Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
José Albano
Comédia Angélica
A cena se passa em Lourdes.
Coro de pastoras
Violeta suave,
Santa MARIA,
O teu pranto nos lave
De noite e dia.
Tu que em Belém nos deste
A graça suma,
Açucena celeste,
Tu nos perfuma.
Rosa d'amor primeva,
Casta e pudica,
Tu nos levanta, enleva
E glorifica.
E, até que enfim desponte
A alta ventura,
Corra a água desta fonte
Perene e pura.
Coro de fiéis
Abril, de violetas coroado,
Pinta de cores mil o verde prado
E em ledos bosques e vergéis risonhos
Voam amores, ilusões e sonhos.
Desliza o rio, duma e doutra margem
Flores fragrantes fresco aroma espargem
E surgem dentre lírios amorosos
Doces desejos e mais doces gozos.
É já passado o inverno duro e ingrato,
A primavera ostenta rico ornato
E já lá vêm chegando as três donzelas
Sábias, prudentes, ínclitas e belas
Que inspiraram o engenho peregrino
Do Angélico Doutor Tomás d'Aquino.
Eis a Fé, a Esperança e a Caridade,
Trazendo co'o prazer que nos invade,
A santa cruz, luzindo eternamente,
A âncora forte e o coração ardente.
Fé
Minhas irmãs caríssimas e amáveis,
Dizei-me em que lugar remoto andáveis,
Pois quase nunca a vós me vejo unida,
Almas salvando para a eterna vida.
Porém aqui, nesta sagrada gruta,
Do mal nos livra a Virgem impoluta
E não tememos nunca força ou manha,
Quando a graça de Deus nos acompanha
E o resplendor da estrela matutina
O caminho do céu nos ilumina.
Esperança
Às vezes, Fé, contigo também ando,
Pois por todo o universo vou voando,
Porém por que tão raras vezes vejo
Da Caridade o rosto benfazejo?
Caridade
Não faltam os que creiam e que esperem,
Mas, ó tristeza, amar bem poucos querem.
E ai dos que deixam a inocência casta,
Todo o prazer do mundo não lhes basta.
(...)
Publicado no livro Comédia Angélica (1918).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.150-152. (Série Revisões, 3
Coro de pastoras
Violeta suave,
Santa MARIA,
O teu pranto nos lave
De noite e dia.
Tu que em Belém nos deste
A graça suma,
Açucena celeste,
Tu nos perfuma.
Rosa d'amor primeva,
Casta e pudica,
Tu nos levanta, enleva
E glorifica.
E, até que enfim desponte
A alta ventura,
Corra a água desta fonte
Perene e pura.
Coro de fiéis
Abril, de violetas coroado,
Pinta de cores mil o verde prado
E em ledos bosques e vergéis risonhos
Voam amores, ilusões e sonhos.
Desliza o rio, duma e doutra margem
Flores fragrantes fresco aroma espargem
E surgem dentre lírios amorosos
Doces desejos e mais doces gozos.
É já passado o inverno duro e ingrato,
A primavera ostenta rico ornato
E já lá vêm chegando as três donzelas
Sábias, prudentes, ínclitas e belas
Que inspiraram o engenho peregrino
Do Angélico Doutor Tomás d'Aquino.
Eis a Fé, a Esperança e a Caridade,
Trazendo co'o prazer que nos invade,
A santa cruz, luzindo eternamente,
A âncora forte e o coração ardente.
Fé
Minhas irmãs caríssimas e amáveis,
Dizei-me em que lugar remoto andáveis,
Pois quase nunca a vós me vejo unida,
Almas salvando para a eterna vida.
Porém aqui, nesta sagrada gruta,
Do mal nos livra a Virgem impoluta
E não tememos nunca força ou manha,
Quando a graça de Deus nos acompanha
E o resplendor da estrela matutina
O caminho do céu nos ilumina.
Esperança
Às vezes, Fé, contigo também ando,
Pois por todo o universo vou voando,
Porém por que tão raras vezes vejo
Da Caridade o rosto benfazejo?
Caridade
Não faltam os que creiam e que esperem,
Mas, ó tristeza, amar bem poucos querem.
