Thaís Fontenele

Thaís Fontenele

Escrevo poesia, porque de nada o mundo tá cheio e eu apenas ressignifico os nadas.

n. 0000-00-00, Parnaíba, Piauí

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O desgastar

A sola do sapato gasto pelo tempo
é apenas mais uma representação
do desgaste de quem o usa,
o tempo tem o poder de gastar a
camada abstrata da alma,
a camada móvel
do gasto
ganho
do desgaste.

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Poemas

82

Formação

 
Sou formada pelo o que me transcende,
sou feita de vazios longos,
com pressas muitas e lotações de peito.
458

Tu eras o nó, tu és o nó

Tu eras meu singelo e tênue desejo,
Tu eras o inquieto descer das nuvens,
Tu eras a sombra que me tremia o peito,
Tu eras o sujeito colorido que não me negaria a água, o vinho e o pão.

Eras também a intriga das minhas madrugadas,
Eras também o verde que me corrompia o ego,
Eras também os planos de pingar d’água nos meus lábios,
Eras também a encosta da minha imensidão, a flame que ardia.

Sabes a breve rachadura?
Ah, se tu soubesses o teu prazer
Ah, se tu soubesses a luz do teu acender.

Nega-me tudo, exceto tu!
Nega-me tudo, exceto teu sentir!
Apenas não me negue o teu doce pranto.
490

Fazer-me no teu nada

Amar-te é ser uma viga na água,
paquerar-te é sentir o nada
- eu quero o nada -
não sei quem és tu,
nem és de saber,
pois saber-te é te prender-me a ti,
ancorar-te é firmar o encanto,
não quero achar-me nos teus sentidos,
não quero fazer-me pilastra do teu ser,
ah, se tu fosses meus anseios,
ah, se tu fosses a imensidão que não sei o que és,
ah, se teus cabelos tivessem estrelas,
como as que eu avistara,
ah, se tu soubesses navegar-me como um peixe fora d’água,
como uma formiga no mar,
como pingo nos traços,
és tu o sofrido, que eu finco,
que não a de acordar-me nos peitos.
582

O eco da saudade

A saudade ocupa essa vaga no peito, 
um buraco que queima pouco a pouco,
esse espaço preenchido pela saudade, 
é matéria de poesia. 

A saudade faz-me sentir o eco, 
tapeia-me o peito, amarga o doce, 
segura meu coração e aperta, 
espera ele sangrar e lentamente para. 

Essa dor faz quarar a alma, 
- me aplumo ao senti-la -
me comove, me aperta e me custa noites. 

Essa dor que me atrofia o coração, 
é delicada, como linha de algodão, 
essa saudade repousa e me faz vagar em outros corações.  
 
462

Eu sou, ou não sou

Eu era como um código que habitualmente não podia-se decifrar,
Eu era o que ninguém conseguia entender,
Eu era as pazes entre a minhoca e o pássaro ,
Eu era um trovão num lugar de paz.
 
Sou um sonho que não pôde ser concretizado,
Sou como uma alma enviada à terra para descrever o amor,
Logo eu que já falei tanto da boca para fora,
Logo eu que pouco caso já fiz com quem me amou.
 
Tenho sede de laços corporais,
do toque da folha verde ao chão quando o vento bate
Tenho fome de rastros que nunca ouvi, de pele macia respingada,
Tenho urgência dos lábios tocando-se.
 
Pouco me fiz nos rastros,
Pouco procurei-me nos cantos,
Pouco pinto meu eu, porque não há cores
capazes de me tingir tão bem como eu mesma.
 
626

Criança nordestina


Toda infância nordestina, começa numa rede,
balanço pra cá, balanço pra lá,
e essa rede, nunca para de balançar,
não importa a idade, irá sempre ter uma rede pra te sossegar.


A criança joga o pião, a baladeira e a peteca,

corre numa rua de pedra, o calçamento tira tora do pé,
arranca a unha, causa frieira,
quebra até as veias de tanto pular de pé de árvore.

