Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Mafalda Veiga
Tatuagens
em cada gesto perdido
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti
fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar
em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim
fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão
em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti
faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar
em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim
faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti
fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar
em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim
fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão
em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti
faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar
em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim
faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
1 167
Mafalda Veiga
Um Pouco de Céu
Só hoje senti
Que o rumo a seguir
Levava pra longe
Senti que este chão
Já não tinha espaço
Pra tudo o que foge
Não sei o motivo pra ir
Só sei que não posso ficar
Não sei o que vem a seguir
Mas quero procurar
E hoje deixei
De tentar erguer
Os planos de sempre
Aqueles que são
Pra outro amanhã
Que há-de ser diferente
Não quero levar o que dei
Talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar
Um pouco de céu
Um pouco de céu
Só hoje esperei
Já sem desespero
Que a noite caisse
Nenhuma palavra
Foi hoje diferente
Do que já se disse
E há qualquer coisa a nascer
Bem dentro no fundo de mim
E há uma força a vencer
Qualquer outro fim
Não quero levar o que dei
Talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar
Um pouco de céu
Um pouco de céu
Que o rumo a seguir
Levava pra longe
Senti que este chão
Já não tinha espaço
Pra tudo o que foge
Não sei o motivo pra ir
Só sei que não posso ficar
Não sei o que vem a seguir
Mas quero procurar
E hoje deixei
De tentar erguer
Os planos de sempre
Aqueles que são
Pra outro amanhã
Que há-de ser diferente
Não quero levar o que dei
Talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar
Um pouco de céu
Um pouco de céu
Só hoje esperei
Já sem desespero
Que a noite caisse
Nenhuma palavra
Foi hoje diferente
Do que já se disse
E há qualquer coisa a nascer
Bem dentro no fundo de mim
E há uma força a vencer
Qualquer outro fim
Não quero levar o que dei
Talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar
Um pouco de céu
Um pouco de céu
1 202
Mafalda Veiga
Prisão
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
sentia-lhe o corpo hirto
e gelado de tão perto
Sentia-lhe o cheiro podre
de tão velho
que o medo perdeu a idade
no labirinto dos homens
e escorre pela sombra
dos corredores
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
no banco mesmo a seu lado
sentia-lhe o corpo hirto
e gelado de tão perto
Sentia-lhe o cheiro podre
de tão velho
que o medo perdeu a idade
no labirinto dos homens
e escorre pela sombra
dos corredores
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
917
Mafalda Veiga
Prisão
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
sentia-lhe o corpo hirto
e gelado de tão perto
Sentia-lhe o cheiro podre
de tão velho
que o medo perdeu a idade
no labirinto dos homens
e escorre pela sombra
dos corredores
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
no banco mesmo a seu lado
sentia-lhe o corpo hirto
e gelado de tão perto
Sentia-lhe o cheiro podre
de tão velho
que o medo perdeu a idade
no labirinto dos homens
e escorre pela sombra
dos corredores
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
917
Mafalda Veiga
Ilha
Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
1 446
Mafalda Veiga
Ilha
Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
1 446
Mafalda Veiga
Ilha
Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho
Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti
Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta
És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta
és um barco vazio
que me arrasta
1 446
Mafalda Veiga
Outro dia que amanhece
Mil aromas enleados
Num calor que se abandona
Mil sabores emaranhados
Numa noite sempre longa
Noutras ilhas, noutro vento
Que é tão denso como o lume
Navegando um sentimento
Uma faca de dois gumes
Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Rumo incerto, mil palavras
O Oriente no olhar
Que desenha outro horizonte
Da paixão de desvendar
A neblina dos sentidos
A nudez do amor de alguém
