Poemas neste tema
Vida e Existência
Artur Eduardo Benevides
De um Tema de Ronsard
Por que, tão bela sendo, me maltratas,
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?
Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.
A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.
Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?
Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.
A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.
Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.
1 275
Aldir Blanc
Você
Da série "Árias para folha de fícus" - III
...foi mais ou menos isso:
um susto louco
ao dobre do crepúsculo,
como se meu corpo
fosse todo-olvidos.
...foi mais ou menos isso:
um susto louco
ao dobre do crepúsculo,
como se meu corpo
fosse todo-olvidos.
1 467
Aldir Blanc
Você
Da série "Árias para folha de fícus" - III
...foi mais ou menos isso:
um susto louco
ao dobre do crepúsculo,
como se meu corpo
fosse todo-olvidos.
...foi mais ou menos isso:
um susto louco
ao dobre do crepúsculo,
como se meu corpo
fosse todo-olvidos.
1 467
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 292
Renier Dias Pereira
Êxtase
Êxtase
É mesmo uma coisa mágicavezes em que me perco falandosozinho ( uma arte ninho )
não são palavras imensas, sãolivres e refletem numcaminho gargalhada
o manifesto é para emocionar,uma emoção recíproca uma certa alogicidade ( a calçada do crime )
a priori um surrealismo extasianteuma magia só compreendida pelosfamintos - ousadia
a vida é para sempre ( me diga )o coração não pulsa mais, o soltoma seu lugar. espero a certeza de um golpe feliz.
É mesmo uma coisa mágicavezes em que me perco falandosozinho ( uma arte ninho )
não são palavras imensas, sãolivres e refletem numcaminho gargalhada
o manifesto é para emocionar,uma emoção recíproca uma certa alogicidade ( a calçada do crime )
a priori um surrealismo extasianteuma magia só compreendida pelosfamintos - ousadia
a vida é para sempre ( me diga )o coração não pulsa mais, o soltoma seu lugar. espero a certeza de um golpe feliz.
960
Caio Valério Catulo
Gozemos a vida, Lésbia
V
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
1 892
Caio Valério Catulo
Gozemos a vida, Lésbia
V
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
1 892
Fernando Mendes Vianna
Oratório do corpo (trechos)
Segue os ditames do teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
...
O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
...
Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz
– a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.
...
O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.
O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.
...
Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz
– a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.
1 477
Cruz e Sousa
Inspirações do claustro (trechos)
Aqui – já era noite... eu reclinei-me
Nas moles formas do virgíneo seio:
Aqui – sobre ela eu meditei amores
Em doce devaneio.
Aqui – inda era noite... eu tive uns sonhos
De monstruosa, de infernal luxúria:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Em amorosa fúria.
...
Aqui – era manhã... via-a sentada
Sobre o sofá – voluptuosa um pouco:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Alucinado e louco.
...
Aqui – oh quantas vezes! ... eu a tive
Unida a mim – a derreter-se em ais:
Aqui – ela ensinou-me a ter mais vida,
Sentir melhor e mais.
Aqui – oh quantas vezes!... eu a tive
Em acessos de amor desfalecida!
Lasciva e nua – a me exigir mais gostos
Por sobre mim caída!
Nas moles formas do virgíneo seio:
Aqui – sobre ela eu meditei amores
Em doce devaneio.
Aqui – inda era noite... eu tive uns sonhos
De monstruosa, de infernal luxúria:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Em amorosa fúria.
...
Aqui – era manhã... via-a sentada
Sobre o sofá – voluptuosa um pouco:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Alucinado e louco.
...
Aqui – oh quantas vezes! ... eu a tive
Unida a mim – a derreter-se em ais:
Aqui – ela ensinou-me a ter mais vida,
Sentir melhor e mais.
Aqui – oh quantas vezes!... eu a tive
Em acessos de amor desfalecida!
Lasciva e nua – a me exigir mais gostos
Por sobre mim caída!
2 446
Renier Dias Pereira
Help!
Help!
