Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Meu Velho
16 anos de idade
durante a depressão
cheguei em casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias –
pastas, e páginas de
contos
tinham sido jogadas fora
sobre o gramado da frente e na
rua.
minha mãe estava me
esperando atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, leu
suas histórias...”
“posso chutar a
bunda dele...”
“Henry, pegue isso
por favor... e
procure um quarto para você.”
mas o que o preocupava era
que eu talvez não
terminasse o colegial
então eu voltaria
outra vez.
uma noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca submeti a ele)
e disse, “este é
um grande conto”.
eu disse, “o.k.”
e ele me alcançou
e eu li.
era uma história sobre
um homem rico
que teve uma briga com
sua esposa e se
foi pela noite
atrás de uma xícara de café
e ficou observando
a garçonete e as colheres
e os garfos e o
sal e o pimenteiro
e o letreiro de néon
na janela
foi então que voltou
para seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que
deu-lhe um coice na cabeça
e o matou.
de alguma maneira
a história em suas mãos
tinha um significado para ele
apesar
de que quando a escrevi
não tinha nenhuma ideia
a respeito do que
tratava.
então eu lhe disse,
“o.k., velho, você pode
ficar com ela”.
e ele a pegou
e caiu fora
e fechou a porta.
acho que foi
o mais próximo
que jamais estivemos.
Podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães... afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.
Meu pai tinha um plano perfeito. Ele me disse:
– Meu filho, cada homem, durante seu período de vida, deveria comprar uma casa. Pois finalmente, quando morresse, deixaria essa casa para o filho. Então, esse filho também compraria uma casa que, ao morrer, seria herdada pelo filho, neto do primeiro. Já são duas. Este último compraria uma nova e aí seriam três casas...
A estrutura familiar. A vitória sobre a adversidade por meio da família. Ele acreditava nisso. Pegue a família, misture com Deus e a Pátria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e você teria o necessário.
Olhei para meu pai, para suas mãos, seu rosto, suas sobrancelhas, e soube que esse homem nada tinha a ver comigo. Ele era um estranho. Minha mãe simplesmente não existia. Eu era um amaldiçoado. Olhando para meu pai eu não enxergava nada além de uma obtusidade indecente. Pior, ele tinha inclusive mais medo de falhar do que a maioria das outras pessoas. Séculos de sangue de camponês e de treinamento servil. A linha dos Chinaski vinha sendo enfraquecida por uma série de camponeses servis que haviam aberto mão de suas vidas reais em troca da ilusão de lucros esporádicos e ilusórios. Nenhum homem em toda a linhagem que dissesse:
– Não quero uma casa. Quero mil casas, e quero agora!
Ele havia me enviado para aquela escola de ricaços na expectativa de que o ambiente e a convivência pudessem me moldar, enquanto eu assistia àqueles garotos ricos desfilarem em seus cupês cor de creme ao lado de suas garotas em vestidos cintilantes. Em vez disso, aprendi que os pobres sempre permanecem pobres. Que os jovens ricos sentem o fedor dos pobres e passam a achá-los até um pouco divertido. Eles precisam rir, pois, de outro modo, seria algo por demais aterrorizante. Eles aprenderam a agir assim, através dos séculos. Jamais perdoaria as garotas por entrarem naqueles cupês creme com os rapazes sorridentes. Elas não podiam fazer nada, é claro, muito embora você sempre acabe pensando que talvez... Mas não, não havia nenhum tipo de talvez. Riqueza significava vitória, e vitória era a única realidade.
Que tipo de mulher escolheria viver com um lavador de pratos?
Durante todo o ensino fundamental, tentei não pensar muito em como as coisas eventualmente se dariam comigo. Tinha a impressão de que o mais prudente era adiar esse tipo de pensamento...
Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginásio feminino com música ao vivo, uma banda de verdade. Não sei bem por que, mas andei até lá naquela noite, os quatro quilômetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro, olhando para o baile, através das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adoráveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase não as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a música vinha alta e límpida e boa, potente.
Então vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirá-los – marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças.
E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e então novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria alguma coisa que eles não têm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que eu ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver.
Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles.
Então ouvi um barulho às minhas costas.
– Ei, o que você está fazendo?
Era um velho com uma lanterna. Sua cabeça parecia a de um sapo.
– Estou olhando o baile.