E ai dos que deixam a inocência casta,
Todo o prazer do mundo não lhes basta.
(...)
Publicado no livro Comédia Angélica (1918).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.150-152. (Série Revisões, 3
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2
Pedro Nava
Reflexos
Poça
Pedra
Tibloung
blong
A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água
Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando
CONCÊNTRICOS
anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando
uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da
Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas
Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
b a m b o s
rolando
no reflexo imprevisto
Onda
margem
schlapp
plap
plaff
O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo - le - men - te
Os telhados bêbados
tentaculisam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar
O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL
Janelas
parando
parando
paradas
pregadas
no espelho achatado das águas pesadas.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "Reflexos também é bom. Me lembra Ravel, Debussy. Alguns efeitos são realmente admiráveis. Aquele 'Onda-margem-schlapp-plap-plaff' é perfeito. Olhe: schlapp em alemão é: eu bamboleio. Acho bom você modificar a grafia, aliás injustificável no 'ch' quando temos um sinal puro para grafá-lo, o x. Bote xlapp, ou sxclapp. Tome também cuidado com certos exageros de síntese. Eu por mim confesso que já vou perdendo o entusiasmo que tive por essas tentativas
Pedra
Tibloung
blong
A água espelho rachado
salpica pingos que
são pedras
preciosas
que são vidro
são aço
são água
Pingo
pingou
a floculação de bolhas subiu
a superfície espelho estalou
bolas
borbulhando
CONCÊNTRICOS
anel
os anéis
mais anéis
amassando alongando
uma paisagem que se desloca
centrífuga
tremida
sa-cu-di-da
Brilhos
prata
coriscos
riscos
prismas
Telhados moles aplastam-se misturando-se
às janelas molambos em
oscilações tombos
b a m b o s
rolando
no reflexo imprevisto
Onda
margem
schlapp
plap
plaff
O círculo
abre
afasta-se
fecha
vai
vem
com preguiça
mo - le - men - te
Os telhados bêbados
tentaculisam cumieiras
as chaminés
virguladas
são serpentes
que se imobilizam
devagar
devagar
O polvo de ouro recolhe os braços
desemaranha-os
e como uma pasta
resume-se
bola
SOL
Janelas
parando
parando
paradas
pregadas
no espelho achatado das águas pesadas.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em sua primeira carta a Pedro Nava, datada de 9 mar. 1925: "Reflexos também é bom. Me lembra Ravel, Debussy. Alguns efeitos são realmente admiráveis. Aquele 'Onda-margem-schlapp-plap-plaff' é perfeito. Olhe: schlapp em alemão é: eu bamboleio. Acho bom você modificar a grafia, aliás injustificável no 'ch' quando temos um sinal puro para grafá-lo, o x. Bote xlapp, ou sxclapp. Tome também cuidado com certos exageros de síntese. Eu por mim confesso que já vou perdendo o entusiasmo que tive por essas tentativas
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2
Henriqueta Lisboa
Modelagem - Mulher
Assim foi modelado o objeto:
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Henriqueta Lisboa
Modelagem - Mulher
Assim foi modelado o objeto:
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Raul Pompéia
Voto Feminino e Voto Estudantil
Verdade é que não deram voto as mulheres.
Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de mais proteção social, não é de mais direitos políticos.
O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista. Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério o seu papel.
Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18 anos, nem de nenhuma outra idade.
Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste mundo, a começar pela política. Já em São Paulo o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras. E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.
O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar logo a vida da responsabilidade, a vida prática... Vida prática. As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das rimas.
Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros que tão depressa cedem à preocupação melancólica da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a com responsabilidades eleitorais.
Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 23 fev. 1891. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 195-196
Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de mais proteção social, não é de mais direitos políticos.
O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista. Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério o seu papel.
Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18 anos, nem de nenhuma outra idade.
Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste mundo, a começar pela política. Já em São Paulo o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras. E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.
O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar logo a vida da responsabilidade, a vida prática... Vida prática. As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das rimas.
Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros que tão depressa cedem à preocupação melancólica da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a com responsabilidades eleitorais.
Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 23 fev. 1891. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 195-196
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Raul Pompéia
Voto Feminino e Voto Estudantil
Verdade é que não deram voto as mulheres.
Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de mais proteção social, não é de mais direitos políticos.
O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista. Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério o seu papel.
Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18 anos, nem de nenhuma outra idade.
Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste mundo, a começar pela política. Já em São Paulo o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras. E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.
O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar logo a vida da responsabilidade, a vida prática... Vida prática. As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das rimas.
Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros que tão depressa cedem à preocupação melancólica da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a com responsabilidades eleitorais.
Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 23 fev. 1891. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 195-196
Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de mais proteção social, não é de mais direitos políticos.
O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista. Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério o seu papel.
Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18 anos, nem de nenhuma outra idade.
Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste mundo, a começar pela política. Já em São Paulo o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras. E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.
O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar logo a vida da responsabilidade, a vida prática... Vida prática. As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das rimas.
Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros que tão depressa cedem à preocupação melancólica da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a com responsabilidades eleitorais.
Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 23 fev. 1891. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 195-196
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Raul Pompéia
Voto Feminino e Voto Estudantil
Verdade é que não deram voto as mulheres.
Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de mais proteção social, não é de mais direitos políticos.
O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista. Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério o seu papel.
Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18 anos, nem de nenhuma outra idade.
Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste mundo, a começar pela política. Já em São Paulo o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras. E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.
O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar logo a vida da responsabilidade, a vida prática... Vida prática. As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das rimas.
Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros que tão depressa cedem à preocupação melancólica da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a com responsabilidades eleitorais.
Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 23 fev. 1891. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 195-196
Mas as mulheres o que precisam é de mais atenções, de mais proteção social, não é de mais direitos políticos.
O direito de voto com extensão às mulheres seria a instuição legal da virago, que é a mais feia da monstruosidade de que dá cópia a sociedade, ainda pior do que a extravagância oposta do maricas; porque o defeito deste está na influência e o da virago está na demasia, e o mal por excesso sempre dá mais na vista. Viragos já basta que o sejam por necessidade de temperamento algumas respeitáveis sogras, que entendem tomar excessivamente a sério o seu papel.
Também o Congresso não deu voto aos estudantes maiores de 18 anos, nem de nenhuma outra idade.
Mas, para que o voto aos estudantes? É preciso que a gente tenha tempo de ser moço, e ser moço é poder fazer figas a tudo neste mundo, a começar pela política. Já em São Paulo o jornal político da Academia matou a serenata. E todos sabem quanto perdeu a poética cidade dos estudantes, com a morte das guitarras. E o interessante é que os oradores dos clubs partidários, não oram hoje como cantavam antigamente os trovadores das orgias ao luar.
O voto aos estudantes seria a consagração desse descalabro na lei; seria a abolição dos verdes anos, alguma cousa como a revogação da primavera. Com a idade de 15 anos, de 18 que fosse, entrava-se em sinistra maioridade e adeus idade dos poemas, adeus uma boêmia, adeus credores amáveis, adeus mesmo à risonha mesada, porque as divergências políticas paralisariam muitas vezes, a manuficência periódica dos cofres paternos. Era começar logo a vida da responsabilidade, a vida prática... Vida prática. As escolas sabem o sentido destas duas terríveis palavras na imaginação de quem ainda a tem ocupada pelo revôo das estrofes e pelo cantar das rimas.
Já bem pouco de moços têm os moços brasileiros que tão depressa cedem à preocupação melancólica da vida, para mais se agravar essa tendência de fraqueza, sobrecarregando-a com responsabilidades eleitorais.
Nenhum mal faz que mesmo com perda para estatística dos círculos da cabala se vão deixando os estudantes à estudantina.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 23 fev. 1891. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 195-196
2 086
2
Afonso Schmidt
Anhangabaú
No Piques, vagando à-toa,
é raro quem não pressinta
uma toada indistinta
que, sob as pedras, ressoa.
Conta moedas, tilinta,
como refrão de uma loa,
a fonte exilada e boa,
há muitos anos extinta.
Sua alma que ali revoa,
de céus e de ares faminta,
repete a cada pessoa
uma novela sucinta:
noturnos, capas, garoa,
1830...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
é raro quem não pressinta
uma toada indistinta
que, sob as pedras, ressoa.
