Poemas neste tema
Vida e Existência
Silvaney Paes
Vieram me Dizer
Vieram
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
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Silvaney Paes
Vieram me Dizer
Vieram
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
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1
Reinaldo Ferreira
Aquele senhor que desde a infância me conhece
Aquele senhor que desde a infância me conhece,
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
2 138
1
Reinaldo Ferreira
Aquele senhor que desde a infância me conhece
Aquele senhor que desde a infância me conhece,
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
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1
Jorge Viegas
Tempo Adormecido
Um dia o sonho
Despertou suavemente...
Flores coloridas
Dão um brilho perfumado
Ao voo encantado dos sentidos...
Ondas sonolentas
Salpicam memórias
Pintando quadros iluminados...
Brilhos celestiais
Envolvem sensualidades
Sorvendo carinhos transparentes...
Melodias encantadas
Escorrem delicadamente
Por entre aromas apaixonados...
Abrem-se as janelas do infinito
Absorvemos o esplendor do tempo adormecido
E lentamente descobrimos o amor
Diluído na imensidão dos jardins do universo.
Despertou suavemente...
Flores coloridas
Dão um brilho perfumado
Ao voo encantado dos sentidos...
Ondas sonolentas
Salpicam memórias
Pintando quadros iluminados...
Brilhos celestiais
Envolvem sensualidades
Sorvendo carinhos transparentes...
Melodias encantadas
Escorrem delicadamente
Por entre aromas apaixonados...
Abrem-se as janelas do infinito
Absorvemos o esplendor do tempo adormecido
E lentamente descobrimos o amor
Diluído na imensidão dos jardins do universo.
1 610
1
Silvaney Paes
Matéria
dos Sonhos
Material
estranho esse do amor e o do Sonho
Vivo, sinto um amor desse mesmo material.
Estranho!
Etéreo esse amor que já é um sonho
Deus, amor e sonho, tudo etéreo.
Estranho.
E nem viram os olhos meu estranho sonho
De um amar que sonho, etéreo, eterno.
Estranho!
E Deus, os Anjos, Meu Amor, Meu Sonho.
Etéreo? Não. Apenas ...
Estranhos!
Material
estranho esse do amor e o do Sonho
Vivo, sinto um amor desse mesmo material.
Estranho!
Etéreo esse amor que já é um sonho
Deus, amor e sonho, tudo etéreo.
Estranho.
E nem viram os olhos meu estranho sonho
De um amar que sonho, etéreo, eterno.
Estranho!
E Deus, os Anjos, Meu Amor, Meu Sonho.
Etéreo? Não. Apenas ...
Estranhos!
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1
Reinaldo Ferreira
Tu, Baby, ao leres um dia
Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
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1
Reinaldo Ferreira
Tu, Baby, ao leres um dia
Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
2 034
1
Silvaney Paes
Indo Embora
Estou
indo embora,
Mas nada levarei comigo,
Para que não sinta n’outra falta,
Lembranças que serão falsas
E logo esquecerás que já estive contigo.
Não vai haver despedida,
Nem verei lágrimas por terra caídas,
Não escutarei mentiras neste Adeus
E também não lamentarei.,
Em silêncio partirei.
Já vou indo...
Embora não saiba para onde ir
E não conheça esses trilhos,
Mas sei que meu destino mora no caminho
E irei ao seu encontro como andarilho.
Quero que saibas que mesmo perdido,
Já estarei no caminho
Quando me vires partindo,
E que ando rumo a um inverso destino,
De estar ao teu lado e me sentir tão sozinho.
E para não guardar nenhuma mágoa
Não sentirei saudades falsas,
E em cada passo dessa nova caminhada
Apagarei o rastro da anterior passada,
Para assim perder o caminho de volta.
indo embora,
Mas nada levarei comigo,
Para que não sinta n’outra falta,
Lembranças que serão falsas
E logo esquecerás que já estive contigo.
Não vai haver despedida,
Nem verei lágrimas por terra caídas,
Não escutarei mentiras neste Adeus
E também não lamentarei.,
Em silêncio partirei.
Já vou indo...
Embora não saiba para onde ir
E não conheça esses trilhos,
Mas sei que meu destino mora no caminho
E irei ao seu encontro como andarilho.
Quero que saibas que mesmo perdido,
Já estarei no caminho
Quando me vires partindo,
E que ando rumo a um inverso destino,
De estar ao teu lado e me sentir tão sozinho.
E para não guardar nenhuma mágoa
Não sentirei saudades falsas,
E em cada passo dessa nova caminhada
Apagarei o rastro da anterior passada,
Para assim perder o caminho de volta.
934
1
Reinaldo Ferreira
Os astros nascem
Os astros nascem,
Crescem e morrem
Sem aflição,
Por isso correm
Sem que perguntem
Pra onde vão.
