Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Haroldo de Campos
Rochester: High Falls - Genesee River
um festival de laser
fluorescendo
contra as rochas
no fundo
— jorro alvíssimo —
o véu da catarata
ora azul ora
rosa
cambiando ao
arbítrio da luz
riscos verdeazúis
cortam o céu noturno
como finos floretes
diglandiando-
se
gatos e ursos e novamente
gatos
— míticos bonecos de walt disney —
dançam
no telão das rochas
ao ritmo do
rock
In: CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 303. (Signos, 24).
fluorescendo
contra as rochas
no fundo
— jorro alvíssimo —
o véu da catarata
ora azul ora
rosa
cambiando ao
arbítrio da luz
riscos verdeazúis
cortam o céu noturno
como finos floretes
diglandiando-
se
gatos e ursos e novamente
gatos
— míticos bonecos de walt disney —
dançam
no telão das rochas
ao ritmo do
rock
In: CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 303. (Signos, 24).
2 796
1
Antônio Barreto
Para Enxergar Duendes no Jardim
Não há como esconder de ti mesmo tuas invenções mais
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
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1
Antônio Barreto
Para Enxergar Duendes no Jardim
Não há como esconder de ti mesmo tuas invenções mais
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
1 502
1
Antônio Barreto
Para Enxergar Duendes no Jardim
Não há como esconder de ti mesmo tuas invenções mais
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
puras. Para que um ser exista — como um galho, um unicórnio,
uma pedra, um Mastigolarken, um Catalorpas ou um anjo
— , basta imaginá-lo vivo.
E mesmo que te chamem de louco, visionário, nefelibata
ou lunático; continue assim: telúrico. E absurdamente apaixonado
pela simplicidade da Lua.
Quando a Primavera estiver
começando, acorde bem cedo e,
antes de ir para o jardim, faça a
seguinte simpatia: coloque na tampinha
de uma garrafa um torrão de açúcar,
umedeça-o com 3 gotinhas de água
mineral e mais 3 gotinhas de vinho
tinto suave. Em seguida, deposite-a
sobre as pétalas da menor margarida
que você encontrar, procurando o
canto mais úmido e ensombrado de
seu jardim. Lá, você deverá se
agachar e pronunciar as seguintes
palavras mágicas:
EDNEUD, EDNEUD UEM,
ES ÊCOV ETSIXE,
MEV RAVORP ASSED
ADIBEB!
Se, ao invés de um
duende, aparecer uma abelha, é porque
outras pessoas já fizeram a mesma
simpatia, e o pobre coitado se
embriagou pelo caminho.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.18-20. (Premiados, 3
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1
Pedro Nava
Alcazar
Para Rachel de Queiroz
Rosa de neve,
estrela expandida
no fim da noite!
Estrela perdida
que tremes no alto
das chapas de vidro
do céu cristalino!
Surges discreta
como os ladrões...
A luz que enlouquece
vem das espiras
que riscam no ar
as cores agudas
do teu espectro!
Tua luz se insinua
nos olhos dos doidos.
— És tu que te infiltras
nas lágrimas turvas
que empastam a cara
dos bêbedos tristes.
— És tu que lampejas
no mar que se fecha
ao baque cadente
do corpo silente
dos suicidas.
Como és única e clara
quando cintilas
na franja escura
que o dia dilui,
— no límpido instante
em que te exorbitas
e logo te esvais:
Brilhas tão pouco
no fim da noite
— ciclo irisado,
rosa expandida!
Brilhas tão pouco
que mal consigo...
captar teu lume
num breve segundo
de lucidez,
que presto deslumbra
e também desmaia
como luz perdida
no fim da noite.
1941
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.185-18
Rosa de neve,
estrela expandida
no fim da noite!
Estrela perdida
que tremes no alto
das chapas de vidro
do céu cristalino!
Surges discreta
como os ladrões...
A luz que enlouquece
vem das espiras
que riscam no ar
as cores agudas
do teu espectro!
Tua luz se insinua
nos olhos dos doidos.
— És tu que te infiltras
nas lágrimas turvas
que empastam a cara
dos bêbedos tristes.
— És tu que lampejas
no mar que se fecha
ao baque cadente
do corpo silente
dos suicidas.
Como és única e clara
quando cintilas
na franja escura
que o dia dilui,
— no límpido instante
em que te exorbitas
e logo te esvais:
Brilhas tão pouco
no fim da noite
— ciclo irisado,
rosa expandida!
Brilhas tão pouco
que mal consigo...
captar teu lume
num breve segundo
de lucidez,
que presto deslumbra
e também desmaia
como luz perdida
no fim da noite.