Conta moedas, tilinta,
como refrão de uma loa,
a fonte exilada e boa,
há muitos anos extinta.
Sua alma que ali revoa,
de céus e de ares faminta,
repete a cada pessoa
uma novela sucinta:
noturnos, capas, garoa,
1830...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
2 004
2
Affonso Ávila
Os Negros de Itaverava
Três negros de Itaverava,
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
1 659
2
Juó Bananére
O Lobo i o Gordeirigno
Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére
Un dia n'un riberó
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.
Abebia o gorderigno,
Chetigno come un jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo sai.
O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
O zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:
— Olá! Ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?
— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Fui o gordêro aparlano...
Non vê intô Incelencia,
Che du lado d'imbaixo stó io
I che nessun ribêro ne rio,
Non górre nunca p'ra cima?
— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno que io sô un pau d'agua.
— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d'indade?!
— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo chi é tuo ermô.
— Giuro, ó inlustre amigo,
Che istu tambê é invençó!
Perché é verdade o che digo,
Che nunca tive un ermô.
— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c'oa migna vida.
I avendo accussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p'ru matto
I cumeu illo intirigno.
MORALE: O que vale nista vida é o muque!
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Traduçó Du Bananére
Un dia n'un riberó
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.
Abebia o gorderigno,
Chetigno come un jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo sai.
O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
O zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:
— Olá! Ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?
— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Fui o gordêro aparlano...
Non vê intô Incelencia,
Che du lado d'imbaixo stó io
I che nessun ribêro ne rio,
Non górre nunca p'ra cima?
— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno que io sô un pau d'agua.
— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d'indade?!
— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo chi é tuo ermô.
— Giuro, ó inlustre amigo,
Che istu tambê é invençó!
Perché é verdade o che digo,
Che nunca tive un ermô.
— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c'oa migna vida.
I avendo accussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p'ru matto
I cumeu illo intirigno.
MORALE: O que vale nista vida é o muque!
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
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2
Juó Bananére
O Lobo i o Gordeirigno
Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére
Un dia n'un riberó
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.
Abebia o gorderigno,
Chetigno come un jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo sai.
O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
O zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:
— Olá! Ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?
— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Fui o gordêro aparlano...
Non vê intô Incelencia,
Che du lado d'imbaixo stó io
I che nessun ribêro ne rio,
Non górre nunca p'ra cima?
— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno que io sô un pau d'agua.
— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d'indade?!
— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo chi é tuo ermô.
— Giuro, ó inlustre amigo,
Che istu tambê é invençó!
Perché é verdade o che digo,
Che nunca tive un ermô.
— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c'oa migna vida.
I avendo accussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p'ru matto
I cumeu illo intirigno.
MORALE: O que vale nista vida é o muque!
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Traduçó Du Bananére
Un dia n'un riberó
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.
Abebia o gorderigno,
Chetigno come un jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo sai.
O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
O zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:
— Olá! Ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?
— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Fui o gordêro aparlano...
Non vê intô Incelencia,
Che du lado d'imbaixo stó io
I che nessun ribêro ne rio,
Non górre nunca p'ra cima?
— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno que io sô un pau d'agua.
— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d'indade?!
— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo chi é tuo ermô.
— Giuro, ó inlustre amigo,
Che istu tambê é invençó!
Perché é verdade o che digo,
Che nunca tive un ermô.
— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c'oa migna vida.
I avendo accussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p'ru matto
I cumeu illo intirigno.
MORALE: O que vale nista vida é o muque!
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
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2
Maria Helena Nery Garcez
Romantismo
Venho das ruas molhadas e desertas.
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
1 017
2
Murillo Mendes
Canção do Exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
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Murillo Mendes
Canção do Exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
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Paulo Setúbal
Idílio
"Vamos?" disseste... E eu disse logo: vamos!
Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,
Uma alegria esplêndida e sonora;
E tu, abrindo ao sol, como uma tenda,
Tua sombrinha de custosa renda,
Partimos ambos pela estrada afora...
