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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Baltazar Dias

Baltazar Dias

História da Imperatriz Porcina

Como a noite foi chegada
às horas que anoitecia,
manda que seja levada
por dois homens de valia;
com ela, duas mulheres,
para ir em companhia
para que fosse guardada
sua honra como devia.
Em um navio veleiro,
a Imperatriz se metia
com lágrimas de seus olhos
da terra se despedia.
Chegaram à dita ilha,
à noite do outro dia,
a princesa deixam em terra
com grão choro em demasia.
Tornaram-se com o navio
porque assim fazer cumpria.
Quando a nobre imperatriz
em tal lugar só se via
numa ilha tão deserta,
onde ninguém não vivia
senão bravos animais
de que ela manjar seria,
chorando lágrimas tristes
desta maneira dizia:
― Ó meu nobre Imperador
meu bem e minha alegria
não pouca é vossa lembrança
de quem tanto vos queria.
Quão pouco tempo durou
vossa doce companhia!
Sempre cuidei de vos ver,
algum tempo ou algum dia,
agora por meus pecados,
eu mais nunca vos veria.
Deus perdôe a vosso irmão,
a Virgem Sancta Maria,
que eu lhe perdôo aqui
todo o mal que me fazia.
Ó Senhor, e ó meu pai,
Príncipe e Rei da Ungria,
quão triste vida será
a vossa, sem alegria,
em ouvindo tão má fama
que em Roma de mim corria!
Mais sinto vosso pezar,
que minha grande agonia,
porque morrerei uma vez,
vós morrereis cada dia.
A vossa desonra sinto,
que a morte não a temia;
porque mais há-de temer
que tão sem culpa, morria.
Estas palavras dizendo
mui grande ruido ouvia,
tão terrível e espantoso
que sofrer-se não podia,
Ouvindo isto a Senhora
a força lhe falecia,
como era delicada,
Estes eram animais
em terra logo caía
de muitos que na terra havia,
que tanto que a sentiram
com gram pressa em demasia,
correram para a comerem
cada um qual mais podia.
Antes que a ela chegassem
um resplendor aparecia.
Ficaram todos quedos,
com o temor de uma Senhora
de quem o inferno tremia,
logo vinha com majestade
a Virgem Santa Maria,
para guardar a limpeza
de quem se a ela recorria.
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Baltazar Dias

Baltazar Dias

Auto do Nascimento

VELHA:
Praza deos que má doença
e que má dor despinhela
mau quebranto de canela
má caganeira e corença
mau inchaço de guela;
má caidura de sela
mau couce de ferradura,
má febre e má quentura,
má dentada de cadela.
Má dor de gota coral
e de pedra e de virilha,
e mau vinho, com mau sal
e má sardinha de pilha
que te faça embebedar.
E má cor de ourinar
que te falte na bexiga
e mau frio na barriga
mau quebranto no padar,
mau trabalho, má fadiga.
Hua velha amargurada
que anda em vias de parir,
com a barriga pejada
diz que por força há-de ir
por tal neve e tal geada.
Má dor de praga raivada
venha pelo Imperador,
pois tal costume quis pôr
má corença abreviada
lhe entre no salvanor.
Que farei triste, coitada
com tal trabalho e marteiro,
má dor de gata escaldada
lhe atravesse o pousadeiro,
permeta da comiada.
Mau inchaco de queixada
má dor de dente queixal,
mal trabalho corporal
que lhe entre na buchada
que o môa como sal.
Quero me ora assentar
que já me não posso ter,
e a quem me assim faz cansar
inda o veja deitar
para nunca mais se erguer.
Que não abasta inscrever
senão pagar-lhe tributo
os que não têm que comer;
mau proveito e mau fruito,
lhe faça quanto tiver.

Hir-se-á a Velha e entra Nossa Senhora e Joseph e diz:
NOSSA SENHORA
Meu esposo mui amado
se a vós vos parece bem
pelo que está ordenado
eu tenho determinado
que vamos nós a Belém.
Bem sabeis que nos convém
de irmos a obedecer
a César e seu poder,
pois que não fica ninguém
que se não vá inscrever.
E, portanto, ordenemos
esposo, de caminhar,
e, também determinemos
do tributo lhe pagar
desta pobreza que temos.
JOSEPH
Senhora, mui bem faremos
mas de que se pagará?
NOSSA SENHORA
O nosso boi venderemos
que depois Deus nos dará
com que nos remediemos.
JOSEPH
Senhora, pois assim é,
vamos, não tardemos nada;
mas é comprida jornada,
não podereis ir a pé,
porque estais muito pejada.
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