Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Álvares de Azevedo
Na Minha Terra
Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;
E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;
A restinga dareia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;
E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;
E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.
II
Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;
Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!
Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,
E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;
Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,
Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa - e nua
Do prateado véu -
Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?
Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?
Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!
No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!
III
Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,
No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!
E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...
Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...
E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,
E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!
Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,
E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;
E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;
A restinga dareia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;
E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;
E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.
II
Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;
Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!
Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,
E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;
Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,
Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa - e nua
Do prateado véu -
Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?
Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?
Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!
No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!
III
Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,
No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!
E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...
Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...
E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,
E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!
Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,
E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
5 118
1
António Arnaut
Os Meus Heróis
Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
2 966
1
António Arnaut
Os Meus Heróis
Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
2 966
1
António Arnaut
Geografia de Portugal
Noventa mil quilómetros quadrados
de ousadia e sofrimento:
A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,
Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pégadas da aventura.
de ousadia e sofrimento:
A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,
Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pégadas da aventura.
1 252
1
Bento Prado Júnior
Coração de pedra
Não tem olhos de ver para a eterna beleza,
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
1 340
1
Bráulio de Abreu
Volta da Pesca
A tarde vai morrendo mansa e boa...
Tudo é recolhimento, nostalgia.
Lá ma torre da Ajuda um sino soa,
Enche o espaço de sons da Ave Maria.
A sombra cai. Um Pássaro não voa.
Vão-se os violáceos tons do fim do dia.
Sobre, singrando o rio, uma canoa:
Volta Manuel Monção da pescaria.
Com seus oitenta esplêndidos janeiros,
Frente à casa da rua dos coqueiros,
Fundeia, apanha o cofo, o remo, a vela
E à noite, após o cafezinho quente,
Fuma e cochila, sossegadamente,
Sentado no sofá, junto à janela.
Tudo é recolhimento, nostalgia.
Lá ma torre da Ajuda um sino soa,
Enche o espaço de sons da Ave Maria.
A sombra cai. Um Pássaro não voa.
Vão-se os violáceos tons do fim do dia.
Sobre, singrando o rio, uma canoa:
Volta Manuel Monção da pescaria.
Com seus oitenta esplêndidos janeiros,
Frente à casa da rua dos coqueiros,
Fundeia, apanha o cofo, o remo, a vela
E à noite, após o cafezinho quente,
Fuma e cochila, sossegadamente,
Sentado no sofá, junto à janela.
829
1
Ezra Pound
SAUDAÇÃO
Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
2 892
1
Adélia Prado
Poema Começado do Fim
Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.
3 268
1
Heinrich Heine
HIMMEL GRAU
Um pardacento céu hebdomadário!
E a cidade também não mudou nada.
Do mesmo modo idiota e salafrário
No Elba se mira como então, pasmada.
Assoam-se os narizes longamente
Com a mesma repetida convicção.
E há gente de uma empáfia impertinente,
E outros, mais falsos, de olhos pelo chão.
Ó belo Sul! Quanto os teus céus adoro,
Quanto adoro os teus deuses! Sobretudo após
Rever de novo este infrahumano coro,
Esta borra de gente. E o clima atroz.
E a cidade também não mudou nada.
Do mesmo modo idiota e salafrário
No Elba se mira como então, pasmada.
Assoam-se os narizes longamente
Com a mesma repetida convicção.
E há gente de uma empáfia impertinente,
E outros, mais falsos, de olhos pelo chão.
Ó belo Sul! Quanto os teus céus adoro,
Quanto adoro os teus deuses! Sobretudo após
Rever de novo este infrahumano coro,
Esta borra de gente. E o clima atroz.
2 443
1
Albuquerque Freire
Insurreição
Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
1 408
1
Albuquerque Freire
Insurreição
Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
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Albuquerque Freire
Insurreição
Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
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Albuquerque Freire
Insurreição
Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
1 408
1
Amândio César
Caminhada
Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
1 082
1
Amândio César
Caminhada
Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
1 082
1
Ezra Pound
SAUDAÇÃO SEGUNDA
Fostes louvados, meus livros,
porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
Não renegueis vossa progênie.
Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:
Então é isto, dizem eles, o contra-senso
que esperamos dos poetas?
Onde está o Pitoresco?
Onde a vertigem da emoção?
Não ! O primeiro livro dele era melhor.
Pobre Coitado ! perdeu as ilusões.
Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !
Comprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guizos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
Ide com vaias e assobios !
Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !
Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
e que viverei eternamente.
