Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Armando Freitas Filho
Nu de Verão Subindo a Escada
Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 503
1
Armando Freitas Filho
De Olhos Abertos
Insônia que se reflete
no espelho do sono dela.
Vou no escuro, verrumando.
Vou sem ver, todo tato
tentando obturar tudo
lendo, em Braille
o corpo embaralhado
que arrumo e aliso
desde dentro, e acabo
por o descobrir vestido
com a pele de lua das estátuas.
A noite uiva por um cachorro:
noite de tartaruga, coruja, caracol.
De qualquer bicho que tenha nichos.
Noite que se anula nesta nudez
de lâmpada acesa até de manhã.
Sou a sombra, sou a sobra
que não se passou a limpo
e ficou em pé, contra a parede
contra o céu que publica o sol
e não consegue se despir de si
abotoado e morto até a boca.
4 mai. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
no espelho do sono dela.
Vou no escuro, verrumando.
Vou sem ver, todo tato
tentando obturar tudo
lendo, em Braille
o corpo embaralhado
que arrumo e aliso
desde dentro, e acabo
por o descobrir vestido
com a pele de lua das estátuas.
A noite uiva por um cachorro:
noite de tartaruga, coruja, caracol.
De qualquer bicho que tenha nichos.
Noite que se anula nesta nudez
de lâmpada acesa até de manhã.
Sou a sombra, sou a sobra
que não se passou a limpo
e ficou em pé, contra a parede
contra o céu que publica o sol
e não consegue se despir de si
abotoado e morto até a boca.
4 mai. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 351
1
Arnaldo Antunes
Dorme
PÁRA-RAIO, DORME
TEMPORAL, DORME
VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME
AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME
TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME
LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME
SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME
CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME
CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME
CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME
PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME
AMANHÃ, DORME
In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
TEMPORAL, DORME
VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME
AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME
TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME
LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME
SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME
CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME
CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME
CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME
PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME
AMANHÃ, DORME
In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
2 488
1
Paulo Bomfim
Som Distante
Pela janela aberta para o céu de estrelas,
Penetrou, pelo meu quarto a dentro,
O rumor de um corpo que é lançado ao mar!
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Seus cabelos loiros são agora
Mensagens da luz do sol
No abismo das águas.
Seu corpo, muito branco,
Quando livrar-se da mortalha
Que os marinheiros rudes coseram,
Será, na imensa noite oceânica,
Um raio de luar a percorrer abismos.
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Os bancos submersos de corais,
As esverdeadas águas,
Hão de invejar seus lábios rubros
E a cor de seus olhos verdes;
Suas mãos espirituais
Serão estrelas de cinco pontas
Correndo o mundo das águas.
Um corpo amortalhado foi lançado ao mar!
Algo de estranho passou dentro de mim!
Pois sinto-me afastado para sempre
Do círculo vicioso da Esperança!
In: BOMFIM, Paulo. Antônio Triste. Pref. Guilherme de Almeida. Il. Tarsila do Amaral. São Paulo: Martins, 1946
Penetrou, pelo meu quarto a dentro,
O rumor de um corpo que é lançado ao mar!
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Seus cabelos loiros são agora
Mensagens da luz do sol
No abismo das águas.
Seu corpo, muito branco,
Quando livrar-se da mortalha
Que os marinheiros rudes coseram,
Será, na imensa noite oceânica,
Um raio de luar a percorrer abismos.
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Os bancos submersos de corais,
As esverdeadas águas,
Hão de invejar seus lábios rubros
E a cor de seus olhos verdes;
Suas mãos espirituais
Serão estrelas de cinco pontas
Correndo o mundo das águas.
Um corpo amortalhado foi lançado ao mar!
Algo de estranho passou dentro de mim!
Pois sinto-me afastado para sempre
Do círculo vicioso da Esperança!
In: BOMFIM, Paulo. Antônio Triste. Pref. Guilherme de Almeida. Il. Tarsila do Amaral. São Paulo: Martins, 1946
1 741
1
Ricardo Gonçalves
Fazenda Velha
Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
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1
Ricardo Gonçalves
Fazenda Velha
Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
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1
Ribeiro Couto
Chuva
A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Publicado no livro O Jardim das Confidências. Poema integrante da série Os Romances Perdidos.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Publicado no livro O Jardim das Confidências. Poema integrante da série Os Romances Perdidos.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.
3 075
1
Guilherme de Almeida
Arco-Íris: 2- Azul
Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
2 122
1
Guilherme de Almeida
Arco-Íris: 2- Azul
Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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Guilherme de Almeida
Arco-Íris: 2- Azul
Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
2 122
1
Luís Guimarães Júnior
A Jangada
Cinco paus mal seguros e enlaçados
Vão através dos ventos tormentosos:
Neles confiam mais que jubilosos
Dois pescadores nus e desgraçados.
