SENTIMENTOS
Conselhos em sentimentos não se empresta
Pois que toma a decisão, sua alma arresta
E a todos os seus desencantos leva amarrados
Em cordas de lembranças e manchas do passado
SAUDADE NÃO SE REPARTE
Saudade é a dor que nos parte,
Depois que alguém cedo parte
Que de dia em nós queima e arde
E à noite nos consome até tarde
Calor que aguça e excita as partes
Que jamais com outrem se reparte
É a parte de alguém que, em parte,
Fixa em nós seu eterno estandarte
Indulgência a pagar quando as partes
Trata o amor como um caso à parte
Até que extinto ou em dor se aparte
E por caminhos de dor se repartem
APOLOGIA AO CONCURSEIRO
Concurseiro que tanto estuda, mas à política é indiferente
Veja bem que as vagas tuas, são dos políticos e seus parentes.
Veja quantos cargos comissionados foram criados pelo PT
Pra cupinchas e apadrinhados que ocupam vagas sem nada saber.
Louca esperança de quem estuda, num pais regido pela torpeza.
Enquanto a voz dos jovem for muda, reinará a burrice e a safadeza.
MORRE ROMA
Quando o trabalho é descartado por despojos
E a violência é cultuada em versos e coro
Quando o sangue dos oprimidos já não importa
O desamor passa a habitar dentro das portas
Quando a justiça e a moral fogem dos trilhos
Os pais morrem pelas mãos dos próprios filhos
E quem ensina a alçar poder a qualquer custo
Cedo defronta com o vil punhal do filho Brutus
AMOR A LOUCURA
Amo-te loucura minha,
Que a mim liberta, que rompe as correntes.
Que me alucina, mas me faz ser gente
Que não aceita regras, nem se adéqua aos mandos
Que a dor não se entrega, nem aceita os danos
Que não venera o medo, nem os preconceitos
Que só obedece a alma no que lhe é direito
Que não se incomoda se é errada ou certa
Mas nada vê de longe, tudo apalpa e aperta
Que não vê o dolo em conhecer a vida
Nem aos desaforos, ampara ou abriga
Que não conhece cercas para a liberdade
Mas vive livre e plena em sua insanidade
Se alguém a condena, critica e apedreja
Não passa de escravo, a morrer de inveja
LUVAS DE CETIM
Depois de meses na enfermaria
A velha por fim agonizava
Dilacerada em dor, gemia
Porém nada mais ela falava
Não que a sua voz tivesse acabado
Ou que não se lembrasse mais das falas
É que sagradas eram as vozes do passado
E não queria vê-las agora perturbadas
Gemia assim, triste e sozinha,
Não mais clamando a dor da morte
Mas por ver, assim, quão mesquinha
Podia ser a vida em sua sorte
Mãe dedicada de oito filhos
Todos em lágrimas e dor criados
Mas dela há muito, já todos esquecidos
E por seus próprios destinos obcecados
Foi quando por fim ouviu a enfermeira
- Chega-te aqui Senhora, até a cabeceira
Dê a ela a sua mão neste último momento
Será por certo um bálsamo ao sofrimento
Num esforço final, a velha disse com voz turva
Eu quero é a sua mão, por favor, retire a luva
Depois clamou por fim: Esta mão não é Maria
A mão dela, eu lembro, tinha alma, pois eu sentia
VELHO CHICO
Meu rio São Francisco, de longa história
Das antigas dores, das velhas memórias
Do serpentear tristonho entre a caatinga
E do morrer cansado em meio a restingas
Como o velho Chico, assim são minhas dores
O morrer de sonhos e o sofrer de amores
Cesta de amarguras a se arrastar no tempo
Desaguar de lágrimas a rolar sentimentos
Seus sonhos infantes de mil corredeiras
Morrem em Três Marias, amante faceira
Lá começa a sina de sua bancarrota
Amor de menino, paixões por canastras
Vai se ressentindo, vai perdendo a graça
Colhe águas de mágoas para lavar outras
ME DÓI
Me dói o eu não ver mais a poesia na tua imagem
Não perceber o amor que flui sobre a mensagem
Não ser capaz de remover a dor que a ti cinge
Nem crer que o desencanto com amor se extingue
Me dói ver-te passar as margens do caminho
Ver-te trocar meu doce amor por vis espinhos
E ver assim desfigurar-se o teu lindo rosto
Por desencanto e muitas máculas de desgosto
Me dói ver-te tomar por ignóbeis os meus afetos
Desprezar os que te amam e mendigar restos
De quem a muito já demonstrou não merecer-te
Me dói eu ver esvair-se de mim o venerar-te
Já não sentir mais solidão quando tu partes
Mas um alívio em meu coração por esquecer-te
BRISA DA TARDE
Que me venham os netos
Com suas doces inocências, seus sorrisos puros e regados de afeto
Que me venham as crianças
Atenção desmedida e sem hora, sem mendigos do tempo e partição de momentos
Que me venham os sonhos
Esperança numa nova gênese, que dê cor e brilho a meus olhos tristonhos
Que me volte a poesia
Na alegria do amor mais sincero, que brota nos beijos de quem as rugas não observa
Que me volte as palavras
Pra quem ainda de ouvir-me não cansa e que dorme em meus braços em canção de ninar
Que eu ouça o choro
De quem de fato não quer que eu parta, nem o espaço do quarto e lamentará minha falta
SAUDADE EM GOTAS
De repente, as flores se curvam ao tempo
Some o perfume de calorosos sentimentos
E a negra sombra da noite ao ninho invade
Regam agora os olhos, lágrimas de saudade
Não há mais festas de faceiras borboletas
Nem querem as vespas o sabor do seu mel
Tua alegria de primavera se tornou em seca
Nem os teus olhos ousam contemplar o céu
Adorna a tua face o teu choro cristalino
Num pranto de saudade do teu viver ladino
Onde o amor, tu sabes, por certo floresceu
Botões de esperança brotam dentre os ramos
Quem sabe o amanhã afugente os desenganos
E ainda volte o amor a morar nos braços teus
poemas lindos como o poeta!
poemas lindos como o poeta!
Maravilhoso, movido pelo amor...alma nobre...
Gigante pela propria natureza