V - Chegou a Frota
Quando chega a frota
norte-americana
esfuma-se a bandeira
pastoril
da Itália.
Termina o azul e as guitarras
ali onde estão? Aquela
onda de mel e luz
que envolve
seres, conversas, monumentos,
tudo se esconde, só
as presenças de aço na baía,
lentos répteis,
línguas
malditas da guerra,
e no alto
a bandeira
do invasor
com suas barras de cárcere
e suas estrelas roubadas.
Os prostíbulos
crescem,
e ali de tombo em tombo
os marinheiros civilizadores
transitam,
derrubam-se,
entram aos murros
nos pobres lares da margem,
exatamente como
antes aconteceu em Havana,
no Panamá, em Valparaiso,
na Nicarágua, no México.
Quando parte
a frota
segue um barco pela terra.
Em trens, em caminhões
se dirige a um prostíbulo
ao novo porto em que os barcos cinzentos
vão para defender a cultura.
Ai, que dificuldades!
Faltam hotéis onde
situar às mulheres
de maneira estratégica no porto!
Ah mas para isso
todo o governo se mobilizou.
Corre o senhor de Gásperi vestido
com seu fraque mais tétrico,
e o ministro da polícia
varre os quartos
para que tudo
se desenvolva
com eficácia extrema.
Depois
os senhores ministros italianos
se reúnem,
se felicitam
e o Presidente do Conselho, débil
e funeral como um caixão de morto,
declara com voz suave:
“Ultrapassando as dificuldades
temos cumprido com nossos deveres
para com a frota norte-americana.
Ademais esta tarde, com orgulho
o declaro,
proibi uma exposição de pintura,
expulsei um poeta perigoso
e pus na fronteira
o corpo de balé de Leningrado.
Assim
mostramos como aqui na Itália
defendemos
a cultura cristã”.
Enquanto isso nos portos
a pastoril bandeira,
a claridade da Itália
se esconde, e a sombra
dos encouraçados
dorme na água, como
nos pútridos charcos da selva
esperam os répteis.
No entanto
azul é o céu da Itália,
generosa sua terra pobre,
largo o peito do povo,
valente sua estatura
e o que conto existe,
mas não será eterno.
Noite - XCI
A idade nos cobre como a garoa,
interminável e árido é o tempo,
uma pluma de sal toca teu rosto,
uma goteira corroeu minha roupa:
o tempo não distingue entre minhas mãos
ou um voo de laranjas nas tuas:
fere com neve ou enxadão a vida:
a vida tua que é a vida minha.
A vida minha que te dei se enche
de anos, como o volume de um cacho.
Regressarão as uvas à terra.
E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
esperando, chovendo sobre o pó,
ávido de apagar até a ausência.
Iv - o Anjo Soviétivo
Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.
Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.
Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.
E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
Manhã - XXVI
Nem a cor das dunas terríveis em Iquique,
nem o estuário do Rio Doce da Guatemala,
mudaram teu perfil conquistado no trigo,
teu estilo de uva grande, tua boca de guitarra.
Oh coração, oh minha desde todo o silêncio,
dos cumes onde reinou a trepadeira
até as desoladas planícies da platina,
em toda pátria pura te repetiu a terra.
Mas nem a intratável mão de montes minerais,
nem neve tibetana, nem pedra da Polônia,
nada alterou tua forma de cereal viageiro,
como se greda ou trigo, guitarras ou cachos
do Chile defendessem em ti seu território
impondo o mandato da lua silvestre.
A Gutusso, da Itália
Gutusso, até tua pátria chegou a cor azul
para saber como é o vento e para conhecer a água.
Gutusso, de tua pátria veio a luz
e pela terra foi nascendo o fogo.
Em tua pátria, Gutusso, a lua tem cor
de uvas brancas, de mel, de limões caídos,
mas não há terra,
mas não há pão!
Tu dás a terra, o pão, em tua pintura.
Bom padeiro, dá-me tua mão que levanta
sobre nossas bandeiras a rosa da farinha.
Agrônomo, pintaste a terra que repartes.
Pescador, tua colheita palpitante
sai de teus pincéis rumo às casas pobres.
Mineiro, perfuraste com uma flor de ferro
as escurezas, e voltas com o rosto manchado
para dar-nos a dureza da noite escavada.
Soldado, trigo e pólvora na tela,
defendes o caminho.
Labregos do Sul, rumo à terra, em teus quadros!
Gente sem terra, rumo à estrela terrestre!
Homens sem rostos que em tua pintura têm nome!
Pálpebras do combate que avançam para o fogo!
Pão da luta, punhos da cólera!
Corações de terra coroados
pela eletricidade das espigas!
Grave passo do povo para o amanhã,
para a decisão, para ser homens,
para semear, para ordenhar deixando
em tua pintura seu primeiro retrato.
Estes — como se chamam? Lá dos velhos muros
de tua pátria perguntam os senhores
de grande colar e de maligna espada
— quem são? E de sua rotunda —
seios de açúcar — a imperial Paulina,
nua e fria — quem são?, pergunta.
— Somos a terra, dizem as enxadas.
— Hoje existimos, diz o segador.
— Somos o povo, canta o dia.
Eu te pergunto — estamos sós? E me responde um rosto
que deixaste entre outros camponeses: Não é certo!
Já não é verdade que tu, solitário violino,
ineficaz noturno, fitando-te o espectro,
queres voar sem que os pés conservem
fragmentos, terra, bosques e batalhas!
Ai, com estes sapatos marchei contigo
medindo sementeiras e mercados!
