Relações e Família
Gil Vicente
À Farsa seguinte chamam Auto da Índia
À Farsa seguinte chamam Auto da Índia. Foi fundada sobre que üa mulher, estando já embarcado pera a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ia; e ela, de pesar, está chorando e fala-lhe üa sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica Rainha Dona#Lianor. Era de 1509 anos.
Entram nela estas figuras:
Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Maridreo.
MOÇA Jesu! Jesu! que é ora isso?
É porque se parte a armada?
AMA Olhade a mal estreada!
Eu hei-de chorar por isso?
MOÇA Por minh' alma que cuidei
e que sempre imaginei,
que choráveis por noss' amo.
AMA Por qual demo ou por qual gamo,
ali, má hora, chorarei?
Como me leixa saudosa!
Toda eu fico amargurada!
MOÇA Pois por que estais anojada?
Dizei-mo, por vida vossa.
AMA Leixa-m', ora, eramá,
que dizem que não vai já.
MOÇA Quem diz esse desconcerto?
AMA Dixeram-mo por mui certo
que é certo que fica cá.
O Concelos me faz isto.
MOÇA S'eles já estão em Restelo,
como pode vir a pêlo?
Melhor veja cu Jesu Cristo,
isso é quem porcos há menos.
AMA Certo é que bem pequenos
são meus desejos que fique.
MOÇA A armada está muito a pique.
AMA Arreceio#al#de#menos.
Andei na má hora e nela
a amassar e biscoutar,
pera o o demo levar
à sua negra canela,
e agora dizem que não.
Agasta-se-m'o coração,
que quero sair de mim.
MOÇA Eu irei saber s'é assim.
AMA Hajas a minha benção.
Vai Moça e fica a Ama dizendo:
AMA A Santo António rogo eu
que nunca mo cá depare:
não sinto quem não s'enfare
de um Diabo Zebedeu.
Dormirei, dormirei,
boas novas acharei.
São João no ermo estava,
e a passarinha cantava.
Deus me cumpra o que sonhei.
Cantando vem ela e leda.
MOÇA Dai-m' alvíssaras, Senhora,
já vai lá de foz em fora.
AMA Dou-te üa touca de seda.
MOÇA Ou, quando ele vier,
dai-me do que vos trouxer.
AMA Ali muitieramá!
Agora há-de tornar cá?
Que chegada e que prazer!
MOÇA Virtuosa está minha ama!
Do triste dele hei#dó.
AMA: E que falas tu lá só?
MOÇA: Falo cá co'esta cama.
AMA: E essa cama, bem, que há?
Mostra-m'essa roca cá:
siquer fiarei um fio.
Leixou-me aquele fastio
sem ceitil.
MOÇA: Ali eramá!
Todas ficassem assi.
Leixou-lhe pera três anos
trigo, azeite, mel e panos.
AMA: Mau pesar veja eu de ti!
Tu cuidas que não t'entendo?
MOÇA: Que entendeis? ando dizendo
que quem assi fica sem nada,
coma vós, que é obrigada...
Já me vós is entendendo.
AMA: Ha ah ah ah ah ah!
Est'era bem graciosa,
quem se vê moça e fermosa
esperar pola irá#má.
I se vai ele a pescar
meia légua polo mar,
isto bem o sabes tu,
quanto mais a Calecu:
quem há tanto d'esperar?
Melhor, Senhor, sé tu comigo.
À hora de minha morte,
qu'eu faça tão peca sorte.
Guarde-me Deus de tal p'rigo.
O certo é dar a prazer.
Pera que é envelhecer
esperando polo vento?
Quant'eu por mui nécia sento
a que o contrário fizer.
Partem em Maio daqui,
quando o sangue novo atiça:
parece-te que é justiça?
Melhor vivas tu amém,
e eu contigo também.
Quem sobe por essa escada?
CASTELHANO Paz sea n' esta posada.
AMA Vós sois? Cuidei que era alguém.
CASTFLHANO A según esso, soy yo nada.
AMA Bem, que vinda foi ora esta?
CASTELHANO Vengo aquí en busca mía,
que me perdí en aquel día
que os vi hermosa y honesta
y nunca más me topé.
Invisible me torné,
y de mí crudo enemigo;
el cielo, empero es testigo
que de mi parte no sé.
Y ando un cuerpo sin alma,
un papel que lleva el viento,
un pozo de pensamiento,
una fortuna sin calma.
Pese al dia en que nascí;
vos y Dios sois contra mí,
y nunca topo el diablo.
Reís de lo que yo hablo?
AMA Bem sei eu de que me ri.
CASTELHANO Reívos del mal que padezco,
reívos de mi desconcierto,
reívos que tenéis por cierto
que miraros non merezco.
AMA Andar embora.
CASTELHANO Oh, mi vida y mi señora,
luz de todo Portugal,
tenéis gracia especial
para linda matadora.
Supe que vuesso marido
era ido.
AMA Ant' ontem se foi.
CASTELHANO Al diablo que lo doy
el desestrado perdido.
Qué más India que vos,
qué más piedras preciosas,
qué más alindadas cosas,
qué estardes juntos los dos?
No fue él Juan de Çamora.
Que arrastrado muera yo,
si por cuanto Dios crió
os dexara media hora.
Y aunque la mar se humillara
y la tormenta cessara,
y el viento me obedcciera
y el cuarto cielo se abriera,
un momento no os dexara.
Mas como evangelio es esto
que la India hizo Dios,
solo porque yo con vos
pudiesse passar aquesto.
Y solo por dicha mía,
por gozar esta alegria,
la hizo Dios descobrir:
y no ha más que dezir,
por la sagrada María!
AMA Moça, vai àquele cão,
que anda naquelas tigelas.
MOÇA Mas os gatos andam nelas.
CASTELHANO Cuerpo del cielo con vos!