Ele manteve a lanterna bem debaixo de seu nariz. Seus olhos eram redondos e grandes, brilhavam como os olhos de um gato sob a luz do luar. Mas sua boca era enrugada, murcha, e sua cabeça era redonda. Havia nessa redondeza tamanha falta de sentido que me fazia lembrar uma abóbora tentando parecer inteligente.
– Tire seu rabo daqui!
Dirigiu o foco da lanterna para cima de mim.
– Quem é você? – perguntei.
– Sou o guarda noturno. Tire seu rabo já daqui antes que eu chame a polícia!
– Por quê? Esse é o Baile de Formatura e estou entre os formandos.
Focou a luz bem na minha cara. A banda tocava Deep Purple.
– Não vem com essa – ele disse. – Você tem pelo menos uns 22 anos!
– Estou no livro do ano da escola, classe de 1939, classe dos formandos, Henry Chinaski.
– Por que você não está lá dentro dançando?
– Esqueça. Estou indo pra casa.
– Faça isso.
Afastei-me e comecei a andar. Sua lanterna enfocou o caminho, a luz me seguindo. Abandonei o campus. Era uma noite agradável e quente, quase abafada. Pensei ter visto alguns vaga-lumes, mas não tive certeza.
– Misto-quente
durante a depressão
cheguei em casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias –
pastas, e páginas de
contos
tinham sido jogadas fora
sobre o gramado da frente e na
rua.
minha mãe estava me
esperando atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, leu
suas histórias...”
“posso chutar a
bunda dele...”
“Henry, pegue isso
por favor... e
procure um quarto para você.”
mas o que o preocupava era
que eu talvez não
terminasse o colegial
então eu voltaria
outra vez.
uma noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca submeti a ele)
e disse, “este é
um grande conto”.
eu disse, “o.k.”
e ele me alcançou
e eu li.
era uma história sobre
um homem rico
que teve uma briga com
sua esposa e se
foi pela noite
atrás de uma xícara de café
e ficou observando
a garçonete e as colheres
e os garfos e o
sal e o pimenteiro
e o letreiro de néon
na janela
foi então que voltou
para seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que
deu-lhe um coice na cabeça
e o matou.
de alguma maneira
a história em suas mãos
tinha um significado para ele
apesar
de que quando a escrevi
não tinha nenhuma ideia
a respeito do que
tratava.
então eu lhe disse,
“o.k., velho, você pode
ficar com ela”.
e ele a pegou
e caiu fora
e fechou a porta.
acho que foi
o mais próximo
que jamais estivemos.
Podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães... afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.
Meu pai tinha um plano perfeito. Ele me disse:
– Meu filho, cada homem, durante seu período de vida, deveria comprar uma casa. Pois finalmente, quando morresse, deixaria essa casa para o filho. Então, esse filho também compraria uma casa que, ao morrer, seria herdada pelo filho, neto do primeiro. Já são duas. Este último compraria uma nova e aí seriam três casas...
A estrutura familiar. A vitória sobre a adversidade por meio da família. Ele acreditava nisso. Pegue a família, misture com Deus e a Pátria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e você teria o necessário.
Olhei para meu pai, para suas mãos, seu rosto, suas sobrancelhas, e soube que esse homem nada tinha a ver comigo. Ele era um estranho. Minha mãe simplesmente não existia. Eu era um amaldiçoado. Olhando para meu pai eu não enxergava nada além de uma obtusidade indecente. Pior, ele tinha inclusive mais medo de falhar do que a maioria das outras pessoas. Séculos de sangue de camponês e de treinamento servil. A linha dos Chinaski vinha sendo enfraquecida por uma série de camponeses servis que haviam aberto mão de suas vidas reais em troca da ilusão de lucros esporádicos e ilusórios. Nenhum homem em toda a linhagem que dissesse:
– Não quero uma casa. Quero mil casas, e quero agora!
Ele havia me enviado para aquela escola de ricaços na expectativa de que o ambiente e a convivência pudessem me moldar, enquanto eu assistia àqueles garotos ricos desfilarem em seus cupês cor de creme ao lado de suas garotas em vestidos cintilantes. Em vez disso, aprendi que os pobres sempre permanecem pobres. Que os jovens ricos sentem o fedor dos pobres e passam a achá-los até um pouco divertido. Eles precisam rir, pois, de outro modo, seria algo por demais aterrorizante. Eles aprenderam a agir assim, através dos séculos. Jamais perdoaria as garotas por entrarem naqueles cupês creme com os rapazes sorridentes. Elas não podiam fazer nada, é claro, muito embora você sempre acabe pensando que talvez... Mas não, não havia nenhum tipo de talvez. Riqueza significava vitória, e vitória era a única realidade.