Eu conheci um pintor da Nicarágua. As árvores
ali são tempestuosas e desatam suas flores
como vulcões verdes. Os rios aniquilam
em sua corrente rios sobrepostos
de borboletas e os cárceres
estão cheios de gritos e de feridas!
E este pintor chegou a Paris, e então
pintou um pontinho de cor ocre pálido
numa tela branca, branca, branca,
e a este pôs um marco, marco, marco.
Ele veio ver-me então e eu me senti triste,
porque detrás do pequeno homenzinho e seu ponto
Nicarágua chorava, sem que ninguém a ouvisse,
Nicarágua enterrava suas dores
e suas carnificinas na selva.
Pintura, pintura para nossos heróis, para nossos mortos!
Pintura cor de maçã e de sangue para nossos povos!
Pintura com os rostos e as mãos que conhecemos e que não queremos esquecer! E que surja a cor das reuniões, o movimento das bandeiras, as vítimas da polícia.
Que sejam louvadas e pintadas e escritas
as reuniões de trabalhadores, o meio-dia da greve,
o tesouro dos pescadores, a noite do fogueiro,
os passos da vitória, a tempestade da China,
a respiração ilimitada da União Soviética,
e o homem: cada homem com seu ofício e sua lâmpada, com a segurança de sua terra e seu pão.
Abraço-te, irmão, porque cumpres em tua areia o destino de luta e luz da Itália.
Que o trigo de amanhã
pinte sobre a terra com suas linhas de ouro
a paz do povo.
Então, quando o ar
numa onda remover a colheita do mundo, cantará o pão em todas as campinas.
Agora Sabemos
Sabemos todo o dia,
a noite,
todo o mês sabemos,
todo o ano sabemos.
Noutro tempo o homem
esteve ilhado,
o prazer tapava-lhe os ouvidos,
o céu o reclamava,
chamava-o
o inferno,
e ademais
era obscura
a geografia humana.
Não podia afirmar com precisão
se eram homens
os outros,
os homens das ilhas,
os remotos,
aqueles que de repente
mostravam num dente de elefante
tanta sabedoria
como a porta de uma catedral.
Mas
lá longe
entre nuvens e fumaça,
as colônias,
os vegetais mesmos
se confundiam
com a pele dos sáurios.
Agora
tudo
é diferente.
Pobre amigo,
sabes,
sabes que o homem existe.
Cada dia
te pedem uma assinatura
para arrancar um ser vivente
de um cárcere vivente,
e oprimido
vais conhecendo
os subterrâneos da geografia.
Sabes, sabemos,
cada dia sabemos,
dormindo conhecemos:
já é impossível
cobrir-nos os ouvidos
com o céu.
A terra nos visita
na manhã
e nos dá o desjejum:
sangue e aurora,
trevas ou edifício,
guerra ou agricultura,
e há que escolher, amigo,
cada dia,
sabendo agora,
sabendo melhor agora
onde estão colocadas
tanto a nova vida
como a velha morte.
O Porto Cor de Céu
Quando tu desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os telhados,
as janelas
salpicadas do ouro limoeiro,
do azul ultramar dos navios.
Quando desembarcas
não conheces,
não sabes que detrás das janelas
escutam,
rondam
carcereiros de luto,
retóricos, corretos,
arreiando presos às ilhas,
condenando ao silêncio,
pululando
como esquadras de sombras
sob janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia
sob as outonais cornucopias
buscando portugueses,
rasgando o solo,
destinando os homens à sombra.
O Anjo Dos Rios
Saberás talvez que entre os rios férreos
da América passei. O alargamento
do Paraná me recebeu tremendo.
Era sua lentidão como a lua
que se desborda sobre as campinas
e era povoado de secretos lábios
que iam beijando seu gesto selvagem.
Rios territoriais, filhos rubros
das trevas úmidas da América,
eu vim a vossas águas, ao sangue
que noite e dia a combater areias
transporta vosso nome numeroso,
eu fui um ramo equatorial, uma réstia
de terra tua, de fluvial folhagem.
As longas águas me contaram toda
sua cantata de sangue paraguaio
e de Assunção as torres do martírio:
como muda de tigre a espessura,
como o petróleo mancha o estandarte
e como azeite e lodo se derramam
sobre os pobres mortos da pátria.
E o rio me contou o que os mortos
dizem falando do fundo das raízes,
pedindo ajuda ainda lá na morte,
sustendo bandeiras enterradas
enquanto os estrangeiros do petróleo
bebem com o carrasco no palácio.
Ali entre rios te encontrei, as águas
ainda iam dentro de meu próprio sangue
enumerando páginas do bosque,
e ali, anjo novo, estavas no fundo
da América
e sem reconhecer-te, “Camarada
anjo, és tu?” te disse,
e longas terras, trigos, ameaças,
ondas e pinheiros percorremos juntos
até que eu também sobre os mares
fechei os olhos e voei adormecido.
Meio-Dia - XLVI
Das estrelas que admirei, molhadas
por rios e rocios diferentes,
eu não escolhi senão a que eu amava
e desde então durmo com a noite.
Da onda, uma onda e outra onda,
verde mar, verde frio, ramo verde,
eu não escolhi senão uma só onda:
a onda indivisível de teu corpo.
Todas as gotas, todas as raízes,
todos os fios da luz vieram,
vieram-me ver tarde ou cedo.
Eu quis para mim tua cabeleira.
E de todos os dons de minha pátria
só escolhi teu coração selvagem.
Noite - XCII
Amor meu, se morro e tu não morres,
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.
Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão-navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.
Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,
e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio,
só muda de terras e de lábios.