Eram pastagens largas, eram roças,
Carros de bois, currais, barreadas choças,
E rústicos galpões de pau-a-pique;
Só tu, nessa bucólica simpleza,
Com teu "tailleur" de casemira inglesa,
Punhas uns tons de mundanismo chic.
E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada,
Nós, papagueando, sem sentirmos nada,
Seguíamos num sonho encantador:
É que a felicidade, como um vinho,
Fazia-nos andar pelo caminho,
Tontos de gozo e bêbedos de amor!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,
Uma alegria esplêndida e sonora;
E tu, abrindo ao sol, como uma tenda,
Tua sombrinha de custosa renda,
Partimos ambos pela estrada afora...
Eram pastagens largas, eram roças,
Carros de bois, currais, barreadas choças,
E rústicos galpões de pau-a-pique;
Só tu, nessa bucólica simpleza,
Com teu "tailleur" de casemira inglesa,
Punhas uns tons de mundanismo chic.
E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada,
Nós, papagueando, sem sentirmos nada,
Seguíamos num sonho encantador:
É que a felicidade, como um vinho,
Fazia-nos andar pelo caminho,
Tontos de gozo e bêbedos de amor!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
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Paulo Setúbal
Idílio
"Vamos?" disseste... E eu disse logo: vamos!
Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,
Uma alegria esplêndida e sonora;
E tu, abrindo ao sol, como uma tenda,
Tua sombrinha de custosa renda,
Partimos ambos pela estrada afora...
Eram pastagens largas, eram roças,
Carros de bois, currais, barreadas choças,
E rústicos galpões de pau-a-pique;
Só tu, nessa bucólica simpleza,
Com teu "tailleur" de casemira inglesa,
Punhas uns tons de mundanismo chic.
E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada,
Nós, papagueando, sem sentirmos nada,
Seguíamos num sonho encantador:
É que a felicidade, como um vinho,
Fazia-nos andar pelo caminho,
Tontos de gozo e bêbedos de amor!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,
Uma alegria esplêndida e sonora;
E tu, abrindo ao sol, como uma tenda,
Tua sombrinha de custosa renda,
Partimos ambos pela estrada afora...
Eram pastagens largas, eram roças,
Carros de bois, currais, barreadas choças,
E rústicos galpões de pau-a-pique;
Só tu, nessa bucólica simpleza,
Com teu "tailleur" de casemira inglesa,
Punhas uns tons de mundanismo chic.
E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada,
Nós, papagueando, sem sentirmos nada,
Seguíamos num sonho encantador:
É que a felicidade, como um vinho,
Fazia-nos andar pelo caminho,
Tontos de gozo e bêbedos de amor!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
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Luiz de Miranda
Cidade
Que será do homem
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?
Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas
Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma
Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar
a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança
Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina
Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.300-30
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?
Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas
Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma
Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar
a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança
Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina
Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.300-30
1 480
2
Luiz de Miranda
Cidade
Que será do homem
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?
Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas
Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma
Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar
a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança
Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina
Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.300-30
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?
Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas
Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma
Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar
a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança
Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina
Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.300-30
1 480
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Luiz de Miranda
Cidade
Que será do homem
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?
Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas
Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma
Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar
a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança
Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina
Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.300-30
que não sustenta
a sua fome
com pão, leite, feijão e ar?
Nada é menos livre
do que a fome
que mata o homem
e nada é mais livre
do que a palavra
que a revela
sob o sal das horas
Que será sob a cidade
do homem
onde não há lugar
sequer às letras noturnas do luar
aos peixes claros da alma
Que será do menino
que vive nele
a idade é mineral
emocional
e o tempo
esse cadáver embarcado
nos enche de mau
cheiro e de morte
a nos salvar
a música da esperança
o eterno pássaro
de nossa herança
Que cidade é esta
que nos cerca de luzes
mas apaga o feltro
de nossa infância
a febre de nossa voz
e deixa-nos ancorados
às esquinas
fotografia de fumaça e neblina
Que homem é este
que não se sustenta
que a fome o come
a partir do nome operário
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.300-30
1 480
2
Martins Fontes
Balada Madrigalesca
À moda clássica, ao sabor
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
1 640
2
Sílvio Romero
VI - A Modinha
A festa fervia!... Que voltas ligeiras
Os corpos adestros lá davam sutis!...
