Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Torquato Neto
Literato cantabile
agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
21-10
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
21-10
3 756
Sosigenes Costa
do poema longo Iararana
Esse bicho da Oropa tinha parte com o diabo.
Esse bicho da Oropa foi o diabo neste rio
Ele fez guerra com espingarda aos cabocos do mato
tinha corpo de cavalo e andava de quatro pés
Mas ele dava na gente de taca e facão
e ensinou a gente a tirar broto de cacau
e o cacau desbrotado ficou parrudo
e bonitão como danado.
(Roda)
E o cacau foi chamado o alimento do céu,
a baba-de-moça comida na lua.
E o cacau ficou na coroa da lua,
e os meninos fizeram a roda na rua,
pedindo à lua manjar do céu.
Carinha de anjo,
moça do céu,
bença, dindinha,
me dê chá do céu,
me dê chocolate,
me dê bombom,
baba de lua
com manuê.
Chá de santinho
me dê me dê,
café de anjo
me dê me dê.
Dindinha, lua,
carinha de anjo,
me dê chá da lua
mais uma broa
pra meu pintinho
que saiu do ovo
que pinta pôs,
vestido de pelo
como um morcego,
feito uma poncã
de pó-de-arroz.
Me dê chocolate,
me dê bombom,
a teobroma
de seu Linneu.
A lua batiza
menino que nasce
depois que o cavalo
andou na lua
botando aquilo
que faz bombom.
E o retrato do cavalo ficou na lua
e ainda se vê o bichão na lua
que está redonda como um botão.
Não é S. Jorge que está na lua.
Quem está na lua é aquele bichão.
1 360
Paulo Leminski
a gente ia ser homero
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
3 798
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 411
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 411
Patrícia Galvão
Canal
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
983
Barbara Guest
Uma razão
É por isso que estou aqui
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
:
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
728
Barbara Guest
O fim do desfile
O máximo que se pode dizer
a propósito do desfile
é que à Cabeça era vermelho.
Tendo o gosto do grotesco o arquiteto
aquiesceu,
inflados
barrigas e balões.
Ele tinha a mania da grandeza,
foi o que disse.
Acompanhando das laterais
não estávamos exatamente contentes
e sim gelados pelo vento de neve,
nossos pés encolhendo
no couro não-adaptável
nossos olhos formaram lágrimas verdadeiramente gigantescas
que soltamos após a passagem
do último soldado e o enterro
do confete na lixeira.
Foi um dia e tanto. Trouxe para casa
um poema lacrado. Deve crescer
na cozinha próximo ao fogão
se eu conseguir espremer dos olhos
água o suficiente. Água.
:
Parade´s end (in The Blue Stairs, 1968)
The most that can be said
for following the parade
is that the Head was red.
Liking grotesque the architect
went along with it,
the balloons and bellies
enlarged.
He had a craze for size,
so he said.
Looking at it from the sidelines
we weren't so amused
as chilled by the snow wind,
our feet getting smaller
in unadaptable leather
our eyes formed truly gigantic tears
we dropped when the last
soldier had passed and the confetti
was buried in the ash can.
It was quite a day. I brought home
an unopened poem. It should grow
in the kitchen near the stove
if I can squeeze out of my eyes
enough water. Water.
813
Barbara Guest
Perdendo pessoas
para Ira Morris
Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil
Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche
Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia
Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato
Perda
da sua presença com um trote
e matizes
a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora
Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real
missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:
você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.
:
Losing people (in Moscow Mansions, 1973)
for Ira Morris
The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy
Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich
Loss
not hearing a voice
again as threnody
Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine
Loss
of your presence with a gait
and hues
the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside
O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather
missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:
you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.
Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil
Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche
Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia
Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato
Perda
da sua presença com um trote
e matizes
a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora
Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real
missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:
você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.
:
Losing people (in Moscow Mansions, 1973)
for Ira Morris
The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy
Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich
Loss
not hearing a voice
again as threnody
Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine
Loss
of your presence with a gait
and hues
the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside
O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather
missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:
you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.
777
Sandro Penna
Como é forte o ruído da aurora
Como é forte o ruído da aurora!
Feito de coisas mais que de pessoas.
Precede-o às vezes um sibilo breve,
uma voz que alegre desafia o dia.
Mas logo na cidade tudo é imerso
e a minha estrela é aquela estrela pálida
minha lenta morte sem desesperança.
:
Come è forte il rumore dell’alba!
Fatto di cose più che di persone.
