Quando a voz altiva do mestre entoava
O intrépido nome: Adélia Maria Soto
Seguia-se o ritual em meio ao silêncio
Imposto pelo rito cívico do momento
Josés, Marias, Santos e Nascimentos
Holembergues, Cunhas e tantos outros
Entre sorrisos adolescentes disfarçados
Olhares discretos e os flertes delicados
Nasciam ali, sonhos pueris apaixonados
Até findar a chamada: Walter Gaia Soto
Como esquecer a doçura daqueles dias?
Entre as incertezas, sonhos e fantasias
Fazíamos da nossa esperança a alegria
Ignorando o muro social a ser transposto
Entre os nomes destes irmãos há muitas vidas
Muitos amores, realizações, paixões perdidas
Sonhos desfeitos e amizades hoje esquecidas
Refeitas foram, após a chuva, em novos rotos
RETROSPECTIVA
Hoje eu retiro de mim toda palavra muda
Sentimentos ocultos, quais eu nunca escrevi
Volto lá na infância pra liberar toda a culpa
Amarguras e erros dos quais nunca esqueci
Me desfaço da carga que carrego nos ombros
Pesadelos e assombros do que não pude fazer
Me desgrudo do mito, para ser só o homem
Que mesmo trôpego e insano, viveu por você
Quase nada eu fiz certo e eu erraria de novo
Se ao sair do meu ovo, eu voltasse a te ver
Pois não há homem esperto e tão cauteloso
Que resista a este charme que habita em você
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza