I - Os Regressos
No sul da Itália, na ilha,
recém-chegado
da Hungria deslumbrante, da abrupta
Mongólia,
o sol sobre o inverno,
o sol sobre o mar do inverno.
Outra vez,
outra vez comecemos,
amor, de novo façamos
um círculo na estrela.
Seja a luz,
seja a transparência.
Façamos
um círculo no pão.
Seja entre todos os homens
a partilha de todos os bens.
Faça-se a justiça,
faremos.
Vida,
me deste
tudo.
Afastaste de mim a solidão,
a solitária lâmpada
e o muro.
Deste-me
amor a mãos-cheias,
batalhas,
alegrias,
tudo.
E a ela me entregaste
apesar de mim.
Fechei os olhos.
Eu não queria vê-la.
Vieste
apesar disso, completa,
completa com todos os dons
e com a ferida que eu mesmo pus
dentro de ti com uma flor sangrenta
que me fez cambalear sem derrubar-me.
I - Terra E Céu
Alturas da Mongólia,
desérticas alturas,
de repente avistei minha pátria,
o Norte Grande, Chile,
a pele seca, arranhada
da terra nos limites do céu.
Vi os montes de areia,
a extensão taciturna:
me recolhi escutando
o vento terrível de Gobi,
as tormentas
no “teto do mundo”
tudo tão parecido
com as regiões
de cobre e sal e céu
de meu país andino.
Depois o vento
trouxe cheiro de camelo,
uma brisa queimada
se transformou em incenso,
a luz deteve
um dedo
sobre a seda
de uma bandeira rubra,
e vi que estava longe
de minha pátria.
Os mongóis já não eram
os errantes
ginetes
do vento e da areia:
eram meus camaradas.
Mostraram-me
seus laboratórios.
Doce ali em cima era
a palavra
metalurgia.
Ali onde os magos
teceram
sabedoria e teias de aranha,
em Durga, negra Durga,
agora reluzia
o novo nome,
Ulan Bator,
o nome
de um capitão do povo.
E era tudo
tão simples.
Os jovens,
os universitários do deserto,
inclinados
sobre os microscópios.
Nas areias frias
da altura reluziam
os novos institutos,
as minas eram perfuradas,
os livros e a música
cantavam no coro
do vento
e o homem
renascia.
Noite - XCII
Amor meu, se morro e tu não morres,
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.
Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão-navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.
Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,
e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio,
só muda de terras e de lábios.
I - a Túnica Verde
Eu nos caminhos,
nos montes andei.
As vinhas me cobriram com sua túnica verde,
provei o vinho e a água.
Em minhas mãos
voou a farinha, resvalou o azeite,
mas
é o povo da Itália
a produção mais fina da terra.
Andei pelas fábricas,
conversei com os homens,
conheço o sorriso
branco dos enegrecidos rostos,
e é como farinha dura este sorriso:
a áspera terra é seu moinho.
Vaguei
entre os pescadores nas ilhas,
conheço o canto
de um homem só,
só nas solidões pedregosas,
subi as redes do pescado,
vi nas ladeiras calcinadas
do sul, rasgar a entranha
da terra mais pobre.
Vi o lugar
em que meu amigo o guerrilheiro Benedetti
imóvel com seu explosivo na mão
deixou ali para sempre
o rosto mas não o sorriso.
Por toda a parte
toquei
a matéria humana
e este contato
foi para mim como terra nutriz.
Eu havia andado muito
conversando com trajes,
saudando chapéus,
dando a mão a luvas.
Andei muito
entre homens sem homem,
mulheres sem mulher,
casas sem portas.
Itália, a medida
do homem simples elevas
como o celeiro ao trigo,
acumulando grãos,
caudal, tesouro puro,
germinação profunda
da delicadeza e a esperança.
Nas manhãs
a mais antiga
das mulheres, cinza cor de oliva,
me trazia
flores de rocha, rosas arrancadas
ao difícil perfil das lombas.
Rosas e azeite verde eram os dons
que eu recolhi, mas
sobretudo
sabedoria e canto
aprendi de tuas ilhas.
Aonde vá levarei em minhas mãos
como se fosse o tato
de uma madeira pura,
musical e fragrante
que guardassem meus dedos,
o passo dos seres,
a voz e a substância,
a luta e o sorriso,
as rosas e o azeite,
a terra, a água, o vinho
de tua terra e teu povo.
Eu não vivi com as estátuas quebradas
nem com os templos cuja dentadura
caiu com suas antigas hierarquias.
Eu não vivi tampouco
só de azul e aroma,
recebi as fundas sacudidas
do oceano
humano:
na maior miséria
dos desmantelados arrabaldes
meti meu coração
como uma rede noturna,
e conheço as lágrimas e a fome
dos meninos,
mas
também conheço o passo
da organização e a vitória.
Eu não deixei meu peito
como uma lira imóvel
desfazer-se em doçura,
mas também caminhei pelas usinas
e sei que o rosto
da Itália mudará. Toquei no fundo
a germinação incessante
do amanhã, e espero.
Eu me banhei nas águas
de um manancial eterno.
Teu Sangue
Sim, sabemos,
sim, sabemos tudo.
Teus filhos mortos e tuas filhas mortas
estivemos contando-os
um por um cada longa noite.
Não há número nem há nome
para tantas dores,
mas tampouco há número
para o que nos deste,
para os dessangrados
heróis que nesta hora
puseram em tuas mãos,
Coréia,
o tesouro orgulhoso,
a liberdade, não só
tua liberdade, Coréia,
mas a liberdade inteira,
a de todos,
a liberdade do homem.
I - Em Berlim a Manhã
Despertei. Era Berlim. Pela janela
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
A Estação Se Inaugura
Quando sob a terra
se preparam
as estações,
as seivas, as raízes,
as sementes,
o fogo,
a água
falam
buscando-se adereços,
polindo a caoba
da castanha futura,
endurecendo o níveo
marfim das amêndoas,
combinando os fios
das trepadeiras,
levantando o açúcar
verde dos cachos,
então
tudo está preparado:
o outono de mãos rubras,
ou a primavera pura,
ou o verão nos rios,
ou o inverno cor de estrela,
e França abre as portas:
inaugura-se o tempo.
Porque ali são mais belos
os bailes das folhas,
a seda crepitante
do outono nos bosques.
Ali as águas sabem
cantar de acordo
com o violino do vento.
Catedral e campina
faz já muitos anos
florescem recebendo
o mesmo beijo dúplice da chuva.
Ali no país de França
nasceu o vinho,
logo na transparência da taça
as palavras acharam
forma e som de cristal maduro
e os homens cantaram.
Ali
sempre os homens cantaram.
Chegou a guerra
como um alcatrão implacável,
mas do luto
a França saltou cantando.
Cantaram os valentes no muro
dos fuzilamentos. Cantaram
os comunistas da Comuna.
Cantou, decapitada,
a filha de Jean Richard. Canta
o povo da França,
enquanto os mercadores
atlânticos
vão preparando a carnificina.
Mas não apenas sala de espaçoso outono
ou primaveril pedraria
és, jardim
da França, rua
da França,
combatente,
escreveste com pedra e sangue
teu nome na muralha
do destino,
e como em ti os rios são seguros
de sua harmoniosa abundância,
assim teu povo,
rumo à plenitude, de margem a margem,
cumulado de lutas e dons,
restaurará, cantando,
a alegria.
Uma Imprensa
Eu vi uma imprensa alçar-se
tão poderosa
como em minha terra um Banco.
Vi tijolo a tijolo
modelar a forma
daquela catedral da palavra,
subir as paredes
e logo
resplandecer as linotipias,
o aço azeitado,
e entrar a rotativa
como o tanque maior
da tipografia.
Era formoso
ver como entrava
a férrea mãe
da luz escrita.
Rechinando
avançava
e a seu lado
como formigas azuis,
os operários.
Cheirava a vento
com azeite férreo,
cheirava a fruta nova
e a silêncio,
cheirava a tempo grande que vinha.
Era formoso,
mais belo que as folhas e as árvores,
mais belo que as flores,
ver como para a altura
caminhava a imprensa.
Ali onde as damas
antigamente
se inclinavam
diante de um pequeno crápula da Europa,
o coroado Carol,
ali crescia como
a catedral do vento
uma imprensa
maior
que um Banco do Ocidente,
maior que uma usina
de fuzis,
mais bela
que um plantel de açucenas acesas,
mais alta
que nossas árvores americanas.
I - Meu Amigo Das Ruas
Pelas ruas de Praga no inverno diariamente
passei junto aos muros da casa de pedra
em que foi torturado Julius Fucik.
A casa não diz nada, pedra cor de inverno,
barras de ferro, janelas surdas.
Mas diariamente passei por ali,
olhei, toquei os muros, busquei o eco,
a palavra, a voz, a pisada pura
do herói.
E assim saiu seu semblante
uma vez, e suas mãos outra tarde,
e logo todo o homem foi acompanhando-me,
foi acompanhando-me,
através da praça Wencelas, um bom amigo,
comigo pelo velho mercado de Havelska,
pelo jardim de Starhov, de onde
Praga se eleva como uma rosa cinzenta.
Tarde - LXI
Trouxe o amor sua cauda de dores,
seu longo raio estático de espinhos,
e fechamos os olhos porque nada,
para que nenhuma ferida nos separe.
Não é culpa de teus olhos este pranto:
tuas mãos não cravaram esta espada:
não buscaram teus pés este caminho:
chegou a teu coração o mel sombrio.
Quando o amor como uma imensa onda
nos estrelou contra a pedra dura,
nos amassou com uma só farinha,
caiu a dor sobre outro doce rosto
e assim na luz da estação aberta
se consagrou a primavera ferida.