CORAÇÃO ABDUZIDO
De súbito, meu coraçãose descompassa, perde a contagem
O olhar embaça e não sabe mais o que é real ou miragem
Minha auto-estima, como um fugaz raio de sol, desaparece
Minha lucidez desaba como se agora pernas já não tivesse
Joelhos em terremoto, rosto em labareda, boca em cachoeira
Orvalha o corpo, some o discurso e nasce uma gagueira
Já nada mais me importa, senão o eu navegar contigo
Pra onde não interessa, na certa alcançarei o paraíso
A luz dos teus olhos me encandeia, perco os sentidos
Meu coração se vai, rendido ao teu olhar, abduzido
Quem eu sou, quem eu fui e o que eu quis ser, esquece
Vou para outra dimensão, que só quem já amou conhece
ESTRELA DA ALVA
Estrela da alva tão radiante e bela
Que nas madrugadas eu vivo a velar
Que loucura é amar-te de minha janela
Com uma distância infinda a nos separar
Te imagino linda e sem qualquer defeito
De sorriso aberto, pronta pra me amar
Nunca me ocorre que em seu sacro peito
Uma paixão por outro já possa habitar
Quanto mais distante, maior a loucura
De sua alma algures, a outro entregar
Paixão desvairada que a razão não cura
Tudo é formosura em seu imaginar
Não tem medo o cego da noite escura
Nem de desafeto, quem vive a sonhar
Mas se ver de perto, todas as agruras
Verás que os defeitos compõem o amar
ESPELHO MEU
Quanto mais me observo mais me acho mais feio
Não é que eu piore, mas é que melhoro a visão
Quanto mais me observo, mas conheço meus erros
E muito mais descubro quão parte de mim eles são
Meus erros crescem como crescem minhas rugas
Toda pequenina mancha vira uma erupção
É que um mau sentimento por si mesmo não muda
É preciso de Cristo, sempre uma intervenção
Se há virtude do homem esta não o justifica
Nem há maldade pequena que se possa esquecer
Remissão só em Cristo, tudo o mais nada é
Na verdade o espelho é a palavra que explica
Mostra ao que se retoca a maquiagem a perder
Pois nenhum erro se extingue a não ser pela fé
DESEJO A TI
Que nunca conheças em teu corpo a dor que ignoras nos outros
Que tuas mazelas nunca sejam a metade do que pensas que são
Que nenhum mal venha a ti na proporção que desejas a outros
Que a misericórdia que a ti derem seja maior do que a que ofereces
Que o desvelo que receberás na velhice seja maior do que o que dás aos teus avôs.
Que seus filhos te honrem mais do que honras aos teus pais.
Que ninguém esqueça a ti como já esquecestes aos que te amam
Que recebas maior perdão do que aquele que tens negado.
Que nunca cometam contigo a injustiça que cometes com outros.
Que nunca te desprezem como já desprezastes a outros.
Que todo o ódio contra ti seja quebrantado, ainda que teu ódio permaneça
Que ninguém te julgue com a dureza com que julgas as causas alheias
Que teus filhos não dêem metade dos problemas que observas nos filhos alheios
Que as tuas culpas sejam menores que aquelas que tu apontas nos outros.
Que ninguém deseje o teu fim como já desejastes o de alguém.
Que tuas mãos sejam tão limpas como são apurados os teus olhos.
Que a tua felicidade seja maior do que aquelas com as quais te solidarizas
MELODIA DAS PEDRAS
Eu sei quão puro e belo é o sorriso de uma criança
De quem ama em inocência sob a fé e a esperança
Que crê que muda o outro em função da companhia
E que não vê a realidade sob o véu da fantasia
Eu sei o quanto é belo descrever a primavera
Desprezar o verão que chega queimando a terra
E só sonhar com os frutos saborosos do outono
Dos quais a dispensa vazia não lhes rouba o sono
Não sou assim, enxergo sempre a dor além das flores
Vejo sempre a tela cinza na qual se assenta as cores
E quão efêmeros são os sonhos construídos em quimeras
Embora sempre eu me derreta em lágrimas
E me comova em dor ao descrever as chagas
Sou duro ao açoitar dos ventos como as pedras
BRISA DA TARDE
Que me venham os netos
Com suas doces inocências, seus sorrisos puros e regados de afeto
Que me venham as crianças
Atenção desmedida e sem hora, sem mendigos do tempo e partição de momentos
Que me venham os sonhos
Esperança numa nova gênese, que dê cor e brilho a meus olhos tristonhos
Que me volte a poesia
Na alegria do amor mais sincero, que brota nos beijos de quem as rugas não observa
Que me volte as palavras
Pra quem ainda de ouvir-me não cansa e que dorme em meus braços em canção de ninar
Que eu ouça o choro
De quem de fato não quer que eu parta, nem o espaço do quarto e lamentará minha falta
MEU VELHO MONTE
Meu Velho querido, já de alvos cabelos
De quem o rugir a muito, não se ouve mais
Só lágrimas despontam em rios de zelo
Há nutrir seus filhos em remansos de paz
Lagos de ternura formam-se à tua sombra
Nuvens de doçura dos céus vêm a ti
Nenhum vento forte tua calma assombra
Nada mais te rouba a paz do porvir
Flores de carinho a relva te oferece
Em cores e preces, louvam teu viver
E ramos se curvam frente ao teu saber
Firmes e insondáveis são tuas raízes
Belas as matizes que adornam o teu ser
Ventos uivam e cantam em honra a você
ME DÓI
Me dói o eu não ver mais a poesia na tua imagem
Não perceber o amor que flui sobre a mensagem
Não ser capaz de remover a dor que a ti cinge
Nem crer que o desencanto com amor se extingue
Me dói ver-te passar as margens do caminho
Ver-te trocar meu doce amor por vis espinhos
E ver assim desfigurar-se o teu lindo rosto
Por desencanto e muitas máculas de desgosto
Me dói ver-te tomar por ignóbeis os meus afetos
Desprezar os que te amam e mendigar restos
De quem a muito já demonstrou não merecer-te
Me dói eu ver esvair-se de mim o venerar-te
Já não sentir mais solidão quando tu partes
Mas um alívio em meu coração por esquecer-te
O DIA DO DESDÉM
Teu filho querido já vira-lhe as costas
Tua amada abana asas de desdém
Tua voz ecoa mas ninguém se importa
Da solidão tua alma se tornou refém
Adianta velar a quem te menospreza?
E gorjear soturno lamentando a dor?
Quanto mais insistes mais ela se enfeza
E transforma em nojo tua canção de amor
O galanteio é surdo ao coração fechado
E a cortesia soa como uma provocação
Nada mais te resta, oh ser desdenhado
Vá entoar teu canto em outra estação
CATARATA
Onde quer que fores, leva a alma tua
Para que lá frente, não queiras voltar
A razão é afoita, mas muito insegura
E sozinha algures, se põe a chorar
A razão e a alma rusgam às escondidas
Passam a noite toda em ponderação
Mas ao clarim do dia, estão decididas
Marcham atreladas num só coração
Mata em tédio a alma, quem não se assume
Quem não se decide entre viver ou sofrer
Em remorsos e dores o seu viver resume
Pois de seus rancores não pode esquecer
Lágrimas são feitas pra lavar os olhos
Pra tirar a trava que nos impede ver
Muda teu caminho, fuja dos abrolhos
Põe um sorriso novo neste teu viver
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza