Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Bocage
Aos sócios da Nova Arcádia
Vós, ó Franças, Semedos, Quintanilhas,
Macedos e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas;
Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insossas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas,
Deixai Elmano, que, inocente e honrado
Nunca de vós se lembra, meditando
Em coisas sérias, de mais alto estado.
E se quereis, os olhos alongando,
Ei-lo! Vede-o no Pindo recostado,
De perna erguida sobre vós mijando.
Macedos e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas;
Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insossas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas,
Deixai Elmano, que, inocente e honrado
Nunca de vós se lembra, meditando
Em coisas sérias, de mais alto estado.
E se quereis, os olhos alongando,
Ei-lo! Vede-o no Pindo recostado,
De perna erguida sobre vós mijando.
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Bocage
Aos sócios da Nova Arcádia
Vós, ó Franças, Semedos, Quintanilhas,
Macedos e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas;
Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insossas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas,
Deixai Elmano, que, inocente e honrado
Nunca de vós se lembra, meditando
Em coisas sérias, de mais alto estado.
E se quereis, os olhos alongando,
Ei-lo! Vede-o no Pindo recostado,
De perna erguida sobre vós mijando.
Macedos e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas;
Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insossas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas,
Deixai Elmano, que, inocente e honrado
Nunca de vós se lembra, meditando
Em coisas sérias, de mais alto estado.
E se quereis, os olhos alongando,
Ei-lo! Vede-o no Pindo recostado,
De perna erguida sobre vós mijando.
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Belmiro Braga
Olhando o Rio
A Alencar Duarte
Nas noites claras de luar, costumo
ir das águas ouvir o vão lamento;
e, após o ouvi-las, cauteloso e atento
que o rio também sofre, eis que presumo.
Nesse que leva tortuoso rumo,
que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
e agora desce encachoeirado e a prumo.
O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
ali o deslizar calhau lhe veda;
além, de novo, sem fragor, desliza...
És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
vives tu a gemer de sonho em sonho.
Nas noites claras de luar, costumo
ir das águas ouvir o vão lamento;
e, após o ouvi-las, cauteloso e atento
que o rio também sofre, eis que presumo.
Nesse que leva tortuoso rumo,
que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
e agora desce encachoeirado e a prumo.
O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
ali o deslizar calhau lhe veda;
além, de novo, sem fragor, desliza...
És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
vives tu a gemer de sonho em sonho.
1 381
1
Belmiro Braga
Olhando o Rio
A Alencar Duarte
Nas noites claras de luar, costumo
ir das águas ouvir o vão lamento;
e, após o ouvi-las, cauteloso e atento
que o rio também sofre, eis que presumo.
Nesse que leva tortuoso rumo,
que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
e agora desce encachoeirado e a prumo.
O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
ali o deslizar calhau lhe veda;
além, de novo, sem fragor, desliza...
És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
vives tu a gemer de sonho em sonho.
Nas noites claras de luar, costumo
ir das águas ouvir o vão lamento;
e, após o ouvi-las, cauteloso e atento
que o rio também sofre, eis que presumo.
Nesse que leva tortuoso rumo,
que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
e agora desce encachoeirado e a prumo.
O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
ali o deslizar calhau lhe veda;
além, de novo, sem fragor, desliza...
És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
vives tu a gemer de sonho em sonho.
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Virgílio Fernandes Almeida
A morena sestrosa e os 60 mais
Olho pela janela da sala e vejo apenas ruas completamente nevadas. Ninguém, nem uma alma viva! Apenas o frio, que ocupa cada pedaço dessa região norte da costa leste dos EUA, chamada de Nova Inglaterra. Do lado de dentro, a lembrança do calor tropical invade todos espaços da sala e do coração. O som toca incessantemente os príncipes da música brasileira: Tom Jobim, João Gilberto, Caetano e Gil. Os versos de Ary Barroso, na voz suave e no violão preciso de João Gilberto, ecoam e repicam na minha cabeça: "Brasil, terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente…" Agora, quando preparo o retorno ao Brasil, depois de mais uma longa temporada no exterior, vejo as diferenças culturais entre o nosso país e os EUA pipocarem na minha cabeça.