E aquilo que se sente
que não é de mais ninguém
Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Num calor que se abandona
Mil sabores emaranhados
Numa noite sempre longa
Noutras ilhas, noutro vento
Que é tão denso como o lume
Navegando um sentimento
Uma faca de dois gumes
Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Rumo incerto, mil palavras
O Oriente no olhar
Que desenha outro horizonte
Da paixão de desvendar
A neblina dos sentidos
A nudez do amor de alguém
E aquilo que se sente
que não é de mais ninguém
Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
1 066
Mafalda Veiga
Vestígios de ti
Os meus discos no chão
Os copos vazios
Vestígios da noite
As palavras perdidas
O calor e o frio
O meu corpo no chão
Um livro que eu li
O silêncio e a pele
As palavras sentidas
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
As revistas no chão
Os copos vazios
Vestígios do tempo
As palavras trocadas
O calor e o frio
Cada gesto que abraça
E um filme que eu vi
O que fica marcado
E já nunca se afasta
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
Os copos vazios
Vestígios da noite
As palavras perdidas
O calor e o frio
O meu corpo no chão
Um livro que eu li
O silêncio e a pele
As palavras sentidas
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
As revistas no chão
Os copos vazios
Vestígios do tempo
As palavras trocadas
O calor e o frio
Cada gesto que abraça
E um filme que eu vi
O que fica marcado
E já nunca se afasta
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
1 273
Raimundo Correia
Vésper
Do seu fastígio azul, serena e fria,
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vésper fulgura além... Vésper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.
De um mosteiro na cúpula irradia
Com frouxa luz... Em sua humilde cela,
Contemplativa e lânguida à janela,
Triste freira, fitando-a, se extasia...
Vésper, envolta em deslumbrante alvura,
Ó nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?
Que olhar, irmão do seu, procura agora
Na terra o astro do amor? O olhar procura
Da solitária freira que o namora.
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.97
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vésper fulgura além... Vésper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.
De um mosteiro na cúpula irradia
Com frouxa luz... Em sua humilde cela,
Contemplativa e lânguida à janela,
Triste freira, fitando-a, se extasia...
Vésper, envolta em deslumbrante alvura,
Ó nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?
Que olhar, irmão do seu, procura agora
Na terra o astro do amor? O olhar procura
Da solitária freira que o namora.
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.97
1 925
Mafalda Veiga
Cada Lugar Teu
Esta é só uma noite para partilhar
Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
Um lugar a salvo para onde correr
Quando nada bate certo
E se fica a céu aberto
Sem saber o que fazer
Esta é uma noite pra comemorar
Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
Um lugar pra nós onde demorar
Quando nada faz sentido
E se fica mais perdido
E se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar
Do que a vida foi fazendo sem nos avisar
Foi-se acumulando em fotografias
Em distâncias e saudade
Numa dor que nunca cabe
E faz transbordar os dias
Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como o firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo
E ter medo como dantes
De acordar a meio da noite
A precisar de um regaço
Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
Um lugar a salvo para onde correr
Quando nada bate certo
E se fica a céu aberto
Sem saber o que fazer
Esta é uma noite pra comemorar
Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
Um lugar pra nós onde demorar
Quando nada faz sentido
E se fica mais perdido
E se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar
Do que a vida foi fazendo sem nos avisar
Foi-se acumulando em fotografias
Em distâncias e saudade
Numa dor que nunca cabe
E faz transbordar os dias
Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como o firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo
E ter medo como dantes
De acordar a meio da noite
A precisar de um regaço
1 310
Mafalda Veiga
Cada Lugar Teu
Esta é só uma noite para partilhar
Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
Um lugar a salvo para onde correr
Quando nada bate certo
E se fica a céu aberto
Sem saber o que fazer
Esta é uma noite pra comemorar
Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
