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Relações e Família

Lobo da Costa

Lobo da Costa

VINGANÇA

Que sinto eu! Desejos de vingança!
De um crime horrível ela tornou-se ré;
e o ídolo que adorei reduzo as cinzas
e sobre as cinzas me coloco em pé.
Mas isso amor será? inda em meu peito
de amor a chama se conserva acesa?
Se acaso a flor que o verme envenenou
conserva ainda a natural beleza?
Mas isso amor será, me atormentando
o cancro da mais bárbara traição?!..
Diz-me a razão: "despreza-a"... porventura
surdo serei às vozes da razão?!!
Mas isso amor não é! Já no meu peito
não há vestígio da flor dessa esperança!
É ódio! É só desprezo!.. indiferença!
Desprezo, indiferença e só vingança!
Vingança eterna do poeta altivo
que já não pode na mulher ter fé!
Que o ídolo que adorou reduz as cinzas
e sobre as cinzas se coloca em pé!
Vingança eterna do poeta atraiçoado,
que não sabe nutrir falsa traição,
mas que sabe punir com indiferença
a mulher que pratica a ingratidão.
Que não sabe, à traição, cravar no peito
ponteagudo punhal envenenado,
mas que sabe dizer perante a ingrata:
Mulher! Eu te desprezo!... estou vingado!
Quem sabe amante ajoelhar-se escravo
a luz dos olhos da mulher que adora,
também sabe, traído, desprezá-la,
te mesmo quando arrependida chora.
Quem sabe, amante, ajoelhar-se escravo,
mas que sabe também perdida a fé.
O ídolo falso reduzir as cinzas
e sobre as cinzas colocar-se em pé!
Mulher! sagrei-te meus cantos
n"aurora da mocidade;
curti amarga saudade
no peito, de crenças nu;
hoje o fado transmudou-se,
e ódio apenas te of"reço
do meu orgulho não desço
ao lodo que vives tu.
Como a estrela que se apaga,
astro sem brilho que morre,
dos meus olhos já não corre
uma lágrima se quer;
julguei-te um anjo da vida,
elevei-te a um céu ridente,
mas, hoje, vejo, impudente
que não passas de mulher!
Esqueceste-me! Que importa!
Serás também esquecida,
mas um dia arrependida
chorarás por mim em vão:
a vida dura bem pouco!
A fortuna também finda!
Espero encontrar-te ainda
rojada ao lodo do chão.
As faces já cadavéricas,
os olhos quase apagados,
e esses lábios desbotados
pelos beijos da traição!
E, ao certo, nem por piedade,
hei de a mão te oferecer!
Estátua - fria mulher
que não tinhas coração!
E decaída e rojada
no precipício dos anos,
verás teus ledos enganos
calçados como uma flor!
Então - múmia ressequida
ao lembrar-te do passado,
verás que negro é teu fado,
quanto vil foi teu amor!
Mas, não! não! Deus te perdoe!
a loucura é que cegou-te!
O ódio que a rir-me dou-te,
lembra o crime que fizeste!
Vive, donzela vaidosa,
vive e espera que o destino
te faça ver quão ferino,
foi o golpe que me deste!
Deus te perdoe!... e amanhã,
quando apagar-se meu nome,
e tu tremeres de fome
nos albergues do sertão:
Se um fantasma seguir-te
e a porta der-te um gemido,
será teu bardo traído,
que morto esquece a traição.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Como Um Presente

Teu aniversário, no escuro,
não se comemora.

Escusa de levar-te esta gravata.
Já não tens roupa, nem precisas.

Numa toalha no espaço há o jantar,
mas teu jantar é o silêncio, tua fome não come.

Não mais te peço a mão enrugada
para beijar-lhe as veias grossas.
Nem procuro nos olhos esfriados
aquela interrogação: está chegando?

Em verdade paras te de fazer anos.
Não envelheces. O último retrato
vale para sempre. É um homem cansado
mas fiel: carteira de identidade.

Tua imobilidade é perfeita. Embora a chuva,
o desconforto deste chão. Mas sempre amaste
o duro, o relento, a falta. O frio sente-se
em "mim, que te visito. Em ti, a calma.

Como compraste calma? Não a tinhas.
Como aceitaste a noite? Madrugavas.
Teu cavalo corta o ar, guardo uma espora
de tua bota, um grito de teus lábios,

sinto em mim teu copo cheio, tua faca,
tua pressa, teu estrondo. . . encadeados.
Mas teu segredo não descubro.
Não está nos papéis
do cofre. Nem nas casas que habitaste.
No casarão azul
vejo a fieira de quartos sem chave, ouço teu passo
noturno, teu pigarro, e sinto os bois
e sinto as tropas que levavas pela Mata
e sinto as eleições (teu desprezo) e sinto a Câmara
e passos na escada, que sobem,
e soldados que sobem, vermelhos,
e armas que te vão talvez matar,
mas que não ousam.
Vejo, no rio, uma canoa,
nela três homens.
“Inda que mal pergunte, o coronel sabe nadar?
Porque esta canoa, louvado Deus, pode virar,
e sua criação nunca mais que o senhor há de encontrar.”
Tua mão saca do bolso uma coisa. Tua voz vai à frente.
"Coronel, me desculpe, não se pode caçoar?"

