Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Fernando Pessoa
A ciência, a ciência, a ciência...
A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
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Fernando Pessoa
A ciência, a ciência, a ciência...
A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
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1
Mafalda Veiga
Passos
Sigo um azul perdido na distância
e um tempo a viajar pra outro lado
é tão incerto o gesto, é como a dança
de um sopro no vento, abandonado
Levo as mão vazias e a vontade
a força inteira do mundo a respirar
soltando dentro amarras à deriva
que me abrem braços noutro mar
Vou procurar rumos só meus
sem sentir mais nada
só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
O sol arde no branco das paredes
e o calor vai ficando para trás
já morreu dentro de mem o punho negro
de garras que apertavam sem matar
Sem medo de navegar enfim a sós
sem medo do que se vê na escuridão
corro atrás das chamas leves e furtivas
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
Corro atrás de ventos incontidos
sem ver mais ninguém
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
e um tempo a viajar pra outro lado
é tão incerto o gesto, é como a dança
de um sopro no vento, abandonado
Levo as mão vazias e a vontade
a força inteira do mundo a respirar
soltando dentro amarras à deriva
que me abrem braços noutro mar
Vou procurar rumos só meus
sem sentir mais nada
só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
O sol arde no branco das paredes
e o calor vai ficando para trás
já morreu dentro de mem o punho negro
de garras que apertavam sem matar
Sem medo de navegar enfim a sós
sem medo do que se vê na escuridão
corro atrás das chamas leves e furtivas
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
Corro atrás de ventos incontidos
sem ver mais ninguém
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
1 230
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Mafalda Veiga
Passos
Sigo um azul perdido na distância
e um tempo a viajar pra outro lado
é tão incerto o gesto, é como a dança
de um sopro no vento, abandonado
Levo as mão vazias e a vontade
a força inteira do mundo a respirar
soltando dentro amarras à deriva
que me abrem braços noutro mar
Vou procurar rumos só meus
sem sentir mais nada
só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
O sol arde no branco das paredes
e o calor vai ficando para trás
já morreu dentro de mem o punho negro
de garras que apertavam sem matar
Sem medo de navegar enfim a sós
sem medo do que se vê na escuridão
corro atrás das chamas leves e furtivas
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
Corro atrás de ventos incontidos
sem ver mais ninguém
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
e um tempo a viajar pra outro lado
é tão incerto o gesto, é como a dança
de um sopro no vento, abandonado
Levo as mão vazias e a vontade
a força inteira do mundo a respirar
soltando dentro amarras à deriva
que me abrem braços noutro mar
Vou procurar rumos só meus
sem sentir mais nada
só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
O sol arde no branco das paredes
e o calor vai ficando para trás
já morreu dentro de mem o punho negro
de garras que apertavam sem matar
Sem medo de navegar enfim a sós
sem medo do que se vê na escuridão
corro atrás das chamas leves e furtivas
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
Corro atrás de ventos incontidos
sem ver mais ninguém
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
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1
Zalina Rolim
Croquis
Quarto de moça: abrindo-se ao levante
Uma janela emoldurada em flores,
Donde se avista o campo verdejante,
Que o sol nascente inunda de esplendores.
Completa ausência de primores d'arte,
Raros adornos, móveis de recreio;
Mas, esvoaçando aéreo, em toda a parte
O grato aroma salutar do asseio.
Ao centro o leito pequenino e leve
Sem ornamentos de maior valia;
Cortinas alvas de um candor de neve
Que a alma refresca e os olhos delicia.
Além a estante de madeira fina,
A mesinha de estudo, a pasta e as penas
Que pacífica e tépida ilumina
A claridade das manhãs serenas.
Rente à janela o toucador e ao lado
Sobre o tapete a cesta de costura;
Flocos, cetins, tesouras de bordado,
Numa engenhosa, artística mistura.
