Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Cláudio Manuel da Costa
I (Sonetos) [Para cantar de amor tenros cuidados
Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:
Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino;
O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.
Publicado no livro Obras (1768).
In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:
Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino;
O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.
Publicado no livro Obras (1768).
In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
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1
Augusto dos Anjos
Idealizações
V
Agora é noite! E na estelar coorte,
Como recordação da festa diurna
Geme a pungente orquestração noturna
E chora a fanfarra triunfal da Morte.
Então, a Lua que no céu se espalha,
Iluminando as serranias, banha,
As serranias duma luz estranha,
Alva como um pedaço de mortalha!
Nessa música que a alma me ilumina
Tento esquecer as minhas próprias dores
Canto, e minh'alma cobre-se de flores
— Fera rendida à música divina.
Harpas concertam! Brandas melodias
Plangem... Silêncio! Mas de novo as harpas
Reboam pelo mar, pelas escarpas,
Pelos rochedos, pelas penedias...
Eu amo a Noite que este Sol arranca!
Namoro estrelas... Sirius me deslumbra,
Vésper me encanta, e eu beijo na penumbra
A imagem lirial da Noite Branca!
O Comércio, 19-VIII- 1903
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.221. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
Agora é noite! E na estelar coorte,
Como recordação da festa diurna
Geme a pungente orquestração noturna
E chora a fanfarra triunfal da Morte.
Então, a Lua que no céu se espalha,
Iluminando as serranias, banha,
As serranias duma luz estranha,
Alva como um pedaço de mortalha!
Nessa música que a alma me ilumina
Tento esquecer as minhas próprias dores
Canto, e minh'alma cobre-se de flores
— Fera rendida à música divina.
Harpas concertam! Brandas melodias
Plangem... Silêncio! Mas de novo as harpas
Reboam pelo mar, pelas escarpas,
Pelos rochedos, pelas penedias...
Eu amo a Noite que este Sol arranca!
Namoro estrelas... Sirius me deslumbra,
Vésper me encanta, e eu beijo na penumbra
A imagem lirial da Noite Branca!
O Comércio, 19-VIII- 1903
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.221. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
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1
Augusto dos Anjos
Idealizações
V
Agora é noite! E na estelar coorte,
Como recordação da festa diurna
Geme a pungente orquestração noturna
E chora a fanfarra triunfal da Morte.
Então, a Lua que no céu se espalha,
Iluminando as serranias, banha,
As serranias duma luz estranha,
Alva como um pedaço de mortalha!
Nessa música que a alma me ilumina
Tento esquecer as minhas próprias dores
Canto, e minh'alma cobre-se de flores
— Fera rendida à música divina.
Harpas concertam! Brandas melodias
Plangem... Silêncio! Mas de novo as harpas
Reboam pelo mar, pelas escarpas,
Pelos rochedos, pelas penedias...
Eu amo a Noite que este Sol arranca!
Namoro estrelas... Sirius me deslumbra,
Vésper me encanta, e eu beijo na penumbra
A imagem lirial da Noite Branca!
O Comércio, 19-VIII- 1903
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.221. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
Agora é noite! E na estelar coorte,
Como recordação da festa diurna
Geme a pungente orquestração noturna
E chora a fanfarra triunfal da Morte.
Então, a Lua que no céu se espalha,
Iluminando as serranias, banha,
As serranias duma luz estranha,
Alva como um pedaço de mortalha!
Nessa música que a alma me ilumina
Tento esquecer as minhas próprias dores
Canto, e minh'alma cobre-se de flores
— Fera rendida à música divina.
Harpas concertam! Brandas melodias
Plangem... Silêncio! Mas de novo as harpas
Reboam pelo mar, pelas escarpas,
Pelos rochedos, pelas penedias...
Eu amo a Noite que este Sol arranca!
Namoro estrelas... Sirius me deslumbra,
Vésper me encanta, e eu beijo na penumbra
A imagem lirial da Noite Branca!