Que tipo de mulher escolheria viver com um lavador de pratos?
Durante todo o ensino fundamental, tentei não pensar muito em como as coisas eventualmente se dariam comigo. Tinha a impressão de que o mais prudente era adiar esse tipo de pensamento...
Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginásio feminino com música ao vivo, uma banda de verdade. Não sei bem por que, mas andei até lá naquela noite, os quatro quilômetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro, olhando para o baile, através das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adoráveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase não as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a música vinha alta e límpida e boa, potente.
Então vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirá-los – marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças.
E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e então novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando esse dia chegasse teria alguma coisa que eles não têm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que eu ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver.
Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles.
Então ouvi um barulho às minhas costas.
– Ei, o que você está fazendo?
Era um velho com uma lanterna. Sua cabeça parecia a de um sapo.
– Estou olhando o baile.
Ele manteve a lanterna bem debaixo de seu nariz. Seus olhos eram redondos e grandes, brilhavam como os olhos de um gato sob a luz do luar. Mas sua boca era enrugada, murcha, e sua cabeça era redonda. Havia nessa redondeza tamanha falta de sentido que me fazia lembrar uma abóbora tentando parecer inteligente.
– Tire seu rabo daqui!
Dirigiu o foco da lanterna para cima de mim.
– Quem é você? – perguntei.
– Sou o guarda noturno. Tire seu rabo já daqui antes que eu chame a polícia!
– Por quê? Esse é o Baile de Formatura e estou entre os formandos.
Focou a luz bem na minha cara. A banda tocava Deep Purple.
– Não vem com essa – ele disse. – Você tem pelo menos uns 22 anos!
– Estou no livro do ano da escola, classe de 1939, classe dos formandos, Henry Chinaski.
– Por que você não está lá dentro dançando?
– Esqueça. Estou indo pra casa.
– Faça isso.
Afastei-me e comecei a andar. Sua lanterna enfocou o caminho, a luz me seguindo. Abandonei o campus. Era uma noite agradável e quente, quase abafada. Pensei ter visto alguns vaga-lumes, mas não tive certeza.
– Misto-quente
1 806
1
Charles Bukowski
Centro de L.A.
você atira seu sapato às 3 da manhã quebrando a janela, depois enfia
a cabeça pelos cacos de vidro e ri enquanto o telefone toca
com ameaças autoritárias enquanto você xinga de volta pelo receptor, bate
o fone no gancho enquanto a mulher guincha: “QUE PORRA CÊ TÁ FAZENDO, SEU BABACA!”
você dá um sorrisinho, olha para ela (o que é isso?), você se cortou em algum lugar, adora isso, o
vermelho gotejando na camiseta de baixo suja e rasgada, o uísque rugindo
através de sua invencibilidade: você é jovem, você é grande, e o mundo
fede a séculos de Humanidade ao passo que
você está no caminho certo
e resta algo para beber –
é bom, é uma farsa dramática e você pode lidar com ela usando
verve, estilo, graça e a nata do
misticismo.
outro bêbado de hotel – graças a Deus existem hotéis e uísque e damas da
rua!
você se volta para ela: “sua rameira de merda, não suje o meu nome! eu sou
o cara mais durão da cidade, você não sabe com quem se meteu neste
quarto!”
ela só olha, acreditando sem acreditar... um cigarro pendurado, ela é meio
doida, procurando uma saída; ela é forte, tem medo, foi
enganada, levada, abusada, usada, excessivamente
usada...
no entanto, sob tudo isso, para mim ela é a flor, eu a vejo como era
antes de ser arruinada pelas mentiras: as deles e
as dela.
para mim, ela é nova outra vez como também sou novo: temos uma chance
juntos.
vou até ela e encho seu copo: “você tem classe, boneca, você não é como as
outras...”
ela gosta disso e eu também gosto porque para tornar uma coisa verdadeira tudo que você
precisa fazer é acreditar.