Um lugar pra nós onde demorar
Quando nada faz sentido
E se fica mais perdido
E se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar
Do que a vida foi fazendo sem nos avisar
Foi-se acumulando em fotografias
Em distâncias e saudade
Numa dor que nunca cabe
E faz transbordar os dias
Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como o firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo
E ter medo como dantes
De acordar a meio da noite
A precisar de um regaço
Qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
Um lugar a salvo para onde correr
Quando nada bate certo
E se fica a céu aberto
Sem saber o que fazer
Esta é uma noite pra comemorar
Qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
Um lugar pra nós onde demorar
Quando nada faz sentido
E se fica mais perdido
E se anseia pelo abraço de um amigo
Esta é só uma noite para me vingar
Do que a vida foi fazendo sem nos avisar
Foi-se acumulando em fotografias
Em distâncias e saudade
Numa dor que nunca cabe
E faz transbordar os dias
Esta é uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como o firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo
E ter medo como dantes
De acordar a meio da noite
A precisar de um regaço
1 310
Mafalda Veiga
Por Outras Palavras
Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
Mais uma madrugada
Ninguém disse que o riso nos pertence
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
Mais uma gargalhada
E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim
Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que sabia arrancar sempre
Mais uma gargalhada
E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
Mais uma madrugada
Ninguém disse que o riso nos pertence
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
Mais uma gargalhada
E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim
Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que sabia arrancar sempre
Mais uma gargalhada
E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim
1 244
Mafalda Veiga
Por Te Rever
Quisera roubar-te essas palavras e morrer
Trazer-te assim até ao fim do que eu puder
E começar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz
E descobrir o que será de nós
E demorar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Quisera a ternura, calmaria azul do mar
O riso o amor o gosto a sal o sol do olhar
E um lugar pra me espraiar eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço
Adormecer e abandonar-me de cansaço
Quisera assim perder-me em mim eternamente
Por te rever, só
Trazer-te assim até ao fim do que eu puder
E começar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz
E descobrir o que será de nós
E demorar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Quisera a ternura, calmaria azul do mar
O riso o amor o gosto a sal o sol do olhar
E um lugar pra me espraiar eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço
Adormecer e abandonar-me de cansaço
Quisera assim perder-me em mim eternamente
Por te rever, só
1 273
Mafalda Veiga
Quando (já nada é intacto)
Quando já nada é intacto
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar
Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo
Quando o sopro de uma jura
Faz balançar os dias
Quando os sonhos contaminam
Os medos e os cansaços
Quando ainda me desarma
A tua companhia
E tudo o que a vida faz
Em mim
Quando o dia recomeça
E a noite ainda te prende nos seus braços
E por dentro te rebenta um mar
Quando a cidade te esconde
E o silêncio é o fundo das palavras
Que te esqueces de gritar
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar
Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo
Quando o sopro de uma jura
Faz balançar os dias
Quando os sonhos contaminam
Os medos e os cansaços
Quando ainda me desarma
A tua companhia
E tudo o que a vida faz
Em mim
Quando o dia recomeça
E a noite ainda te prende nos seus braços
E por dentro te rebenta um mar
Quando a cidade te esconde
E o silêncio é o fundo das palavras
Que te esqueces de gritar
1 132
Mafalda Veiga
Quando (já nada é intacto)
Quando já nada é intacto
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar
Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo
Quando o sopro de uma jura
Faz balançar os dias
Quando os sonhos contaminam
Os medos e os cansaços
Quando ainda me desarma
A tua companhia
E tudo o que a vida faz
Em mim
Quando o dia recomeça
E a noite ainda te prende nos seus braços
E por dentro te rebenta um mar
Quando a cidade te esconde
