Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Antonio Fernando De Franceschi
Esteio
te palmilho
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 399
Ronald de Carvalho
Anoitece
Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
2 035
Antonio Fernando De Franceschi
Geografia
"... Touch me, touch the palm of your hand
to my body as I pass..."
Walt Whitman
O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha
Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
to my body as I pass..."
Walt Whitman
O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha
Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 389
Antonio Fernando De Franceschi
Geografia
"... Touch me, touch the palm of your hand
to my body as I pass..."
Walt Whitman
O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha
Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
to my body as I pass..."
Walt Whitman
O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha
Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 389
Álvaro Moreyra
Elegia da Bruma
Réquiem do Pôr-do-Sol... A Tarde ajoelha e canta,
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
2 028
Sérgio Milliet
XXIX [Eu tinha encontro marcado
Eu tinha encontro marcado
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?
Publicado no livro Poemas (1937).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.117. (Autores brasileiros, 19
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?
Publicado no livro Poemas (1937).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.117. (Autores brasileiros, 19
1 492
Sérgio Milliet
Saudade
Quero cantar a saudade da pátria apesar do
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
1 849
Sérgio Milliet
Saudade
Quero cantar a saudade da pátria apesar do
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
1 849
Sérgio Milliet
Saudade
Quero cantar a saudade da pátria apesar do
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
tema ser romântico
Mas faz tanto frio hoje em Paris
tanto vento
faz tanta solidão nas ruas mascaradas!
Tenho a alma pesada
a bronquite cantando no peito como uma gaita de carnaval
e faz tanta tristeza no ambiente lamentável
do meu quarto de hotel
Cantar
O pássaro que se pousa num galho
todo molhado coitado
constata que a chuva cai
sacode-se e canta
Mas eu tenho medo dos ironistas
não ouso fazer como o pássaro
não creio em Deus como ele ingenuamente
e em vez de cantar ou de chorar
eu me rio
e para que me acreditem poeta modernista
falo de trilhos
de automóveis
e de estradas de rodagem
Mas como me pesa esse exotismo do aço
e que vontade invencível de rimar versinhos de amor
de me deixar embalar pela música pobre dos alexandrinos
Necessidade de simplificação
de reintegração como diria o Graça
A tristeza passou
e a saudade também
Foi um acesso de febre
ameaça de gripe
lembrança do restaurante onde comi esta noite
um bife nervoso
no meio do vozerio ê ê ê ê on on ê a ê on ê
e dentro de mim um ão invomitável...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.72-73. (Autores brasileiros, 19
1 849
Menotti del Picchia
Germinal - 5
Juca Mulato cisma. Olha a lua e estremece.
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
1 783
Menotti del Picchia
Germinal - 5
Juca Mulato cisma. Olha a lua e estremece.
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
Dentro dele um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos,
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...
Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas
Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado
como os áureos portais de um palácio encantado!...
Mas a mágoa que ronda a alegria de perto
entra no coração sempre que o encontra aberto...
Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.21. (Prestígio
1 783
Paulo Eiró
Surpresa
Achei-a reclinada, em desalinho
(Só de nisso pensar, quase endoideço!),
Tal como pombo cândido e travesso
Por entre a loura palha de seu ninho.
Ergue a cabeça e, vendo-me sozinho,
Aos ombros lança um chale pelo avesso,
Gritando-me: "Sai!" Não obedeço,
Que um "Ficai!" em seus olhos adivinho.
Delirante, o seu peito mal composto
Aperto, beijo os dedos de veludo,
A espraiada madeixa, o belo rosto.
Diz-me corando, enquanto a adoro mudo,
E sua voz penetra-me de gosto:
"Já que parte entrevistes, dou-vos tudo!".
Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
(Só de nisso pensar, quase endoideço!),
Tal como pombo cândido e travesso
Por entre a loura palha de seu ninho.
Ergue a cabeça e, vendo-me sozinho,
Aos ombros lança um chale pelo avesso,
Gritando-me: "Sai!" Não obedeço,
Que um "Ficai!" em seus olhos adivinho.
Delirante, o seu peito mal composto
Aperto, beijo os dedos de veludo,
A espraiada madeixa, o belo rosto.
Diz-me corando, enquanto a adoro mudo,
E sua voz penetra-me de gosto:
"Já que parte entrevistes, dou-vos tudo!".
Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 725
Paulo Eiró
Surpresa
Achei-a reclinada, em desalinho
(Só de nisso pensar, quase endoideço!),
Tal como pombo cândido e travesso
Por entre a loura palha de seu ninho.
Ergue a cabeça e, vendo-me sozinho,
Aos ombros lança um chale pelo avesso,
Gritando-me: "Sai!" Não obedeço,
Que um "Ficai!" em seus olhos adivinho.
Delirante, o seu peito mal composto
Aperto, beijo os dedos de veludo,
A espraiada madeixa, o belo rosto.
Diz-me corando, enquanto a adoro mudo,
E sua voz penetra-me de gosto:
"Já que parte entrevistes, dou-vos tudo!".
Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
(Só de nisso pensar, quase endoideço!),
Tal como pombo cândido e travesso
Por entre a loura palha de seu ninho.
Ergue a cabeça e, vendo-me sozinho,
Aos ombros lança um chale pelo avesso,
Gritando-me: "Sai!" Não obedeço,
Que um "Ficai!" em seus olhos adivinho.
Delirante, o seu peito mal composto
Aperto, beijo os dedos de veludo,
A espraiada madeixa, o belo rosto.
Diz-me corando, enquanto a adoro mudo,
E sua voz penetra-me de gosto:
"Já que parte entrevistes, dou-vos tudo!".
Poema integrante da série Primícias Poéticas, 1853/1854.
In: SCHMIDT, Affonso. A vida de Paulo Eiró: seguida de uma coletânea inédita de suas poesias. Org. pref. e anotada José A. Gonsalves. Il. Wasth Rodrigues. São Paulo: Ed. Nacional, 1940. p.151-270. (Biblioteca pedagógica brasileira. Série 5. Brasiliana, 182
1 725
Fontoura Xavier
Flor da Decadência
Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois de um som cavado — a enxada do coveiro!
Minha alma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69. Poema integrante da série Ruínas
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois de um som cavado — a enxada do coveiro!
Minha alma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69. Poema integrante da série Ruínas
1 295
Fontoura Xavier
Flor da Decadência
Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois de um som cavado — a enxada do coveiro!
Minha alma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69. Poema integrante da série Ruínas
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois de um som cavado — a enxada do coveiro!
Minha alma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.69. Poema integrante da série Ruínas
1 295
Santa Rita Durão
Canto VI [É fama então que a multidão formosa
XXXVI
É fama então que a multidão formosa
Das damas, que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Entre as ondas com ânsia furiosa,
Nadando, o esposo pelo mar seguiam,
E nem tanta água que flutua vaga
O ardor que o peito tem, banhando apaga.
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que as mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
XXXVIII
"Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?
(...)
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se nágua.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.148-149. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VI" é composto de 79 estrofe
É fama então que a multidão formosa
Das damas, que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Entre as ondas com ânsia furiosa,
Nadando, o esposo pelo mar seguiam,
E nem tanta água que flutua vaga
O ardor que o peito tem, banhando apaga.
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que as mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
XXXVIII
"Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?
(...)
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se nágua.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.148-149. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VI" é composto de 79 estrofe
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Santa Rita Durão
Canto VI [É fama então que a multidão formosa
XXXVI
É fama então que a multidão formosa
Das damas, que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Entre as ondas com ânsia furiosa,
Nadando, o esposo pelo mar seguiam,
E nem tanta água que flutua vaga
O ardor que o peito tem, banhando apaga.
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que as mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
XXXVIII
"Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?
(...)
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se nágua.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.148-149. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VI" é composto de 79 estrofe
É fama então que a multidão formosa
Das damas, que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Entre as ondas com ânsia furiosa,
Nadando, o esposo pelo mar seguiam,
E nem tanta água que flutua vaga
O ardor que o peito tem, banhando apaga.
XXXVII
Copiosa multidão da nau francesa
Corre a ver o espetáculo assombrada;
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que as mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
XXXVIII
"Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas apagar tanto amor com tédio e asco...
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?
(...)
XLII
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo:
"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se nágua.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.148-149. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VI" é composto de 79 estrofe
3 374
Armindo Trevisan
Guitarra
Guitarra sobre o lençol
teu corpo
guitarra de ponteio
que te desata à sombra
de outra sombra
guitarra de fome
que espanta
os pássaros de teu nome
oh guitarra
invisível garra
em que te derramas
para o bebedor
de tua flama
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
teu corpo
guitarra de ponteio
que te desata à sombra
de outra sombra
guitarra de fome
que espanta
os pássaros de teu nome
oh guitarra
invisível garra
em que te derramas
para o bebedor
de tua flama
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
1 273
Lara de Lemos
A Teia
A teia se tece
de grade sem ferro
do negro sem fresta
do muro sem pedra.
A teia se tece
do árduo da espera
do aço da espada
e sua ameaça.
A teia se tece
da fala da insídia
da rede que enreda
na mesma cilada.
A teia se tece
de liça, contenda
açoites, cobiça
invídia, solércia.
A teia se tece
de nomes antigos
de amigos perdidos
no elo das celas.
Poema integrante da série Para um Rei Surdo.
In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
de grade sem ferro
do negro sem fresta
do muro sem pedra.
A teia se tece
do árduo da espera
do aço da espada
e sua ameaça.
A teia se tece
da fala da insídia
da rede que enreda
na mesma cilada.