O Comércio, 19-VIII- 1903
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.221. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
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1
Arlindo Barbeitos
Vem e vem
escuras nuúvens grossas de outros céus vindas
entrançando-se por entre asas de pâssaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada
irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pâssaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem
entrançando-se por entre asas de pâssaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada
irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pâssaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem
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Arlindo Barbeitos
Vem e vem
escuras nuúvens grossas de outros céus vindas
entrançando-se por entre asas de pâssaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada
irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pâssaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem
entrançando-se por entre asas de pâssaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada
irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pâssaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem
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1
Cruz e Sousa
Monja
Ó Lua, Lua triste, amargurada,
fantasma de brancuras vaporosas,
a tua nívea luz ciliciada
faz murchecer e congelar as rosas.
Nas flóridas searas ondulosas,
cuja folhagem brilha fosforeada,
passam sombras angélicas, nivosas,
lua, Monja da cela constelada.
Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...
Então, ó Monja branca dos espaços,
parece que abres para mim os braços,
fria, de joelhos, trêmula, rezando...
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
fantasma de brancuras vaporosas,
a tua nívea luz ciliciada
faz murchecer e congelar as rosas.
Nas flóridas searas ondulosas,
cuja folhagem brilha fosforeada,
passam sombras angélicas, nivosas,
lua, Monja da cela constelada.
Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...
Então, ó Monja branca dos espaços,
parece que abres para mim os braços,
fria, de joelhos, trêmula, rezando...
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
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Cruz e Sousa
Monja
Ó Lua, Lua triste, amargurada,
fantasma de brancuras vaporosas,
a tua nívea luz ciliciada
faz murchecer e congelar as rosas.
Nas flóridas searas ondulosas,
cuja folhagem brilha fosforeada,
passam sombras angélicas, nivosas,
lua, Monja da cela constelada.
Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...
Então, ó Monja branca dos espaços,
parece que abres para mim os braços,
fria, de joelhos, trêmula, rezando...
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
fantasma de brancuras vaporosas,
a tua nívea luz ciliciada
faz murchecer e congelar as rosas.
Nas flóridas searas ondulosas,
cuja folhagem brilha fosforeada,
passam sombras angélicas, nivosas,
lua, Monja da cela constelada.
Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...
Então, ó Monja branca dos espaços,
parece que abres para mim os braços,
fria, de joelhos, trêmula, rezando...
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
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1
Emiliano Perneta
Borboleta
Ao José Gelbcke.
Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...
1903
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...
1903
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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Emiliano Perneta
Borboleta
Ao José Gelbcke.
Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...
1903
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...
1903
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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1
Gilka Machado
Emotividade da Cor
A Dolores Marques Caplonch
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
e a Miguel Caplonch
Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.
Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.
Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?
(...)
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.
Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...
Cores são vagas, sugestivas toadas...
Cores são emoções paralisadas...
(...)
Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-143
3 037
1
Emiliano Perneta
Mors
Nesse risonho lar,
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala...
Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálido rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala...
Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálido rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 292
1
Augusto Frederico Schmidt
Ouço uma Fonte
Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
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1
Olga Savary
Caiçuçáua
Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:
tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios
com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.
Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = amor, amad
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:
tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios
com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.
Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = amor, amad
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1
Fernando Paixão
41 [Vêm da terra os legumes
Vêm da terra os legumes
morrer no silêncio da sopa.
Incendeiam sabores
na língua
e iluminam trevas
da boca.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.3
morrer no silêncio da sopa.
Incendeiam sabores
na língua
e iluminam trevas
da boca.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.3
1 564
1
Joaquim Manuel de Macedo
Canto IV - Nos Túmulos
Como na vida humana uma esperança
Que a luzir e apagar-se nos desvaira
Um estreito carreiro e tortuoso,
Que surge aqui, e ali desaparece
Para surgir e se esconder de novo
Por entre grupos d'árvores frondosas,
Vai sinuoso terminar-se humilde
Da velha ermida aos pés. Em torno dela
Se ufana sobre o monte a natureza.
