Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Nuno Júdice
Pecado
Nas aldeias antigas, as mulheres do campo
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
esperavam o princípio da tarde para correrem
no meio das searas, em busca de uma clareira
onde se pudessem despir, para que o sol,
descendo à terra, as pudesse possuir. O fogo
que nascia dos seus lábios pegava-se à erva,
e durante um instante toda a seara ardia,
sem fogo nem fumo, apenas com o desejo
que se soltava da sua boca, e ia apagar o sol,
nas tardes em que a noite caía mais cedo.
Espreitei essas mulheres quando voltavam
das searas, e nos seus olhos traziam um cansaço
de amor. Acompanhei-as às suas casas, e vi-as
deitarem-se contra a parede, olhando os seus
rostos no espelho que as velhas seguravam.
Tinham no rosto um princípio de melancolia;
mas diziam-me que a noite resolveria tudo,
quando a sua cabeça se enchesse de sonhos.
«Que queres daqui?» perguntavam-me. E eu
pedia-lhes que me guardassem a imagem
do espelho, em que a eternidade se dissipa,
como o seu sorriso no rescaldo do prazer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 114 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 287
Nuno Júdice
A mulher das flores
No meio das flores, a mulher encontra o
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 83 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 83 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 181
Ruy Belo
A beringela
É ela
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
1 500
Nuno Júdice
Anjo da guarda
O anjo que desce do espírito com a tarde,
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 19 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 19 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 156
Nuno Júdice
Luz
São as mais estranhas memórias: as
que descem pela parede, como a humidade dos
invernos, e se deixam apanhar com os dedos,
para que as erga à luz da lâmpada. Aí brilham
devagar. Um halo de pirilampo
envolve-as. É como se a noite as transformasse
num cristal secreto: e o teu rosto brotasse
de dentro da sua luz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 39 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que descem pela parede, como a humidade dos
invernos, e se deixam apanhar com os dedos,
para que as erga à luz da lâmpada. Aí brilham
devagar. Um halo de pirilampo
envolve-as. É como se a noite as transformasse
num cristal secreto: e o teu rosto brotasse
de dentro da sua luz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 39 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 289
Ruy Belo
Meditação magoada
Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
1 008
Nuno Júdice
Ninfas de água
Alguém as espreita de trás do canavial, sem
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
1 102
Nuno Júdice
Ninfas de água
Alguém as espreita de trás do canavial, sem
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
1 102
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 120 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 120 | Editorial Presença Lda., 1984
996
Nuno Júdice
Fonte
Um fauno, à tarde, procura onde beber;
e se a fonte está cheia, límpida
como o corpo da mulher, sacia a sede,
pensando que não é tarde nem cedo
para ver a água correr.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 85 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
e se a fonte está cheia, límpida
como o corpo da mulher, sacia a sede,
pensando que não é tarde nem cedo
para ver a água correr.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 85 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 171
Ruy Belo
Homem de grandes dias
E a cal casa de cada qual
Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
1 048
Nuno Júdice
Dísticos
No princípio era o luar, com as suas
veias de leite e os seus seios a arfar.
E vieram os sonhos brancos da madrugada,
que vestiram as folhas de geada.
Nasceu nos teus ombros a manhã,
curvada como a figueira anã.
Nada disto se pode dizer
quando não há maneira de te esquecer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 30 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
veias de leite e os seus seios a arfar.
E vieram os sonhos brancos da madrugada,
que vestiram as folhas de geada.
Nasceu nos teus ombros a manhã,
curvada como a figueira anã.
Nada disto se pode dizer
quando não há maneira de te esquecer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 30 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 399
Nuno Júdice
Dísticos
No princípio era o luar, com as suas
veias de leite e os seus seios a arfar.
E vieram os sonhos brancos da madrugada,
que vestiram as folhas de geada.
Nasceu nos teus ombros a manhã,
curvada como a figueira anã.
Nada disto se pode dizer
quando não há maneira de te esquecer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 30 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
veias de leite e os seus seios a arfar.
E vieram os sonhos brancos da madrugada,
que vestiram as folhas de geada.
Nasceu nos teus ombros a manhã,
curvada como a figueira anã.
Nada disto se pode dizer
quando não há maneira de te esquecer.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 30 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 399
Nuno Júdice
O movimento da mulher quando anda
"... uma jovem mulher com sua harpa de sombra..."
