Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Luís Delfino
Cio
Não ouças, não, o soluçar do cheiro
Dos lírios brancos, dos rosais florentes...
Que te não fale ao ouvido o jasmineiro...
No vale Pã e os Sátiros não sentes?...
Olha. É cada perfume um mensageiro,
Que te enlaça nas asas transparentes:
Cantam teu nome os troncos e as correntes,
Dançando aos sons de um colossal pandeiro!...
Com junquilhos gentis prende-te os pulsos
Eros, morde-te estranho calafrio,
Antes carícia, o flanco, e aos seus impulsos
Verás irada a natureza em cio,
E os deuses desgrenhados e convulsos
Beijando em coro as Náiades do rio!...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.83. (Os Melhores poemas, 23
Dos lírios brancos, dos rosais florentes...
Que te não fale ao ouvido o jasmineiro...
No vale Pã e os Sátiros não sentes?...
Olha. É cada perfume um mensageiro,
Que te enlaça nas asas transparentes:
Cantam teu nome os troncos e as correntes,
Dançando aos sons de um colossal pandeiro!...
Com junquilhos gentis prende-te os pulsos
Eros, morde-te estranho calafrio,
Antes carícia, o flanco, e aos seus impulsos
Verás irada a natureza em cio,
E os deuses desgrenhados e convulsos
Beijando em coro as Náiades do rio!...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.83. (Os Melhores poemas, 23
1 498
Zuca Sardan
Veludosa Cantilena
"E você
minha fofa gordinha
como se chama ?"
perguntou
pra juvenil Mosquinha
cheio de manha
o ardiloso
Doutor Aranha ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
minha fofa gordinha
como se chama ?"
perguntou
pra juvenil Mosquinha
cheio de manha
o ardiloso
Doutor Aranha ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 495
Eudoro Augusto
Meu Brasil Brasileiro
Que uma lua mais verde
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
1 414
Moacyr Felix
Poema do Cego, da Noite e do Mar
A Fernando Mendes Viana
I
Lágrimas de cego
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Nas águas cansadas
meus olhos nadaram
em nadas de nada
e vão se afogar!
Se vinte ou dez vezes
foram o céu cúmplice
da súbita chama
que dardeja o eterno
sobre a onda a rolar,
por que é que se afogam
depois tão vazios
de todos os séculos
que acharam no mar?
Entre o velame e a âncora,
que lances definem
perdido ou ganhando
no jogo jogado
na noite e no mar?
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Mortalha ou morada
dos barcos tão brancos
de prata e de espanto,
ó lua a luar,
que devo eu doar
à dona dos prantos?
Mostrai-me entre os ramos
da noite e do ar
a pausa madura
da Vida a cantar
no cerne da vida
que amarga a doçura
que ondula este mar.
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar...
(...)
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.90-91
NOTA: Poema composto de 2 parte
I
Lágrimas de cego
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Nas águas cansadas
meus olhos nadaram
em nadas de nada
e vão se afogar!
Se vinte ou dez vezes
foram o céu cúmplice
da súbita chama
que dardeja o eterno
sobre a onda a rolar,
por que é que se afogam
depois tão vazios
de todos os séculos
que acharam no mar?
Entre o velame e a âncora,
que lances definem
perdido ou ganhando
no jogo jogado
na noite e no mar?
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Mortalha ou morada
dos barcos tão brancos
de prata e de espanto,
ó lua a luar,
que devo eu doar
à dona dos prantos?
Mostrai-me entre os ramos
da noite e do ar
a pausa madura
da Vida a cantar
no cerne da vida
que amarga a doçura
que ondula este mar.
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar...
(...)
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.90-91
NOTA: Poema composto de 2 parte
1 269
Walmir Ayala
Astromulhersubmarino
A sereia não se divorcia
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.
A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.
Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.
A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.
Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.
Publicado no livro O Edifício e o Verbo (1961). Poema integrante da série Sirenusas.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.69-7
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.
A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.
Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.
A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.
Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.
Publicado no livro O Edifício e o Verbo (1961). Poema integrante da série Sirenusas.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.69-7
1 238
Walmir Ayala
Astromulhersubmarino
A sereia não se divorcia
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.
A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.
Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.
A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.
Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.
Publicado no livro O Edifício e o Verbo (1961). Poema integrante da série Sirenusas.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.69-7
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.
A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.
Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.
A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.
Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.