Vegetação hercúlea arrosta as nuvens,
D'aurífero diadema ipês c'roados,
Quais da floresta reis; sapucaeiras
Em coifas cor do pejo a fronte erguendo,
D'espaço a espaço em turmas soberanas
Ostentam força, e em generoso impulso
Parecem, dilatando os longos braços,
Estrênuos proteger tênues arbustos,
Que ao perto humildes crescem. Pela terra
Vêm rochedos rompendo, como dorsos
De elefantes curvados; negras furnas,
Despenhadeiros turvos lá se afundam,
E além brame a torrente impetuosa,
Que as rochas morde e enfim se precipita
No abismo pavoroso, onde se engolfa
A urrar como um touro embravecido
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.134-135
NOTA: O "Canto IV - Nos Túmulos" é composto de 43 parte
Que a luzir e apagar-se nos desvaira
Um estreito carreiro e tortuoso,
Que surge aqui, e ali desaparece
Para surgir e se esconder de novo
Por entre grupos d'árvores frondosas,
Vai sinuoso terminar-se humilde
Da velha ermida aos pés. Em torno dela
Se ufana sobre o monte a natureza.
Vegetação hercúlea arrosta as nuvens,
D'aurífero diadema ipês c'roados,
Quais da floresta reis; sapucaeiras
Em coifas cor do pejo a fronte erguendo,
D'espaço a espaço em turmas soberanas
Ostentam força, e em generoso impulso
Parecem, dilatando os longos braços,
Estrênuos proteger tênues arbustos,
Que ao perto humildes crescem. Pela terra
Vêm rochedos rompendo, como dorsos
De elefantes curvados; negras furnas,
Despenhadeiros turvos lá se afundam,
E além brame a torrente impetuosa,
Que as rochas morde e enfim se precipita
No abismo pavoroso, onde se engolfa
A urrar como um touro embravecido
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.134-135
NOTA: O "Canto IV - Nos Túmulos" é composto de 43 parte
2 198
1
Joaquim Manuel de Macedo
Canto IV - Nos Túmulos
Como na vida humana uma esperança
Que a luzir e apagar-se nos desvaira
Um estreito carreiro e tortuoso,
Que surge aqui, e ali desaparece
Para surgir e se esconder de novo
Por entre grupos d'árvores frondosas,
Vai sinuoso terminar-se humilde
Da velha ermida aos pés. Em torno dela
Se ufana sobre o monte a natureza.
Vegetação hercúlea arrosta as nuvens,
D'aurífero diadema ipês c'roados,
Quais da floresta reis; sapucaeiras
Em coifas cor do pejo a fronte erguendo,
D'espaço a espaço em turmas soberanas
Ostentam força, e em generoso impulso
Parecem, dilatando os longos braços,
Estrênuos proteger tênues arbustos,
Que ao perto humildes crescem. Pela terra
Vêm rochedos rompendo, como dorsos
De elefantes curvados; negras furnas,
Despenhadeiros turvos lá se afundam,
E além brame a torrente impetuosa,
Que as rochas morde e enfim se precipita
No abismo pavoroso, onde se engolfa
A urrar como um touro embravecido
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.134-135
NOTA: O "Canto IV - Nos Túmulos" é composto de 43 parte
Que a luzir e apagar-se nos desvaira
Um estreito carreiro e tortuoso,
Que surge aqui, e ali desaparece
Para surgir e se esconder de novo
Por entre grupos d'árvores frondosas,
Vai sinuoso terminar-se humilde
Da velha ermida aos pés. Em torno dela
Se ufana sobre o monte a natureza.
