Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Juó Bananére
Uvi Strella
Che scuitá strella, né meia strella!
Vucê stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.
I passo as notte acunversáno c'oella,
Inguanto che as otra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru çeu: — Cadê strella?!
Direis intó: — Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?
E io ti diró: — Studi p'ra intedela,
Pois só chi giá studô Astrolomia
É capaiz de intendê ista strella.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia do soneto "XIII", da série Via-Láctea, do livro POESIAS (1888), de Olavo Bilac, conhecido como "Ouvir Estrelas
Vucê stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.
I passo as notte acunversáno c'oella,
Inguanto che as otra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru çeu: — Cadê strella?!
Direis intó: — Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?
E io ti diró: — Studi p'ra intedela,
Pois só chi giá studô Astrolomia
É capaiz de intendê ista strella.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia do soneto "XIII", da série Via-Láctea, do livro POESIAS (1888), de Olavo Bilac, conhecido como "Ouvir Estrelas
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1
Silva Alvarenga
Madrigal LIII [Tu és no campo, ó Rosa
Tu és no campo, ó Rosa,
A flor de mais beleza
De quantas produziu a Natureza
Que em tuas perfeições foi cuidadosa.
E se Glaura formosa
No seio dos prazeres te procura,
Qual outra flor será de mais ventura,
Ou mais digna de amor ou mais mimosa?
Tu és no campo, ó Rosa,
A flor de mais ventura e mais beleza
De quantas produziu a Natureza.
Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).
In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
A flor de mais beleza
De quantas produziu a Natureza
Que em tuas perfeições foi cuidadosa.
E se Glaura formosa
No seio dos prazeres te procura,
Qual outra flor será de mais ventura,
Ou mais digna de amor ou mais mimosa?
Tu és no campo, ó Rosa,
A flor de mais ventura e mais beleza
De quantas produziu a Natureza.
Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).
In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
4 154
1
Luís Guimarães Júnior
Soneto Romântico
Soam ao longe as trompas vencedoras;
Vibra o hallali na mata rumorosa;
Latem os cães, e a cavalgada airosa
Das elegantes, fortes caçadoras,
Cabelo ao ar, altivas, tentadoras,
Qual de Diana a escolta poderosa,
Persegue a fera, e açula jubilosa
As matilhas cruéis e vingadoras.
No entanto, a castelã, triste e isolada,
A sombra dos frondosos arvoredos,
Pálida, loira, casta e enamorada,
Passeia ouvindo uns matinais segredos,
E como a Margarida da balada,
Desfolha um malmequer entre os seus dedos.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d`Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Vibra o hallali na mata rumorosa;
Latem os cães, e a cavalgada airosa
Das elegantes, fortes caçadoras,
Cabelo ao ar, altivas, tentadoras,
Qual de Diana a escolta poderosa,
Persegue a fera, e açula jubilosa
As matilhas cruéis e vingadoras.
No entanto, a castelã, triste e isolada,
A sombra dos frondosos arvoredos,
Pálida, loira, casta e enamorada,
Passeia ouvindo uns matinais segredos,
E como a Margarida da balada,
Desfolha um malmequer entre os seus dedos.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d`Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
2 110
1
Juó Bananére
O Gorvo i o Raposo
Fabula di Lafontana
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
2 015
1
Ricardo Gonçalves
Fazenda Velha
Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 440
1
Ricardo Gonçalves
Fazenda Velha
Neste retiro os longos dias passo,
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Sem alegrias e sem dissabores,
Vendo as aves cruzarem-se no espaço
E as paineiras vestirem-se de flores.
Habito, solitário, uma vivenda
De amplos salões, fantástica e sombria.
Em redor, as senzalas da fazenda;
Ao fundo, o vulto azul da serrania.
A' orla do mato virgem misterioso,
No silêncio das tardes pensativas,
Gemem as juritis de volta ao pouso
E trilam docemente as patativas.
Eu vejo, debruçando-me às janelas,
Sobre a monotonia das capoeiras,
Altos ipês de frontes amarelas
E adustas, retorcidas perobeiras.