Que risos, que galas, que formas faceiras
Das jovens matutas nos lindos perfis!...
Gemia a viola nos seus devaneios,
No ar se perdiam das cordas os sons...
Nos olhos quebrados, nos trêmulos seios
Que graças, que sustos, que mimos, que tons!...
Na dança em vertigem, as frontes pendidas,
Aos meigos requebros, volvia-se um par;
Dos trenos suaves, das notas sentidas
Nas almas caía sereno orvalhar...
E os olhos falavam de gozos celestes —
Brotados nos seios dos sonhos em flor: —
Cochichos, carinhos... ruídos de vestes...
Mas lá do recato sentia-se o olor.
Que doces sonidos de passos sonoros,
Que belas miragens revolvem-se então!...
Aos bons desafios dos peitos canoros
A dança redobra no seu turbilhão...
Recresce o baiano; nos seus refervidos,
Em tais rodopios um céu se desfaz...
Um céu de desejos, de sons, de gemidos,
De sonhos, de cismas que a vida nos traz...
Cansadas as notas, estanque a loquela,
Deixadas as danças, o par se assentou:
"Agora a modinha!..." "Sim, vamos a ela!..."
"Quem canta, que chegue!..." "Se querem eu vou!"
Disse um da festa: e, pondo os dedos trépidos
No violão que geme ao seu ardor,
Dá começo, ao depois que ledo o empalma,
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E cresce o canto alegre, suavíssimo
Como puras manhãs todas em flor...
O ruído do mundo lá se acalma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E das notas que vibra ali dulcíssimas
Sonora a voz do lúcido cantor,
Do belo e da saudade cabe a palma
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
São sonhos palpitantes, ameníssimos
Que ao peito nos imergem seu candor;
Transparece do céu a vida calma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor..."
Poema integrante da série Recordações.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
Os corpos adestros lá davam sutis!...
Que risos, que galas, que formas faceiras
Das jovens matutas nos lindos perfis!...
Gemia a viola nos seus devaneios,
No ar se perdiam das cordas os sons...
Nos olhos quebrados, nos trêmulos seios
Que graças, que sustos, que mimos, que tons!...
Na dança em vertigem, as frontes pendidas,
Aos meigos requebros, volvia-se um par;
Dos trenos suaves, das notas sentidas
Nas almas caía sereno orvalhar...
E os olhos falavam de gozos celestes —
Brotados nos seios dos sonhos em flor: —
Cochichos, carinhos... ruídos de vestes...
Mas lá do recato sentia-se o olor.
Que doces sonidos de passos sonoros,
Que belas miragens revolvem-se então!...
Aos bons desafios dos peitos canoros
A dança redobra no seu turbilhão...
Recresce o baiano; nos seus refervidos,
Em tais rodopios um céu se desfaz...
Um céu de desejos, de sons, de gemidos,
De sonhos, de cismas que a vida nos traz...
Cansadas as notas, estanque a loquela,
Deixadas as danças, o par se assentou:
"Agora a modinha!..." "Sim, vamos a ela!..."
"Quem canta, que chegue!..." "Se querem eu vou!"
Disse um da festa: e, pondo os dedos trépidos
No violão que geme ao seu ardor,
Dá começo, ao depois que ledo o empalma,
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E cresce o canto alegre, suavíssimo
Como puras manhãs todas em flor...
O ruído do mundo lá se acalma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E das notas que vibra ali dulcíssimas
Sonora a voz do lúcido cantor,
Do belo e da saudade cabe a palma
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
São sonhos palpitantes, ameníssimos
Que ao peito nos imergem seu candor;
Transparece do céu a vida calma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor..."
Poema integrante da série Recordações.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
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2
Cora Coralina
O Cântico de Aninha
Vintém de Cobre...
Antigos vinténs escuros.
(De cobre preto foi batizado).
Azinhavrados.
Ainda o vejo,
Ainda o sinto,
Ainda o tenho,
na mão fechada.
Moeda triste, escura, pesada,
da minha casa,
da minha terra,
da minha infância,
da gente pobre, daquele tempo.