Hablo en las tripas de Dios,
y vos hablaisme en los gatos!
AMA Se vós falais desbaratos,
em que falaremos nós?
CASTELHANO No me hagáis derreñegar
o hazer un desatino.
Vós pensáis que soy devino?
Soy hombre y siento el pesar.
Trayo de dentro un léon,
metido en el coraçón:
tiéneme el alma dañada
de ensangrentar esta espada
en hombres, que es perdición.
Ya Dios es importunado
de las ánimas que le embío;
y no es en poder mío
dexar uno acuchilado.
Dexé bivo allá en el puerto
un hombrazo anto y tuerto
y después fuilo a encontrar;
pcnsó que lo iva a matar,
y de miedo cayó muerto.
AMA Vós queríeis ficar cá?
Agora é cedo ainda;
tornareis vós outra vinda,
e tudo se bem fará.
CASTELHANO A qué hora me mandáis?
AMA Às nove horas e nô mais.
E tirai üa pedrinha,
pedra muito pequenina,
à janela dos quintais.
Entonces vos abrirei
de muito boa vontade:
pois sois homem de verdade
nunca vos falecerei.
CASTELHANO Sabéis qué ganáis en esso?
El mundo todo por vuesso!
Que aunque tal capa me veis,
tengo más que pensaréis:
y no lo toméis em gruesso.
Bésoos las manos, Señora,
voyme con vuessa licencia
más ufano que Florencia.
AMA Ide e vinde muit' embora.
Entram nela estas figuras:
Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Maridreo.
MOÇA Jesu! Jesu! que é ora isso?
É porque se parte a armada?
AMA Olhade a mal estreada!
Eu hei-de chorar por isso?
MOÇA Por minh' alma que cuidei
e que sempre imaginei,
que choráveis por noss' amo.
AMA Por qual demo ou por qual gamo,
ali, má hora, chorarei?
Como me leixa saudosa!
Toda eu fico amargurada!
MOÇA Pois por que estais anojada?
Dizei-mo, por vida vossa.
AMA Leixa-m', ora, eramá,
que dizem que não vai já.
MOÇA Quem diz esse desconcerto?
AMA Dixeram-mo por mui certo
que é certo que fica cá.
O Concelos me faz isto.
MOÇA S'eles já estão em Restelo,
como pode vir a pêlo?
Melhor veja cu Jesu Cristo,
isso é quem porcos há menos.
AMA Certo é que bem pequenos
são meus desejos que fique.
MOÇA A armada está muito a pique.
AMA Arreceio#al#de#menos.
Andei na má hora e nela
a amassar e biscoutar,
pera o o demo levar
à sua negra canela,
e agora dizem que não.
Agasta-se-m'o coração,
que quero sair de mim.
MOÇA Eu irei saber s'é assim.
AMA Hajas a minha benção.
Vai Moça e fica a Ama dizendo:
AMA A Santo António rogo eu
que nunca mo cá depare:
não sinto quem não s'enfare
de um Diabo Zebedeu.
Dormirei, dormirei,
boas novas acharei.
São João no ermo estava,
e a passarinha cantava.
Deus me cumpra o que sonhei.
Cantando vem ela e leda.
MOÇA Dai-m' alvíssaras, Senhora,
já vai lá de foz em fora.
AMA Dou-te üa touca de seda.
MOÇA Ou, quando ele vier,
dai-me do que vos trouxer.
AMA Ali muitieramá!
Agora há-de tornar cá?
Que chegada e que prazer!
MOÇA Virtuosa está minha ama!
Do triste dele hei#dó.
AMA: E que falas tu lá só?
MOÇA: Falo cá co'esta cama.
AMA: E essa cama, bem, que há?
Mostra-m'essa roca cá:
siquer fiarei um fio.
Leixou-me aquele fastio
sem ceitil.
MOÇA: Ali eramá!
Todas ficassem assi.
Leixou-lhe pera três anos
trigo, azeite, mel e panos.
AMA: Mau pesar veja eu de ti!
Tu cuidas que não t'entendo?
MOÇA: Que entendeis? ando dizendo
que quem assi fica sem nada,
coma vós, que é obrigada...
Já me vós is entendendo.
AMA: Ha ah ah ah ah ah!
Est'era bem graciosa,
quem se vê moça e fermosa
esperar pola irá#má.
I se vai ele a pescar
meia légua polo mar,
isto bem o sabes tu,
quanto mais a Calecu:
quem há tanto d'esperar?
Melhor, Senhor, sé tu comigo.
À hora de minha morte,
qu'eu faça tão peca sorte.
Guarde-me Deus de tal p'rigo.
O certo é dar a prazer.
Pera que é envelhecer
esperando polo vento?
Quant'eu por mui nécia sento
a que o contrário fizer.
Partem em Maio daqui,
quando o sangue novo atiça:
parece-te que é justiça?
Melhor vivas tu amém,
e eu contigo também.
Quem sobe por essa escada?
CASTELHANO Paz sea n' esta posada.
AMA Vós sois? Cuidei que era alguém.
CASTFLHANO A según esso, soy yo nada.
AMA Bem, que vinda foi ora esta?
CASTELHANO Vengo aquí en busca mía,
que me perdí en aquel día
que os vi hermosa y honesta
y nunca más me topé.
Invisible me torné,
y de mí crudo enemigo;
el cielo, empero es testigo
que de mi parte no sé.
Y ando un cuerpo sin alma,
un papel que lleva el viento,
un pozo de pensamiento,
una fortuna sin calma.
Pese al dia en que nascí;
vos y Dios sois contra mí,
y nunca topo el diablo.
Reís de lo que yo hablo?
AMA Bem sei eu de que me ri.
CASTELHANO Reívos del mal que padezco,
reívos de mi desconcierto,
reívos que tenéis por cierto
que miraros non merezco.