O fácil espaço
Foi-lhes materno
Ventre fecundo;
Nasci num quarto,
Nasci dum parto
E foi magoando
Que vim ao mundo.
Nasci rasgando
Quem me sonhava
Antes que mesmo
Me concebesse;
Não sei dum astro,
Tão impiedoso,
Que ao espaço agravos
Tamanhos desse!
Nasci rompendo
Quem me continha
No grácil ventre
Desfigurado,
Como um sacrário
Vaso sagrado!
Mãos impacientes
De me tocarem
Logo estendia
Quem eu magoava
E ensanguentava
Quando nascia!
Nascença de astros
Não tem valor:
Que o fácil espaço
Pare-os sem dor.
Crescem e morrem
Sem aflição,
Por isso correm
Sem que perguntem
Pra onde vão.
O fácil espaço
Foi-lhes materno
Ventre fecundo;
Nasci num quarto,
Nasci dum parto
E foi magoando
Que vim ao mundo.
Nasci rasgando
Quem me sonhava
Antes que mesmo
Me concebesse;
Não sei dum astro,
Tão impiedoso,
Que ao espaço agravos
Tamanhos desse!
Nasci rompendo
Quem me continha
No grácil ventre
Desfigurado,
Como um sacrário
Vaso sagrado!
Mãos impacientes
De me tocarem
Logo estendia
Quem eu magoava
E ensanguentava
Quando nascia!
Nascença de astros
Não tem valor:
Que o fácil espaço
Pare-os sem dor.
2 130
1
Hilda Hilst
II
E só
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
1 423
1
Hilda Hilst
II
E só
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
1 423
1
Silvio Cruz
Pingos de Chuva
Os pingos
da chuva caem calmamente na cidade,
trazendo uma grande nostalgia.
Meu pensamento voa até uma mulher...
Ao compasso dos pingos
e de uma música da Ênya,
meu coração se põe acelerado...
?O que faz ela agora? O que pensa?
Não me importo com isso...me asseguro!
Mas, então, por que estou inquieto?
Não sei, o tempo é o melhor remédio...
E ele me dirá!
da chuva caem calmamente na cidade,
trazendo uma grande nostalgia.
Meu pensamento voa até uma mulher...
Ao compasso dos pingos
e de uma música da Ênya,
meu coração se põe acelerado...
?O que faz ela agora? O que pensa?
Não me importo com isso...me asseguro!
Mas, então, por que estou inquieto?
Não sei, o tempo é o melhor remédio...
E ele me dirá!
995
1
Cruz e Sousa
Flor do Mar
És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.
Possuis do mar o deslumbrante afecto
As dormencias nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.
Num fundo ideal de púrpuras e rosas
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços...
Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas
Acres aromas de algas e sargaços...
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.
Possuis do mar o deslumbrante afecto
As dormencias nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.
Num fundo ideal de púrpuras e rosas
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços...
Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas
Acres aromas de algas e sargaços...
5 071
1
Hilda Hilst
VIII
Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
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1
Hilda Hilst
VIII
Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
1 458
1
Silvaney Paes
Náufrago
Trago desde
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
1 061
1
Giselle del Pino
Desperta
Desperta,
amor, das plácidas
Margens de meus braços.
Desperta do gozo pleno
Dos meus e dos teus ais.
O tempo corre pra longe
E dormes a noite que te prometi.
Se afago teu corpo, insaciável,
É que careço do tempo que perdi.
Desperta, amor,
Já vem tão logo outro dia,
E distante reviverei teus apelos,
E por amor tecerei nossos dias,
Que passados,
Tem pressa do futuro.
Desperta, amor,
Amanhã não estarei dentro de ti.
E se me levo longe,
Eu sei que ainda estarei por perto,
E por certo ainda,
Habitarás em mim.
amor, das plácidas
Margens de meus braços.
Desperta do gozo pleno
Dos meus e dos teus ais.
O tempo corre pra longe
E dormes a noite que te prometi.
Se afago teu corpo, insaciável,
É que careço do tempo que perdi.
Desperta, amor,
Já vem tão logo outro dia,
E distante reviverei teus apelos,
E por amor tecerei nossos dias,
Que passados,
Tem pressa do futuro.
Desperta, amor,
Amanhã não estarei dentro de ti.
E se me levo longe,
Eu sei que ainda estarei por perto,
E por certo ainda,
Habitarás em mim.
1 024
1
Silvaney Paes
Vira-Latas
Somos de
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.
Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.
E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.
Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.
E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.
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1
Ednólia Fontenele
O Rio Deságua em Mim
O rio deságua em mim!
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
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1
Rogaciano Leite Filho
Trevas do Dia
Na noite do mundo
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
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1
Rogaciano Leite Filho
Trevas do Dia
Na noite do mundo
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
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