Lo precede talvolta in fischio breve,
una voce che lieta sfida il giorno.
Ma poi nella città tutto è sommerso.
e la mia stella è questa stella scialba
mia lenta morte senza disperazione.
de Come è forte il rumore
Feito de coisas mais que de pessoas.
Precede-o às vezes um sibilo breve,
uma voz que alegre desafia o dia.
Mas logo na cidade tudo é imerso
e a minha estrela é aquela estrela pálida
minha lenta morte sem desesperança.
:
Come è forte il rumore dell’alba!
Fatto di cose più che di persone.
Lo precede talvolta in fischio breve,
una voce che lieta sfida il giorno.
Ma poi nella città tutto è sommerso.
e la mia stella è questa stella scialba
mia lenta morte senza disperazione.
de Come è forte il rumore
770
Paulo Leminski
Círculo
cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
1 369
Yannis Ritsos
Os Modelos
Não esqueçamos nunca - disse - as boas lições, aquelas
da arte dos Gregos. Sempre o celeste lado a lado
com o quotidiano. Ao lado do homem, o animal e a coisa —
uma pulseira no braço da deusa nua; uma flor
caída no chão. Recordai as formosas representações
nos nossos vasos de barro — os deuses com os pássaros e com outros animais,
e juntamente a lira, um martelo, uma maçã, a arca, as tenazes;
ah! e aquele poema em que o deus, ao terminar o trabalho,
retira o fole de junto do fogo, recolhe uma a uma as ferramentas
dentro da arca de prata; depois, com uma esponja, limpa
o rosto, as mãos, o pescoço nervudo, o peito peludo.
Assim, limpo, bem arranjado, sai à tardinha, apoiado
nos ombros de efebos todos de oiro — trabalhos de suas mãos
que têm força, e pensamento, e voz; — sai para a rua,
mais magnífico que todos, o deus coxo, o deus operário.
(tradução de Custódio Magueijo)
1 151
Sandro Penna
A Eugenio Montale
É festa no poente e eu sigo
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
968
Sandro Penna
Como é belo seguir-te
Como é belo seguir-te
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
831
Isabel Câmara
Light-cock-song
só para gênios, tímidos
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esquecer que o alho é para um aglio-olio.
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esquecer que o alho é para um aglio-olio.
881
Maura Lopes Cançado
mulheres despojadas
"Nós, mulheres despojadas, sem ontem nem amanhã, tão livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que dá ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. [...] Nós, mulheres soltas, que rimos doidas por trás das grades - em excesso de liberdade", trecho de O Hospício É Deus (1965),
995
Maura Lopes Cançado
mulheres despojadas
"Nós, mulheres despojadas, sem ontem nem amanhã, tão livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que dá ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. [...] Nós, mulheres soltas, que rimos doidas por trás das grades - em excesso de liberdade", trecho de O Hospício É Deus (1965),
995
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
944
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
944
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
944
Paulo Colina
Esboço
O meu braço
laço e corte
é machado-foice
pau
o meu braço
é cimento
é concreto-britadeira
é parada infernal
sou a fome em sua porta
sou tocaia nas esquinas
olha o cano
olha o punhal
sou o asco
sou só casca
sou o nó que não desata
sou notícia de jornal
não aceito mais açoite
sou orgulho sou bravata
sou açúcar sou o sal
sou o suor pelota e grama
sou cansaço coração
sou a válvula de escape
pro seu ódio emoção
eu sou ginga melodia
berro couro alegria
todo ano carnaval
sou madeira que não verga
sou o dia sou a noite
não faz mal
1 284
Paulo Colina
Esboço
O meu braço
laço e corte
é machado-foice
pau
o meu braço
é cimento
é concreto-britadeira
é parada infernal
sou a fome em sua porta
sou tocaia nas esquinas
olha o cano
olha o punhal
sou o asco
sou só casca
sou o nó que não desata
sou notícia de jornal
não aceito mais açoite
sou orgulho sou bravata
sou açúcar sou o sal
sou o suor pelota e grama
sou cansaço coração
sou a válvula de escape
pro seu ódio emoção
eu sou ginga melodia
berro couro alegria
todo ano carnaval
sou madeira que não verga
sou o dia sou a noite
não faz mal
1 284
John Berryman
26
As glórias do mundo me bateram, fizeram-me ária, certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.
Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima
além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 26
John Berryman
The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.
All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime
besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.
Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima
além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
Dream Song 26
John Berryman
The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.
All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime
besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.
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