Publicado no livro O Edifício e o Verbo (1961). Poema integrante da série Sirenusas.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.69-7
1 238
Eunice Arruda
Era um anjo
Era um anjo
omisso
Foi insubmisso
sem ter dito não
Sem anseio para o vôo
nem loucura para o plano
era um anjo vago
Que não optou
Entre o ser azul
celeste e a doce
lei da gravidade
Era um anjo
omisso
ou
de asas machucadas
In: ARRUDA, Eunice. Gabriel. Il. Alice Bay Laurel. São Paulo: Massao Ohno, 1990
omisso
Foi insubmisso
sem ter dito não
Sem anseio para o vôo
nem loucura para o plano
era um anjo vago
Que não optou
Entre o ser azul
celeste e a doce
lei da gravidade
Era um anjo
omisso
ou
de asas machucadas
In: ARRUDA, Eunice. Gabriel. Il. Alice Bay Laurel. São Paulo: Massao Ohno, 1990
1 102
Claudio Willer
Poema Transparente
Agora você treme observada pelas paredes do seu próprio quarto
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
1 282
Claudio Willer
Poema Transparente
Agora você treme observada pelas paredes do seu próprio quarto
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
1 282
Claudio Willer
Poema Transparente
Agora você treme observada pelas paredes do seu próprio quarto
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
1 282
Antônio Barreto
Sobre as Virtudes da Preguiça
Não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
1 583
Gilberto Mendonça Teles
Coreografia do Mito
4. "Un pas de trois"
Houve um reino qualquer e três sereias
que afinavam seu canto na linguagem:
a virgem, a casada e a que passava
seus dias na janela.
E havia a forma
de sirene e silêncio,
essas metades,
renda de bilro, milongagem, força
oculta e sem governo,
latejantes
nas têmporas do mito.
A primeira voltou à sua estância,
leu Bandeira, fez versos,
desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
foi banhar-se num rio de água doce.
A segunda voltou-se para o mar,
tomou banho lustral de fevereiro,
fez cirandas na areia e ouviu lendas
da lira pendurada no coqueiro.
A terceira me deu esta janela
com desenho de peixe na vidraça.
E está sempre acenando
lá do fundo
do rio que não passa.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 69-70. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 partes: 1. Lorelei; 2. Iemanjá; 3. Iara; 4. Un pas de troi
Houve um reino qualquer e três sereias
que afinavam seu canto na linguagem:
a virgem, a casada e a que passava
seus dias na janela.
E havia a forma
de sirene e silêncio,
essas metades,
renda de bilro, milongagem, força
oculta e sem governo,
latejantes
nas têmporas do mito.
A primeira voltou à sua estância,
leu Bandeira, fez versos,
desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
foi banhar-se num rio de água doce.
A segunda voltou-se para o mar,
tomou banho lustral de fevereiro,
fez cirandas na areia e ouviu lendas
da lira pendurada no coqueiro.
A terceira me deu esta janela
com desenho de peixe na vidraça.
E está sempre acenando
lá do fundo
do rio que não passa.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 69-70. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 partes: 1. Lorelei; 2. Iemanjá; 3. Iara; 4. Un pas de troi
1 676
Claudio Willer
Faz Tempo que Eu Queria Dizer Isto
ainda não conseguiram destruir o mar
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 253
Claudio Willer
Previsão do Tempo
I
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
1 274
Fontoura Xavier
VI - Dogaressa
Veneza; um grande sol, numa púrpura acesa,
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 105
Neide Archanjo
Não estamos perdidos
Não estamos perdidos.
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 166
Neide Archanjo
Não estamos perdidos
Não estamos perdidos.
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.
Só
no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 166
Claudio Willer
Viagens 4
recuperação / liquefação
a planta dos pés afundada na paisagem
o sol atravessado na garganta
será você um astro
ou uma serpente engastada no vidro
um reflexo da noite
a distância povoa-se de espaços novos
enquanto esperamos e tentamos alcançar
tensa hora da proximidade
densa de profecias e pedras musgosas
a plumagem das aves sacrificiais é estendida
araras faisões colibris pavões
cobrindo o caminho
o barco constrói sua própria nuvem
dentro da qual nos encerramos
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
a planta dos pés afundada na paisagem
o sol atravessado na garganta
será você um astro
ou uma serpente engastada no vidro
um reflexo da noite
a distância povoa-se de espaços novos
enquanto esperamos e tentamos alcançar
tensa hora da proximidade
densa de profecias e pedras musgosas
a plumagem das aves sacrificiais é estendida
araras faisões colibris pavões
cobrindo o caminho
o barco constrói sua própria nuvem
dentro da qual nos encerramos
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
997
Martins Fontes
Monotonia Rítmica
BORODIN
Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.
Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.
Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.
Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —
E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!
