Lista de Poemas

Cativeiro

Me sequestre.
Me afogue.
Me afague.
Me esmague.

Venha comigo.
Chuva incessante.
Fogo amigo.
Angústia lancinante.

Me torture.
Me devore.
Me despreze.
Me deflore.

Venha comigo.
Chuva incessante.
Nenhum abrigo.
Sonho distante.

Me flagele.
Me mutile.
Me fustigue.
Me humilhe.

Me amordace.
Me beije, me abrace.
Me leve daqui.
Para onde você quiser.
Para junto de ti.

Venha comigo.
Parte de mim.
Chuva incessante.
Gozo sem fim.

223

Apostasia.

São eles que com suas “fezes”.
Transformam nossas vidas em um inferno.
Foram sempre eles, a mando de quem.
Sabemos muito bem.
Que sempre detiveram o poder.
E não é o diabo, nisso eu posso crer.
Não é mesmo, posso apostar minha alma.
Tolos em suas trincheiras
Ladinos em suas latrinas.
Lobos famintos esperam as ovelhas preguiçosas.
Um surto de fé.
A preguiça, a má vontade.
Orem por mim, peçam por mim.
Recebam em meu nome.
A cobiça, a vaidade.
Dementes e crentes.
Cretinos em suas oficinas
Do púlpito brada um lobo nervoso.
De súbito, curou-se mais um leproso.
Adoração, combustão de enganos.
Um feche de luz banha o rebanho.
Mais um milagre precário.
Um surto de fé.
A preguiça, a má vontade.
Orem por mim, peçam por mim.
Recebam em meu nome.
A luxúria, a santidade.
À procura do lobo
Bale o ordinário.
Inquilino acorrentado no porão do sicário.
Salve-se se puder
Sem jamais perder a fé.

76

Persona non grata.

Quedados absortos
No abismo, ignotos.
Vacilantes, malfadados.
Maltrapilhos, derrotados.
Espasmos de fome, regurgitos de ódio.
Distopia, pandemônio, profusão de tristeza.
Difamação, ameaça, ojeriza à pobreza.
Os infames emplumados, ascetas devassos
Os demônios sem chifres ou rabos.
Com fardas, togas e ternos bem cortados.
Arautos de deus, escravos do diabo.
Reis de todos os dissabores.
Mestres e senhores.
De servos exilados.
De toda a paz, de toda a beleza.
Sem nenhuma honra.
Parasitas infames.
Jazem agora e para sempre
Livres de toda a riqueza.
Abortos da natureza.
144

Confissão

O que me aprazia tempos atrás
Hoje não me apraz.
O que você dizia.
Quando mentia.
Um boa tarde, boa noite, bom dia.
O esperar pelo que não vem.
O lamentar pelo que não se tem.
É tudo fútil, quase inútil.
Gargalho de desdém.
O que dizer sobre o que passou.
O que não aproveitei.
O pouco que sobrou.
Bebi o caldo deletério do que julguei prazer.
Como saber?
O que me aprazia tempos atrás.
Hoje não me apraz.
Onde você estava.
Com quem caminhava.
Ansiava por mim?
Cavei o começo para enterrar o fim.
108

Bon appétit.

No banquete antropofágico.
Com a carne dos liberais.
Dos ricos, soberbos boçais.
Vai ter carne para todo mundo.
Que necessite celebrar.
Carne de rico na mesa.
Banquete para a pobreza.
Sangue para se embriagar.
Um petisco para os pobres.
Carne fina, corte nobre.
De bucho cheio arrotar.

No bucho da nossa classe.
Temperadas com pistache.
A carne da realeza.
Os banqueiros, os senhores.
Os infames especuladores.
As tripas de vossa alteza.

Costelas das ricas madames.
Até seus cachorrinhos infames.
Poderão em baixo da mesa.
Comer as sobras do banquete.
Correr em volta com deleite.
No banquete da pobreza.

Vamos nos banquetear.
No almoço e no jantar
Vamos confraternizar.
Estão todos convidados.
Que venham de todos os lados.
Venham todos comungar.

Exceto os pobres vassalos
Que serviram de bom grado
Com dolo de servil gado.
Aos senhores de outrora.
Sua sorte está traçada.
E na próxima fornada.
Chegará a sua hora.

 

131

Adeus Atena...



Penso comigo mesmo.

Que quero parar de pensar.

Dá trabalho, custa caro.

Muito peso para aguentar.

Quero parar já com isso.

Não quero mais compromisso.

Pensar ficou para paspalho.

Vou seguir essa manada.

Vou me embrenhar no atalho.

Pois pensar não dá em nada.

Pensar adoece o corpo.

Pensar envelhece a alma.

Prefiro um cérebro oco.

Uma vida vazia e calma.

De que viver no sufoco.

Com a revolta que espalha.

Na alma o padecimento.

No espírito o sofrimento.

Qual tecido de mortalha.

60

Exílio

Chega de sofrer.
Nem toda luta acaba em luto.
Chega de chorar
O sofrimento é o suprimento dos fortes.
Para de reclamar
Derrama tuas lágrimas em segredo.
Aos outros não importa teu degredo.
Não és o único nessa terra
A padecer dessa guerra.
Carrega tua alma mutilada para junto de mim.
E vem derramar tuas angústias em minhas entranhas.
Me abraça e dorme comigo até tudo morrer.
96

O tombo da fauna cancronarista.

Sai daqui espírito imundo,
Zombeteiro, vagabundo.
Mamador desocupado.
Cancroverme desgraçado.
Miliciano ordinário.
Ou militar doutrinado.
É tudo da mesma corja.
São todos o mesmo gado.
Racista fascista misógino.
Que adora matar mulher.
Covarde encapuzado.
Pregador da falsa fé.
Pusilânime mentiroso.
Entreguista asqueroso.
Catinga do cu do cão.
Arrogante de “Bragança”.
Parasita de herança.
Além de canalha, ladrão.
Tua hora vai chegar.
Tuas contas vais pagar.
Tu que vives a gargalhar.
No abismo mais profundo.
E eu quero de longe escutar.
Teu choro e gemido ecoar.
No além, lá no outro mundo.
E o inferno semear.
Com tantos mil choros assim.
E com o pranto recordar.
Do mal que viveste a praticar.
Sem ter a quem mais apelar.
Tarde demais será o fim.
102

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments