quimera
Toda a memória é uma quimera vaga:
A cauda, incerta, ora alegre ora triste;
O corpo, saudade; e a cabeça inexiste,
E então, é a nossa a que emprestamos à praga.
E a quimera de incerteza, saudade,
E nós mesmos, a tudo observa e pasma,
Distorcendo o tempo como um fantasma,
E roendo a si mesma com ferocidade.
Mas como amansar tal monstro distinto,
Se a ela damos a cabeça – a razão –,
E ela, impiedosa e ingênua, persiste?
Ora! Basta não alimentar-lhe o instinto,
E a ela dar não a mente – mas emoção,
No mais cauteloso afeto que existe...
o córrego
Suavemente, molho as mãos no fluxo d'água
Do córrego fresco defronte aos bambuzais...
E em lentos acenos submersos, se desfaz
Toda a minha outrora intransigente e atroz mágoa.
Apanho uma haste verde que encontro caída
A um canto – tem uma pensa folha na ponta...
E eis que nela um peixe sonho – e dou-lhe tal vida,
E ao pô-lo a nadar me alegro, e o resto desmonta.
O alto Sol arde em maravilha, e sou criança,
Já me não sinto barbado e tampouco triste...
Neste momento calmo, apenas o que existe
É a água, a folha e o sonho, unidos em temperança.
E de mais nada necessito em este dia...
Basta-me o córrego fresco que me diverte,
E esta haste com folha, que em peixe se converte
Sob o olhar íntimo da minha poesia,
Que nada mais me adentra a causar qualquer dor...
Que nada mais me importa, pois nado também
Junto às formas que de mim nascem – sonhador,
Nas ondas suaves que de tal berço vêm.
matriosca
Como a todos que tateiam os beirais do abismo ocorre,
A mim também chegou a hora de vê-lo por de dentro,
E despenquei subitamente pelas umbrosas profundezas,
Cada instante mais distante do trajeto infindo
Sem passado, sem presente e sem futuro,
Por onde meus passos cansados se arrastavam.
Distancio-me de tudo.
Perde-se-me a luz do Sol real.
E em cada fundo a que minha alma desce,
Sob uma delirante opressão lúgubre,
Só o que existe é o prelúdio de um novo abismo constelado de angústias,
E a náusea de saber do meu desconhecimento
Acerca de em qual estância de mim mesmo me deixei.
Desintegrado do trajeto,
Mergulho na incerteza, debruçado
Na áspera solidão
Qual se dá cerceada em si.
Bem sei que um dia tive pálpebras leves,
Bem sei que um dia meus olhos foram atentos em vigílias e azuis como venezianas
De um lar gentil, que se abrem
Para que se espie a maravilha do mundo,
Cerradas somente em prol de descanso noturno,
Quando a maravilha do mundo dá espaço à maravilha do sonho.
Bem sei...
Bem sei que antes de ciscar ao báratro meus olhos não tinham chumbo nos sonhos,
Me não sentia alheio à paisagem diurna,
E havia notas musicais em cada gesto inaudível,
E não havia vinhas de desencanto me murchando as flores,
E era tudo límpido e a aspereza um reles mau bocado de sonho.
Mal bem sei...
Tenho grandes emaranhados de sensações,
Sonho que sonho dentro de um sonho,
Miseravelmente desperto,
Sentindo na carne o esfacelamento de meu coração palpitante
Ante a realidade desvirtuada e sem propósito,
E, ora dividido entre instantes que se ferem no mesmo tecido triste das horas,
Ora pouco sei se vivo,
Ou se parto para os domínios do não-ser.
(Ah, mas quão afáveis eram as mãos da finada avó de minha infância,
Por sobre meus cabelos puros de menino,
Como uma bênção sem malmequeres!...)
Quantas adagas férreas pesadamente sobrepostas às minhas pálpebras semicerradas...
E vejo pela metade, bem como existo pela metade,
Sem porém deixar de sonhar e sentir integralmente,
– E como me punge a falta de respaldo em vivência às minhas sensações,
Desterradas como crianças a que lhe tomassem os berços quentes em uma noite fria.