A teia se tece
de liça, contenda
açoites, cobiça
invídia, solércia.
A teia se tece
de nomes antigos
de amigos perdidos
no elo das celas.
Poema integrante da série Para um Rei Surdo.
In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
2 514
Lara de Lemos
A Teia
A teia se tece
de grade sem ferro
do negro sem fresta
do muro sem pedra.
A teia se tece
do árduo da espera
do aço da espada
e sua ameaça.
A teia se tece
da fala da insídia
da rede que enreda
na mesma cilada.
A teia se tece
de liça, contenda
açoites, cobiça
invídia, solércia.
A teia se tece
de nomes antigos
de amigos perdidos
no elo das celas.
Poema integrante da série Para um Rei Surdo.
In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
de grade sem ferro
do negro sem fresta
do muro sem pedra.
A teia se tece
do árduo da espera
do aço da espada
e sua ameaça.
A teia se tece
da fala da insídia
da rede que enreda
na mesma cilada.
A teia se tece
de liça, contenda
açoites, cobiça
invídia, solércia.
A teia se tece
de nomes antigos
de amigos perdidos
no elo das celas.
Poema integrante da série Para um Rei Surdo.
In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
2 514
Armindo Trevisan
Via Sacra: Oitava Estação: O Convívio
Em Auschwitz os
crânios eram
serenos crânios
que não tiveram
no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas
a vã plumagem.
Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.
E este segredo
Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.
Todos os crânios
de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início
que a quantidade
não conseguia
apequenar
com seu horror.
Perante os crânios
Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram
e deste verbo
oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis
da dor submissa.
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
crânios eram
serenos crânios
que não tiveram
no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas
a vã plumagem.
Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.
E este segredo
Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.
Todos os crânios
de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início
que a quantidade
não conseguia
apequenar
com seu horror.
Perante os crânios
Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram
e deste verbo
oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis
da dor submissa.
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
907
Armindo Trevisan
Clareira
Quando depois do amor
ela está estendida
para o céu
e as pernas
reluzem
e a boca
tem o ar
de uma bicicleta junto
a uma macieira
e seu corpo
se move
e os seios
estão no tanque
dentro da sombra
tomo-a
mil vezes
e lhe sopro na boca
o ar
que esfriou na distância
que separa
a fruteira de cristal
dos lábios
que o moldaram
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
ela está estendida
para o céu
e as pernas
reluzem
e a boca
tem o ar
de uma bicicleta junto
a uma macieira
e seu corpo
se move
e os seios
estão no tanque
dentro da sombra
tomo-a
mil vezes
e lhe sopro na boca
o ar
que esfriou na distância
que separa
a fruteira de cristal
dos lábios
que o moldaram
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
1 052
Sílvio Romero
ABC do Lavrador
(Ceará)
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 803
Alceu de Freitas Wamosy
Claude Debussy
Maintenant tout est gris sur lande nocturne...
F. Viellé-Griffin.
Chove cinza do céu. Todo o rosal ajoelha,
balbuciando uma suave oração de perfume.
Não há, no firmamento, uma sombra vermelha:
— Tudo é ausente de cor — tudo é viúvo de lume.
A tristeza do instante em teus olhos se espelha,
minha estranha Quimera, ó sacrossanto Nume,
que acendeste em meu sonho a radiosa centelha
na qual todo o esplendor deste amor se resume...
Sob a chuva do espaço o jardim adormece.
E, sobre nós os dois, como um mistério, desce
a carícia da tarde, essa divina viúva.
Andam lábios errando, invisíveis, no ambiente;
e, morrendo de amor, dentro da luz morrente,
os nossos corações são Jardins sob a Chuva...
Publicado no livro Coroa de sonho: poemas (1923).
In: FILIPOUSKI, Ana Mariza. Alceu Wamosy. Porto Alegre: IEL, 1989. p.31. (Letras rio-grandenses
F. Viellé-Griffin.
Chove cinza do céu. Todo o rosal ajoelha,
balbuciando uma suave oração de perfume.
Não há, no firmamento, uma sombra vermelha:
— Tudo é ausente de cor — tudo é viúvo de lume.
A tristeza do instante em teus olhos se espelha,
minha estranha Quimera, ó sacrossanto Nume,
que acendeste em meu sonho a radiosa centelha
na qual todo o esplendor deste amor se resume...
Sob a chuva do espaço o jardim adormece.
E, sobre nós os dois, como um mistério, desce
a carícia da tarde, essa divina viúva.
Andam lábios errando, invisíveis, no ambiente;
e, morrendo de amor, dentro da luz morrente,
os nossos corações são Jardins sob a Chuva...
Publicado no livro Coroa de sonho: poemas (1923).
In: FILIPOUSKI, Ana Mariza. Alceu Wamosy. Porto Alegre: IEL, 1989. p.31. (Letras rio-grandenses
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