AMA Andar embora.
CASTELHANO Oh, mi vida y mi señora,
luz de todo Portugal,
tenéis gracia especial
para linda matadora.
Supe que vuesso marido
era ido.
AMA Ant' ontem se foi.
CASTELHANO Al diablo que lo doy
el desestrado perdido.
Qué más India que vos,
qué más piedras preciosas,
qué más alindadas cosas,
qué estardes juntos los dos?
No fue él Juan de Çamora.
Que arrastrado muera yo,
si por cuanto Dios crió
os dexara media hora.
Y aunque la mar se humillara
y la tormenta cessara,
y el viento me obedcciera
y el cuarto cielo se abriera,
un momento no os dexara.
Mas como evangelio es esto
que la India hizo Dios,
solo porque yo con vos
pudiesse passar aquesto.
Y solo por dicha mía,
por gozar esta alegria,
la hizo Dios descobrir:
y no ha más que dezir,
por la sagrada María!
AMA Moça, vai àquele cão,
que anda naquelas tigelas.
MOÇA Mas os gatos andam nelas.
CASTELHANO Cuerpo del cielo con vos!
Hablo en las tripas de Dios,
y vos hablaisme en los gatos!
AMA Se vós falais desbaratos,
em que falaremos nós?
CASTELHANO No me hagáis derreñegar
o hazer un desatino.
Vós pensáis que soy devino?
Soy hombre y siento el pesar.
Trayo de dentro un léon,
metido en el coraçón:
tiéneme el alma dañada
de ensangrentar esta espada
en hombres, que es perdición.
Ya Dios es importunado
de las ánimas que le embío;
y no es en poder mío
dexar uno acuchilado.
Dexé bivo allá en el puerto
un hombrazo anto y tuerto
y después fuilo a encontrar;
pcnsó que lo iva a matar,
y de miedo cayó muerto.
AMA Vós queríeis ficar cá?
Agora é cedo ainda;
tornareis vós outra vinda,
e tudo se bem fará.
CASTELHANO A qué hora me mandáis?
AMA Às nove horas e nô mais.
E tirai üa pedrinha,
pedra muito pequenina,
à janela dos quintais.
Entonces vos abrirei
de muito boa vontade:
pois sois homem de verdade
nunca vos falecerei.
CASTELHANO Sabéis qué ganáis en esso?
El mundo todo por vuesso!
Que aunque tal capa me veis,
tengo más que pensaréis:
y no lo toméis em gruesso.
Bésoos las manos, Señora,
voyme con vuessa licencia
más ufano que Florencia.
AMA Ide e vinde muit' embora.
2 618
2
Sílvio Romero
Oh Ciranda, Oh Cirandinha
(Pernambuco)
Oh, ciranda, oh cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavaleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima,
Sempre com o chapéu na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa boca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é;
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé ...
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré
Atirei com o limãozinho
Na mocinha da janela;
Deu no cravo, deu na rosa
Bateu nos peitinhos dela.
Craveiro, me dá uma cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá um beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãe bem que me disse
Que eu não fosse à fonção,
Qu'eu tinha meu nariz torto,
Servia de mangação.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.210-211. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Oh, ciranda, oh cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavaleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima,
Sempre com o chapéu na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa boca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é;
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé ...
Caranguejo só é peixe
Na vazante da maré
Atirei com o limãozinho
Na mocinha da janela;
Deu no cravo, deu na rosa
Bateu nos peitinhos dela.
Craveiro, me dá uma cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá um beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãe bem que me disse
Que eu não fosse à fonção,
Qu'eu tinha meu nariz torto,
Servia de mangação.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.210-211. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 527
2
Manuel Botelho de Oliveira
Cravo na Boca de Anarda
Quando a púrpura formosa
desse cravo, Anarda bela,
em teu céu se jacta estrela,
senão luzente, olorosa;
equivoca-se lustrosa,
(por não receber o agravo
de ser nessa boca escravo)
pois é, quando o cravo a toca
o cravo, cravo da boca,
a boca, boca de cravo.
desse cravo, Anarda bela,
em teu céu se jacta estrela,
senão luzente, olorosa;
equivoca-se lustrosa,
(por não receber o agravo
de ser nessa boca escravo)
pois é, quando o cravo a toca
o cravo, cravo da boca,
a boca, boca de cravo.
2 645
2
Nuno Júdice
Acordo ortográfico
Gosto do teu rosto exacto,
com o cê bem desenhado,
mesmo quando não se vê,
para te pôr, como laço
nos cabelos, o circunflexo
em que nenhum traço há-de
sair, mesmo que um pacto
sem cê nem concessão te
roube o pê nessa pose
de pura concepção.
com o cê bem desenhado,
mesmo quando não se vê,
para te pôr, como laço
nos cabelos, o circunflexo
em que nenhum traço há-de
sair, mesmo que um pacto
sem cê nem concessão te
roube o pê nessa pose
de pura concepção.
2 604
2
Adélia Prado
O Sempre Amor
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.
2 705
2
Reinaldo Ferreira
Se eu pudesse guardar os teus sentidos
Se eu pudesse guardar os teus sentidos
Numa caixa de prata e de cristal,
Entre conchas do mar, búzios partidos,
Pequenas coisas sem valor real...
Se eu pudesse viver anos perdidos
Contigo, numa ilhota de coral,
Para além dos espaços conhecidos,
Mais longe do que a aurora boreal...
Se eu soubesse que o olhar de toda a gente
Te via, por milagre, repelente,
Que fugiam de ti como da peste...
Nem assim abrandava o meu ciúme,
Que é afinal o natural perfume
Da flor do grande amor que tu me deste.
Numa caixa de prata e de cristal,
Entre conchas do mar, búzios partidos,
Pequenas coisas sem valor real...