Indigesto do cansaço de tanto despencar,
Ao sabor da náusea de não encontrar consolo em quebrar-me ou acalmar-me,
Que me resta senão assistir à cinemática de todas as incompletudes
Que de mim me fiz?
Que me resta senão deixar que cessem os olhos chumbados pelo desgosto
E assistir, de dentro da minha cabeça,
Aos nulos quadros que em hipóteses me foram dados a colorir,
E não obstante, em gestos covardes, os rasguei com meu desprezo?
Que me resta senão chorar sem lágrimas,
No esforço fisicamente dorido da garganta seca,
As borboletas da minha alma que assassinei enquanto casulos?
Que mais posso fazer, dado que está tudo partido,
Senão esfolar as mãos nas ruínas dos lugares que amei e destruí?
Que me resta, piedade, que me resta, ó espasmo, que me resta desengano?
Como hei de resfolegar desta amargura
Se mesmo a superfície e a ideia de se chegar nela me sufocam?
(Mas dentre os escombros de todas as pragas,
Uma criança resiste.
Uma criança precedente ao abismo.
Uma criança com um lírio ao peito.
Uma criança de olhos acesos
Que a tudo espreita com as faces sujas e calmas e me fere de ternuras.
Que de mim, criança?...
Quem és tu para que eu a viva?...)
Grande vacuidade de todas as coisas, diz-me,
Em qual sarjeta ou fundo de garrafa
Abandonei a substância da sua maravilha?
À qual acalanto pernicioso deixei que adormecessem as minhas aspirações humanas?
Em qual verso que não escrevi por não poder conceber, não deixei escrita, inconscientemente, como tinta que se esgotasse,
A grande epifania da minha vida vazia?
Em qual dessas quedas? Em qual dessas estradas, onde?...
(Quantos ecos de quantos me amaram me cingem!
E quantos abraços eu já recebi nos confins da minha mentira desgrenhada!
Quantos estilhaços eu já abracei e remendei parcialmente com as agulhas e linhas do meu descontentamento!
Mas quanto, quanto, não fiz de seus dóceis tecidos, quando em mãos, depósitos de meu escarro...)
Estou lúcido e louco e ranjo os dentes e sinto frio.
Seria isto um prenúncio de morte?
Seria esta passagem entre tais portões obscuros a minha última obra?
Seria este microcosmo de sensações a amálgama da minha sujeira?
Ah, pudera tudo isto ser a nulificação de tudo!
Um tédio cardíaco de um coração que, tendo aprendido a pensar, cessasse de repente, como um dia profetizou o escrivão misantropo.
Antes fosse qualquer coisa, antes fosse um monturo ou espólio,
Que este meio vazio de se sonhar meio-morto sonhos vivíssimos, ou viver meio-vivo sonhos mortíssimos, alternadamente.
Não houvesse nesta queda uma ânsia que fugisse das despetaladas possibilidades,
E ansiasse pela consolidação do absurdo.
Não houvesse esta centelha no pensamento doloroso
Que, estando aquém da queda ou do pouso,
Do sonho ou do despertar,
Da vida ou da morte,
Procura por qualquer coisa que se não possa ver do fundo si,
Tendo por defronte a estrada perdida que é um nada abstrato,
Por detrás, a estrada absolutamente perdida que é um nada inconveniente,
E por dentro todas as estradas fundidas em labirintos decadentes e sem sinalização,
Absurdas,
Estúpidas,
E ainda assim, absurda e estupidamente mais que nada.
(Mas, e a criança?...
Ela brinca ainda com as borboletas,
Nos recantos mornos das ruínas...
Que criança?... Como pode?...
Onde?...
Pudesse eu descobrir onde se albergou,
Pudesse eu compreender como por ela sinto
Neste momento em que me esqueço...)
Expurgo de minha alma, ao menos, nestas linhas degeneradas,
O retrato escarrado dado pela boca do meu penar sem convalescência.