E o sol entrando alegre e satisfeito
Pela janela, fúlgido, alumia
O livro de orações junto do leito
E à cabeceira a imagem de Maria.
In: ROLIM, Zalina. O coração: poesias. São Paulo: Typ. de Hennies & Winiger, 1893. p.75-76. Poema integrante da série Segunda Parte
Uma janela emoldurada em flores,
Donde se avista o campo verdejante,
Que o sol nascente inunda de esplendores.
Completa ausência de primores d'arte,
Raros adornos, móveis de recreio;
Mas, esvoaçando aéreo, em toda a parte
O grato aroma salutar do asseio.
Ao centro o leito pequenino e leve
Sem ornamentos de maior valia;
Cortinas alvas de um candor de neve
Que a alma refresca e os olhos delicia.
Além a estante de madeira fina,
A mesinha de estudo, a pasta e as penas
Que pacífica e tépida ilumina
A claridade das manhãs serenas.
Rente à janela o toucador e ao lado
Sobre o tapete a cesta de costura;
Flocos, cetins, tesouras de bordado,
Numa engenhosa, artística mistura.
E o sol entrando alegre e satisfeito
Pela janela, fúlgido, alumia
O livro de orações junto do leito
E à cabeceira a imagem de Maria.
In: ROLIM, Zalina. O coração: poesias. São Paulo: Typ. de Hennies & Winiger, 1893. p.75-76. Poema integrante da série Segunda Parte
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1
Fernando Pessoa
Sétimo (II): D. FILIPA DE LENCASTRE
Que enigma havia em teu seio
Que só gênios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
Que só gênios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
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1
Bernardo Guimarães
A Orgia dos Duendes
(...)
II
(...)
Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
— Viva, viva a Sra. condessa!...
E dançando em redor da fogueira
Vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:
III
TATURANA
Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.
Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.
GETIRANA
Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.
Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.
GALO PRETO
Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.
Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.
ESQUELETO
Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.
Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.
MULA-SEM-CABEÇA
Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.
Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.
Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
II
(...)
Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
— Viva, viva a Sra. condessa!...
E dançando em redor da fogueira
Vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:
III
TATURANA
Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.
Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.
GETIRANA
Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.
Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.
GALO PRETO
Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.
Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.
ESQUELETO
Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.
Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.
MULA-SEM-CABEÇA
Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.
Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.
Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.
(...)
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
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1
Mafalda Veiga
Fragilidade
Talvez pudesse o tempo parar
quando tudo em nós de precipita
quando a vida nos desgarra os sentidos
e não espera, ai quem dera
Houvesse um canto pra se ficar
longe da guerra feroz que nos domina
se o amor fosse um lugar a salvo
sem medos, sem fragilidade
Tão bom pudesse o tempo parar
e voltar-se a preencher o vazio
é tão duro aprender que na vida
nada se repete, nada se promete
e é tudo tão fugaz e tão breve
Tão bom pudesse o tempo parar
e encharcar-me de azul e de longe
acalmar a raiva aflita da vertigem
sentir o teu braço e poder ficar
É tudo tão fugaz e tão breve
como os reflexos da lua no rio
tudo aquilo que se agarra já fugiu
é tudo tão fugaz e tão breve
quando tudo em nós de precipita
quando a vida nos desgarra os sentidos
e não espera, ai quem dera
Houvesse um canto pra se ficar
longe da guerra feroz que nos domina
se o amor fosse um lugar a salvo
sem medos, sem fragilidade
Tão bom pudesse o tempo parar
e voltar-se a preencher o vazio
é tão duro aprender que na vida
nada se repete, nada se promete
e é tudo tão fugaz e tão breve
Tão bom pudesse o tempo parar
e encharcar-me de azul e de longe
acalmar a raiva aflita da vertigem
sentir o teu braço e poder ficar
É tudo tão fugaz e tão breve
como os reflexos da lua no rio
tudo aquilo que se agarra já fugiu
é tudo tão fugaz e tão breve
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1
Manuel Machado
Canto a Andaluzia
Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
1 173
1
Manuel Machado
Canto a Andaluzia
Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
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Manuel Machado
Canto a Andaluzia
Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
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Fernando Pessoa
VII. OCIDENTE
Com duas mãos — o Ato e o Destino —
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
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1
Fernando Pessoa
VII. OCIDENTE
Com duas mãos — o Ato e o Destino —
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
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Fernando Pessoa
VII. OCIDENTE
Com duas mãos — o Ato e o Destino —
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.