E o silêncio é o fundo das palavras
Que te esqueces de gritar
Quando tudo na vida vem em pedaços
E por dentro me rebenta um mar
Quando a cidade alucina
Num luar de néon e de neblina
E me esqueço de sonhar
Quando há qualquer coisa que sufoca
E os dias são iguais a outros dias
E por dentro o tempo é tão voraz
Quando de repente num segundo
Qualquer coisa me vira do avesso
E desfaz cada certeza do meu mundo
Quando o sopro de uma jura
Faz balançar os dias
Quando os sonhos contaminam
Os medos e os cansaços
Quando ainda me desarma
A tua companhia
E tudo o que a vida faz
Em mim
Quando o dia recomeça
E a noite ainda te prende nos seus braços
E por dentro te rebenta um mar
Quando a cidade te esconde
E o silêncio é o fundo das palavras
Que te esqueces de gritar
1 132
Mafalda Veiga
Lisboa de mil amores
á um escuro vem no horizonte
Ou a luz se perde do olhar
São os campos perdidos e os montes
Que se estendem pela noite devagar
São tantos os caminhos e os dias
Tantos como a saudade que se tem
Talvez um sabor leve de maresia
Talvez lembrança do sabor de alguém
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
Será do luar o brilho intenso
Será do olhar de quem eu quero
Que faz ir-se perdendo ao longe o escuro
E faz ir-se calando o desespero
Enquanto o dia vai
Enquanto a noite vem
E um desassossego acorda alguém
Uma canção distante
Lembra o sonho e outro olhar
Ai se toda a saudade
Pudesse enfim acalmar
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
Ou a luz se perde do olhar
São os campos perdidos e os montes
Que se estendem pela noite devagar
São tantos os caminhos e os dias
Tantos como a saudade que se tem
Talvez um sabor leve de maresia
Talvez lembrança do sabor de alguém
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
Será do luar o brilho intenso
Será do olhar de quem eu quero
Que faz ir-se perdendo ao longe o escuro
E faz ir-se calando o desespero
Enquanto o dia vai
Enquanto a noite vem
E um desassossego acorda alguém
Uma canção distante
Lembra o sonho e outro olhar
Ai se toda a saudade
Pudesse enfim acalmar
Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido
1 058
Fernando Pessoa
[1] A Cabeça do Grifo: O INFANTE D. HENRIQUE
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
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Álvares de Azevedo
Pálida à luz da lâmpada sombria
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!
Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
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1
Mafalda Veiga
Baile
Deixei as cartas na mesa
alguém as há-de jogar
soltei a alma no vento
entre os claros do luar
vou cavalgar mais que o tempo
e antes do tempo chegar
à beira do sentimento
Correr os rumos do mundo
sem saber onde se vai
contar as estrelas no céu
respirar os vendavais
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
Ser dono do infinito
que anda nos brilhos da noite
calor e fulgor do corpo
que a lua rouba o alento
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
alguém as há-de jogar
soltei a alma no vento
entre os claros do luar
vou cavalgar mais que o tempo
e antes do tempo chegar
à beira do sentimento
Correr os rumos do mundo
sem saber onde se vai
contar as estrelas no céu
respirar os vendavais
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
Ser dono do infinito
que anda nos brilhos da noite
calor e fulgor do corpo
que a lua rouba o alento
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
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Mafalda Veiga
Vertigem
Haverá luz
sugada no escuro?
Será calor
O murmúrio do frio?
Terá amor
O avesso da vida?
Haverá sonhos
no fundo da dor?
Serão gritos
os cais do silêncio?
Será coragem
a tremura do medo?
Haverá chuva
que lave este sangue
e deixe que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
Será só
a vertigem do abismo?
Será mordaça
a leveza do pó?
Haverá negro
sugado na luz?
Haverá longe
por dentro de nós?
Ando sobre
uma aresta de gelo
na vertigem
de um trapézio de fogo
mas canta-me um pouco
na tempestade
e deixa que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
sugada no escuro?
Será calor
O murmúrio do frio?
Terá amor
O avesso da vida?
Haverá sonhos
no fundo da dor?
Serão gritos
os cais do silêncio?
Será coragem
a tremura do medo?
Haverá chuva
que lave este sangue
e deixe que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
Será só
a vertigem do abismo?
Será mordaça
a leveza do pó?
Haverá negro
sugado na luz?
Haverá longe
por dentro de nós?