1941
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.185-18
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1
Pedro Nava
Alcazar
Para Rachel de Queiroz
Rosa de neve,
estrela expandida
no fim da noite!
Estrela perdida
que tremes no alto
das chapas de vidro
do céu cristalino!
Surges discreta
como os ladrões...
A luz que enlouquece
vem das espiras
que riscam no ar
as cores agudas
do teu espectro!
Tua luz se insinua
nos olhos dos doidos.
— És tu que te infiltras
nas lágrimas turvas
que empastam a cara
dos bêbedos tristes.
— És tu que lampejas
no mar que se fecha
ao baque cadente
do corpo silente
dos suicidas.
Como és única e clara
quando cintilas
na franja escura
que o dia dilui,
— no límpido instante
em que te exorbitas
e logo te esvais:
Brilhas tão pouco
no fim da noite
— ciclo irisado,
rosa expandida!
Brilhas tão pouco
que mal consigo...
captar teu lume
num breve segundo
de lucidez,
que presto deslumbra
e também desmaia
como luz perdida
no fim da noite.
1941
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.185-18
Rosa de neve,
estrela expandida
no fim da noite!
Estrela perdida
que tremes no alto
das chapas de vidro
do céu cristalino!
Surges discreta
como os ladrões...
A luz que enlouquece
vem das espiras
que riscam no ar
as cores agudas
do teu espectro!
Tua luz se insinua
nos olhos dos doidos.
— És tu que te infiltras
nas lágrimas turvas
que empastam a cara
dos bêbedos tristes.
— És tu que lampejas
no mar que se fecha
ao baque cadente
do corpo silente
dos suicidas.
Como és única e clara
quando cintilas
na franja escura
que o dia dilui,
— no límpido instante
em que te exorbitas
e logo te esvais:
Brilhas tão pouco
no fim da noite
— ciclo irisado,
rosa expandida!
Brilhas tão pouco
que mal consigo...
captar teu lume
num breve segundo
de lucidez,
que presto deslumbra
e também desmaia
como luz perdida
no fim da noite.
1941
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.185-18
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1
Odylo Costa Filho
Os Coelhinhos
Iam dois coelhinhos
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.
E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.
E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.
Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.1
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.
E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.
E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.
Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.1
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1
Hermes Fontes
Luar de Paquetá
Nessas noites dolorosas
Quando o mar, desfeiro em rosas,
Se desfolha à lua cheia
Lembra a ilha um ninho oculto
Onde o amor celebra em culto
Todo o encanto que o rodeia
Nos canteiros ondulantes,
As nereidas incessantes
Abrem lírios ao luar
A água em prece borborinha
E em redor da Capelinha
Vai rezando o verbo amar.
Jardim de afetos
Pombal de amores
Humildes tetos
De pescadores...
Se a lua brilha
Que bem nos dá
Amar na Ilha
De Paquetá!
Pensamento de quem ama,
Hóstia azul, fervendo em chama
Entre lábios separados...
Pensamento de quem ama
Leva o meu radiograma
Ao jardim dos namorados.
Onde é esse paraíso,
O caminho que idealizo
Na ascensão para esse altar,
Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo
Mas não sabe onde acabar...
Sobre o mar de azul rendado,
Que é toalha de uma noivado,
Surge a Ilha — taça erguida.
E o luar — vinho doirado
Enche a taça do Passado
Que embriaga a nossa vida!
Ai, que filtro milagroso,
Para a mágua e para o gozo
Para a eterna inspiração!
O luar, na mocidade,
Abre as rosas da saudade
Dentro em nosso coração.
In: VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Livr. Martins, 1964. v.1, p.122-123
NOTA: Música de Freire Júnior
Quando o mar, desfeiro em rosas,
Se desfolha à lua cheia
Lembra a ilha um ninho oculto
Onde o amor celebra em culto
Todo o encanto que o rodeia
Nos canteiros ondulantes,
As nereidas incessantes
Abrem lírios ao luar
A água em prece borborinha
E em redor da Capelinha
Vai rezando o verbo amar.
Jardim de afetos
Pombal de amores
Humildes tetos
De pescadores...
Se a lua brilha
Que bem nos dá
Amar na Ilha
De Paquetá!
Pensamento de quem ama,
Hóstia azul, fervendo em chama
Entre lábios separados...
Pensamento de quem ama
Leva o meu radiograma
Ao jardim dos namorados.
Onde é esse paraíso,
O caminho que idealizo
Na ascensão para esse altar,
Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo
Mas não sabe onde acabar...
Sobre o mar de azul rendado,
Que é toalha de uma noivado,
Surge a Ilha — taça erguida.