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1
Bocage
Nos campos o vilão sem susto passa
Nos campos o vilão sem susto passa
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso.
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso.
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1
Bocage
Nos campos o vilão sem susto passa
Nos campos o vilão sem susto passa
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso.
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso.
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Bocage
Nos campos o vilão sem susto passa
Nos campos o vilão sem susto passa
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso.
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso.
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Augusto dos Anjos
Ricordanza della mia gioventú
A minha ama de leite Guilhermina
Furtava as moedas que o doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!
Minha ama, então, hipócrita, afetava
Suscetibilidades de menina:
"- Não, não fora ela! -" E maldizia a sua sina,
Que ela absolutamente não furtava.
Vejo, entretanto, agora em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o oiro que brilha...
Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!
Furtava as moedas que o doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!
Minha ama, então, hipócrita, afetava
Suscetibilidades de menina:
"- Não, não fora ela! -" E maldizia a sua sina,
Que ela absolutamente não furtava.
Vejo, entretanto, agora em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o oiro que brilha...
Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!
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1
Franz Kafka
O Escudo da Cidade
Quando se começou a construir a Torre de Babel, tudo estava muito em ordem; e talvez a ordem fôsse excessiva; pensava-se demais em indicadores de caminhos, intérpretes; alojamentos para trabalhadores e rotas de enlace, como se se dispusesse de séculos e outras tantas probalidades de trabalhar livremente. A opiniâo então reinante chegava até a estabelecer que toda lentidão para construir seria pouca; não era preciso exagerar muito esta opinião para retroceder ante a própria idéia de pôr as bases. Argumentava-se deste modo: em toda a empresa, o positivo é a idéia de construir uma torre que chege ao céu. Diante desta idéia o resto é acessório. Uma vez captado o pensamento em toda sua grandeza, não pode desaparecer já: enquanto existem os homens, perdurará o desejo intenso de terminar a construção da torre. Neste sentido não há o que temer pelo futuro, pois antes do mais, o saber da humanidade vai em aumento, a arte da construção fez progressos e fará ainda outros novos; um trabalho para o qual necessitamos uma ano, será realizado dentro de um século, talvez em apenas seis meses e, por acrescentamento, melhor e mais duradouramente. Por que esgotar-se, pois, desde já até o litime das forças? Isso teria sentido se se pudesse esperar que a torre fôsse construída num lapso de uma geração. Isto, contudo, de nenhum modo era dado acreditá-lo. Pois bem, poderia pensar-se que a próxima geração, com seus mais amplo saber, haveria de achar mau o trabalho da geração precedente e que teria de demolir o construído para tornar a começar. Pensamentos deste gênero paralisavam as forças, e a edificação da cidade operária deslocava a construção da torre. Cada grupo regional queria possuir o bairro mais formoso, pelo que sobrevieram quizílias que redundaram em sangrentos combates. Estas lutas eram incessantes; o que serviu de argumento aos chefes para que, por falta da necessária concentração, a torre fosse erguida muito lentamente, ou, melhor ainda, apenas ao fim de estipulada uma paz geral. Mas não se perdeu tempo tão somente em combates, pois durante as tréguas se embelezou a cidade, o que deu origem a novas invejas e novas lutas. Assim transcorreu o lapso da primeira geração, mas nenhuma das que seguiram foi diferente; apenas a destreza ia em aumento constante e, com ela, a sede de luta. A isso veio somar-se que a segunda ou terceira geração reconheceram a insensatez da construção da torre, mas os vínculos mútuos eram já demasiado fortes como para que se pudesse deixar a cidade. Tudo quanto está entroncado com a lenda e a conção que surgisse na cidade está cheio da nostagia para o anunciado dia no qual a cidade seria aniquilada por cinco breves golpes e sucessivamente descarregados sobre ela por um punho gigantesco. Por isso tem a cidade um punho no escudo.
