Persona non grata.
Quedados absortos
No abismo, ignotos.
Vacilantes, malfadados.
Maltrapilhos, derrotados.
Espasmos de fome, regurgitos de ódio.
Distopia, pandemônio, profusão de tristeza.
Difamação, ameaça, ojeriza à pobreza.
Os infames emplumados, ascetas devassos
Os demônios sem chifres ou rabos.
Com fardas, togas e ternos bem cortados.
Arautos de deus, escravos do diabo.
Reis de todos os dissabores.
Mestres e senhores.
De servos exilados.
De toda a paz, de toda a beleza.
Sem nenhuma honra.
Parasitas infames.
Jazem agora e para sempre
Livres de toda a riqueza.
Abortos da natureza.
Gargalhada.
Estou rindo até quase perder os sentidos.
De tanta estupidez, de tamanha repetição.
Rio dos lobos com seus uivos e ganidos.
Mas tenho medo das ovelhas e seus balidos.
Gozo e suspiro com o ruído de um trovão.
Rio dos escravos vaidosos de suas tripas.
Perdidos na luz a procura de escuridão.
Arrotando vaidades após um banquete de carniças.
Empanzinados com a torpeza que alimenta a multidão.
Dos cegos que desvairados fingem o além enxergar.
Profetas de desatinos, abortos da natureza.
Dos moucos alucinados que mentem tudo escutar.
Loucos que iludem os incautos com suas falsas proezas.
E de repente na loucura incontinente.
Brota-me o choro que me afoga inclemente.
Falta-me o ar, me dá vontade de gritar.
Brutal vazio avassala minha mente.
Fruto do riso, frio, torpe e consistente.
Que eu gerei para me auto flagelar.
Cativeiro
Me sequestre.
Me afogue.
Me afague.
Me esmague.
Venha comigo.
Chuva incessante.
Fogo amigo.
Angústia lancinante.
Me torture.
Me devore.
Me despreze.
Me deflore.
Venha comigo.
Chuva incessante.
Nenhum abrigo.
Sonho distante.
Me flagele.
Me mutile.
Me fustigue.
Me humilhe.
Me amordace.
Me beije, me abrace.
Me leve daqui.
Para onde você quiser.
Para junto de ti.
Venha comigo.
Parte de mim.
Chuva incessante.
Gozo sem fim.
Confissão
O que me aprazia tempos atrás
Hoje não me apraz.
O que você dizia.
Quando mentia.
Um boa tarde, boa noite, bom dia.
O esperar pelo que não vem.
O lamentar pelo que não se tem.
É tudo fútil, quase inútil.
Gargalho de desdém.
O que dizer sobre o que passou.
O que não aproveitei.
O pouco que sobrou.
Bebi o caldo deletério do que julguei prazer.
Como saber?
O que me aprazia tempos atrás.
Hoje não me apraz.
Onde você estava.
Com quem caminhava.
Ansiava por mim?
Cavei o começo para enterrar o fim.
Bon appétit.
No banquete antropofágico.
Com a carne dos liberais.
Dos ricos, soberbos boçais.
Vai ter carne para todo mundo.
Que necessite celebrar.
Carne de rico na mesa.
Banquete para a pobreza.
Sangue para se embriagar.
Um petisco para os pobres.
Carne fina, corte nobre.
De bucho cheio arrotar.
No bucho da nossa classe.
Temperadas com pistache.
A carne da realeza.
Os banqueiros, os senhores.
Os infames especuladores.
As tripas de vossa alteza.
Costelas das ricas madames.
Até seus cachorrinhos infames.
Poderão em baixo da mesa.
Comer as sobras do banquete.
Correr em volta com deleite.
No banquete da pobreza.
Vamos nos banquetear.
No almoço e no jantar
Vamos confraternizar.
Estão todos convidados.
Que venham de todos os lados.
Venham todos comungar.
Exceto os pobres vassalos
Que serviram de bom grado
Com dolo de servil gado.
Aos senhores de outrora.
Sua sorte está traçada.
E na próxima fornada.
Chegará a sua hora.
Adeus Atena...
Penso comigo mesmo.
Que quero parar de pensar.
Dá trabalho, custa caro.
Muito peso para aguentar.
Quero parar já com isso.
Não quero mais compromisso.
Pensar ficou para paspalho.
Vou seguir essa manada.
Vou me embrenhar no atalho.
Pois pensar não dá em nada.
Pensar adoece o corpo.
Pensar envelhece a alma.
Prefiro um cérebro oco.
Uma vida vazia e calma.
De que viver no sufoco.
Com a revolta que espalha.
Na alma o padecimento.
No espírito o sofrimento.
Qual tecido de mortalha.
O tombo da fauna cancronarista.
Sai daqui espírito imundo,
Zombeteiro, vagabundo.
Mamador desocupado.
Cancroverme desgraçado.
Miliciano ordinário.
Ou militar doutrinado.
É tudo da mesma corja.
São todos o mesmo gado.
Racista fascista misógino.
Que adora matar mulher.
Covarde encapuzado.
Pregador da falsa fé.
Pusilânime mentiroso.
Entreguista asqueroso.
Catinga do cu do cão.
Arrogante de “Bragança”.
Parasita de herança.
Além de canalha, ladrão.
Tua hora vai chegar.
Tuas contas vais pagar.
Tu que vives a gargalhar.
No abismo mais profundo.
E eu quero de longe escutar.
Teu choro e gemido ecoar.
No além, lá no outro mundo.
E o inferno semear.
Com tantos mil choros assim.
E com o pranto recordar.
Do mal que viveste a praticar.
Sem ter a quem mais apelar.
Tarde demais será o fim.
Exílio
Chega de sofrer.
Nem toda luta acaba em luto.
Chega de chorar
O sofrimento é o suprimento dos fortes.
Para de reclamar
Derrama tuas lágrimas em segredo.
Aos outros não importa teu degredo.
Não és o único nessa terra
A padecer dessa guerra.
Carrega tua alma mutilada para junto de mim.
E vem derramar tuas angústias em minhas entranhas.
Me abraça e dorme comigo até tudo morrer.