Se eu pudesse viver anos perdidos
Contigo, numa ilhota de coral,
Para além dos espaços conhecidos,
Mais longe do que a aurora boreal...
Se eu soubesse que o olhar de toda a gente
Te via, por milagre, repelente,
Que fugiam de ti como da peste...
Nem assim abrandava o meu ciúme,
Que é afinal o natural perfume
Da flor do grande amor que tu me deste.
2 609
2
Florbela Espanca
As Quadras D’Ele Ii
[1]
Digo para mim quando oiço
O teu lindo riso franco,
“São seus lábios espalhando,
As folhas dum lírio branco”.
[2]
Perguntei às violetas
Se não tinham coração,
Se o tinham, por que escondidas
Na folhagem sempre estão?!
Responderam-me a chorar,
Com voz de quem muito amou:
Sabeis que dor os desfez,
Ou que traição os gelou?
[3]
Meu coração, inundado
Pela luz do teu olhar,
Dorme quieto como um lírio,
Banhado pelo luar.
[4]
Quando o olvido vier
Teu amor amortalhar,
Quero a minha triste vida,
Na mesma cova, enterrar.
[5]
Eu sei que me tens amor,
Bem o leio no teu olhar,
O amor quando é sentido
Não se pode disfarçar.
Os olhos são indiscretos,
Revelam tudo que sentem,
Podem mentir os teus lábios,
Os olhos, esses, não mentem.
[6]
Bendita seja a desgraça,
Bendita a fatalidade,
Benditos sejam teus olhos
Onde anda a minha saudade.
Não há amor neste mundo
Como o que eu sinto por ti,
Que me ofertou a desgraça
No momento em que te vi.
[7]
O teu grande amor por mim,
Durou, no teu coração,
O espaço duma manhã,
Como a rosa da canção.
[8]
Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto.
Só falando, faz perder
Todo o juízo a um santo.
[9]
Enquanto eu longe de ti
Ando perdida de zelos,
Afogam-se outros olhares
Nas ondas dos teus cabelos.
[10]
Dizem-me que te não queira
Que tens, nos olhos, traição.
Ai, ensinem-me a maneira
De dar leis ao coração!
[11]
Tanto ódio e tanto amor
Na minha alma contenho;
Mas o ódio inda é maior
Que o doido amor que te tenho.
Odeio teu doce sorriso,
Odeio o teu lindo olhar,
E ainda mais a minh’alma
Por tanto e tanto te amar!
[12]
Quando o teu olhar infindo
Poisa no meu, quase a medo,
Temo que alguém adivinhe
O nosso casto segredo.
Logo minh’alma descansa;
Por saber que nunca alguém
Pode imaginar o fogo
Que o teu frio olhar contém.
[13]
Quem na vida tem amores
Não pode viver contente,
É sempre triste o olhar
Daquele que muito sente.
[14]
Adivinhar o mistério
Da tua alma quem me dera!
Tens nos olhos o Outono,
Nos lábios a Primavera...
Enquanto teus lábios cantam
Canções feitas de luar,
Soluça cheio de mágoa
O teu misterioso olhar...
Com tanta contradição,
O que é que a tua alma sente?
És alegre como a aurora,
E triste como um poente...
Desabafa no meu peito
Essa amargura tão louca,
Que é tortura nos teus olhos
E riso na tua boca!
[15]
Os teus dentes pequeninos
Na tua boca mimosa,
São pedacitos de neve
Dentro dum cálix de rosa.
[16]
O lindo azul do céu
E a amargura infinita
Casaram. Deles nasceu
A tua boca bendita!
Digo para mim quando oiço
O teu lindo riso franco,
“São seus lábios espalhando,
As folhas dum lírio branco”.
[2]
Perguntei às violetas
Se não tinham coração,
Se o tinham, por que escondidas
Na folhagem sempre estão?!
Responderam-me a chorar,
Com voz de quem muito amou:
Sabeis que dor os desfez,
Ou que traição os gelou?
[3]
Meu coração, inundado
Pela luz do teu olhar,
Dorme quieto como um lírio,
Banhado pelo luar.
[4]
Quando o olvido vier
Teu amor amortalhar,
Quero a minha triste vida,
Na mesma cova, enterrar.
[5]
Eu sei que me tens amor,
Bem o leio no teu olhar,
O amor quando é sentido
Não se pode disfarçar.
Os olhos são indiscretos,
Revelam tudo que sentem,
Podem mentir os teus lábios,
Os olhos, esses, não mentem.
[6]
Bendita seja a desgraça,
Bendita a fatalidade,
Benditos sejam teus olhos
Onde anda a minha saudade.
Não há amor neste mundo
Como o que eu sinto por ti,
Que me ofertou a desgraça
No momento em que te vi.
[7]
O teu grande amor por mim,
Durou, no teu coração,
O espaço duma manhã,
Como a rosa da canção.
[8]
Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto.
Só falando, faz perder
Todo o juízo a um santo.
[9]
Enquanto eu longe de ti
Ando perdida de zelos,
Afogam-se outros olhares
Nas ondas dos teus cabelos.
[10]
Dizem-me que te não queira
Que tens, nos olhos, traição.
Ai, ensinem-me a maneira
De dar leis ao coração!
[11]
Tanto ódio e tanto amor
Na minha alma contenho;
Mas o ódio inda é maior
Que o doido amor que te tenho.
Odeio teu doce sorriso,
Odeio o teu lindo olhar,
E ainda mais a minh’alma
Por tanto e tanto te amar!
[12]
Quando o teu olhar infindo
Poisa no meu, quase a medo,
Temo que alguém adivinhe
O nosso casto segredo.
Logo minh’alma descansa;
Por saber que nunca alguém
Pode imaginar o fogo
Que o teu frio olhar contém.
