Quando a vi última vez, Foi em silêncio Mútuo e absoluto, À imensa distância de um palmo, Em uma fila de adeus Inadvertido.
A gravura infinitamente Nítida e emudecida Dos cabelos louros, Escorridos sobre as costas, Reacendeu No meu coração, A melancolia daquela velha canção...
E permiti-me, quieto, Saudar, novamente, a bela procissão de ilusões Excessivamente azuis... – Azuis como a capa de chuva de ombro rasgado, A qual dependurei Em um lar hipotético.
(Pensei, também, Em um jardim, ao fundo do lar... Onde todas as flores Tinham fragrâncias De cabelos louros E saudades).
E quando ela foi deixando a fila Muito devagar Sem sequer olhar para trás, E o palmo de distância Tornou-se dois, três, quatro, – Uma dízima de palmos – Aquele lar ruiu Absolutamente E foram-se os últimos acordes.
Sorri conformado.
E fui embora.
Alberguei, no entanto, A rasgada capa de chuva no peito, Ao lado do que restou do jardim.
...Sempre amarei esta canção Excessivamente azul.
124
A Porta Entreaberta
No escuro intermédio Entre a certeza Do que foi, E a incerteza Do que seria, Houve uma porta Entreaberta.
Os sussurros De duas intenções Conflitantes Faziam-na ranger Em uma sinfonia De desassossegos Lancinantes.
Rangia... Rangia... Balouçava... Balouçava... E náusea e pavor volviam Ante o dever de lidar Com o ranger e com o balouçar.
...Quando das culminações Nasceu, em mim, Uma terceira intenção, Ríspida por excelência, E à sua luz decidi definir O destino de tal porta,
Senti o coração esmigalhar-se... Mas a luz de um novo dia Nasceu no horizonte.
73
Galeria
Registros amarelecidos e amontoados, Emoldurados em saudades e cismas.
Longínquas e sorridentes silhuetas, Enlaçadas, e incônscias do porvir,
Hoje, esvaídas pelos vãos das ampulhetas, Cujos grãos esparramados de seus fados cá estão,
Em registros mutilados e completamente inúteis, Emoldurados em cismas e saudades.
Sinto falta de quando éramos mais Que meras fotografias.
62
O Sutil Convite da Angústia
Quando caiu a noite,
Os girassóis repousaram cabisbaixos sobre os campos, A cadela se calou, enrodilhada em seu cubículo sujo, Pai, mãe, e irmãos adormeceram pacificamente, As paixões hipotéticas fecharam-se como ostras, Os raios de sol desmaiaram por detrás do horizonte, E toda a vida acalmou-se em seu escuro e em seu silêncio.
E, como a noite fosse uma lâmina de incompreensível ternura, A rasgar feridas profundas em seu coração e consciência, Ele diluiu-se à noite, desesperado.
Desejou encher os olhos do vívido amarelo dos girassóis, Desejou, em uma piedade repentina, acariciar a cadela, Desejou, inefavelmente, os amores de seu pai, mãe e irmãos, Desejou aventurar-se e desventurar-se em ébrias paixões, Desejou, melancolicamente, estirar-se ao Sol, na relva, E, apaixonadamente, adormeceu com a vida a fazer peso na garganta.
E entanto, quando ascendeu o dia, E a vida reergueu-se junto ao cântico dos pássaros, E o Sol reabriu seu amplo leque de possibilidades,
Ele não avistou nenhum girassol. Não acariciou a cadela. Não amou seu pai, mãe, ou irmãos. Não se rasgou de paixões. Tampouco esteve ao Sol.
Sobretudo, Ele não viveu.
E todos os seres e coisas, mesmo as mais inanimadas e poucas, Seguiram a dançar, absolutamente irreverentes, Conforme as guiava o tempo.
60
as nossas canções
não. as nossas canções não tocam nos bares nem nas ruas nem nas festas nem nos carnavais.
e entanto nas ruas nos carnavais nos bares e nas festas as nossas canções tocam em mim.
e eu nunca estou nos carnavais nem nas festas nem nas ruas nem nos bares. não.
estou sempre nos lugares imateriais aos quais me remetem as nossas canções.
1 492
Das Perdas
De todas as perdas, A mais áspera É a do tempo.
— É dentro dela Que estão Todas as outras.
133
Entendimento
Nunca tive em minhas mãos Um passarinho que não me bicasse, Nem em meus olhos Um sonho que não me doesse, Nem em minha vida Um amor que não fenecesse.
E entanto, o entendimento de que, Um dia,
Um passarinho pousou em minhas mãos, E um sonho viveu em meus olhos, E um amor me aconteceu em vida,
Encerra todas as minhas mágoas.
263
O Lirismo do Perdido
Se lhe pudesse ter devorado, No perdido instante, O mais puro lirismo de teus Olhos vertentes e amorosos, Hoje meu coração Não padeceria de fome...
75
O Espelho
Meus dedos tamborilavam Os alvos ombros dela, Enquanto meus olhos fitavam O doiro de sua cabeça.
E a limpidez daqueles cabelos, Ora tocando meus dedos, Era como um espelho Para a minha cobardia.
A angústia, esta boa peralta, Espetava-me o peito E incentivava-me, boba, A abraçar, só abraçar...
De repente, cessou-se a hora. Os dedos saíram dos ombros... Os olhos ficaram no espelho... Abraço não houve.
...Mas trago nos braços O tato desse abraço.
81
Despejo
Os versos que fiz dela ainda estão em mim, E são muito belos para que não os despeje, Ainda que, para tal, tenha de fazê-lo A outros ouvidos que não os dela. É algo como se pôr num jarro torpe O bom vinho pertencido a uma Garrafa nobre, porém, Irrecuperavelmente Estilhaçada.