 
Quando a noite bate,
lá vem a mãe mandando passar pra dentro de casa,
nas frieiras da lama, vêm o pingo de vela,
e haja pingo de vela pra dar jeito.

 
Na rua, as crianças se unem pra brincar de pega-pega,
cola, morto-vivo, pique-esconde,
pra fazer amarelinha na rua com pedra,
pra correr dos cachorros da vizinhança.

 
Quando a tarde cai,
e a noite vem chegando, todo mundo passou pra dentro de casa,
na mesa tem o cuscuz, a tapioca e o café com leite,
suco de caju, acerola e laranja, horas depois o sono chega.

 

 
540

O tempo e sua particularidade

Em cada pedaço meu habita o eterno e inexplicável viver,
sem descrição e gentil com o tempo,
sem hostilidades e com a pausa de um beija-flor ao bater das asas,
no fragmento de rochas vermelhas,
que contrasta o amarelo claro do sol.
480

O nordeste é das cabras da peste

Nordestino é povo forte,
vivem na luta, em baixo do sol forte,
nesse estado, estão sorridentes,
nordestino tem sempre a casa aberta,
quem planta e ali mesmo colhe, no quintal de casa,
tem caju, tem manga, tem acerola, tem feijão verde, tem cultura, fala mansa, prosa, poesia, lágrimas e verão,
areia latente, sorriso ardente,
luta diária pelo pão de cada dia,
o café é saboroso,
a moqueca é original,
o escondidinho de carne seca é de esquentar a barriga dos piauienses,
aconchega muita gente, não tem falação,
nordeste não é só Paraíba, nordeste é imenso em extensão, tem tanto estado que não cabem na ponta da língua,
é poesia, é dedicação, ê mistura braba, pense numa população!
590

A bela incógnita

O estrago da pele ao ler os acontecimentos da alma,
talvez não precise estampar esse coração vulgar, árduo ao peito,
volta e meia ei de mudar, pela a textura da pele em busca do equilíbrio terreno,
que controla os abismados,
recupero memórias que encontro em mim,
códigos do corpo,  incógnitas são o sustento do ser humano,
mudanças são precisas, mas em determinados momentos
presente nas transições da vida,
com a participação das respostas, ou dúvidas, belas incógnitas,
em busca do extremo, intenso e fluído sentir, através das milhas que ei de cumprir,
procure no lado claro, escuro e ao bater o olho, duvide,
nada como a solução ao superficial,
nada como a vista do além,
ser profundo ao adentrar no abismo, sem ver ninguém,
crie sentidos, são extraordinárias as incógnitas da vida,
tudo claro e sempre escuro,
procurar por caminhos é natural do ser humano,
basta acreditar na imensurável  beleza da incógnita.




1 311

O derramar no papel

Eu deito todos os dias com minha poesia,
e ela me arrebata e engasga,
as palavras me atenuam,
são agressivas, invadem,
me enlaçam e vão me consumindo,
quando vejo,
é apenas a manhã chegando,
e não é noite, já é dia,
a poesia me faz confundir as horas e as alegrias.
 
 
Minhas mãos me descrevem bem,
carregam no grafite meus caminhos,
e vão me rasgando no verbo,
me despejam num papel qualquer.
 
Eu gosto de me derramar pra poesia,
quando vejo já estou arrebatada,
pregada numa palavra e entregue ao tempo que aquele papel rasurado durar.
 
538

Comentários (14)

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Francisco Guilherme

Você tem muito potencial. Parabéns! Poemas fortes

camila_duarte

Escrita incrível, tocante, memorável <3

joaoeuzebio

O DESGASTAR NÃODEGASTOU TEU BRILHO UM ABRAÇO BELO POEMAS

felixa

Belíssima espiritualidade! Sinto essas vibrações no devaneio de imagens que as palavras me trazem ao lê-la

Thaís Fontenele

Pode ser fernando, eu creio que minha liberdade poética, não é exatamente como denuncia, somente meus devaneios, porém isso vai do subjetivo de cada um que interpretou, beijos!