[13]
Quem na vida tem amores
Não pode viver contente,
É sempre triste o olhar
Daquele que muito sente.
[14]
Adivinhar o mistério
Da tua alma quem me dera!
Tens nos olhos o Outono,
Nos lábios a Primavera...
Enquanto teus lábios cantam
Canções feitas de luar,
Soluça cheio de mágoa
O teu misterioso olhar...
Com tanta contradição,
O que é que a tua alma sente?
És alegre como a aurora,
E triste como um poente...
Desabafa no meu peito
Essa amargura tão louca,
Que é tortura nos teus olhos
E riso na tua boca!
[15]
Os teus dentes pequeninos
Na tua boca mimosa,
São pedacitos de neve
Dentro dum cálix de rosa.
[16]
O lindo azul do céu
E a amargura infinita
Casaram. Deles nasceu
A tua boca bendita!
2 666
2
Charles Bukowski
Um Poema Para a Velha Dente-Podre
conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.
Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
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2
Adélia Prado
Grande Desejo
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
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Vladimir Maiakovski
A FLAUTA VÉRTEBRA
(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)
A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
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Lobo da Costa
Adeus
À sombra do Salgueiro
(Fragmentos)
Adeus! eu vou partir. Por que soluças?
Não brilha o pranto, a dor, à luz da festa,
Nem a rosa, por pálida e modesta,
Deve pender a fronte ainda em botão...
Que eu te diga este adeus — manda o destino!
Eu sou náufrago vil, sem norte ou guia,
Açoitado por ventos de agonia
Nas cavernas fatais do coração.
Chorarás no momento em que eu te deixe,
Ou, quando perto eu for da tua herdade,
Passarás uma noite com saudade;
Mas a aurora trará mimos a flux...
E desperta de um sonho que te aflige,
Os passos sulcarás dalmo folguedo,
Esquecida daquele que tão cedo,
Sem amparo caiu vergado à cruz.
Trará o esquecimento alívio às dores;
Muitos dias talvez virão por este,
E das bagas do pranto que verteste
Brotarão os jasmins de um novo amor...
Cantarão no teu lar os passarinhos,
Muitas flores virão com a primavera,
E de mim ficará de uma outra era
Agudo espinho de saudosa dor.
Bem sei... há de custar-te a minha ausência,
Enquanto a ela tu não te acostumas.
Mas, ah! que nunca choram as espumas,
Quando soltas das vagas vão além!
É fatal, bem eu sinto, este momento!
Lisonjeia-me a dor do que não valho...
Olha: o manso gatinho no borralho,
Parece que a me olhar chora também.
Teu cãozinho de neve que tu amas,
No latido gentil, como que implora
Que eu não faça chorar sua senhora,
Ou pedindo-me em prantos, que eu não vá...
Mas quem sabe, se um dia, quando os tempos
De novo me trouxerem a estas plagas,
Não serás, ó cãozinho que me afagas,
O primeiro que então me morderá!
De lágrimas se funde o esquecimento
Com que algema o sentido mais dileto,
Não há, por mais gentil que seja o afeto,
Quem se possa eximir àquela essência.
É gelo que entibia as flores da alma,
É fogo que consome alto destino.
E já vês, ó meu anjo peregrino,
Que não deves chorar a minha ausência.
Irei por sobre as ondas desfolhando
As flores da saudade, uma por uma;
Como elas, que fogem sobre a espuma,
Quem me diz onde irei? onde pairar?
E tu ficas à sombra de teus lares,
Sorrindo de ventura, anjo celeste,
E eu, quem sabe! se à sombra de um cipreste
Num profundo dormir — sem despertar
O tempo que corrói a pedra bruta,
Também destrói os frutos da memória.
Mal fora se, na vida transitória,
Não sucedesse ao golpe a cicatriz.
— Tudo arrasta da vida a vaga irosa,
O Sol que amanheceu baixa ao poente...
Só há uma saudade permanente,
— A saudade da mãe e a do infeliz.
Nunca viste a donzela lacrimosa
Curvada no ladrilho mortuário,
Beijando o esquife negro e solitário
Em que dorme o despojo maternal?
E dois anos após... nem tanto ainda!
Da festa no esplendor vir, orgulhosa,
Passando muitas vezes junto à lousa,
Sem lembrar-se do anjo do casal?
Já viste a triste mãe que um berço embala,
Velando uma criança adormecida,
Consagrando-lhe esperança, amor e vida,
Capaz de se finar se ela morrer;
E após, se a idade veste-a de esplendores,
Tornar-se seu algoz, ser seu patíbulo,
E ir vendê-la nas portas do prostíbulo,
Como rês inocente — a quem mais der?!
Nunca viste o mendigo esfarrapado
Beijar a mão bondosa que o ampara,
E depois, se a fortuna se lhe aclara,
Como Pedro negar ao próprio Cristo?
Nunca viste o impudor — calcando o pejo,
A dor desafiando — gargalhadas,
Em troca de carícias — punhaladas!
Nunca viste? Pois eu já tenho visto.
Só guarda uma saudade quem por fado
Teve a dor do proscrito, a do abandono.
Assim, se eu não morrer, se o eterno sono
Não for além dormir, pomba adorada,
Lembrarei teus encantos e meiguices,
Chorarei de saudade — embora rias,
Cobrindo com meu manto de agonias
Os espinhos da cruz que me foi dada.
E se um dia nas praias do futuro
Rolar o meu cadáver de descrente,
Sepulta-o junto à margem onde a corrente
Só muda quando em fluxo recresce...
Onde os salgueiros têm as mesmas folhas
E é sempre a mesma viração sombria,
Onde só muda o Sol quando anoitece.
(Fragmentos)
Adeus! eu vou partir. Por que soluças?