Depois, no céu de opala se encastoa
A lua merencória. E pelos campos,
Por sobre as águas mortas da lagoa,
Tremeluzem, bailando, os pirilampos.
Há sussuros estranhos pela brenha.
Fora, a noite estival fulge, tão clara
Que, como em prata fosca, se desenha
No píncaro de um monte uma jissara.
E eu entro. Atiço o lume de gravetos.
E, ouvindo ao longe uns pávidos rumores,
Evoco a dança trágica dos pretos,
Num rufo de atabaques e tambores.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
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1
Ribeiro Couto
Monólogo da Noite
Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
1 585
1
Arnaldo Antunes
O Macaco
o macaco se parece com o homem
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se parecem com outras
as macacas de auditório são meninas
as crianças parecem micos
os papagaios falam o que pessoas falam
mas não parecem pessoas
para os cegos os papagaios se parecem pessoas
o homem veio do macaco
mas antes o macaco veio do cavalo
e o cavalo veio do gato
então o homem veio do gato
o gato veio do coelho
que veio do sapo que veio do lagarto
então o homem veio do lagarto
o lagarto veio da borboleta
que veio do pássaro que veio do peixe
pessoas se parecem com peixes
quando nadam
pessoas se parecem com peixes
quando olham o vazio
pessoas se parecem com peixes
quando ainda não nasceram
pessoas se parecem com peixes
quando fazem bolas de chiclete
macacos desaparecem
peixes parecem peixes
micróbios não aparecem
todos se parecem
pois se diferem
In: ANTUNES, Arnaldo. Nome. São Paulo: s.n., 1993
NOTA: Letra e música de Arnaldo Antune
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se parecem com outras
as macacas de auditório são meninas
as crianças parecem micos
os papagaios falam o que pessoas falam
mas não parecem pessoas
para os cegos os papagaios se parecem pessoas
o homem veio do macaco
mas antes o macaco veio do cavalo
e o cavalo veio do gato
então o homem veio do gato
o gato veio do coelho
que veio do sapo que veio do lagarto
então o homem veio do lagarto
o lagarto veio da borboleta
que veio do pássaro que veio do peixe
pessoas se parecem com peixes
quando nadam
pessoas se parecem com peixes
quando olham o vazio
pessoas se parecem com peixes
quando ainda não nasceram
pessoas se parecem com peixes
quando fazem bolas de chiclete
macacos desaparecem
peixes parecem peixes
micróbios não aparecem
todos se parecem
pois se diferem
In: ANTUNES, Arnaldo. Nome. São Paulo: s.n., 1993
NOTA: Letra e música de Arnaldo Antune
3 502
1
Capinan
O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo
O desenvolver-se do rio é pacífico.
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.
De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.
Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.
De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.
Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
1 481
1
Paulo Bomfim
Soneto XVII [Noites que são galeras cor do tempo
Noites que são galeras cor do tempo:
Velas de sombra pousam na paisagem,
E o silêncio desperta outro silêncio,
Nos mudos tripulantes que hoje somos!
Noites que são galeras cor da morte:
Quilhas de ônix e grandes remos de ébano,
Revolvem singraduras de luar
No mar atormentado de lembranças!
Noite que são galeras cor do espaço:
Grandes barcos de treva carregados
De abismos e de pétalas de luz!
Noites que são galeras que não voltam:
Um dia chegaremos ao refúgio
Das naus transfiguradas em passado!
Poema integrante da série Sonetos Brancos.
In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
Velas de sombra pousam na paisagem,
E o silêncio desperta outro silêncio,
Nos mudos tripulantes que hoje somos!
Noites que são galeras cor da morte:
Quilhas de ônix e grandes remos de ébano,
Revolvem singraduras de luar
No mar atormentado de lembranças!
Noite que são galeras cor do espaço:
Grandes barcos de treva carregados
De abismos e de pétalas de luz!
Noites que são galeras que não voltam:
Um dia chegaremos ao refúgio
Das naus transfiguradas em passado!
Poema integrante da série Sonetos Brancos.
In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
1 868
1
Guilherme de Almeida
Arco-Íris: 2- Azul
Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
2 137
1
Guilherme de Almeida
Arco-Íris: 2- Azul
Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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1
Guilherme de Almeida
Arco-Íris: 2- Azul
Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.
Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
2 137
1
Aureliano Lessa
A Tarde
II
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 592
1
Aureliano Lessa
A Tarde
II
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 592
1
Paulo Bomfim
Som Distante
Pela janela aberta para o céu de estrelas,
Penetrou, pelo meu quarto a dentro,
O rumor de um corpo que é lançado ao mar!
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Seus cabelos loiros são agora
Mensagens da luz do sol
No abismo das águas.
Seu corpo, muito branco,
Quando livrar-se da mortalha
Que os marinheiros rudes coseram,
Será, na imensa noite oceânica,
Um raio de luar a percorrer abismos.
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Os bancos submersos de corais,
As esverdeadas águas,
Hão de invejar seus lábios rubros
E a cor de seus olhos verdes;
Suas mãos espirituais
Serão estrelas de cinco pontas
Correndo o mundo das águas.
Um corpo amortalhado foi lançado ao mar!
Algo de estranho passou dentro de mim!
Pois sinto-me afastado para sempre
Do círculo vicioso da Esperança!
In: BOMFIM, Paulo. Antônio Triste. Pref. Guilherme de Almeida. Il. Tarsila do Amaral. São Paulo: Martins, 1946
Penetrou, pelo meu quarto a dentro,
O rumor de um corpo que é lançado ao mar!
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Seus cabelos loiros são agora
Mensagens da luz do sol
No abismo das águas.
Seu corpo, muito branco,
Quando livrar-se da mortalha
Que os marinheiros rudes coseram,
Será, na imensa noite oceânica,
Um raio de luar a percorrer abismos.
A eleita de meus sonhos
Teve por última morada
O fundo do Oceano!
Os bancos submersos de corais,
As esverdeadas águas,
Hão de invejar seus lábios rubros
E a cor de seus olhos verdes;
Suas mãos espirituais
Serão estrelas de cinco pontas
Correndo o mundo das águas.
Um corpo amortalhado foi lançado ao mar!
Algo de estranho passou dentro de mim!
Pois sinto-me afastado para sempre
Do círculo vicioso da Esperança!
In: BOMFIM, Paulo. Antônio Triste. Pref. Guilherme de Almeida. Il. Tarsila do Amaral. São Paulo: Martins, 1946
1 759
1
Teófilo Dias
A Matilha
Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos,
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados;
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa, — o gozo — em tua boca.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos,
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados;
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa, — o gozo — em tua boca.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960
3 383
1
Armando Freitas Filho
Nu de Verão Subindo a Escada
Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 517
1
Armando Freitas Filho
Nu de Verão Subindo a Escada
Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 517
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Armando Freitas Filho
Nu de Verão Subindo a Escada
Os dias pegam fogo logo cedo
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
com o mar a um palmo
e a carvoaria das montanhas:
pedra bruta batendo forte
o tempo todo no azul
de um céu aberto a tudo.
A paisagem perde o fôlego
e cada hora que roda
é um degrau a mais
para o alto, um salto
de mercúrio na escada
que uma loura em falso
sobe, movida a oxigênio
ardendo mais que a outra
natural e desmaiada
porque por baixo, por dentro
o cabelo negro ferve
forçando e ferindo
com suas flores pretas
a carne clara
desde o carvão das raízes
até o ar livre da pele
até
que o mar e o céu
se encontrem decididos
depois de tanto ensaio
a fundo perdido no horizonte.
25 dez. 87
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
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1
Carlos Frydman
Menino de Hirochima
Hoje, que o sol raiou mais otimista,
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 033
1
Ribeiro Couto
Chuva
A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Publicado no livro O Jardim das Confidências. Poema integrante da série Os Romances Perdidos.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! para que falar? Como é suave, brando,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
Publicado no livro O Jardim das Confidências. Poema integrante da série Os Romances Perdidos.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.
3 101
1
Evaristo da Veiga
Soneto ao Brasil
Minha Pátria, oh Brasil! tua grandeza
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
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Evaristo da Veiga
Soneto ao Brasil
Minha Pátria, oh Brasil! tua grandeza
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:
Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:
Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:
De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.
17 de outubro de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
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