A revista eletrônica "Slate", que chega no meu computador todo sábado de manhã pela Internet, publicou no início de dezembro uma reportagem intitulada "Os 60 mais". Para a surpresa dos leitores, não estavam ali relacionados as 60 maiores fortunas dos EUA. A lista era no entanto formada pelas 60 maiores doações feitas por pessoas à sociedade americana. Doações destinadas a propiciar avanços nas ciências, nas artes e na cultura. São doações que vão para institutos de pesquisas, universidades, hospitais, museus e bibliotecas principalmente. A lista foi encabeçada pela doação de 100 milhões de dólares, feita por um rico empresário de supermercados do estado de Utah para a criação do Instituto Skaggs (nome do empresário) de pesquisa em biologia química, com o intuito de estudar novos medicamentos. Um doador, que preferiu o anonimato, entregou a Universidade da Califórnia em Los Angeles um cheque de 45 milhões de dólares para a construção de um centro de pesquisa em genética e neurociências. Um casal de Nova York doou ao Museu Metropolitano da cidade quadros de Picasso, Modigliani, Braquer e outros no valor de 60 milhões de dólares. Embora não fazendo juz ao título de homem mais rico dos EUA, Bill Gates, presidente da Microsoft, doou 25 milhões ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Harvard, onde ele foi estudante no início dos anos 70.
Em 1996, as doações dos americanos perfizeram um total de 143,9 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do impacto que essas doações têm no avanço das ciências, da tecnologia e da medicina nos EUA, basta comparar os números acima com o total de gastos em pesquisa feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil em 1994, que foram da ordem de 900 milhões de dólares. Está claro que a sociedade americana não vê o governo como responsável por tudo! Há, por todo os EUA, um forte espírito de comunidade, que nós brasileiros cegamente teimamos em ignorar.
Mas por que tantas doações? Seria apenas generosidade? Claro que não! As razões são várias. Vão desde o caráter filantrópico, até as motivações de natureza moral, religiosa e histórica da sociedade americana. Por exemplo, a revista "Slate" espera que a publicação anual da lista dos "60 mais" acirre o espiríto competitivo entre os ricos americanos, para ver quem vai doar mais no próximo ano. Mas antes de tudo, as doações estão ligadas também à visão e ao pragmatismo do americano. Ou seja, investir naquilo que trará benefícios para a sociedade americana a longo prazo. E os investimentos nas ciências, nas artes, na literatura e na cultura em geral são favas contadas. São indispensáveis para qualquer país que busca uma qualidade de vida e um futuro brilhante para sua população.
A revista eletrônica "Slate", que chega no meu computador todo sábado de manhã pela Internet, publicou no início de dezembro uma reportagem intitulada "Os 60 mais". Para a surpresa dos leitores, não estavam ali relacionados as 60 maiores fortunas dos EUA. A lista era no entanto formada pelas 60 maiores doações feitas por pessoas à sociedade americana. Doações destinadas a propiciar avanços nas ciências, nas artes e na cultura. São doações que vão para institutos de pesquisas, universidades, hospitais, museus e bibliotecas principalmente. A lista foi encabeçada pela doação de 100 milhões de dólares, feita por um rico empresário de supermercados do estado de Utah para a criação do Instituto Skaggs (nome do empresário) de pesquisa em biologia química, com o intuito de estudar novos medicamentos. Um doador, que preferiu o anonimato, entregou a Universidade da Califórnia em Los Angeles um cheque de 45 milhões de dólares para a construção de um centro de pesquisa em genética e neurociências. Um casal de Nova York doou ao Museu Metropolitano da cidade quadros de Picasso, Modigliani, Braquer e outros no valor de 60 milhões de dólares. Embora não fazendo juz ao título de homem mais rico dos EUA, Bill Gates, presidente da Microsoft, doou 25 milhões ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Harvard, onde ele foi estudante no início dos anos 70.
Em 1996, as doações dos americanos perfizeram um total de 143,9 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do impacto que essas doações têm no avanço das ciências, da tecnologia e da medicina nos EUA, basta comparar os números acima com o total de gastos em pesquisa feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil em 1994, que foram da ordem de 900 milhões de dólares. Está claro que a sociedade americana não vê o governo como responsável por tudo! Há, por todo os EUA, um forte espírito de comunidade, que nós brasileiros cegamente teimamos em ignorar.