Vegetação hercúlea arrosta as nuvens,
D'aurífero diadema ipês c'roados,
Quais da floresta reis; sapucaeiras
Em coifas cor do pejo a fronte erguendo,
D'espaço a espaço em turmas soberanas
Ostentam força, e em generoso impulso
Parecem, dilatando os longos braços,
Estrênuos proteger tênues arbustos,
Que ao perto humildes crescem. Pela terra
Vêm rochedos rompendo, como dorsos
De elefantes curvados; negras furnas,
Despenhadeiros turvos lá se afundam,
E além brame a torrente impetuosa,
Que as rochas morde e enfim se precipita
No abismo pavoroso, onde se engolfa
A urrar como um touro embravecido
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.134-135
NOTA: O "Canto IV - Nos Túmulos" é composto de 43 parte
2 198
1
Carlos Felipe Moisés
Minha Terra
Minha terra tem palmeiras
onde cantava o Gonçalves
dias antes do naufrágio.
Mas o oceano bebeu tudo:
sabiá palmeiras canto.
(Nossos mares têm Gonçalves.)
E eu aqui fiquei sozinho
sem terra sabiá cem dias.
Não aqueles do Gonçalves
mas os meus, que ele contar
não contava, só cantava
pendurado nas palmeiras.
Em cismar sozinho à noite
mais prazer encontro eu cá
pois descobri que cismar
sozinho é inda melhor
que cismar acompanhado.
De dia cismo ou de noite,
prazer encontro em cismar
O Tejo e o mar. O que cismo?
Sei lá! (Sei cá?) Sei que é
contrário ao que cismaria
lá se cá não estivesse
cogitando no acolá.
Minha terra tem primores!
(Nunca vi um primoreiro...)
Hão de ser frutos mui raros:
Gonçalves, guarde um pra mim!
Vou ver se também naufrago
no litoral do... onde mesmo?
Minha terra tem poetas
sensíveis como o Gonçalves
O Casimiro de Abreu
a até Manuel Bandeira,
que passam a vida inteira
ensinando à sua gente:
(...)
Não permita Deus que eu morra!
É o que dizia o Gonçalves
que queria ser eterno
pra sofrer eternamente
a saudade das palmeiras,
do primor, do sabiá.
Não que eu deseje o contrário
(morro até sem permissão!)
mas o que eu queria mesmo
era voltar carregado
de todo todo este amor
que só por cá descobri.
Minha terra tem palmeiras
onde cantava e inda canta
o Gonçalves e eu quisera
que meus pobres dias fossem
tão gonçalvos quanto os dele.
E seria uma tenção:
ai dá-me cá, ai toma lá,
a palmeira, o sabiá.
Minha terraterramada,
o Gonçalves tem razão:
(do) exílio uma (só) canção.
(Lisboa 1975)
Imagem - 01310003
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2).
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
onde cantava o Gonçalves
dias antes do naufrágio.
Mas o oceano bebeu tudo:
sabiá palmeiras canto.
(Nossos mares têm Gonçalves.)
E eu aqui fiquei sozinho
sem terra sabiá cem dias.
Não aqueles do Gonçalves
mas os meus, que ele contar
não contava, só cantava
pendurado nas palmeiras.
Em cismar sozinho à noite
mais prazer encontro eu cá
pois descobri que cismar
sozinho é inda melhor
que cismar acompanhado.
De dia cismo ou de noite,
prazer encontro em cismar
O Tejo e o mar. O que cismo?
Sei lá! (Sei cá?) Sei que é
contrário ao que cismaria
lá se cá não estivesse
cogitando no acolá.
Minha terra tem primores!
(Nunca vi um primoreiro...)
Hão de ser frutos mui raros:
Gonçalves, guarde um pra mim!
Vou ver se também naufrago
no litoral do... onde mesmo?
Minha terra tem poetas
sensíveis como o Gonçalves
O Casimiro de Abreu
a até Manuel Bandeira,
que passam a vida inteira
ensinando à sua gente:
(...)
Não permita Deus que eu morra!