(Tradução de Mário Faustino)
porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
Não renegueis vossa progênie.
Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:
Então é isto, dizem eles, o contra-senso
que esperamos dos poetas?
Onde está o Pitoresco?
Onde a vertigem da emoção?
Não ! O primeiro livro dele era melhor.
Pobre Coitado ! perdeu as ilusões.
Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !
Comprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guizos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
Ide com vaias e assobios !
Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !
Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
e que viverei eternamente.
(Tradução de Mário Faustino)
1 702
1
Marcial
VI, 4 - AO IMPERADOR DOMICIANO
Censor supremo, príncipe dos príncipes,
Tantos triunfos te devia Roma,
E tanto templo novo ou restaurado,
E tantos deuses, urbes, espectáculos!
E mais te deve agora: a pudicícia.
Tantos triunfos te devia Roma,
E tanto templo novo ou restaurado,
E tantos deuses, urbes, espectáculos!
E mais te deve agora: a pudicícia.
1 075
1
Marcial
VI, 4 - AO IMPERADOR DOMICIANO
Censor supremo, príncipe dos príncipes,
Tantos triunfos te devia Roma,
E tanto templo novo ou restaurado,
E tantos deuses, urbes, espectáculos!
E mais te deve agora: a pudicícia.
Tantos triunfos te devia Roma,
E tanto templo novo ou restaurado,
E tantos deuses, urbes, espectáculos!
E mais te deve agora: a pudicícia.
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1
Langston Hughes
ASPIRAÇÃO
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!
Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.
2 025
1
William Shakespeare
Soneto XXIX
Quando em desgraça aos olhos dos humanos,
sozinho choro o meu maldito estado,
e ao surdo céu gritando vou meus danos,
e a mim me vejo e amaldiçoa o Fado,
sonhando-me outro, fico de esperanças,
coa imagem del. como el tão respeitado,
invejo as artes de um, doutro as usanças,
do que mais gozo menos contentado.
Mas se ao pensar assim, quase me odiando,
acaso penso em ti, logo meu estado,
como ave, às portas celestiais cantando,
se ergue na terra, quando o sol é nado.
Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,
que nem com grandes reis me trocaria.
sozinho choro o meu maldito estado,
e ao surdo céu gritando vou meus danos,
e a mim me vejo e amaldiçoa o Fado,
sonhando-me outro, fico de esperanças,
coa imagem del. como el tão respeitado,
invejo as artes de um, doutro as usanças,
do que mais gozo menos contentado.
Mas se ao pensar assim, quase me odiando,
acaso penso em ti, logo meu estado,
como ave, às portas celestiais cantando,
se ergue na terra, quando o sol é nado.
Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,
que nem com grandes reis me trocaria.
2 234
1
Águia Mendes
A Casa
a gustavo fernandes
de lima sobrinho
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa no mundo
varanda dos lados
wc com luar
ruas refulgentes
poltronas & sofás
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa marítima
alcova com beira-mar
padarias e jardins
vulva crepuscular
casa que é bar
vulgata vulgívaga
retreta lunar
mercearia
com pomares em órbita
e sonoros pardais
ou um negro coagido
por uma confederação
de poetas marginais
de lima sobrinho
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa no mundo
varanda dos lados
wc com luar
ruas refulgentes
poltronas & sofás
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa marítima
alcova com beira-mar
padarias e jardins
vulva crepuscular
casa que é bar
vulgata vulgívaga
retreta lunar
mercearia
com pomares em órbita
e sonoros pardais
ou um negro coagido
por uma confederação
de poetas marginais
501
1
Giuseppe Ungaretti
Vigília
Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
2 366
1
Mikhail Yurevitch Lermontov
ADEUS, Ó RÚSSIA MAL LAVADA!
Adeus pra sempre, ó Rússia mal lavada!
Terra de escravos e cruéis senhores!
E vós, azuis gendarmes opressores,
e vós, dócil nação de carneirada!
Além do Cáucaso e seus altos montes
livre estarei dos vossos grão-pachás,
dos olhos com que espiam tão bifrontes,
e de quantos ouvidos deixo atrás.
Terra de escravos e cruéis senhores!
E vós, azuis gendarmes opressores,
e vós, dócil nação de carneirada!
Além do Cáucaso e seus altos montes
livre estarei dos vossos grão-pachás,
dos olhos com que espiam tão bifrontes,
e de quantos ouvidos deixo atrás.
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