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
1 108
António Lobo de Carvalho
Soneto III
A certa moça, chamando velho ao autor, que ainda se não tinha por tal
Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:
Confesso, ainda que é iá bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:
Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:
Minhas cãs não te sirvam de espanta1ho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.
Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:
Confesso, ainda que é iá bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:
Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:
Minhas cãs não te sirvam de espanta1ho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.
1 201
António Lobo de Carvalho
Soneto III
A certa moça, chamando velho ao autor, que ainda se não tinha por tal
Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:
Confesso, ainda que é iá bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:
Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:
Minhas cãs não te sirvam de espanta1ho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.
Não te escondo a guedelha encanecida,
Nem da rugosa fronte a cor já baça;
Conheço que o meu lustre, a minha graça
Foi por duros Janeiros destruída:
Confesso, ainda que é iá bem conhecida,
Que a idade minha dos cinquenta passa;
Mas juro que ainda tenho grossa maça,
Qual teso mastaréu a pino erguida:
Se és hidrópica mestra fodedora,
Daquelas que procuram com trabalho
Lanzuda porra, porra aterradora:
Minhas cãs não te sirvam de espanta1ho;
Põe à prova o teu cono, e sem demora
Verás então se é velho o meu caralho.
1 201
Natália Correia
Poema II
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
1 423
Renier Dias Pereira
Impulso
Impulso
A paixão, semente que nasce
em meu coração clama por
receber uma luz que ebúrnea
do meu sonho
Sentimentos ilhados na
escuridão do infinito
gemem de paixão em
busca da perfeição
Muitissimamente calado
corrói a flor que
brota de uma tristeza
risonha
Finalmente a escuridão
se vai, deixando as
marcas de sua infinita
dor
Resta agora uma caminhada
longa e cruel em busca
de uma nova vida guiada
pelo amor
Chega-se ao final, nada
nos espera, olhamos pela
janela a nossa vida
que passou.
A paixão, semente que nasce
em meu coração clama por
receber uma luz que ebúrnea
do meu sonho
Sentimentos ilhados na
escuridão do infinito
gemem de paixão em
busca da perfeição
Muitissimamente calado
corrói a flor que
brota de uma tristeza
risonha
Finalmente a escuridão
se vai, deixando as
marcas de sua infinita
dor
Resta agora uma caminhada
longa e cruel em busca
de uma nova vida guiada
pelo amor
Chega-se ao final, nada
nos espera, olhamos pela
janela a nossa vida
que passou.
1 035
Nuno Guimarães
O Pão
Não
é ainda um seio
Mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
A branca levedura.
Um mecanismo incerto
De ferro e madrugada.
A fome e o excesso
Futuros. Na seara.
A fome e a carência
De sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
De areia. Ou terra solta.
Um campo descampado
Um canto com bolor.
É arte que se move
Minéria como a água.
Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
De sol. Oxigénio
Não é ainda um círculo
Branco por toda a mesa
Manchado na toalha
De sombra e aspereza.
Não é ainda uma ave
Descendo sobre a pele:
Um mecanismo triste
Movendo a boca breve.
é ainda um seio
Mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
A branca levedura.
Um mecanismo incerto
De ferro e madrugada.
A fome e o excesso
Futuros. Na seara.
A fome e a carência
De sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
De areia. Ou terra solta.
Um campo descampado
Um canto com bolor.
É arte que se move
Minéria como a água.
Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
De sol. Oxigénio
Não é ainda um círculo
Branco por toda a mesa
Manchado na toalha
De sombra e aspereza.
Não é ainda uma ave
Descendo sobre a pele:
Um mecanismo triste
Movendo a boca breve.
1 368
Nuno Guimarães
O Pão
Não
é ainda um seio
Mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
A branca levedura.
Um mecanismo incerto
De ferro e madrugada.
A fome e o excesso
Futuros. Na seara.
A fome e a carência
De sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
De areia. Ou terra solta.
Um campo descampado
Um canto com bolor.
É arte que se move
Minéria como a água.
Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
De sol. Oxigénio
Não é ainda um círculo
Branco por toda a mesa
Manchado na toalha
De sombra e aspereza.
Não é ainda uma ave
Descendo sobre a pele:
Um mecanismo triste
Movendo a boca breve.
é ainda um seio
Mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
A branca levedura.
Um mecanismo incerto
De ferro e madrugada.
A fome e o excesso
Futuros. Na seara.
A fome e a carência
De sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
De areia. Ou terra solta.
Um campo descampado
Um canto com bolor.
É arte que se move
Minéria como a água.
Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
De sol. Oxigénio
Não é ainda um círculo
Branco por toda a mesa
Manchado na toalha
De sombra e aspereza.
Não é ainda uma ave
Descendo sobre a pele:
Um mecanismo triste
Movendo a boca breve.
1 368
Renier Dias Pereira
Silêncio Provocador
Silêncio Provocador
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
964
Renier Dias Pereira
Silêncio Provocador
Silêncio Provocador
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
964
Renier Dias Pereira
Silêncio Provocador
Silêncio Provocador
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
964
Noel Ferreira
Cio
Frenético
ofegante
me contorço
na ânsia duma explosão
orgásmica.
Dói-me tudo
e o calor abrasa.
Lambo o suor
que me banha
e escorre
de cada poro aberto.
Puxo os cabelos
enraivecido.
Reteso a musculatura
em erecção.
Rebolo pelo chão
dentes cerrados.
Arrasto-me no lodo
mas não desisto.
Conseguirei.
Conseguirei
ainda que me rasgue todo!
ofegante
me contorço
na ânsia duma explosão
orgásmica.
Dói-me tudo
e o calor abrasa.
Lambo o suor
que me banha
e escorre
de cada poro aberto.
Puxo os cabelos
enraivecido.
Reteso a musculatura
em erecção.
Rebolo pelo chão
dentes cerrados.
Arrasto-me no lodo
mas não desisto.
Conseguirei.
Conseguirei
ainda que me rasgue todo!
1 144
César Vallejo
X DE TRILCE
Pristina e última pedra de infundada
ventura, acaba de morrer
com alma e tudo, Outubro, quarto, e grávida.
De três meses de ausente e dez de doce.
Como o destino, mitrado monodáctilo, ri.
Como por trás se despejam juntas
de contrários. Como sempre assoma o algarismo
abaixo da linha de todo o avatar.
Como chanfram as baleias a pombas.
Como por sua vez estas deixam o bico
na terceira asa cubicado.
Como cavalgamos, de cara para monótonas ancas.
Reboca-se dez meses para a dezena,
para outro mais além.
Dois quedam pelo menos nas fraldas todavia.
E os três meses de ausência.
E os nove de gestação.
Não há sequer violência.
O paciente encorpora-se,
e sentado empavoa tranquilas misturas.
ventura, acaba de morrer
com alma e tudo, Outubro, quarto, e grávida.
De três meses de ausente e dez de doce.
Como o destino, mitrado monodáctilo, ri.
Como por trás se despejam juntas
de contrários. Como sempre assoma o algarismo
abaixo da linha de todo o avatar.
Como chanfram as baleias a pombas.
Como por sua vez estas deixam o bico
na terceira asa cubicado.
Como cavalgamos, de cara para monótonas ancas.
Reboca-se dez meses para a dezena,
para outro mais além.
Dois quedam pelo menos nas fraldas todavia.
E os três meses de ausência.
E os nove de gestação.
Não há sequer violência.
O paciente encorpora-se,
e sentado empavoa tranquilas misturas.
860
Nuno Guimarães
Um Fruto Anunciado
Um fruto anunciado
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
1 114
Nuno Guimarães
Um Fruto Anunciado
Um fruto anunciado
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
1 114
Wallace Stevens
O REI DO SORVETE
Chame o enrolador de grandes charutos,
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passados.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.
Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.
(Tradução
de Décio Pignatari)
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passados.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.
Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.
(Tradução
de Décio Pignatari)
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