Publicado no livro A Flauta Encantada (1931).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.59. (Nossos clássicos, 40
Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.
Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.
Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.
Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —
E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!
Publicado no livro A Flauta Encantada (1931).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.59. (Nossos clássicos, 40
1 812
Martins Fontes
Monotonia Rítmica
BORODIN
Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.
Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.
Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.
Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —
E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!
Publicado no livro A Flauta Encantada (1931).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.59. (Nossos clássicos, 40
Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.
Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.
Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.
Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —
E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!
Publicado no livro A Flauta Encantada (1931).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.59. (Nossos clássicos, 40
1 812
Lila Ripoll
Anunciação
Voam-me pássaros em torno,
numa ciranda sem motivos.
A estrada é fria.
Estou de branco.
Brilha uma estrela em minha mão.
Revoam pássaros em torno.
Meu ombro esquerdo vai ferido.
Medrosos passos vão levando
a fina sombra do meu corpo.
Volteiam folhas,
dança o vento
e a gaze clara do vestido.
Minha cabeça vai pendida
e há uma estrela em minha mão.
Que estranho o caminho andado,
de branco, na estrada fria,
por entre pássaros voando,
por sobre flores caindo
e o ombro esquerdo sangrando.
O mar canta em meus ouvidos
e a Montanha inacessível
estende ramos de paz.
Passam âncoras e cruzes
e há uma estrela em minha mão.
Por que me levam de branco,
na fria estrada de pedra,
com este ombro sangrando,
entre perfumes e asas?
Que anunciam essas cruzes?
Essas âncoras partidas?
Esses pássaros revoando?
E essa estrela em minha mão?
Quem me leva e para onde
com essa estrela na mão?
Publicado no livro Por Quê? (1947).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.53-5
numa ciranda sem motivos.
A estrada é fria.
Estou de branco.
Brilha uma estrela em minha mão.
Revoam pássaros em torno.
Meu ombro esquerdo vai ferido.
Medrosos passos vão levando
a fina sombra do meu corpo.
Volteiam folhas,
dança o vento
e a gaze clara do vestido.
Minha cabeça vai pendida
e há uma estrela em minha mão.
Que estranho o caminho andado,
de branco, na estrada fria,
por entre pássaros voando,
por sobre flores caindo
e o ombro esquerdo sangrando.
O mar canta em meus ouvidos
e a Montanha inacessível
estende ramos de paz.
Passam âncoras e cruzes
e há uma estrela em minha mão.
Por que me levam de branco,
na fria estrada de pedra,
com este ombro sangrando,
entre perfumes e asas?
Que anunciam essas cruzes?
Essas âncoras partidas?
Esses pássaros revoando?
E essa estrela em minha mão?
Quem me leva e para onde
com essa estrela na mão?
Publicado no livro Por Quê? (1947).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.53-5
1 652
Régis Bonvicino
Não Pode
poeta não pode sentir ódio
poeta não pode gostar
de automóvel
o poeta
não pode criar filhos
se vai à europa
é por brilho ou compromisso
nunca por troça ou prazer
sua tarefa: fazer
fazer fazer
VeRsOsTeXtOs
martírio
pequeno burguês
tókio nun restaurante japonês
o poeta é o que
se esqueceu
de viver
bem e com idéias?
o sofrimento: sua
platéia
(o mundo, massa maçante,
alcatéia!)
seu marketing-musa: a
lamentação
obsessão obsessão obsessão
assim
um lacaio de lacan num divã
qualquer
(ou eco imaginário de tristan edouard
corbiere)
o poeta não tem casa
de campo
seu lazer: papel
em branco
maçã, maçada
a existência não passa
de uma observação obstinada
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
poeta não pode gostar
de automóvel
o poeta
não pode criar filhos
se vai à europa
é por brilho ou compromisso
nunca por troça ou prazer
sua tarefa: fazer
fazer fazer
VeRsOsTeXtOs
martírio
pequeno burguês
tókio nun restaurante japonês
o poeta é o que
se esqueceu
de viver
bem e com idéias?
o sofrimento: sua
platéia
(o mundo, massa maçante,
alcatéia!)
seu marketing-musa: a
lamentação
obsessão obsessão obsessão
assim
um lacaio de lacan num divã
qualquer
(ou eco imaginário de tristan edouard
corbiere)
o poeta não tem casa
de campo
seu lazer: papel
em branco
maçã, maçada
a existência não passa
de uma observação obstinada
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
1 317
Gilberto Mendonça Teles
Era um moinho sem vento
Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 947
Gilberto Mendonça Teles
Era um moinho sem vento
Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 947