Mas por que tantas doações? Seria apenas generosidade? Claro que não! As razões são várias. Vão desde o caráter filantrópico, até as motivações de natureza moral, religiosa e histórica da sociedade americana. Por exemplo, a revista "Slate" espera que a publicação anual da lista dos "60 mais" acirre o espiríto competitivo entre os ricos americanos, para ver quem vai doar mais no próximo ano. Mas antes de tudo, as doações estão ligadas também à visão e ao pragmatismo do americano. Ou seja, investir naquilo que trará benefícios para a sociedade americana a longo prazo. E os investimentos nas ciências, nas artes, na literatura e na cultura em geral são favas contadas. São indispensáveis para qualquer país que busca uma qualidade de vida e um futuro brilhante para sua população.
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1
Venceslau Queiroz
Gelo Polar
Role do tempo na limosa penha
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
Um ano mais, e venha mais um ano,
Role este ainda, e mais um outro venha...
Que importa! se no seio teu não medra
Desengano nenhum, nenhum engano,
Pois que ele abriga um coração de pedra.
A indiferença é tanta, é tanta a neve
Que no teu seio álgido se acama,
Do teu amor é tão gelada a chama,
Que a amar-te, estátua, já ninguém se atreve...
E se eu te desse o meu amor, em breve
Sei que se tornaria, altiva dama,
O meu amor, a minha ardente chama,
— Um urso branco uivando sobre a neve.
953
1
Aluízio Medeiros
Viagens
A cavalo de galope
vejo ruínas de casas
sinto o lodo do passado
piso folhas amarelas
enveredo pelo tempo
me perco no latifúndio
devorante do sofrer
úmidos brejos visito
no labirinto das matas
adorantes como dantes
me embrenho e escalante
percorro terras incultas
de léguas, léguas e léguas
mas sou demiurgo então
crio um mundo que não esse
uma vida diferente
a cavalo de galope
nostalgia nostalgia
de não habitadas ver
estas terras estas casas
esta rua Assunção da infância
cirandantes estrelas cantantes
este val raso val Pajeú
este mar este céu claridades
crepitares de ares este dardo
Aldeota morada maloca
este Forte mirante de Praia
Formosa e canos idosos
larvados de lodo martírio
doutrora este tempo de agora
esta vida de agora é doutrora
este val desta vida de agora
vem o vento de sempre vagante
eis-me aqui onde outrora vivi.
vejo ruínas de casas
sinto o lodo do passado
piso folhas amarelas
enveredo pelo tempo
me perco no latifúndio
devorante do sofrer
úmidos brejos visito
no labirinto das matas
adorantes como dantes
me embrenho e escalante
percorro terras incultas
de léguas, léguas e léguas
mas sou demiurgo então
crio um mundo que não esse
uma vida diferente
a cavalo de galope
nostalgia nostalgia
de não habitadas ver
estas terras estas casas
esta rua Assunção da infância
cirandantes estrelas cantantes
este val raso val Pajeú
este mar este céu claridades
crepitares de ares este dardo
Aldeota morada maloca
este Forte mirante de Praia
Formosa e canos idosos
larvados de lodo martírio
doutrora este tempo de agora
esta vida de agora é doutrora
este val desta vida de agora
vem o vento de sempre vagante
eis-me aqui onde outrora vivi.
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1
Vitorino Nemésio
Requiescat
Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
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1
Vitorino Nemésio
Requiescat
Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
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Vivaldo Beldade
Menina de Saia Encarnada
Menina bonitaDe saia encarnada
Que passas na rua
Correndo apressada
Corre contente
Que a vida é ligeira
Menina bonita
De saia encarnada
Os teus pensamentos
E os teus caracóis
Parece que bailam
Contigo na lua,
E a tua cabeça,
ligeira dóninha
Parece mais leve
Que uma andorinha
Corre menina
De saia encarnada
Que a vida pra ti
É sonho e mais nada
Menina bonita
De saia encarnada
Dos lindos cabelos
Das faces rosadas
Corre ligeira
No mundo que sonhas
Que o mundo real
É doutra maneira
Corre menina
Dos cabelos louros
Dos sonhos doirados
Alegre e feliz
Porque este mundo
É mais infeliz
Menina bonita
De saia encarnada
O mundo pra ti
É sonho e mais nada
Que passas na rua
Correndo apressada
Corre contente
Que a vida é ligeira
Menina bonita
De saia encarnada
Os teus pensamentos
E os teus caracóis
Parece que bailam
Contigo na lua,
E a tua cabeça,
ligeira dóninha
Parece mais leve
Que uma andorinha
Corre menina
De saia encarnada
Que a vida pra ti
É sonho e mais nada
Menina bonita
De saia encarnada
Dos lindos cabelos
Das faces rosadas
Corre ligeira
No mundo que sonhas
Que o mundo real
É doutra maneira
Corre menina
Dos cabelos louros
Dos sonhos doirados
Alegre e feliz
Porque este mundo
É mais infeliz
Menina bonita
De saia encarnada
O mundo pra ti
É sonho e mais nada
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Adail Coelho Maia
Janela do Passado
Debruçado na janela do passado,
Ao longe, distingui longos caminhos,
Repletos de cardos e de espinhos,
Em fileiras de um lado e de outro lado!
Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado,
Nos lugares desertos e mesquinhos,
Qual ave a cantar fora dos ninhos,
Num gorjeio saudoso e sufocado...
Se a criancinha encosta-se ao peito,
Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava,
Não me permite aconchegá-la ao peito!...
Espelho sou de luz amortecida;
Foge de mim quem outrora me abraçava,
É uma vida sem vida, a minha vida!...
Ao longe, distingui longos caminhos,
Repletos de cardos e de espinhos,
Em fileiras de um lado e de outro lado!
Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado,
Nos lugares desertos e mesquinhos,
Qual ave a cantar fora dos ninhos,
Num gorjeio saudoso e sufocado...
Se a criancinha encosta-se ao peito,
Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava,
Não me permite aconchegá-la ao peito!...
Espelho sou de luz amortecida;
Foge de mim quem outrora me abraçava,
É uma vida sem vida, a minha vida!...
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1
Adail Coelho Maia
Janela do Passado
Debruçado na janela do passado,
Ao longe, distingui longos caminhos,
Repletos de cardos e de espinhos,
Em fileiras de um lado e de outro lado!
Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado,
Nos lugares desertos e mesquinhos,
Qual ave a cantar fora dos ninhos,
Num gorjeio saudoso e sufocado...
Se a criancinha encosta-se ao peito,
Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava,
Não me permite aconchegá-la ao peito!...
Espelho sou de luz amortecida;
Foge de mim quem outrora me abraçava,
É uma vida sem vida, a minha vida!...
Ao longe, distingui longos caminhos,
Repletos de cardos e de espinhos,
Em fileiras de um lado e de outro lado!
Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado,
Nos lugares desertos e mesquinhos,
Qual ave a cantar fora dos ninhos,
Num gorjeio saudoso e sufocado...
Se a criancinha encosta-se ao peito,
Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava,
Não me permite aconchegá-la ao peito!...
Espelho sou de luz amortecida;
Foge de mim quem outrora me abraçava,
É uma vida sem vida, a minha vida!...
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Aníbal Teófilo
A Cegonha
Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
1 913
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Aníbal Teófilo
A Cegonha
Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?
Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.
Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,
Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.
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Roberto Pontes
Chula da Rendeira
Na ponta dos teus dez dedos
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
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1
Reynaldo Valinho Alvarez
Maracanã
A multidão arqueja. O sol adeja,
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
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Reynaldo Valinho Alvarez
Maracanã
A multidão arqueja. O sol adeja,
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
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Rubem Alves
Caro sr Roberto Marinho
São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.
Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar
Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor.
Explico-me.
Perturbado pelas orgias natalinas, tratei de proteger-me contra a loucura ouvindo música sacra e revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus. Meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo.
O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.
Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido.
Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.
Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.
Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão.
Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição.
Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.
Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou?
Engravidar uma nação inteira?
Eu não tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu.
Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.
O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.
Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra.
Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: in-seminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?
O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão.
Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.
Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação.
Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.
Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido.
Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.
"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...
Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso...
Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?
Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...
Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp.
in Folha de São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.
Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar
Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor.
Explico-me.
Perturbado pelas orgias natalinas, tratei de proteger-me contra a loucura ouvindo música sacra e revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus. Meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo.
O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.
Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido.
Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.
Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.
Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão.
Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição.
Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.
Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou?
Engravidar uma nação inteira?
Eu não tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu.
Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.
O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.
Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra.
Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: in-seminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?
O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão.
Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.
Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação.
Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.
Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido.
Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.
"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...
Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso...
Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?
Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...
Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp.
in Folha de São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.
992
1
Paulo F. Cunha
As faces da solidão
Minha solidão tem mil faces
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
728
1
Paulo F. Cunha
As faces da solidão
Minha solidão tem mil faces
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
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1
Antero de Quental
Noturno
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
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Antero de Quental
Noturno
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
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