Herberto Helder
O movimento da mulher quando anda
desenha-se no próprio ar, deixando um sulco que
agita os ramos em que ainda sobram algumas
flores. Posso compará-lo com um rasto de onda
que rebentou, sobrando só essa espuma quase
transparente que o sol atravessa; mas a mulher
quando anda tem a densidade do mármore
de uma antiga estátua, embora o seu corpo se
molde à resistência do sol que, ao incidir na sua
pele, solta os brilhos que ela afasta com os
braços, em busca de sombra. É assim, digo, que
o movimento da mulher quando anda transforma
o seu corpo em aresta de luz, por entre as cores
e as formas que o prendem, e de que as suas
pernas se libertam quando saltam a vedação
e pousam na terra, do outro lado, como harpa
num instante de repouso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 63 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Herberto Helder
O movimento da mulher quando anda
desenha-se no próprio ar, deixando um sulco que
agita os ramos em que ainda sobram algumas
flores. Posso compará-lo com um rasto de onda
que rebentou, sobrando só essa espuma quase
transparente que o sol atravessa; mas a mulher
quando anda tem a densidade do mármore
de uma antiga estátua, embora o seu corpo se
molde à resistência do sol que, ao incidir na sua
pele, solta os brilhos que ela afasta com os
braços, em busca de sombra. É assim, digo, que
o movimento da mulher quando anda transforma
o seu corpo em aresta de luz, por entre as cores
e as formas que o prendem, e de que as suas
pernas se libertam quando saltam a vedação
e pousam na terra, do outro lado, como harpa
num instante de repouso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 63 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 297
Nuno Júdice
Pátio
Onde te encontrei: pomba
que pousa por instantes, que procura
uma saída sobre os muros, e
se perde por entre varandas e cordas.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 20 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que pousa por instantes, que procura
uma saída sobre os muros, e
se perde por entre varandas e cordas.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 20 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 876
Nuno Júdice
Noite
Assim a noite, o
céu vazio de estrelas, a própria
luz que te escorre dos olhos,
como lágrimas, encharca o lenço
que guardas no bolso do casaco.
E uma linha
de ecos frios baixa do
céu para onde já não
olhas, pesa-te nos ombros, e
obriga-te a esquecer
todas as ausências.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 38 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
céu vazio de estrelas, a própria
luz que te escorre dos olhos,
como lágrimas, encharca o lenço
que guardas no bolso do casaco.
E uma linha
de ecos frios baixa do
céu para onde já não
olhas, pesa-te nos ombros, e
obriga-te a esquecer
todas as ausências.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 38 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 607
Nuno Júdice
A varanda de Julieta
Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 26 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 26 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 869
Nuno Júdice
Lua
Apaga-se um grito negro quando as
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 283
Nuno Júdice
Lua
Apaga-se um grito negro quando as
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 283
Nuno Júdice
Lua
Apaga-se um grito negro quando as
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
foices
matinais decepam a noite . É o sol
que nasce, mesmo quando o olhar o
não alcança. São as aves que acordam,
em quantos arbustos, em
quantas margens! Mas
não os ouvimos. Nada nos acorda deste
fim de ceifa; e é o sonho
que nos prende, no seu campo
de nuvens, à pele de pérolas
pálidas da deusa
branca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 21 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 283
Nuno Júdice
Estrelas
Desfaço nas mãos os figos, os fios
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
fugazes de setembro, enquanto o seu leite
escorre pelas folhas verdes que
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava. Secos, iam parar
aos frascos fechados para o inverno, de onde
os tirava para os meter no bolso,
antes de sair. "O que tens aí?", perguntavas-me. E
eu passava-te para a mão um desses figos, e via
como o abrias, chupando os seus grânulos,
e passeando na boca a amêndoa que
o recheava. Onde estarás?, pergunto. Poderia
ainda hoje partilhar, contigo, um
desses figos do inverno? Ou o seu leite secou,
nos cantos dos lábios, roubando-te
as palavras e o húmido murmúrio
do amor?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 24 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 192
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (IV)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrependida, a ser possível, seja
invisível a Deus, torrão para uma igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 119 e 120 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrependida, a ser possível, seja
invisível a Deus, torrão para uma igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 119 e 120 | Editorial Presença Lda., 1984
769
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (VII)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (II)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
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