E o luar — vinho doirado
Enche a taça do Passado
Que embriaga a nossa vida!
Ai, que filtro milagroso,
Para a mágua e para o gozo
Para a eterna inspiração!
O luar, na mocidade,
Abre as rosas da saudade
Dentro em nosso coração.
In: VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Livr. Martins, 1964. v.1, p.122-123
NOTA: Música de Freire Júnior
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1
Hermes Fontes
Luar de Paquetá
Nessas noites dolorosas
Quando o mar, desfeiro em rosas,
Se desfolha à lua cheia
Lembra a ilha um ninho oculto
Onde o amor celebra em culto
Todo o encanto que o rodeia
Nos canteiros ondulantes,
As nereidas incessantes
Abrem lírios ao luar
A água em prece borborinha
E em redor da Capelinha
Vai rezando o verbo amar.
Jardim de afetos
Pombal de amores
Humildes tetos
De pescadores...
Se a lua brilha
Que bem nos dá
Amar na Ilha
De Paquetá!
Pensamento de quem ama,
Hóstia azul, fervendo em chama
Entre lábios separados...
Pensamento de quem ama
Leva o meu radiograma
Ao jardim dos namorados.
Onde é esse paraíso,
O caminho que idealizo
Na ascensão para esse altar,
Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo
Mas não sabe onde acabar...
Sobre o mar de azul rendado,
Que é toalha de uma noivado,
Surge a Ilha — taça erguida.
E o luar — vinho doirado
Enche a taça do Passado
Que embriaga a nossa vida!
Ai, que filtro milagroso,
Para a mágua e para o gozo
Para a eterna inspiração!
O luar, na mocidade,
Abre as rosas da saudade
Dentro em nosso coração.
In: VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Livr. Martins, 1964. v.1, p.122-123
NOTA: Música de Freire Júnior
Quando o mar, desfeiro em rosas,
Se desfolha à lua cheia
Lembra a ilha um ninho oculto
Onde o amor celebra em culto
Todo o encanto que o rodeia
Nos canteiros ondulantes,
As nereidas incessantes
Abrem lírios ao luar
A água em prece borborinha
E em redor da Capelinha
Vai rezando o verbo amar.
Jardim de afetos
Pombal de amores
Humildes tetos
De pescadores...
Se a lua brilha
Que bem nos dá
Amar na Ilha
De Paquetá!
Pensamento de quem ama,
Hóstia azul, fervendo em chama
Entre lábios separados...
Pensamento de quem ama
Leva o meu radiograma
Ao jardim dos namorados.
Onde é esse paraíso,
O caminho que idealizo
Na ascensão para esse altar,
Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo
Mas não sabe onde acabar...
Sobre o mar de azul rendado,
Que é toalha de uma noivado,
Surge a Ilha — taça erguida.
E o luar — vinho doirado
Enche a taça do Passado
Que embriaga a nossa vida!
Ai, que filtro milagroso,
Para a mágua e para o gozo
Para a eterna inspiração!
O luar, na mocidade,
Abre as rosas da saudade
Dentro em nosso coração.
In: VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Livr. Martins, 1964. v.1, p.122-123
NOTA: Música de Freire Júnior
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1
Luís Delfino
Primeira Missa no Brasil
A Victor Meirelles
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
3 014
1
Luís Delfino
Sanguínea
A Alberto de Oliveira
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
1 522
1
Luís Delfino
Sanguínea
A Alberto de Oliveira
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
1 522
1
Luís Delfino
Sanguínea
A Alberto de Oliveira
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.
O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.
Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,
Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!
Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.
In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
1 522
1
Zuca Sardan
Os Deuses Eles Mesmos Morrem
Deprressa
Zorra Morrena
é breziza amar
mais ligeirras cas Walkyrias
ki galopam no Céu
danzando nossas horras
no Espresso de Saturno
si vom emborra
e non foltam
o brrezo da bassagem
nem brra reklamar .
Os Deuses eles mesmos morrem
mas os vermes soberranos
demorram roendo
roendo ...
Os vermes son klientes
o koveirro kafeton .
Só sobrram no vento
velhos trrapos
nossas almas pendurradas
no arrame farpado
do kintal sburrakado
do Palácio de Pluton .
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
Zorra Morrena
é breziza amar
mais ligeirras cas Walkyrias
ki galopam no Céu
danzando nossas horras
no Espresso de Saturno
si vom emborra
e non foltam
o brrezo da bassagem
nem brra reklamar .
Os Deuses eles mesmos morrem
mas os vermes soberranos
demorram roendo
roendo ...
Os vermes son klientes
o koveirro kafeton .