eu me sento na frente dela enquanto ela me fala de sua vida, mantenho cheio o copo dela,
acendendo seus cigarros, escuto e a Cidade dos Anjos
escuta: ela passou por maus bocados.
fico sentimental e decido não comê-la: um homem a mais para ela
não vai ajudar e uma mulher a mais para mim não fará
diferença – além disso, ela não é lá muito
atraente.
na verdade, sua vida é chata e um tanto comum mas a maioria é – a minha também
exceto quando elevada pelo
uísque
ela cai num choro incontrolável, ela é uma gracinha, mesmo, e dá pena, tudo que ela quer
é o que ela sempre quis, só que está ficando cada vez mais distante.
então ela para de chorar, nós apenas bebemos e fumamos, baixa uma paz – não vou incomodá-la nessa
noite...
enfrento dificuldades ao tentar puxar da parede a cama embutida, ela
vem para ajudar, nós puxamos juntos – de repente a cama se solta – despenca
em cima de nós, um objeto duro e mortal e descuidado, nos derruba no chão
de bunda embaixo daquele peso e
primeiro com medo gritamos
então começamos a rir, rir
como loucos.
ela usa o banheiro primeiro, depois vou eu, depois nos estiramos e
dormimos.
desperto nas primeiras horas da manhã... ela está na minha cintura, ela
me botou na boca e está trabalhando furiosamente.
“está tudo bem”, eu digo, “você não precisa fazer isso.”
ela continua, termina...
de manhã passamos pelo recepcionista, ele usa óculos escuros de aros grossos,
parece sentado à sombra de algum sonho de tarântula: estava ali quando
entramos, está ali agora: alguma escuridão eterna, estamos quase na porta
quando ele diz:
“não voltem”.
caminhamos 2 quadras, viramos à esquerda, caminhamos uma quadra, depois uma quadra no rumo sul, entramos no
Willie’s no meio da quadra, ocupamos um lugar no centro
do bar.
pedimos cerveja para dar a largada, ficamos ali enquanto ela procura cigarros em sua
bolsa, então eu me levanto, vou até a jukebox, insiro uma moeda,
volto, sento, ela ergue seu copo, “o primeiro é o melhor”,
e eu ergo a minha bebida, “e o último...”
lá fora, o tráfego corre pra lá e pra cá, pra cá e pra
lá,
indo a
lugar nenhum.
a cabeça pelos cacos de vidro e ri enquanto o telefone toca
com ameaças autoritárias enquanto você xinga de volta pelo receptor, bate
o fone no gancho enquanto a mulher guincha: “QUE PORRA CÊ TÁ FAZENDO, SEU BABACA!”
você dá um sorrisinho, olha para ela (o que é isso?), você se cortou em algum lugar, adora isso, o
vermelho gotejando na camiseta de baixo suja e rasgada, o uísque rugindo
através de sua invencibilidade: você é jovem, você é grande, e o mundo
fede a séculos de Humanidade ao passo que
você está no caminho certo
e resta algo para beber –
é bom, é uma farsa dramática e você pode lidar com ela usando
verve, estilo, graça e a nata do
misticismo.
outro bêbado de hotel – graças a Deus existem hotéis e uísque e damas da
rua!
você se volta para ela: “sua rameira de merda, não suje o meu nome! eu sou
o cara mais durão da cidade, você não sabe com quem se meteu neste
quarto!”
ela só olha, acreditando sem acreditar... um cigarro pendurado, ela é meio
doida, procurando uma saída; ela é forte, tem medo, foi
enganada, levada, abusada, usada, excessivamente
usada...
no entanto, sob tudo isso, para mim ela é a flor, eu a vejo como era
antes de ser arruinada pelas mentiras: as deles e
as dela.
para mim, ela é nova outra vez como também sou novo: temos uma chance
juntos.
vou até ela e encho seu copo: “você tem classe, boneca, você não é como as
outras...”
ela gosta disso e eu também gosto porque para tornar uma coisa verdadeira tudo que você
precisa fazer é acreditar.
eu me sento na frente dela enquanto ela me fala de sua vida, mantenho cheio o copo dela,
acendendo seus cigarros, escuto e a Cidade dos Anjos
escuta: ela passou por maus bocados.
fico sentimental e decido não comê-la: um homem a mais para ela
não vai ajudar e uma mulher a mais para mim não fará
diferença – além disso, ela não é lá muito
atraente.