Essa prancha que em saltos arrojados
Corta o mar como os lenhos poderosos,
Resume a vida, a fé — resume os gozos
Dos miseráveis rotos e esfaimados.
Nós também, alma minha, as desventuras
Bem conhecemos: — forte e esperançada
Sulcas do mundo o pranto e as vagas duras.
Que importa! A crença é tudo e a morte é nada,
E neste fundo abismo de amarguras
Uma esperança vale uma jangada.
Poema integrante da série Terceira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Vão através dos ventos tormentosos:
Neles confiam mais que jubilosos
Dois pescadores nus e desgraçados.
Essa prancha que em saltos arrojados
Corta o mar como os lenhos poderosos,
Resume a vida, a fé — resume os gozos
Dos miseráveis rotos e esfaimados.
Nós também, alma minha, as desventuras
Bem conhecemos: — forte e esperançada
Sulcas do mundo o pranto e as vagas duras.
Que importa! A crença é tudo e a morte é nada,
E neste fundo abismo de amarguras
Uma esperança vale uma jangada.
Poema integrante da série Terceira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
2 156
1
Edimilson de Almeida Pereira
Amor
"Iemanjá é, por definição, a mãe, a
senhora das origens.
... Reina sobre 'todas as águas do
mundo' doces e salgadas.
... deusa das águas primevas que são
(...) 'fons et origo, matrizes de todas as
possibilidades da existência'."
És a pura indagação de meus seios. Ainda que
o céu se quebre não te condenarei. As águas,
minhas filhas, abrem sete canoas, mas por elas
não te perderás. Meu ventre respira a sabedoria
dos peixes, este amor de algas nos olhos.
Suplico-te não mais que a humildade das flores
entregues à chuva.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.21
senhora das origens.
... Reina sobre 'todas as águas do
mundo' doces e salgadas.
... deusa das águas primevas que são
(...) 'fons et origo, matrizes de todas as
possibilidades da existência'."
És a pura indagação de meus seios. Ainda que
o céu se quebre não te condenarei. As águas,
minhas filhas, abrem sete canoas, mas por elas
não te perderás. Meu ventre respira a sabedoria
dos peixes, este amor de algas nos olhos.
Suplico-te não mais que a humildade das flores
entregues à chuva.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.21
1 334
1
Evaristo da Veiga
Soneto ao Brasil
Minha Pátria, oh Brasil! tua grandeza
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
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1
Evaristo da Veiga
Soneto ao Brasil
Minha Pátria, oh Brasil! tua grandeza
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
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1
Sílvio Romero
IX - A Águia
Falar com as nuvens que só têm segredos,
Falar com os astros que só têm mistérios,
— Foi sempre, águia sublime, o teu portento,
Mas dar às almas fortes novas forças,
Mais anelos, mais vida, mais grandezas,
Eis teu brilho supremo. Sempre altiva,
Pode nos corações novos abismos
Cavar terríveis, grandiosos, santos,
Tua vida selvage' impregnada
De etérea embriaguez. De sobre o cimo
Do monte alcantilado, onde repousas,
Nutre o teu pensamento enfastiado
Sede de ver o sol. Podes fitá-lo,
Podes beber mais brilho, e novos ímpetos
Sentir teu peito de heroísmos cheio.
Sim: dá-nos este exemplo: com fulgores
Nutrir a alma que definha e se aniquila
Tragada do negror que a sorte aninha.
Te insulta a tempestade; e arde a luta
Em que entras como atleta sobranceiro,
Mostrando na asa o teu problema escrito,
E nas garras o enigma da vida!
(...)
Poema integrante da série Parte Segunda: A Natureza.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
Falar com os astros que só têm mistérios,
— Foi sempre, águia sublime, o teu portento,
Mas dar às almas fortes novas forças,
Mais anelos, mais vida, mais grandezas,
Eis teu brilho supremo. Sempre altiva,
Pode nos corações novos abismos
Cavar terríveis, grandiosos, santos,
Tua vida selvage' impregnada
De etérea embriaguez. De sobre o cimo
Do monte alcantilado, onde repousas,
Nutre o teu pensamento enfastiado
Sede de ver o sol. Podes fitá-lo,
Podes beber mais brilho, e novos ímpetos
Sentir teu peito de heroísmos cheio.
Sim: dá-nos este exemplo: com fulgores
Nutrir a alma que definha e se aniquila
Tragada do negror que a sorte aninha.
Te insulta a tempestade; e arde a luta
Em que entras como atleta sobranceiro,
Mostrando na asa o teu problema escrito,
E nas garras o enigma da vida!