Se pouco, me resta o sabor deste desconhecimento para fazer cirandas mentais.
E a minha própria poesia para rodopiar no ar da eternidade vácua de onde me quedo vagarosamente,
Iluminando estas constelações pobres com as pontuações apoteóticas
De todos os meus tédios e lamentos falsos.
(Amigos esvaídos pelas ampulhetas trincadas,
Que melancolia é vê-los metamorfoseados em retratos opacos...
Mas que grande humanidade me açoita em seus papéis lustrosos...)
Dentro, dentro... Tudo dentro...
Tudo absurdamente dentro de mim...
Tudo transbordando impossivelmente para dentro, sempre para dentro...
Tantos afogamentos e naufrágios,
Tantas dores saborosas como a própria vida dos meus sonhos quebrados,
Tantas desilusões iludidas na virtude da desilusão,
E a consciência da inconsciência pairando como uma mariposa por sobre a decomposição do cadáver de quem me supus.
(Entretanto, como era bonita
A moça que por mim passou em alguma dessas camadas...)
Dentro, tudo dentro, vítreo, uma redoma ao redor do meu coração,
Que, apesar de todos os pesares,
Apesar de todo o desconhecimento esmorecido que cultiva,
Insiste em querer buscar onde abandonou
A verdadeira essência de seu sangue jorrado,
Sem nem sonhar onde ou como.)
(A criança?
Mas existe?...)
E o meu caminho se estende vertiginosamente
Por tudo quanto encontro, desencontro e descaminho,
Tudo lá e nada lá ou aqui – náusea nos internos dos tecidos.
Cada canto em seu canto, calado.
Cada amor em seu laço rasgado.
Cada ser em seu espaço delimitado pelo mundo.
Cada transeunte pelas calçadas de seus caminhos quotidianos.
Cada afeto isolado em cada estilhaço da sensibilidade de cada sensível.
Cada qual em cada lugar de si,
E tudo em lugar nenhum,
Que é o lugar de tudo,
Pois que a pedregosa estrada é um caminho infindo com destino definido
Que a tudo leva no curso do tempo
Ao lugar que lhe pertence.
Mas, e eu?
Onde estou em mim
No curso destas curvas abismais?
frasco (ou, dia dos namorados)
O frasco, espólio do passado,
Recende, porque nunca aberto,
Ao céu longínquo de um lar de sonho
Onde inda não fora sepultado o amor
E beijar era inda um gesto com guarida em vida.
Frasco... Perfume incógnito e impossível,
Deixado a um canto, como os corações
Que, de nunca o terem liberado,
Vão morrendo lentamente no sono de névoa vítrea
Da fragrância encarcerada.
Tantos frascos cheios e empoeirados
No recanto doloroso das prateleiras...
Tantas histórias vaporadas em perfumes
Que dançam no interno do nada dos presentes...
Oh, mas tantas ilusões tentam varrer o pó do jazigo do jamais...
poema vazio
Mergulho no engulho do orgulho,
Desfeito às três da madrugada,
Quando o tudo de antes é nada,
E os narcisos morrem no entulho.
Mergulho e me busco e me dano,
Incapaz de singrar-me são,
A bordo do meu coração,
E no mar do tempo me fano.
Navego, naufrago, repito.
Quantas, oh, quantas embarcações
Partidas nas recordações
Das nuas agruras que fito...
Três da madrugada, dezembro.
Vou reclinado no sofá,
Viajando, entre o que há e não há,
E o que nunca houve, e o que lembro.
Saudoso, me dispo de mim,
Vejo-me nu e inteiro, quebrado
Sobre as areias, constelado
De estrelas de angústia sem fim.
Afinal, que sou senão isto?
Isto, que em si se afoga e verte,
Que em outro que é em si se perverte,
Que vejo, e me perco e me disto?
Sufocantes águas insanas,
Mãos que me afogam e me ferem,
Que me rejeitam e me querem...
Que sou senão águas profanas?
Quatro. Madrugada sem nada.