Vejo-te mais longe. Ficaste pequeno.
Impossível reconhecer teu rosto, mas sei que és tu.
Vem da névoa, das memórias, dos baús atulhados,
da monarquia, da escravidão, da tirania familiar.

És bem frágil e a escola te engole.
Faria de ti talvez um farmacêutico ranzinza, um doutor confuso.
Para começar: uma dúzia de bolos!
Quem disse?
Entraste pela porta, saíste pela janela
— conheceu, seu mestre? — quem quiser que conte outra,
mas tu ganhavas o mundo e nele aprenderias tua sucinta gramática,
a mão do mundo pegaria de tua mão e desenharia tua letra firme,
o livro do mundo te entraria pelos olhos e te imprimiria sua completa e clara ciência,
mas não descubro teu segredo.
É talvez um erro amarmos assim nossos parentes.
A identidade do sangue age como cadeia,
fora melhor rompê-la. Procurar meus parentes na Ásia,
onde o pão seja outro e não haja bens de família a preservar.
Por que ficar neste município, neste sobrenome?
Taras, doenças, dívidas: mal se respira no sótão.
Quisera abrir um buraco, varar o túnel, largar minha terra,
passando por baixo de seus problemas e lavouras, da eterna agência do correio,
e inaugurar novos antepassados em uma nova cidade.
Quisera abandonar-te, negar-te, fugir-te,
mas curioso:
já não estás, e te sinto,
.não me falas, e te converso.
E tanto nos entendemos, no escuro,
no pó, no sono.
E pergunto teu segredo.
Não respondes. Não o tinhas.
Realmente não o tinhas, me enganavas?
Então aquele maravilhoso poder de abrir garrafas sem saca-rolha,
de desatar nós, atravessar rios a cavalo, assistir, sem
[chorar, morte de filho,expulsar assombrações apenas com teu passo duro,
o gado que sumia e voltava, embora a peste varresse as fazendas,
o domínio total sobre irmãos, tios, primos, camaradas,
[caixeiros, fiscais do governo,
[beatas, padres, médicos, men-
[digos, loucos mansos, loucos
[agitados, animais, coisas:então não era segredo?

E tu que me dizes tanto
disso não me contas nada.

Perdoa a longa conversa.
Palavras tão poucas, antes!
É certo que intimidavas.
Guardavas talvez o amor
em tripla cerca de espinhos.

Já não precisas guardá-lo.
No escuro em que fazes anos,
no escuro,
é permitido sorrir.
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Lobo da Costa

Lobo da Costa

AQUELE RANCHINHO (Ranchinho do Sertão)

Tu me perguntas a história
daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos,
coberto por negros ramos
de pessegueiro maninho;
aquele rancho de palha,
aquele triste ranchinho!...

Ai foi um drama de sangue
que aqui se deu...pois não vês!
Repara para as janelas...
o fogo passou por elas!
- Há quantos anos! - Há três.
Contou-me o velho moleiro
há pouco menos de um mês.

Ali morava um velhinho
e mais, um anjo de amor;
criança bela morena
mais formosa que a açucena...
Maria, - a pálida flor,
cujo perfume recende
ainda aos pés do Senhor.

Maria e Vito se amaram
iam seus fados unir,
quando a trombeta da guerra
plangente ecoou na serra
convocando a reunir:
Parte o audaz cavalariano,
porém antes de partir...

Porém antes...entre beijos
juraram constância enfim:
"Se eu morrer numa batalha,
nesta casinha de palha
tu viverás só por mim!..."
A moça beijou-lhe a fronte
e respondeu-lhe: "Pois sim."

Os anos voam! Há tempo
que ela não ri como sói...
chora a triste sertaneja,
quando por fim lhe negreja
uma notícia que dói!
Morrera Vito em combate...
morrera como um herói.

Vestiu luto a pobrezinha,
o velho também vestiu...
Cede por fim a ternura,
e pouco a pouco a tristura
no peito se lhe extinguiu;
se ele morreu foi destino
foi a sorte que o feriu!

Depois correu pela riba
uma nova singular:
Que a bela flor do posteiro
c'o filho de um fazendeiro
já de pronto ia casar;
causou abalo a notícia,
sem que ousassem duvidar.

Uma noite a tempestade
batia pelos cipós,
gemia o vento nos montes
e as águas frias das fontes
desciam com rouca voz...
e no rancho do posteiro
dois noivos dormiam sós.

De repente pela encosta
um cavaleiro desceu;
molhado o poncho brilhava
ao resplendor da saraiva
que resvalava do céu...
era um vulto negro...negro...
trazia enorme chapéu!
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...

À luz de um raio se abre
a porta de par em par!

Sobre o leito precipita-se
o camponês sem temor!
No punho a adaga flutua
e nas mãos aperta a sua
primeira sombra de amor!
Uma luta então se trava,
sendo Vito o vencedor.

"Pérfida! brada o gaúcho,
Vês o teu noivo? Morreu!
Morrerás também ingrata!"
E a fria adaga de prata
bem nos ares suspendeu.

Baixou a mão e três vezes
no alvo seio a embebeu.
No outro dia os destroços
de um rancho via-se então.

O incêndio levara tudo
e fora cúmplice mudo,
fora cúmplice o trovão!
- Aí tens a história que pedes
do ranchinho do sertão.

Poema escrito em Pelotas, sua terra natal, no ano de 1875 e dedicado (como ele mesmo comentou) ao inspirado poeta riograndense Bernardo Taveira.
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