É o que dizia o Gonçalves
que queria ser eterno
pra sofrer eternamente
a saudade das palmeiras,
do primor, do sabiá.
Não que eu deseje o contrário
(morro até sem permissão!)
mas o que eu queria mesmo
era voltar carregado
de todo todo este amor
que só por cá descobri.
Minha terra tem palmeiras
onde cantava e inda canta
o Gonçalves e eu quisera
que meus pobres dias fossem
tão gonçalvos quanto os dele.
E seria uma tenção:
ai dá-me cá, ai toma lá,
a palmeira, o sabiá.
Minha terraterramada,
o Gonçalves tem razão:
(do) exílio uma (só) canção.
(Lisboa 1975)
Imagem - 01310003
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2).
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
1 429
1
Olga Savary
Iraruca
Destino é o nome que damos
à nossa comodidade,
à covardia do não-risco,
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes.
Quanto a mim,
pátria é o que eu chamo poesia
e todas as sensualidades: vida.
Amor é o que eu chamo mar,
é o que eu chamo água.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = casa de me
à nossa comodidade,
à covardia do não-risco,
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes.
Quanto a mim,
pátria é o que eu chamo poesia
e todas as sensualidades: vida.
Amor é o que eu chamo mar,
é o que eu chamo água.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = casa de me
2 378
1
Manoel de Barros
Glossário de Transnominações
(...)
Boca, s.f.
Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto
(...)
Sol, s.m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
Se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém.
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Boca, s.f.
Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto
(...)
Sol, s.m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
Se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém.
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
2 875
1
Sosigenes Costa
Chuva de Ouro
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 780
1
Sosigenes Costa
Chuva de Ouro
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 780
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Sosigenes Costa
Chuva de Ouro
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 780
1
Joaquim Cardozo
Tarde no Recife
Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Maxime,
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.
Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um camelô gritando: — alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes,
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos
[holandeses,
Que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas
[do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes
E da beleza católica do rio.
1925
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.6-7
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Maxime,
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.
Tanta gente apressada, tanta mulher bonita;
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um camelô gritando: — alerta!
Algazarra. Seis horas. Os sinos.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes,
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos
[holandeses,
Que assistem agora ao movimento das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas
[do Pacífico;
Recife romântico dos crepúsculos das pontes
E da beleza católica do rio.
1925
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.6-7
3 481
1
Manoel de Barros
7 A Nossa Garça
Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São
viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi
arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de
regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de
não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna — como quem rasga uma
palavra.
De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
Mas de cores e movimentos. Lembram Modigliani. Produzem no céu
iluminuras. E propõem esculturas no ar.
A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados eu vejo a flora dos corixos. Insetos
de camalotes florejam de suas rêmiges. E andam pregadas em suas
carnes larvas de sapos.
Aqui seu vôo adquire raízes de brejo. Sua arte de ver caracóis
nos escuros da lama é um dom de brancura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?
(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
Insinuando contrastes (ou conciliações?) entre o puro e o impuro,
etc etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
Que Deus os livre!)
Publicado no livro Livro de Pré-Coisas: Roteiro para uma Excursão Poética no Pantanal (1985). Poema integrante da série Pequena História Natural.
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi
arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de
regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de
não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna — como quem rasga uma
palavra.
De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
Mas de cores e movimentos. Lembram Modigliani. Produzem no céu
iluminuras. E propõem esculturas no ar.
A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados eu vejo a flora dos corixos. Insetos
de camalotes florejam de suas rêmiges. E andam pregadas em suas
carnes larvas de sapos.
Aqui seu vôo adquire raízes de brejo. Sua arte de ver caracóis
nos escuros da lama é um dom de brancura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?
(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
Insinuando contrastes (ou conciliações?) entre o puro e o impuro,
etc etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
Que Deus os livre!)
Publicado no livro Livro de Pré-Coisas: Roteiro para uma Excursão Poética no Pantanal (1985). Poema integrante da série Pequena História Natural.
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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