na verdade, sua vida é chata e um tanto comum mas a maioria é – a minha também
exceto quando elevada pelo
uísque
ela cai num choro incontrolável, ela é uma gracinha, mesmo, e dá pena, tudo que ela quer
é o que ela sempre quis, só que está ficando cada vez mais distante.
então ela para de chorar, nós apenas bebemos e fumamos, baixa uma paz – não vou incomodá-la nessa
noite...
enfrento dificuldades ao tentar puxar da parede a cama embutida, ela
vem para ajudar, nós puxamos juntos – de repente a cama se solta – despenca
em cima de nós, um objeto duro e mortal e descuidado, nos derruba no chão
de bunda embaixo daquele peso e
primeiro com medo gritamos
então começamos a rir, rir
como loucos.
ela usa o banheiro primeiro, depois vou eu, depois nos estiramos e
dormimos.
desperto nas primeiras horas da manhã... ela está na minha cintura, ela
me botou na boca e está trabalhando furiosamente.
“está tudo bem”, eu digo, “você não precisa fazer isso.”
ela continua, termina...
de manhã passamos pelo recepcionista, ele usa óculos escuros de aros grossos,
parece sentado à sombra de algum sonho de tarântula: estava ali quando
entramos, está ali agora: alguma escuridão eterna, estamos quase na porta
quando ele diz:
“não voltem”.
caminhamos 2 quadras, viramos à esquerda, caminhamos uma quadra, depois uma quadra no rumo sul, entramos no
Willie’s no meio da quadra, ocupamos um lugar no centro
do bar.
pedimos cerveja para dar a largada, ficamos ali enquanto ela procura cigarros em sua
bolsa, então eu me levanto, vou até a jukebox, insiro uma moeda,
volto, sento, ela ergue seu copo, “o primeiro é o melhor”,
e eu ergo a minha bebida, “e o último...”
lá fora, o tráfego corre pra lá e pra cá, pra cá e pra
lá,
indo a
lugar nenhum.
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Charles Bukowski
Centro de L.A.
você atira seu sapato às 3 da manhã quebrando a janela, depois enfia
a cabeça pelos cacos de vidro e ri enquanto o telefone toca
com ameaças autoritárias enquanto você xinga de volta pelo receptor, bate
o fone no gancho enquanto a mulher guincha: “QUE PORRA CÊ TÁ FAZENDO, SEU BABACA!”
você dá um sorrisinho, olha para ela (o que é isso?), você se cortou em algum lugar, adora isso, o
vermelho gotejando na camiseta de baixo suja e rasgada, o uísque rugindo
através de sua invencibilidade: você é jovem, você é grande, e o mundo
fede a séculos de Humanidade ao passo que
você está no caminho certo
e resta algo para beber –
é bom, é uma farsa dramática e você pode lidar com ela usando
verve, estilo, graça e a nata do
misticismo.
outro bêbado de hotel – graças a Deus existem hotéis e uísque e damas da
rua!
você se volta para ela: “sua rameira de merda, não suje o meu nome! eu sou
o cara mais durão da cidade, você não sabe com quem se meteu neste
quarto!”
ela só olha, acreditando sem acreditar... um cigarro pendurado, ela é meio
doida, procurando uma saída; ela é forte, tem medo, foi
enganada, levada, abusada, usada, excessivamente
usada...
no entanto, sob tudo isso, para mim ela é a flor, eu a vejo como era
antes de ser arruinada pelas mentiras: as deles e
as dela.
para mim, ela é nova outra vez como também sou novo: temos uma chance
juntos.
vou até ela e encho seu copo: “você tem classe, boneca, você não é como as
outras...”
ela gosta disso e eu também gosto porque para tornar uma coisa verdadeira tudo que você
precisa fazer é acreditar.
eu me sento na frente dela enquanto ela me fala de sua vida, mantenho cheio o copo dela,
acendendo seus cigarros, escuto e a Cidade dos Anjos
escuta: ela passou por maus bocados.
fico sentimental e decido não comê-la: um homem a mais para ela
não vai ajudar e uma mulher a mais para mim não fará
diferença – além disso, ela não é lá muito
atraente.
na verdade, sua vida é chata e um tanto comum mas a maioria é – a minha também
exceto quando elevada pelo
uísque
ela cai num choro incontrolável, ela é uma gracinha, mesmo, e dá pena, tudo que ela quer
é o que ela sempre quis, só que está ficando cada vez mais distante.