Só sobrram no vento
velhos trrapos
nossas almas pendurradas
no arrame farpado
do kintal sburrakado
do Palácio de Pluton .
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 576
1
Antônio Barreto
Cinema Mudo
No tempo do Cinema Mudo
quando a noite calava o bico
todo mundo, gordo ou magro,
punha embaixo do travesseiro
uma caixa de lápis-de-cor
só pra sonhar colorido
In: BARRETO, Antônio. Isca de pássaro é peixe na gaiola: pequeno concerto para realejo, caniço & vitrola. Il. Débora Camisasca. 2.ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1990. p.13. (Rimas). Poema integrante da série O Tempo que o Tempo Tem
quando a noite calava o bico
todo mundo, gordo ou magro,
punha embaixo do travesseiro
uma caixa de lápis-de-cor
só pra sonhar colorido
In: BARRETO, Antônio. Isca de pássaro é peixe na gaiola: pequeno concerto para realejo, caniço & vitrola. Il. Débora Camisasca. 2.ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1990. p.13. (Rimas). Poema integrante da série O Tempo que o Tempo Tem
1 559
1
D. Pedro II
IV - Sempre o Brasil
Nunca noite dormi tão sossegado,
Quem nem mesmo sonhei com o meu Brasil,
Porém, vendo infinito mar d'anil,
Lembra-me a aurora dele nacarada.
Cada dia que passa não é nada,
E os que faltam parecem mais de mil.
Se o tempo que lá vivo é um ceitil,
Aqui é para mim grande massada.
E a doença porém me consentir,
Sempre pensando nele, cuidarei
De tornar-me mais digno de o servir,
E, quando possa, logo voltarei;
Pois na terra só quero eu existir
Quando é para bem dele que eu o sei.
Bordo do Gironde, 7 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
Quem nem mesmo sonhei com o meu Brasil,
Porém, vendo infinito mar d'anil,
Lembra-me a aurora dele nacarada.
Cada dia que passa não é nada,
E os que faltam parecem mais de mil.
Se o tempo que lá vivo é um ceitil,
Aqui é para mim grande massada.
E a doença porém me consentir,
Sempre pensando nele, cuidarei
De tornar-me mais digno de o servir,
E, quando possa, logo voltarei;
Pois na terra só quero eu existir
Quando é para bem dele que eu o sei.
Bordo do Gironde, 7 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
1 937
1
Manuel de Santa Maria Itaparica
Descrição da Ilha de Itaparica
(...)
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
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1
Manuel de Santa Maria Itaparica
Descrição da Ilha de Itaparica
(...)
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
XVII
Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Coa barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.
XVIII
Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E para que bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.
XIX
Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que se fazem cos remos mais ligeiras.
XX
Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.
(...)
XXV
O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.
XXVI
Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostra Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.
(...)
Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.146-148. (Textos, 2)
NOTA: Poema composto de 65 oitava
3 105
1
Capinan
O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo
O desenvolver-se do rio é pacífico.
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.
De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.
Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.
De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.
Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
1 467
1
Alphonsus de Guimaraens
LXXIV - A Cláudio Manuel da Costa
Às margens destas águas silenciosas,
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!
Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao pôr do sol das vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...
Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!
O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série Os Sonetos.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 285. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!
Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao pôr do sol das vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...
Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!
O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série Os Sonetos.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 285. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
3 102
1
Cruz e Sousa
Pressago
Nas águas daquele lago
Dormita a sombra de Iago...
Um véu de luar funéreo
Cobre tudo de mistério...
Há um lívido abandono
Do luar no estranho sono.
Transfiguração enorme
Encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite na ermida,
Como o último ai de uma vida.
São badaladas nevoentas,
Sonolentas, sonolentas...
Do céu no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso e tetro
Vaga de um náufrago o espectro.
Como fantásticos signos,
Erram demônios malignos.
Na brancura das ossadas
Gemem as almas penadas.
Lobisomens, feiticeiras
Gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos enforcados
Uivam nos ventos irados.
Os sinos das torres frias
Soluçam hipocondrias.
Luxúrias de virgens mortas
Das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos pesadelos
Arrepiando os cabelos.
Coalha nos lodos abjetos
O sangue roxo dos fetos.
Há rios maus, amarelos
De presságio de flagelos.
Das vesgas concupiscências
Saem vis fosforescências.
Os remorsos contorcidos
Mordem os ares pungidos.
A alma cobarde de Judas
Recebe expressões cornudas.
Negras aves de rapina
Mostram a garra assassina.
Sob o céu que nos oprime
Languescem formas de crime.
Com os mais sinistros furores,
Saem gemidos das flores.