Ando sobre
uma aresta de gelo
na vertigem
de um trapézio de fogo
mas canta-me um pouco
na tempestade
e deixa que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
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Mafalda Veiga
Vertigem
Haverá luz
sugada no escuro?
Será calor
O murmúrio do frio?
Terá amor
O avesso da vida?
Haverá sonhos
no fundo da dor?
Serão gritos
os cais do silêncio?
Será coragem
a tremura do medo?
Haverá chuva
que lave este sangue
e deixe que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
Será só
a vertigem do abismo?
Será mordaça
a leveza do pó?
Haverá negro
sugado na luz?
Haverá longe
por dentro de nós?
Ando sobre
uma aresta de gelo
na vertigem
de um trapézio de fogo
mas canta-me um pouco
na tempestade
e deixa que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
sugada no escuro?
Será calor
O murmúrio do frio?
Terá amor
O avesso da vida?
Haverá sonhos
no fundo da dor?
Serão gritos
os cais do silêncio?
Será coragem
a tremura do medo?
Haverá chuva
que lave este sangue
e deixe que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
Será só
a vertigem do abismo?
Será mordaça
a leveza do pó?
Haverá negro
sugado na luz?
Haverá longe
por dentro de nós?
Ando sobre
uma aresta de gelo
na vertigem
de um trapézio de fogo
mas canta-me um pouco
na tempestade
e deixa que a terra acalme
devagar
Esquece o medo
sai do escuro
abre comportas
deixa gritar
vai mais fundo
persegue o mar
persegue o mar
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Mafalda Veiga
Cidade
À noite
No silêncio da rua
Passavam ciganos cantando
E a cidade chamava
Nas luzes perdidas do rio
No teu carro
Andámos por aí
Bebemos cerveja e falámos
Entre sombras de prédios calados
E sonhos de homens cansados
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Há escuro
Na inquietação do vento
Nas luzes esquecidas do rio
E tentam roubar-nos os dias
Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No silêncio da rua
Passavam ciganos cantando
E a cidade chamava
Nas luzes perdidas do rio
No teu carro
Andámos por aí
Bebemos cerveja e falámos
Entre sombras de prédios calados
E sonhos de homens cansados
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Há escuro
Na inquietação do vento
Nas luzes esquecidas do rio
E tentam roubar-nos os dias
Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
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Mafalda Veiga
Grito
Meu Deus, se nos velas
diz-nos o que é que nos separa
e porque é que o sol demora
atrás da colina escura
anda dar luz ao caminho
que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
como se o mar fosse raso
e o céu não tivesse altura
Sempre no silêncio
dá gozo a voz deste chão
mas inda me dói a alma
na dor do corpo e das mãos
tenho medo deste frio
que à noite sinto no peito
como se andasem cavando
como se andassem fechando
buracos de solidão
Agente não sabe
o que há depois do horizonte
a gente é um vulto curvado
com uma sombra defronte
a ouvir rumores na distância
a sentir dentro um segredo
feito de sonhos calados
feito de braços fechados
num poço fundo de medo
Anda dar luz ao caminho
que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
um sonho que nunca vinga
num grito que nunca chora
diz-nos o que é que nos separa
e porque é que o sol demora
atrás da colina escura
anda dar luz ao caminho
que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
como se o mar fosse raso
e o céu não tivesse altura
Sempre no silêncio
dá gozo a voz deste chão
mas inda me dói a alma
na dor do corpo e das mãos
tenho medo deste frio
que à noite sinto no peito
como se andasem cavando
como se andassem fechando
buracos de solidão
Agente não sabe
o que há depois do horizonte
a gente é um vulto curvado
com uma sombra defronte
a ouvir rumores na distância
a sentir dentro um segredo
feito de sonhos calados
feito de braços fechados
num poço fundo de medo
Anda dar luz ao caminho
que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
um sonho que nunca vinga
num grito que nunca chora
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