então ela para de chorar, nós apenas bebemos e fumamos, baixa uma paz – não vou incomodá-la nessa
noite...
enfrento dificuldades ao tentar puxar da parede a cama embutida, ela
vem para ajudar, nós puxamos juntos – de repente a cama se solta – despenca
em cima de nós, um objeto duro e mortal e descuidado, nos derruba no chão
de bunda embaixo daquele peso e
primeiro com medo gritamos
então começamos a rir, rir
como loucos.
ela usa o banheiro primeiro, depois vou eu, depois nos estiramos e
dormimos.
desperto nas primeiras horas da manhã... ela está na minha cintura, ela
me botou na boca e está trabalhando furiosamente.
“está tudo bem”, eu digo, “você não precisa fazer isso.”
ela continua, termina...
de manhã passamos pelo recepcionista, ele usa óculos escuros de aros grossos,
parece sentado à sombra de algum sonho de tarântula: estava ali quando
entramos, está ali agora: alguma escuridão eterna, estamos quase na porta
quando ele diz:
“não voltem”.
caminhamos 2 quadras, viramos à esquerda, caminhamos uma quadra, depois uma quadra no rumo sul, entramos no
Willie’s no meio da quadra, ocupamos um lugar no centro
do bar.
pedimos cerveja para dar a largada, ficamos ali enquanto ela procura cigarros em sua
bolsa, então eu me levanto, vou até a jukebox, insiro uma moeda,
volto, sento, ela ergue seu copo, “o primeiro é o melhor”,
e eu ergo a minha bebida, “e o último...”
lá fora, o tráfego corre pra lá e pra cá, pra cá e pra
lá,
indo a
lugar nenhum.
a cabeça pelos cacos de vidro e ri enquanto o telefone toca
com ameaças autoritárias enquanto você xinga de volta pelo receptor, bate
o fone no gancho enquanto a mulher guincha: “QUE PORRA CÊ TÁ FAZENDO, SEU BABACA!”
você dá um sorrisinho, olha para ela (o que é isso?), você se cortou em algum lugar, adora isso, o
vermelho gotejando na camiseta de baixo suja e rasgada, o uísque rugindo
através de sua invencibilidade: você é jovem, você é grande, e o mundo
fede a séculos de Humanidade ao passo que
você está no caminho certo
e resta algo para beber –
é bom, é uma farsa dramática e você pode lidar com ela usando
verve, estilo, graça e a nata do
misticismo.
outro bêbado de hotel – graças a Deus existem hotéis e uísque e damas da
rua!
você se volta para ela: “sua rameira de merda, não suje o meu nome! eu sou
o cara mais durão da cidade, você não sabe com quem se meteu neste
quarto!”
ela só olha, acreditando sem acreditar... um cigarro pendurado, ela é meio
doida, procurando uma saída; ela é forte, tem medo, foi
enganada, levada, abusada, usada, excessivamente
usada...
no entanto, sob tudo isso, para mim ela é a flor, eu a vejo como era
antes de ser arruinada pelas mentiras: as deles e
as dela.
para mim, ela é nova outra vez como também sou novo: temos uma chance
juntos.
vou até ela e encho seu copo: “você tem classe, boneca, você não é como as
outras...”
ela gosta disso e eu também gosto porque para tornar uma coisa verdadeira tudo que você
precisa fazer é acreditar.
eu me sento na frente dela enquanto ela me fala de sua vida, mantenho cheio o copo dela,
acendendo seus cigarros, escuto e a Cidade dos Anjos
escuta: ela passou por maus bocados.
fico sentimental e decido não comê-la: um homem a mais para ela
não vai ajudar e uma mulher a mais para mim não fará
diferença – além disso, ela não é lá muito
atraente.
na verdade, sua vida é chata e um tanto comum mas a maioria é – a minha também
exceto quando elevada pelo
uísque
ela cai num choro incontrolável, ela é uma gracinha, mesmo, e dá pena, tudo que ela quer
é o que ela sempre quis, só que está ficando cada vez mais distante.
então ela para de chorar, nós apenas bebemos e fumamos, baixa uma paz – não vou incomodá-la nessa
noite...
enfrento dificuldades ao tentar puxar da parede a cama embutida, ela
vem para ajudar, nós puxamos juntos – de repente a cama se solta – despenca
em cima de nós, um objeto duro e mortal e descuidado, nos derruba no chão
de bunda embaixo daquele peso e
primeiro com medo gritamos
então começamos a rir, rir
como loucos.
ela usa o banheiro primeiro, depois vou eu, depois nos estiramos e
dormimos.
desperto nas primeiras horas da manhã... ela está na minha cintura, ela
me botou na boca e está trabalhando furiosamente.