(...)
A casa pobre.
Mandrião de saias velhas
da minha bisavó.
Recortadas, costuradas para mim.
Timão de restos de baeta.
Vida sedentária.
Orgulho e grandeza do passado.
Nesse tempo me criei.
Daí, este livro — Vintém de Cobre,
numa longa gestação,
inconsciente ou não,
que vem da infância longínqua
à ancianidade presente.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
Antigos vinténs escuros.
(De cobre preto foi batizado).
Azinhavrados.
Ainda o vejo,
Ainda o sinto,
Ainda o tenho,
na mão fechada.
Moeda triste, escura, pesada,
da minha casa,
da minha terra,
da minha infância,
da gente pobre, daquele tempo.
(...)
A casa pobre.
Mandrião de saias velhas
da minha bisavó.
Recortadas, costuradas para mim.
Timão de restos de baeta.
Vida sedentária.
Orgulho e grandeza do passado.
Nesse tempo me criei.
Daí, este livro — Vintém de Cobre,
numa longa gestação,
inconsciente ou não,
que vem da infância longínqua
à ancianidade presente.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
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Teófilo Dias
A Cruz
A Júlio de Castilhos
Tu, que prendeste um dia os braços de Jesus,
Quando neles quis ter a humanidade erguida,
Hás de cair prostrada, exânime abatida.
— Já lambe-te o pedal a devorante luz.
A força, que ao porvir o Grande Ser conduz,
A implacável ciência, a eterna deicida,
Vertendo nova seiva à árvore da vida,
Arrancou-lhe a raiz de onde surgiste, oh cruz!
O pensamento audaz, esquadrinhando os mundos,
Calcinou, sulco a sulco, os germens infecundos
Da divina semente, estéril e vazia.
Podes deixar cair, desanimada, os braços!
— Já não existe um Deus, que veja dos espaços
Teu gesto de terror, de súplica sombria!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
Tu, que prendeste um dia os braços de Jesus,
Quando neles quis ter a humanidade erguida,
Hás de cair prostrada, exânime abatida.
— Já lambe-te o pedal a devorante luz.
A força, que ao porvir o Grande Ser conduz,
A implacável ciência, a eterna deicida,
Vertendo nova seiva à árvore da vida,
Arrancou-lhe a raiz de onde surgiste, oh cruz!
O pensamento audaz, esquadrinhando os mundos,
Calcinou, sulco a sulco, os germens infecundos
Da divina semente, estéril e vazia.
Podes deixar cair, desanimada, os braços!
— Já não existe um Deus, que veja dos espaços
Teu gesto de terror, de súplica sombria!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
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Teófilo Dias
A Cruz
A Júlio de Castilhos
Tu, que prendeste um dia os braços de Jesus,
Quando neles quis ter a humanidade erguida,
Hás de cair prostrada, exânime abatida.
— Já lambe-te o pedal a devorante luz.
A força, que ao porvir o Grande Ser conduz,
A implacável ciência, a eterna deicida,
Vertendo nova seiva à árvore da vida,
Arrancou-lhe a raiz de onde surgiste, oh cruz!
O pensamento audaz, esquadrinhando os mundos,
Calcinou, sulco a sulco, os germens infecundos
Da divina semente, estéril e vazia.
Podes deixar cair, desanimada, os braços!
— Já não existe um Deus, que veja dos espaços
Teu gesto de terror, de súplica sombria!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
Tu, que prendeste um dia os braços de Jesus,
Quando neles quis ter a humanidade erguida,
Hás de cair prostrada, exânime abatida.
— Já lambe-te o pedal a devorante luz.
A força, que ao porvir o Grande Ser conduz,
A implacável ciência, a eterna deicida,
Vertendo nova seiva à árvore da vida,
Arrancou-lhe a raiz de onde surgiste, oh cruz!
O pensamento audaz, esquadrinhando os mundos,
Calcinou, sulco a sulco, os germens infecundos
Da divina semente, estéril e vazia.
Podes deixar cair, desanimada, os braços!
— Já não existe um Deus, que veja dos espaços
Teu gesto de terror, de súplica sombria!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
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