Caveiras! Que horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com Sancho Pança,
Grotesca e trágica dança.
E como um símbolo eterno,
Ritmos dos Ritmos do inferno.
No lago morto, ondulando,
Dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo crocita
Da sombra d’Iago maldita!
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.73-75
Dormita a sombra de Iago...
Um véu de luar funéreo
Cobre tudo de mistério...
Há um lívido abandono
Do luar no estranho sono.
Transfiguração enorme
Encobre o luar que dorme...
Dá meia-noite na ermida,
Como o último ai de uma vida.
São badaladas nevoentas,
Sonolentas, sonolentas...
Do céu no estrelado luxo
Passa o fantasma de um bruxo.
No mar tenebroso e tetro
Vaga de um náufrago o espectro.
Como fantásticos signos,
Erram demônios malignos.
Na brancura das ossadas
Gemem as almas penadas.
Lobisomens, feiticeiras
Gargalham no luar das eiras.
Os vultos dos enforcados
Uivam nos ventos irados.
Os sinos das torres frias
Soluçam hipocondrias.
Luxúrias de virgens mortas
Das tumbas rasgam as portas.
Andam torvos pesadelos
Arrepiando os cabelos.
Coalha nos lodos abjetos
O sangue roxo dos fetos.
Há rios maus, amarelos
De presságio de flagelos.
Das vesgas concupiscências
Saem vis fosforescências.
Os remorsos contorcidos
Mordem os ares pungidos.
A alma cobarde de Judas
Recebe expressões cornudas.
Negras aves de rapina
Mostram a garra assassina.
Sob o céu que nos oprime
Languescem formas de crime.
Com os mais sinistros furores,
Saem gemidos das flores.
Caveiras! Que horror medonho!
Parecem visões de um sonho!
A morte com Sancho Pança,
Grotesca e trágica dança.
E como um símbolo eterno,
Ritmos dos Ritmos do inferno.
No lago morto, ondulando,
Dentre o luar noctivagando,
O corvo hediondo crocita
Da sombra d’Iago maldita!
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.73-75
4 645
1
Alberto de Oliveira
Afrodite
I
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,
O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.
As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;
O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.
II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.
Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;
Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.
Publicado no livro Meridionais (1884).
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. p. 78-79. (Fluminense
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,
O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.
As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;
O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.
II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.
Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;
Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.
Publicado no livro Meridionais (1884).
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. p. 78-79. (Fluminense
5 324
1
Alberto de Oliveira
Afrodite
I
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,
O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.
As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;
O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.
II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.
Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;
Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.
Publicado no livro Meridionais (1884).
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. p. 78-79. (Fluminense
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,
O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no Oriente o pálio da alvorada.
As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;
O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.
II
Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Alvirróseo do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.
Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;
Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos retorsos búzios assoprando.
Publicado no livro Meridionais (1884).
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.1. p. 78-79. (Fluminense
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Stéphane Mallarmé
Apparition
La lune s'attristait. Des séraphins en pleurs
Rêvant, l'archet aux doigts, dans le calme des fleurs
Vaporeuses, tiraient de mourantes violes
De blancs sanglots glissant sur l'azur des corolles.
- C'était le jour béni de ton premier baiser.
Ma songerie aimant à me martyriser
S'enivrait savamment du parfum de tristesse
Que même sans regret et sans déboire laisse
La cueillaison d'un Rêve au coeur qui l'a cueilli.
J'errais donc, l'oeil rivé sur le pavé vieilli
Quand avec du soleil aux cheveux, dans la rue
Et dans le soir, tu m'es en riant apparue
Et j'ai cru voir la fée au chapeau de clarté
Qui jadis sur mes beaux sommeils d'enfant gâté
Passait, laissant toujours de ses mains mal fermées
Neiger de blancs bouquets d'étoiles parfumées.
Rêvant, l'archet aux doigts, dans le calme des fleurs
Vaporeuses, tiraient de mourantes violes
De blancs sanglots glissant sur l'azur des corolles.
- C'était le jour béni de ton premier baiser.
Ma songerie aimant à me martyriser
S'enivrait savamment du parfum de tristesse
Que même sans regret et sans déboire laisse
La cueillaison d'un Rêve au coeur qui l'a cueilli.
J'errais donc, l'oeil rivé sur le pavé vieilli
Quand avec du soleil aux cheveux, dans la rue
Et dans le soir, tu m'es en riant apparue
Et j'ai cru voir la fée au chapeau de clarté
Qui jadis sur mes beaux sommeils d'enfant gâté
Passait, laissant toujours de ses mains mal fermées
Neiger de blancs bouquets d'étoiles parfumées.
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