Cravada na sala de estar,
Minha alma segue a navegar
Presa em meu corpo e estagnada.
Passam as horas, logo, eu passo...
E tudo é um sagaz contratempo;
A minha alma presa no tempo
O meu corpo preso no espaço.
Mergulho no engulho do orgulho,
E o relógio sugere a aurora...
E tudo o que recebo agora
É uma angústia em lágrima, embrulho,
Por sobre os lábios ressequidos,
Que amargos ainda se franzem,
Cobrindo os meus dentes que rangem,
Saudosos de risos perdidos.
Mas tenho inda algo de vivente,
Algum resfôlego no mar...
Algum consolo, algo que dar,
Algo de belo e decadente;
Talvez o couro do navio
– A carne deste coração –,
Nas rimas que disperso em vão
Cá neste poema vazio...
versos noturnos
A noite como flecha me atravessa
O pomo murcho da alma amargurada,
Que, partido, esparrama uma remessa
De sementes poéticas ao nada.
Mas onde medrará, árvore soturna,
Se no vácuo das horas me disperso,
Muito aquém da solidão noturna?
Talvez em vida? Ou na morte? Ou no verso?...
E quando a noite fria se desdobra
Em madrugada, jardim de desgosto,
Que grande lucidez, minha tristeza!
A flecha já varada me faz posto,
E percebo a vil raiz da minha obra
Parir-se no chão da minha incerteza.
náufrago
Com quem me busco se a mim me perco?
E a quem busco se de mim não sei?
Que me pesa tanto à consciência
Se inconsciente ao tempo me dei?
De onde vem esta centelha vaga
De uma humanidade que deixei
Deitada ao chão da decadência
Do sonho que busquei e não encontrei?
Como inda poderei sonhar perdido
Sobre as águas frias do meu esmo,
A bordo do meu ser, barco partido?...
Ó, com qual mão me escrevo qual minha alma?...
E a cada verso, palma a palma,
Sigo, e disto mais do vago eu mesmo.
esqueça-me não
Desaprendidos do ofício de amar,
Abraçam-se, contentes pelo fim.
Resta apenas uma súplica no ar,
E um ao outro diz: “Não se esqueça de mim.”
“Abre-me em teu peito um lugar afável,
Onde o meu carinho lhe permaneça.
Se me despeço é porque é inevitável.
Mas peço, por favor, que não me esqueça.”
E separados, seguem seus caminhos,
Rasgando os elos de seus corações,
Emaranhados, mas não mais viáveis.
Mas, um d’outro jamais quedam sozinhos,
Pois têm os elos das recordações,
Que inda após o fim, são sempre infindáveis.
valsa fria
A madrugada feita de chuva
deixa rastros na janela
diante dos meus olhos hirtos.
E em cada gesto
de cada gota
dança uma abstrata figura
talhada em mármore de sonho.
E tanto dança a grácil figura
que parece me invitar
a também chover
para ser dela par
em aquosa valsa.
E tanto rodopia a melancolia
que as telhas das casas tornam-se teclas
e as calhas das casas tornam-se cordas
e a madrugada torna-se sinfonia
quebrando angústias
em quase prantos.
E tanto, tanto dança...
tanto dança que me dói.
Mas afinal, quem é?
Seria ela qualquer coisa como a vida?
Seria ela qualquer coisa como a poesia?
Seria ela a redentora de todas as madrugadas
que trespassadas feito flechas
vararam, de um lado ao outro, o meu coração?
Seria ela uma centelha de ilusão?...
Não choro.
Não vou.
Não chovo.
E não danço...
Aflito, fito, calo e penso,
madrugada afora e adentro,
e tudo dança e morre a sós, no meu peito.
lembrança
Vem de longe
e de repente.
Pousa
e me canta,
e me ousa,
e me encanta,
feito pássaro turvo
a que julgo belo
e afago
enquanto me devora
a carne
das mãos.
Depois,
enquanto saciado,
vai...
E minhas mãos
sangram
saudades.