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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Manoel de Barros

Manoel de Barros

Na Rua Mário de Andrade

Na Rua Mário de Andrade
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade

Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...

Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade

Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar

É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar

E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar

Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã

Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves

Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar

Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente

Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira

Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã

(...)

Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará

Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...

(...)

Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —

uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...

Rua Mário de Andrade...


Publicado no livro Poesias (1956).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Teófilo Dias

Teófilo Dias

A Matilha

Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.

Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.

Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos,
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados;
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa, — o gozo — em tua boca.


Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.

In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960
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Aureliano Lessa

Aureliano Lessa

A Tarde

II

Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III

Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.

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In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
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Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

Nhanhã

Um dia apresentaram-me. Ela lia
Num canto do salão.
Deixou cair aos pés o livro, — e ria
Estendendo-me a mão.

Mão de princesa, fina, delicada,
De tão macio alvor
Qual se a talhara alguma boa fada
No cálix de uma flor.

Era no campo. As auras forasteiras
Suspiravam no ar,
Frescas do grato odor das laranjeiras,
Dos raios do luar.

Surda uma voz ao longe ressoava
Em doloridos ais...
Quem canta? perguntei. — Ora! uma escrava!
Disse ela. E nada mais.

Falou-me então das valsas delirantes
De Strauss e do furor
Dos novos cotillons. Disse-me: — Dantes
Valsava-se melhor.

E a voz da escrava como um ai de morte
Adejava ao luar...
— "Li, há dois dias, num jornal da corte
Que a Patti vai chegar:

Será verdade? Ah! quem me dera! A moda
Renascerá enfim!"
E ela, a bater as mãos, ria-se toda
Olhando para mim.

Contemplei melancólico o semblante
Dessa virgem feliz:
Era mais alva que ao luar errante
As pálidas willis;

Era tão doce como a Fantasia
Dum bardo sonhador:
Lamartine colhera uma Harmonia
Nos lábios dessa flor.

E enquanto o seu olhar negro brilhava
Como a onda ao luar,
E a suspirosa aragem derramava
O aroma do pomar;

Enquanto aquela boca fulgurante
Mais pura que os cristais,
Repetia-me a crônica elegante
Dos últimos jornais;

A voz da escrava — trêmula, queixosa,
Expirou na amplidão,
Longa como uma nênia dolorosa,
Triste como a paixão.


Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Livr. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
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