Não brilha o pranto, a dor, à luz da festa,
Nem a rosa, por pálida e modesta,
Deve pender a fronte ainda em botão...
Que eu te diga este adeus — manda o destino!
Eu sou náufrago vil, sem norte ou guia,
Açoitado por ventos de agonia
Nas cavernas fatais do coração.
Chorarás no momento em que eu te deixe,
Ou, quando perto eu for da tua herdade,
Passarás uma noite com saudade;
Mas a aurora trará mimos a flux...
E desperta de um sonho que te aflige,
Os passos sulcarás dalmo folguedo,
Esquecida daquele que tão cedo,
Sem amparo caiu vergado à cruz.
Trará o esquecimento alívio às dores;
Muitos dias talvez virão por este,
E das bagas do pranto que verteste
Brotarão os jasmins de um novo amor...
Cantarão no teu lar os passarinhos,
Muitas flores virão com a primavera,
E de mim ficará de uma outra era
Agudo espinho de saudosa dor.
Bem sei... há de custar-te a minha ausência,
Enquanto a ela tu não te acostumas.
Mas, ah! que nunca choram as espumas,
Quando soltas das vagas vão além!
É fatal, bem eu sinto, este momento!
Lisonjeia-me a dor do que não valho...
Olha: o manso gatinho no borralho,
Parece que a me olhar chora também.
Teu cãozinho de neve que tu amas,
No latido gentil, como que implora
Que eu não faça chorar sua senhora,
Ou pedindo-me em prantos, que eu não vá...
Mas quem sabe, se um dia, quando os tempos
De novo me trouxerem a estas plagas,
Não serás, ó cãozinho que me afagas,
O primeiro que então me morderá!
De lágrimas se funde o esquecimento
Com que algema o sentido mais dileto,
Não há, por mais gentil que seja o afeto,
Quem se possa eximir àquela essência.
É gelo que entibia as flores da alma,
É fogo que consome alto destino.
E já vês, ó meu anjo peregrino,
Que não deves chorar a minha ausência.
Irei por sobre as ondas desfolhando
As flores da saudade, uma por uma;
Como elas, que fogem sobre a espuma,
Quem me diz onde irei? onde pairar?
E tu ficas à sombra de teus lares,
Sorrindo de ventura, anjo celeste,
E eu, quem sabe! se à sombra de um cipreste
Num profundo dormir — sem despertar
O tempo que corrói a pedra bruta,
Também destrói os frutos da memória.
Mal fora se, na vida transitória,
Não sucedesse ao golpe a cicatriz.
— Tudo arrasta da vida a vaga irosa,
O Sol que amanheceu baixa ao poente...
Só há uma saudade permanente,
— A saudade da mãe e a do infeliz.
Nunca viste a donzela lacrimosa
Curvada no ladrilho mortuário,
Beijando o esquife negro e solitário
Em que dorme o despojo maternal?
E dois anos após... nem tanto ainda!
Da festa no esplendor vir, orgulhosa,
Passando muitas vezes junto à lousa,
Sem lembrar-se do anjo do casal?
Já viste a triste mãe que um berço embala,
Velando uma criança adormecida,
Consagrando-lhe esperança, amor e vida,
Capaz de se finar se ela morrer;
E após, se a idade veste-a de esplendores,
Tornar-se seu algoz, ser seu patíbulo,
E ir vendê-la nas portas do prostíbulo,
Como rês inocente — a quem mais der?!
Nunca viste o mendigo esfarrapado
Beijar a mão bondosa que o ampara,
E depois, se a fortuna se lhe aclara,
Como Pedro negar ao próprio Cristo?
Nunca viste o impudor — calcando o pejo,
A dor desafiando — gargalhadas,
Em troca de carícias — punhaladas!
Nunca viste? Pois eu já tenho visto.
Só guarda uma saudade quem por fado
Teve a dor do proscrito, a do abandono.
Assim, se eu não morrer, se o eterno sono
Não for além dormir, pomba adorada,
Lembrarei teus encantos e meiguices,
Chorarei de saudade — embora rias,
Cobrindo com meu manto de agonias
Os espinhos da cruz que me foi dada.
E se um dia nas praias do futuro
Rolar o meu cadáver de descrente,
Sepulta-o junto à margem onde a corrente
Só muda quando em fluxo recresce...
Onde os salgueiros têm as mesmas folhas
E é sempre a mesma viração sombria,
Onde só muda o Sol quando anoitece.
2 600
2
José Tolentino Mendonça
A Ciência do Amor
O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria
Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam
Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria
Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam
Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam
2 526
2
Artur de Azevedo
Miserável
A Carvalho Junior.
O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.
Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.
Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n'um lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contem-me!
Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
O leito estala... Ela suspira... freme...,
E o miserável dorme a sono solto!...
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.
Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.
Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n'um lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contem-me!
Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
O leito estala... Ela suspira... freme...,
E o miserável dorme a sono solto!...
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 450
2
Adélia Prado
Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
2 392
2
Artur de Azevedo
Uma Valsa
(...)
Valsa ditosa
Vertiginosa
Que delícia nos fazes gozar!
Débil cintura
Com mão impura
O direito nos dás de apertar!
Túmidos seios,
Cerúleos veios
Junto ao peito sentimos arfar!
Há melhor gosto
Que um lindo rosto
A' distância de um beijo fitar?
Quatro imprudentes
Lábios ardentes
Por acaso se podem tocar...
Eternas horas,
Noites e auroras,
Uma valsa devera durar!
(...)
É agora!
Lá vão,
Embora
Cansados!
Danados
Estão!
O moço
Destroço
Na trança
Causou:
O cravo
— Que agravo! —
Na dança
Roubou!
A trança
Rolou!
E todos
Tais modos
Lamentam,
Comentam:
— Audácia!
— Filáucia!
— Tunante!
— Tratante!
Já chovem
Protestos.
