Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
943
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
943
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 504
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 504
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 504
Paulo Colina
Espreita noturna
Tem sempre algo
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
de porre
na caída de sono
das pálpebras cansadas
da tarde,
e um dedo de raiva
na fuga do cimento
das colmeias
(raiva e medo),
e o princípio cego
das peregrinações
ao tudo e ao nada.
Há pontas de desespero
nas brasas insensíveis
dos cigarros
e um fio minguado
de esperança
para atiçar
o impossível calor
dos quartos vazios.
Tem sempre um rosto,
um corpo de mulher,
no fundo dos copos.
Há sempre uma tocaia
da morte
no seio insone da noite
e um sorriso de criança
rasgando o ventre virgem
das manhãs.
1 056
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
954
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
729
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
729
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
729
Pentti Saarikoski
LII
eu convido
as feministas de Eurípides
as filhas de Bacchus
sirvo vinho de sorva
e as incito
a fazer em pedaços
os censores
que nos observam
dentro destas cercas de arbustos
e as incito a fazer em pedaços
os cônsules castrados
e César
e todos os manda-chuvas
eu as incito a fazer em pedaços
o judiciário o clérigo
todos
os portadores defasces
para que as matas
ao redor da pista de dança
cubram-se de cabeças mordidas feito amoras
(paráfrases de Ricardo Domeneck, a partir das traduções de Anselm Hollo para o inglês)
625
Pentti Saarikoski
LII
eu convido
as feministas de Eurípides
as filhas de Bacchus
sirvo vinho de sorva
e as incito
a fazer em pedaços
os censores
que nos observam
dentro destas cercas de arbustos
e as incito a fazer em pedaços
os cônsules castrados
e César
e todos os manda-chuvas
eu as incito a fazer em pedaços
o judiciário o clérigo
todos
os portadores defasces
para que as matas
ao redor da pista de dança
cubram-se de cabeças mordidas feito amoras
(paráfrases de Ricardo Domeneck, a partir das traduções de Anselm Hollo para o inglês)
625
Pentti Saarikoski
LII
eu convido
as feministas de Eurípides
as filhas de Bacchus
sirvo vinho de sorva
e as incito
a fazer em pedaços
os censores
que nos observam
dentro destas cercas de arbustos
e as incito a fazer em pedaços
os cônsules castrados
e César
e todos os manda-chuvas
eu as incito a fazer em pedaços
o judiciário o clérigo
todos
os portadores defasces
para que as matas
ao redor da pista de dança
cubram-se de cabeças mordidas feito amoras
(paráfrases de Ricardo Domeneck, a partir das traduções de Anselm Hollo para o inglês)
625
Pentti Saarikoski
LII
eu convido
as feministas de Eurípides
as filhas de Bacchus
sirvo vinho de sorva
e as incito
a fazer em pedaços
os censores
que nos observam
dentro destas cercas de arbustos
e as incito a fazer em pedaços
os cônsules castrados
e César
e todos os manda-chuvas
eu as incito a fazer em pedaços
o judiciário o clérigo
todos
os portadores defasces
para que as matas
ao redor da pista de dança
cubram-se de cabeças mordidas feito amoras
(paráfrases de Ricardo Domeneck, a partir das traduções de Anselm Hollo para o inglês)
625
Pentti Saarikoski
Fragmentos de Convite para a dança
V
Não retornes
Quetzalcoatl
aqui agora adoram-se outros deuses
as penas do teu pássaro
à venda em lojas para turistas
teus lagos congelados
as pontes de ilha a ilha
escapamentos para as ansiedades do povo
das janelas de edifícios
olhos cansados contemplam a praça
rubra com o sangue dos inocentes
não retornes
Quetzalcoatl
fica com a fé dos teus pais
675
Maria Ângela Alvim
Carta a Maria Clea
Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
822
Christine Lavant
Eu quero partir com os loucos o pão,
Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
715
Leónidas Lamborghini
Lendo o jornal
Como aquele que um dia
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
674
Leónidas Lamborghini
Lendo o jornal
Como aquele que um dia
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
674
Henriqueta Lisboa
Não a face dos mortos
Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
1 035
Sebastião Alba
No meu país
No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.
1 276
Sebastião Alba
Como os outros
Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
1 166
Giuseppe Ungaretti
San Martino del Carso
Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
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Henriqueta Lisboa
Denúncia
Os tresloucados do volante
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.
de Pousada do ser (1982)
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.
de Pousada do ser (1982)
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