(...)
Poema integrante da série Parte Segunda: A Natureza.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
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1
Sílvio Romero
IX - A Águia
Falar com as nuvens que só têm segredos,
Falar com os astros que só têm mistérios,
— Foi sempre, águia sublime, o teu portento,
Mas dar às almas fortes novas forças,
Mais anelos, mais vida, mais grandezas,
Eis teu brilho supremo. Sempre altiva,
Pode nos corações novos abismos
Cavar terríveis, grandiosos, santos,
Tua vida selvage' impregnada
De etérea embriaguez. De sobre o cimo
Do monte alcantilado, onde repousas,
Nutre o teu pensamento enfastiado
Sede de ver o sol. Podes fitá-lo,
Podes beber mais brilho, e novos ímpetos
Sentir teu peito de heroísmos cheio.
Sim: dá-nos este exemplo: com fulgores
Nutrir a alma que definha e se aniquila
Tragada do negror que a sorte aninha.
Te insulta a tempestade; e arde a luta
Em que entras como atleta sobranceiro,
Mostrando na asa o teu problema escrito,
E nas garras o enigma da vida!
(...)
Poema integrante da série Parte Segunda: A Natureza.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
Falar com os astros que só têm mistérios,
— Foi sempre, águia sublime, o teu portento,
Mas dar às almas fortes novas forças,
Mais anelos, mais vida, mais grandezas,
Eis teu brilho supremo. Sempre altiva,
Pode nos corações novos abismos
Cavar terríveis, grandiosos, santos,
Tua vida selvage' impregnada
De etérea embriaguez. De sobre o cimo
Do monte alcantilado, onde repousas,
Nutre o teu pensamento enfastiado
Sede de ver o sol. Podes fitá-lo,
Podes beber mais brilho, e novos ímpetos
Sentir teu peito de heroísmos cheio.
Sim: dá-nos este exemplo: com fulgores
Nutrir a alma que definha e se aniquila
Tragada do negror que a sorte aninha.
Te insulta a tempestade; e arde a luta
Em que entras como atleta sobranceiro,
Mostrando na asa o teu problema escrito,
E nas garras o enigma da vida!
(...)
Poema integrante da série Parte Segunda: A Natureza.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
2 236
1
Tasso da Silveira
Canção
Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C
1 469
1
Osório Duque-Estrada
Ninho Azul
(...)
O nome da habitante... é um pecado dizê-lo:
A luz do seu olhar, o ouro do seu cabelo
Não têm rivais nos sóis nem nas manhãs serenas
E claras: é uma flor entre outras mais pequenas...
Quando ela sai de casa, um instante, a passeio,
Se deixa, descuidosa, o tesouro do seio
Fugir da renda, em toda a extensão da alameda
Erra um perfume quente e sensual que embebeda...
Acende-se o vergel ao seu encanto, como
À onda clara de luz um verdejante pomo;
E no alto da montanha, e por todo o valado,
Embaixo, em cima, o sol, mais quente e mais dourado
Rutila. Enche-lhe a veste o olor das brancas pomas...
Se pisa a alfombra, no ar uma oblata de aromas
Se eleva; e as flores vão beijar-lhe os flancos, uma
Por uma, e o róseo pé feito de jaspe e espuma...
Guarda na fina pele, em ondas voluptuosas,
A neve dos jasmins e a púrpura das rosas;
E da ânsia e do prazer toda a volúpia louca
Eletriza-lhe o seio e esbraseia-lhe a boca.
Se o vento rodomoinha em torno, ou, brisa terna,
Quer descobrir-lhe o pé e acariciar-lhe a perna,
Ou, com a fúria brutal de um desvairado amante,
Cobiçoso, se afoita a caminhar por diante,
Bebendo da alva pele o aroma capitoso
Naquele céu de carne onde lateja o gozo,
A alva do seu roupão busca logo escondê-la
Como uma nebulosa ocultando uma estrela.
(...)
Poema integrante da série Primeira Parte: Flora de Maio.
In: DUQUE-ESTRADA, Osório. Flora de maio, 1899/1901: versos. Pref. Alberto de Oliveira. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902.
NOTA: Poema composto de 4 parte
O nome da habitante... é um pecado dizê-lo:
A luz do seu olhar, o ouro do seu cabelo
Não têm rivais nos sóis nem nas manhãs serenas
E claras: é uma flor entre outras mais pequenas...
Quando ela sai de casa, um instante, a passeio,
Se deixa, descuidosa, o tesouro do seio
Fugir da renda, em toda a extensão da alameda
Erra um perfume quente e sensual que embebeda...
Acende-se o vergel ao seu encanto, como
À onda clara de luz um verdejante pomo;
E no alto da montanha, e por todo o valado,
Embaixo, em cima, o sol, mais quente e mais dourado
Rutila. Enche-lhe a veste o olor das brancas pomas...
Se pisa a alfombra, no ar uma oblata de aromas
Se eleva; e as flores vão beijar-lhe os flancos, uma
Por uma, e o róseo pé feito de jaspe e espuma...
Guarda na fina pele, em ondas voluptuosas,
A neve dos jasmins e a púrpura das rosas;
E da ânsia e do prazer toda a volúpia louca
Eletriza-lhe o seio e esbraseia-lhe a boca.
Se o vento rodomoinha em torno, ou, brisa terna,
Quer descobrir-lhe o pé e acariciar-lhe a perna,
Ou, com a fúria brutal de um desvairado amante,
Cobiçoso, se afoita a caminhar por diante,
Bebendo da alva pele o aroma capitoso
Naquele céu de carne onde lateja o gozo,
A alva do seu roupão busca logo escondê-la
Como uma nebulosa ocultando uma estrela.
(...)
Poema integrante da série Primeira Parte: Flora de Maio.
In: DUQUE-ESTRADA, Osório. Flora de maio, 1899/1901: versos. Pref. Alberto de Oliveira. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902.
NOTA: Poema composto de 4 parte
1 749
1
Raul Pompéia
O Ventre
A atração sideral é uma forma do egoísmo. O equilíbrio
dos egoísmos, derivado em turbilhão, faz a ordem nas cousas.
Passa-se assim em presença do homem: a fúria sedenta das
raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura, o
leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos
assassinando as flores. O egoísmo cobiça a destruição. A sede
inabrandável do mar tenta beber o rio, o rio pretende dar vazão
às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem perpetuamente
as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta; o rio
corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas
dos mundos, trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus.
A fome é a suprema doutrina. Consumir é a lei.
A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.
O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.
A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro.
Giram as instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados,
bradam as cidades... O ventre, soberano como um deus, preside e
engorda.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.71. (Vera Cruz, 324c
dos egoísmos, derivado em turbilhão, faz a ordem nas cousas.
Passa-se assim em presença do homem: a fúria sedenta das
raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura, o
leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos
assassinando as flores. O egoísmo cobiça a destruição. A sede
inabrandável do mar tenta beber o rio, o rio pretende dar vazão
às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem perpetuamente
as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta; o rio
corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas
dos mundos, trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus.
A fome é a suprema doutrina. Consumir é a lei.
A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.
O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.
A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro.
Giram as instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados,
bradam as cidades... O ventre, soberano como um deus, preside e
engorda.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.71. (Vera Cruz, 324c
2 258
1
Edgard Braga
na minha luva de ouro
na minha luva de ouro na minha luva de prata
escondi raças e povos escondi minha vergonha
na minha luva de pedra
escondi a minha morte
na minha luva de ferro
escondi o meu silêncio
cavaleiro cavaleiro cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
guarda tua luva
e
vento
In: BRAGA, Edgard. Desbragada. Org. Régis Bonvicino. São Paulo: M. Limonad, 1984
escondi raças e povos escondi minha vergonha
na minha luva de pedra
escondi a minha morte
na minha luva de ferro
escondi o meu silêncio
cavaleiro cavaleiro cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
guarda tua luva
e
vento
In: BRAGA, Edgard. Desbragada. Org. Régis Bonvicino. São Paulo: M. Limonad, 1984
1 300
1
Moacyr Felix
Dois Poemas do Homem e sua Escolha
Revenir serait une chute écrasante.
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
1 508
1
da Costa e Silva
Madrigal de um Louco
L u a !
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
2 760
1
da Costa e Silva
Madrigal de um Louco
L u a !
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !
Publicado no livro Sangue (1908).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.89
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1
Haroldo de Campos
Rochester: High Falls - Genesee River
um festival de laser
fluorescendo
contra as rochas
no fundo
— jorro alvíssimo —
o véu da catarata
ora azul ora
rosa
cambiando ao
arbítrio da luz
riscos verdeazúis
cortam o céu noturno
como finos floretes
diglandiando-
se
gatos e ursos e novamente
gatos
— míticos bonecos de walt disney —
dançam
no telão das rochas
ao ritmo do
rock
In: CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 303. (Signos, 24).
fluorescendo
contra as rochas
no fundo
— jorro alvíssimo —
o véu da catarata
ora azul ora
rosa
cambiando ao
arbítrio da luz
riscos verdeazúis
cortam o céu noturno
como finos floretes
diglandiando-
se
gatos e ursos e novamente
gatos
— míticos bonecos de walt disney —
dançam
no telão das rochas
ao ritmo do
rock
In: CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 303. (Signos, 24).
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