Thaís Fontenele

Thaís Fontenele

Escrevo poesia, porque de nada o mundo tá cheio e eu apenas ressignifico os nadas.

n. 0000-00-00, Parnaíba, Piauí

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O desgastar

A sola do sapato gasto pelo tempo
é apenas mais uma representação
do desgaste de quem o usa,
o tempo tem o poder de gastar a
camada abstrata da alma,
a camada móvel
do gasto
ganho
do desgaste.

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Poemas

82

Não espere

Se não te leem os olhos,
por que irão ler teus lábios?
se não te leem com a voz aguda que te escapa,
por que irão ler teu silêncio compassado?
tu guardou-se as entranhas, mas cadê o coração?
não espere que sejam o que tu desejas,
ninguém está preparado para suprir devaneios alheios,
a devastação é tamanha, que o que sobra é pouco para os outros,
então existe tudo,
e existe tu e o mundo,
e existe tu e as insignificâncias,
e existe tu e as lacunas que te fazem cheios de si.
358

O quase instante

Todos nós temos um quase instante,
daqueles que não poderiam ser quase,
típico momento em que perdemos o fio da miada,
e continuamos jogando palavras do corpo,
típico momento em que cuspimos com palavras,
e escorregamos em certezas, dando espaço para a ignorância,
sendo vão,
as vezes somos tão afiados quanto a língua portuguesa,
e somos tão ríspidos quanto as pedras,
nesses quase instante que te cerca,
onde o ruído, é um grito.
 

 

369

Tem muito de mim

Existem dias que eu te enxergo em mim,
em outros dias não enxergo nada além de uma vista para o mar,
e há dias que estão cheios de ti,
e outros que não tem nada além de um horizonte finito,
eu sei bem que tu querias me enxergar em ti,
mas tem muito de mim
para caber em ti.
 
343

O olhar para o eu

I. 
 
Vejo beleza em quase tudo,
nas minhas mãos,
essas que alcançam quase tudo.
 
Ando carregando o mundo nas mãos,
vejo beleza no meu ouvir,
esse que ouve quase tudo.
 
Sou existência crua e viril,
como não ser tanto e quase tudo,
escrevo sobre uma laranja comida ao pé da mesa,
como não sentir tanto
num mundo de tão pouco sentido
e raro tato satisfeito,
os olhares traçados em trilhas de lugares.
 

II.
 
Meus gestos são como dedilhados amargos na sua boca
seu jeito abismado com meu abstrato
estou nua, verde trevo é a cor do meu lado invisível,
indefinível para ti.
 

III.
 
Sou semente jogada em campo minado,
Sou a razão entre esses toques espessos,
Sinto-me como a árvore mais alta do mundo,
Guardando todos os restos de esperança,
Aguardando milênios a dentro,
Espalhando o brotar da purificação.
 
 
IV.
 
Quanto mais sujo e esperançoso se é,
mais instigante se torna a amarra delgada do estranho e do perfeito ser.
 
 
 
 

392

Fantasia do verbo

Uma menina observou o silêncio,
Como quem se observa o amanhecer
Engoliu a beleza dos laços existenciais e transbordou no verso
 
O verbo e a menina findaram-se
Em concordância perenal
E assim nasceu a fantasia do verbo
 
Entre retinas e silêncios
Há fantasia do verbo
Entre a pedra e a terra
Há fantasia do verbo
 
As estradas existenciais de um ser
São cheias de buracos
E o fio que carrega a estrada
O mecanismo de significâncias humanas.
398

Te vi

 
Hoje cedo pude observar as nuvens riscando o céu,
Ali, contrastando com a densa vegetação
meus olhos riscaram todo o azul do infinito,
meus lábios te escreveram tanto,
meus olhos te leram até o desfiar do sol,
te vi junto a mim, e só.
 
Pude te enxergar na vegetação,
tu combinavas com o verde,
embelezava quem era desprovido de imaginação,
tu combinavas com as tintas que te marcavam,
e eu me perdia com os teus traços, que me perpassavam,
te vi junto a mim, e só.
 
423

Pulsos

Sinto um rio correndo na veia,
não há como mergulha-lo,
só há como senti-lo,
no meu pulso, há correntes fortes e leves,
como corrente de rio.
404

Comunhão do terror

As traças roendo os nossos traços,
a natureza em colapso geme fortemente
na voz de pessoas com falso mérito,
todas as fincadas que o passado sentiu, ouviu e sucumbiu,
são comungadas em atmosfera coletiva,
as amarras que nos ditam,
são as mesmas que nos marcam indignamente,
nesse verbo rasgado e rasurado em sangue morno,
nas veias latentes de nossos corpos. 
598

Não és viajante do mundo

Não és desbravador quem nunca se aventurou
no ventre de uma mulher,
não és viajante quem nunca sentiu sede, fome e medo,
aos olhos de uma mulher,
não és navegador tu, que se afogou,
nas marés estimulantes das mentiras femininas. 
407

Vivência poética

A terra fria encima de mim, 
meu tecido em contraposição a um canto escuro, 
meu corpo avista seres perdidos, todos ali, 
sinto minha garganta invadida por palavras
o verbo fecundando-me toda manhã, 
o útero rasgando a extensão do meu corpo, 
minha mente amarrada num foguete perdido no espaço, 
meu suspiro quando o verso me aniquila o peito, 
meu suspiro quando o verso me bombardeia as mãos, 
o papel recebendo-me nos seios, 
a democracia das almas que vivem dentro de mim 
percorrendo a linha tênue que faz-me ser poeta. 
503

Comentários (14)

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Francisco Guilherme

Você tem muito potencial. Parabéns! Poemas fortes

camila_duarte

Escrita incrível, tocante, memorável <3

joaoeuzebio

O DESGASTAR NÃODEGASTOU TEU BRILHO UM ABRAÇO BELO POEMAS

felixa

Belíssima espiritualidade! Sinto essas vibrações no devaneio de imagens que as palavras me trazem ao lê-la

Thaís Fontenele

Pode ser fernando, eu creio que minha liberdade poética, não é exatamente como denuncia, somente meus devaneios, porém isso vai do subjetivo de cada um que interpretou, beijos!