“está tudo bem”, eu digo, “você não precisa fazer isso.”
ela continua, termina...
de manhã passamos pelo recepcionista, ele usa óculos escuros de aros grossos,
parece sentado à sombra de algum sonho de tarântula: estava ali quando
entramos, está ali agora: alguma escuridão eterna, estamos quase na porta
quando ele diz:
“não voltem”.
caminhamos 2 quadras, viramos à esquerda, caminhamos uma quadra, depois uma quadra no rumo sul, entramos no
Willie’s no meio da quadra, ocupamos um lugar no centro
do bar.
pedimos cerveja para dar a largada, ficamos ali enquanto ela procura cigarros em sua
bolsa, então eu me levanto, vou até a jukebox, insiro uma moeda,
volto, sento, ela ergue seu copo, “o primeiro é o melhor”,
e eu ergo a minha bebida, “e o último...”
lá fora, o tráfego corre pra lá e pra cá, pra cá e pra
lá,
indo a
lugar nenhum.
1 418
1
Manuel Gusmão
g: Livre é o dom
Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
1 316
1
António Borges Coelho
Não tenhas medo
Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas
do corpo enfeitado pelas balas
894
1
Charles Bukowski
Vidas No Lixo
o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
1 511
1
Charles Bukowski
Vidas No Lixo
o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
1 511
1
Charles Bukowski
Vidas No Lixo
o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
1 511
1
Charles Bukowski
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
1 337
1
Salgado Maranhão
Sentença
faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
834
1
Salgado Maranhão
Sentença
faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
834
1
Charles Bukowski
Um Bom Sujeito
recebo telefonemas
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.
nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.
nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.
esta noite recebi
uma chamada:
“olá. você é
Charles Bukowski?”
“sim.”
“bem, eu tenho uma
casa.”
“e?”
“um bordel.”
“entendo.”
“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”
“beleza.”
“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”
“certo. me passa o
número.”
anotei-o.
“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”
“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”
“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”
“sério?”
“sério.”
nos despedimos.
gostei daquela
ligação.
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.
nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.
nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.
esta noite recebi
uma chamada:
“olá. você é
Charles Bukowski?”
“sim.”
“bem, eu tenho uma
casa.”
“e?”
“um bordel.”
“entendo.”
“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”
“beleza.”
“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”
“certo. me passa o
número.”
anotei-o.
“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”
“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”
“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”
“sério?”
“sério.”
nos despedimos.
gostei daquela
ligação.
1 092
1
Charles Bukowski
Um Bom Sujeito
recebo telefonemas
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.
nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.
nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.
esta noite recebi
uma chamada:
“olá. você é
Charles Bukowski?”
“sim.”
“bem, eu tenho uma
casa.”
“e?”
“um bordel.”
“entendo.”
“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”
“beleza.”
“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”
“certo. me passa o
número.”
anotei-o.
“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”
“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”
“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”
“sério?”
“sério.”
nos despedimos.
gostei daquela
ligação.
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.
nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.
nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.
esta noite recebi
uma chamada:
“olá. você é
Charles Bukowski?”
“sim.”
“bem, eu tenho uma
casa.”
“e?”
“um bordel.”
“entendo.”
“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”
“beleza.”
“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”
“certo. me passa o
número.”
anotei-o.
“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”
“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”
“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”
“sério?”
“sério.”
nos despedimos.
gostei daquela
ligação.
1 092
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 388
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 388
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 388
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 388
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
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1
Charles Bukowski
Uma Palavrinha sobre os Escrevinhadores de Poemas Rápidos e Modernos
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
626
1
Charles Bukowski
Uma Palavrinha sobre os Escrevinhadores de Poemas Rápidos e Modernos
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
626
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
771
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
771
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
771
1
José Paulo Paes
Paraíso
Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.
Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?
Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.
Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.
Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?
Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.
Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.
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