— Que horror! —
E o jovem,
Os restos
Beijando
Da flor,
Pulando,
Suando,
Mostrando
Furor,
Não pára,
E, a cara
Metendo,
Vai tendo
Lugar!
A triste
Resiste
Nos braços
Devassos
Do par.
O esposo,
Furioso,
A banda
Não manda
Calar!
A bela
Senhora
Desmaia:
Na sala,
Sem fala
Descai!
Descaia!
Que, embora
Sem ela,
O ovante
Dançante
Lá vai!
— Mas pare!
— Repare!
— Faz mal!
Aviso
De siso
Não val!
— Pisou-me!
— Matou-me!
— Socorro,
Que eu morro
Papai!
— Borracho
Estará?
— Eu acho
Que está!
E a banda
Tão rara,
Nefanda,
Não pára!
O amigo
Co'as pernas
Ligeiras
E eternas
Levando
Consigo
Cadeiras,
Quebrando
Sofás,
A gente
Pisando
Que frente
Lhe faz,
Não cansa
Na dança,
Zás, traz!
E lhe ouço
— Que moço!
Girando,
Gritando,
Dizer:
— Almejo,
Desejo
Dançando,
Valsando
Morrer! —
(...)
Imagem - 01140002
In: AZEVEDO, Artur. Contos em verso. Rio de Janeiro: Garnier, 1910. Poema integrante da série Contos Brasileiros
Valsa ditosa
Vertiginosa
Que delícia nos fazes gozar!
Débil cintura
Com mão impura
O direito nos dás de apertar!
Túmidos seios,
Cerúleos veios
Junto ao peito sentimos arfar!
Há melhor gosto
Que um lindo rosto
A' distância de um beijo fitar?
Quatro imprudentes
Lábios ardentes
Por acaso se podem tocar...
Eternas horas,
Noites e auroras,
Uma valsa devera durar!
(...)
É agora!
Lá vão,
Embora
Cansados!
Danados
Estão!
O moço
Destroço
Na trança
Causou:
O cravo
— Que agravo! —
Na dança
Roubou!
A trança
Rolou!
E todos
Tais modos
Lamentam,
Comentam:
— Audácia!
— Filáucia!
— Tunante!
— Tratante!
Já chovem
Protestos.
— Que horror! —
E o jovem,
Os restos
Beijando
Da flor,
Pulando,
Suando,
Mostrando
Furor,
Não pára,
E, a cara
Metendo,
Vai tendo
Lugar!
A triste
Resiste
Nos braços
Devassos
Do par.
O esposo,
Furioso,
A banda
Não manda
Calar!
A bela
Senhora
Desmaia:
Na sala,
Sem fala
Descai!
Descaia!
Que, embora
Sem ela,
O ovante
Dançante
Lá vai!
— Mas pare!
— Repare!
— Faz mal!
Aviso
De siso
Não val!
— Pisou-me!
— Matou-me!
— Socorro,
Que eu morro
Papai!
— Borracho
Estará?
— Eu acho
Que está!
E a banda
Tão rara,
Nefanda,
Não pára!
O amigo
Co'as pernas
Ligeiras
E eternas
Levando
Consigo
Cadeiras,
Quebrando
Sofás,
A gente
Pisando
Que frente
Lhe faz,
Não cansa
Na dança,
Zás, traz!
E lhe ouço
— Que moço!
Girando,
Gritando,
Dizer:
— Almejo,
Desejo
Dançando,
Valsando
Morrer! —
(...)
Imagem - 01140002
In: AZEVEDO, Artur. Contos em verso. Rio de Janeiro: Garnier, 1910. Poema integrante da série Contos Brasileiros
2 433
2
William Shakespeare
Soneto XV
Se considero quanto cresce vivo,
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;
se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;
então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.
Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que ele te rouba, eu te reponho aqui.
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;
se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;
então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.
Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que ele te rouba, eu te reponho aqui.
2 416
2
Pe. Osvaldo Chaves
A Granja dos Séculos
A Natureza, enamorada, um dia,
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.
E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...
E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...
Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.
E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!
Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...
Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.
O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.
E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...
E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.
Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.
Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.
Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!
Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.
Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!
Granja, 30 de agosto de 1957
Pôs um beijo de amor e simpatia
Na face do sertão.
E esse beijo fecundo fez brotar
Entre as brisas do mar e o fogo do deserto
— Granja — o pátrio rincão.
E hoje, a fim de observá-la,
Detenho o passo, absorto viajor:
A terra é boa. A natureza é bela.
Contemplo-a em derredor:
O rio!...
Olha também:
Também o rio
Represou na Barragem para vê-la.
Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia.
É vassalo, é escravo do oceano,
Não pode demorar-se.
Fita-a por um momento.
E, de despeito,
Precipita-se do alto da parede,
Como o rio do poeta, e cai desfeito
Em vísceras de espuma e de arco-íris.
Um escravo não desposa uma rainha:
Na dor da frustração, em ondas multifárias,
Tristonho e saudoso vai seguindo
Seu destino de águas tributárias...
Para a rainha — um rei!
O mar é um rei.
Mas, feroz e sombrio,
Um tigre de ciúmes,
Tem ciúmes do rio.
Por isso,
Desde mais de dois séculos, vem,
Sorrateiramente,
Duas vezes por dia impreterivelmente,
Para ver a cidade dos seus sonhos.
E, na doce viagem,
Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas,
E um abraço de posse, largo, de oceano...
E a cidade, tão meiga e conjugal,
Sorri-se ao mar.
E em resposta aos carinhos
Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo.
E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar...
Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos,
Vive mais para eles.
E, se um deles morreu,
Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo
Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro,
Porque quer vê-lo já perto do céu.
E eu vejo agora a Granja do passado,
Redivivo, glorioso, retratado
Num cenário de sonho.
Silêncio.