3 037
1
Franz Kafka
O Escudo da Cidade
Quando se começou a construir a Torre de Babel, tudo estava muito em ordem; e talvez a ordem fôsse excessiva; pensava-se demais em indicadores de caminhos, intérpretes; alojamentos para trabalhadores e rotas de enlace, como se se dispusesse de séculos e outras tantas probalidades de trabalhar livremente. A opiniâo então reinante chegava até a estabelecer que toda lentidão para construir seria pouca; não era preciso exagerar muito esta opinião para retroceder ante a própria idéia de pôr as bases. Argumentava-se deste modo: em toda a empresa, o positivo é a idéia de construir uma torre que chege ao céu. Diante desta idéia o resto é acessório. Uma vez captado o pensamento em toda sua grandeza, não pode desaparecer já: enquanto existem os homens, perdurará o desejo intenso de terminar a construção da torre. Neste sentido não há o que temer pelo futuro, pois antes do mais, o saber da humanidade vai em aumento, a arte da construção fez progressos e fará ainda outros novos; um trabalho para o qual necessitamos uma ano, será realizado dentro de um século, talvez em apenas seis meses e, por acrescentamento, melhor e mais duradouramente. Por que esgotar-se, pois, desde já até o litime das forças? Isso teria sentido se se pudesse esperar que a torre fôsse construída num lapso de uma geração. Isto, contudo, de nenhum modo era dado acreditá-lo. Pois bem, poderia pensar-se que a próxima geração, com seus mais amplo saber, haveria de achar mau o trabalho da geração precedente e que teria de demolir o construído para tornar a começar. Pensamentos deste gênero paralisavam as forças, e a edificação da cidade operária deslocava a construção da torre. Cada grupo regional queria possuir o bairro mais formoso, pelo que sobrevieram quizílias que redundaram em sangrentos combates. Estas lutas eram incessantes; o que serviu de argumento aos chefes para que, por falta da necessária concentração, a torre fosse erguida muito lentamente, ou, melhor ainda, apenas ao fim de estipulada uma paz geral. Mas não se perdeu tempo tão somente em combates, pois durante as tréguas se embelezou a cidade, o que deu origem a novas invejas e novas lutas. Assim transcorreu o lapso da primeira geração, mas nenhuma das que seguiram foi diferente; apenas a destreza ia em aumento constante e, com ela, a sede de luta. A isso veio somar-se que a segunda ou terceira geração reconheceram a insensatez da construção da torre, mas os vínculos mútuos eram já demasiado fortes como para que se pudesse deixar a cidade. Tudo quanto está entroncado com a lenda e a conção que surgisse na cidade está cheio da nostagia para o anunciado dia no qual a cidade seria aniquilada por cinco breves golpes e sucessivamente descarregados sobre ela por um punho gigantesco. Por isso tem a cidade um punho no escudo.
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Arthur Rimbaud
NO CABARÉ VERDE - às cinco da tarde
Oito dias de estrada, as botas esfoladas
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
- Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. - Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
- Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Outubro de 1870
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
- Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. - Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
- Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Outubro de 1870
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Arthur Rimbaud
NO CABARÉ VERDE - às cinco da tarde
Oito dias de estrada, as botas esfoladas
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
- Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. - Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
- Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Outubro de 1870
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
- Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. - Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
- Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Outubro de 1870
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Manuel Bandeira
A Camões
Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
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Felipe Vianna
BLUMENAU
Minha Blumenau.
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
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