A noite é tropical. O luar é lindo.
E a cidade parece
Uma virgem de mármore dormindo.
O espírito de Lívio vagueia
A vigiar-lhe o sono.
Eternizado em seus vinte e seis anos
Lívio Barreto, pálido, romântico,
Passeia pelas ruas
Vendo em cada janela os cravos brancos
Que as mãos dolentes da prateada lua
Derramam em profusão.
E o poeta vai clamando...
Eu o ouço ainda clamando:
Umbelina! Umbelina! Estela, Estela!
Sonho de adolescente, sonho vão...
Agora,
Somente agora é que o poeta colhe
Os seus "brancos soluços de alvorada,
Os cravos brancos que plantou no coração."
Silêncio para dor.
Meu poeta, silêncio: a Imortalidade
É a tua Verônica...
Há um sussurro de notas, um tropel de acordes,
Trêmulo, soluçante, irradiando
Das paredes que foram Filarmônica.
A lua
Continua
Como prata.
O vento,
Sonolento,
Açoita e zine.
O espírito melódico de Ciarlini
Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons,
Encheu de fosforescências a alma desta terra,
E Granja adora a música.
Beethoven, Rubinstein, Debussy
E Tchaikovski ainda agora
Têm cultores aqui.
O frêmito dos teclados dos pianos
É uma mediunização.
O saxofone lânguido da esquina,
Com o boêmio violão das serenatas,
É vida, é organismo, é evolução.
E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem!
Recordações
De infâncias dos tempos que volveram
Trepam-lhes pelos galhos
E enroscam-se nos troncos
Que as brisas livres dos séculos enegreceram.
O nosso avô menino...
O nosso bisavô...
Paula Pessoa, o Senador...
E o Pessoa Anta
Brincando à sombra deles aguçava
Os instintos de libertação da grande Raça
Para a Confederação do Equador:
"Soldados, apontar! Certeiro ao coração!"
E Granja ia escrevendo a pátria História,
E o padre Mororó, rolando no Passeio,
Contava para a glória
Um companheiro igual.
Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal
De tua religião.
Retas como a verdade,
As torres da Matriz são dois braços alçados:
Um marcando o tempo
E o outro nos apontando a eternidade.
São as torres dois braços levantados
Para o céu,
Em prece vertical.
E o sino badalando é uma grande harpa eólia,
Um tenor de metal.
Um badalo sorrindo
Diz adeus a um anjinho.
Um badalo chorando
Anuncia angustiado:
Era pai e morreu. Era mãe e morreu.
Era irmão, era filho, era esposo e morreu...
Bem... muito além... Bem... muito além...
No céu nos veremos, no céu nos veremos...
Um badalo cantando,
Um badalo chorando,
Um badalo chamando
Para os pêsames,
Para a prece,
Para o amor
E para as núpcias.
Noitários, procissões e a alvorada das bandas...
Vejo o padre Galvão e Vicente Martins:
Almas de impávidas Vestais, almas irmãs,
Guardam o fogo sagrado
De cultura e de fé das gerações cristãs
De cem e mais cem anos.
Granja de um,
Granja de dois,
Granja dos séculos!
Debaixo deste céu tão azul e tão puro,
A minha musa ingênua de criança
É hoje uma canção de inteira confiança
No teu futuro!
Boa terra,
Minha musa criança é hoje um hino
De gratidão a ti:
Granja dos carnaubais, Granja de São José,
Foi no teu seio que eu primeiro
Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé.
Granja de gente boa,
Foi em ti que aprendi a confiar no Povo
Cuja voz de trovão reboará em ecos
Dentro da História, eternos, no porvir.
Granja no Brasil
E a Pátria pelos séculos!
Granja, 30 de agosto de 1957
2 392
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eu Chamei-Te Para Ser a Torre
Eu chamei-te para ser a torre
Que viste um dia branca ao pé do mar.
Chamei-te para me perder nos teus caminhos.
Chamei-te para sonhar o que sonhaste.
Chamei-te para não ser eu:
Pedi-te que apagasses
A torre que eu fui a minha vida os sonhos que sonhei.
Que viste um dia branca ao pé do mar.
Chamei-te para me perder nos teus caminhos.
Chamei-te para sonhar o que sonhaste.
Chamei-te para não ser eu:
Pedi-te que apagasses
A torre que eu fui a minha vida os sonhos que sonhei.
2 332
2
Lídia Jorge
Fado do retorno
Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete
Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa
Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças
Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.
Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro
Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta
Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja.
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete
Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa
Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças
Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.
Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada
Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro
Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta
Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja.
2 477
2
Cruz e Sousa
Temor
Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso.
Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.
Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, - nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.
Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto.
Somente pra os meus beijos.
Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
Não sinta o nosso peso.
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso.
Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.
Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, - nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.
Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto.
Somente pra os meus beijos.
Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
Não sinta o nosso peso.
2 365
2
Manuel Bandeira
O Martelo
As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
2 495
2
Juan Gelman
gotán
Essa mulher se parecia à palavra nunca,
de sua nuca subia um encanto particular
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.
Atenção atenção eu gritava atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.
Dentro de mim explodiram ruídos secos,
caíam aos pedaços a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos parados na solidão.
Quando partiu eu tiritava feito um condenado,
com um punhal brusco me matei,
vou passar a morte inteira estendido com seu nome,
ele moverá minha boca pela última vez.
2 480
2
Florbela Espanca
O Que Alguém Disse
“Refugia-te na Arte” diz-me Alguém
“Eleva-te num voo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.
Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!”
No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem... E n’Aquele
Que é triste, como eu, fico a pensar...
O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol é cor dos olhos d’Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar...
“Eleva-te num voo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.
Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!”
No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem... E n’Aquele
Que é triste, como eu, fico a pensar...
O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol é cor dos olhos d’Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar...
2 451
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