Temas
Poemas neste tema

Outros

Donizete Galvão

Donizete Galvão

Falésias e falácias

De tempos em tempos, nos deparamos com ensaios, artigos ou entrevistas com opiniões de poetas, romancistas ou críticos falando da falésia Joyce, do abismo Mallarmé ou do enigma Valéry. Já virou lugar comum dizer que não há romance possível depois de Joyce ou que Mallarmé levou a poesia a um reino de refinamento que não pode ser alcançado. Um desses colunistas que pululam na imprensa chegou a determinar de forma ditatorial que o romance acabou em Joyce, o teatro em Racine e a pintura em Velázquez. Qualquer tentativa de levar adiante qualquer uma dessas artes resultará, para esses adoradores de ídolos, em fracasso. O romance acabou. Não existe mais pintura. E a poesia está em extinção.
O engraçado é que os mesmos que colocam esses autores no panteão de super-homens continuam escrevendo. Portanto, não fazem exercício de modéstia diante da grandeza desses autores. Na minha infância havia um caderno muito comum, usado pelas crianças pobres, que trazia na capa um moleque carregando uma enorme bandeira onde se lia Avante! A impressão é de que essas pessoas carregam essa bandeira levando sempre na vanguarda as conquistas dos artistas acima citados. Estamos no final do século e ainda insistem que sejam seguidos os evangelhos de Pound ou Mallarmé.
Uma passada rápida pela literatura do século XX mostra que muitos autores não se sentiram intimidados ou obrigados a seguir uma linha programática em suas obras. Yeats, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Marianne Moore, Seféris, Rilke, Paul Celan, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes não teriam criado suas obras fundamentais se acreditassem nesse falso impasse. E nomes como Herrmann Broch, Elias Canetti, Lawrence Durrell, Guimarães Rosa ou Julio Cortázar jamais teriam escrito seus romances se julgassem que nada mais havia para ser criado depois de Ullisses ou Finnegans Wake. Mesmo autores influenciados por Joyce, como Anthony Burgess, não se recusaram a criar, esbirrados pela grandiosidade do irlandês.
Dante Milano num curto e brilhante ensaio chamado Mallarmé e sua influência chama muito bem a atenção para o problema daqueles que querem superar o poeta. Aponta a excessiva idealização da arte como um produto divino, artificial, um bibelô estético. Presos a essa corrente que faz do poema um artefato e do poeta uma máquina de fazer poemas, muitos giram em falso em sua esterilidade. Muitos tentam imitar sua técnica, sem conseguir chegar à sua poética.
Os angustiados pela sua influência buscam sem sucesso atingir seu refinamento. Tiram da poesia tudo que há de humano, de vivacidade, de espírito e, digamos a temida palavra, de pensamento. Tontos pelo slogan de que poesia "não se faz com idéias, mas com palavras," jogam-nas aos quatro cantos da página, imaginando que esse lance de dados vá inaugurar a poesia. Pensar pode ser, sim, um ato poético. Dão prova disso a poesia de Leopardi, W. H. Auden e a do próprio Milano. Jovens poetas bem intencionados tentam seguir os mesmos slogans de make it new, ostinato rigore, miglior fabbro, sem saber que eles passam pelo conhecimento e diálogo com a tradição.
Parte desse emaranhado conceitual resulta numa poesia sem tutano, diluída e livresca. Perde-se, assim, sua ligação com a língua e a identificação com os leitores que não são especialistas. Tentando cortar gorduras, cortam a carne e os ossos do poema. Embora produzam faíscas de beleza, não conseguem ir além do flash, do insight, da charada sutil. Nesses casos, a brevidade deixa de ser concisão como bem observou Waly Salomão no poema em que fala de João Cabral de Melo Neto. De citação em citação, de colagem em colagem, de slogans e trocadilhos surge uma poesia desprovida de qualquer voz própria ou cor, que pode ser chamada conversação entre homens inteligentes e elegantes.
Nós, poetas, herdeiros de uma geração fortíssima estamos com medo do grande salto. Insistimos muitas vezes no apuro técnico, na brevidade, por receio de parecermos líricos, indulgentes, rídiculos. Muito da poesia dos poetas de 30 a 40 anos peca pelo excesso de delicadeza, pela busca exagerada de um tom poético, pela intricada rede de desleituras. Como bem observou Cioran o excesso de poesia também faz mal à poesia. Essa contenção, embora produza poemas de qualidade média, tolhe vôos maiores.
Além disso, parte dos recursos que eram considerados radicais estão completamente banalizados. A fragmentação, as colagens, as elipses tornaram-se lugar comum da publicidade e da dita estética MTV. Poetas que insistem em usar o Corel Draw ou o Page Maker fazem produções muito inferiores em termos de qualidade técnica a qualquer videoclip.
Hoje, o que choca não é a pintora performática que pinta seus quadros com o sangue de sua menstruação ou o artista que corta a língua como ato estético. Causaria mais espanto um jovem que aparecesse desenhando como Picasso ou, no caso do Brasil, tivesse o traço de um Flávio de Carvalho ou Marcelo Grassmann. Deve ser por isso que as pinturas de um Francis Bacon ou de um Lucien Freund ganham uma nova dimensão. Depois de tanta obra conceitual e interativa nada como um quadro bem pintado por quem tem uma visão densa das coisas para nos mostrar que até mesmo auto-retratos não estão fora de moda. Ressalte-se aqui que a arte abstrata atinge sim uma região do sublime. Kandinsky, Paul Klee, Yves Klein e, mais recentemente, Anish Kapoor provocam-nos um mergulho na origem sagrada, há um fio espiritual conduzindo suas obras. Espiritual, reafirmo, não exlusivamente mental ou conceitual. Deve ser por isso que Jackson Pollock só teve imitadores, nunca seguidores que atingissem o seu grau de intensidade.
Vivemos um período em que nos enriquecemos por traduções de nomes importantes. Descobrimos a poesia de outros países. Foi uma abertura de fronteiras. Somos gratos aos tradutores como os irmãos Campos, José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Aíla da Silva Gomes, Paulo Vizioli, Dora Ferreira da Silva e tantos outros que nos permitiram o acesso às obras de poetas importantes. Como diz um ditado mineiro, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. Bem, nos lambuzamos e nos deliciamos com tantos ares novos. Certamente, o saldo será altamente benéfico para a poesia. A língua portuguesa ganhou muito com essas traduções.
Houve, entretanto, um efeito colateral. Deixamos de lado nomes importantes da poesia brasileira. Esquecemo-nos muito rapidamente deles. E passamos a ter necessidade de dialogar com a poesia norte-americana contemporânea. Estarão esses interessados em dialogar com a poesia brasileira? O que observamos é que mesmo os poetas mais experimentais dos EUA sempre mantiveram um diálogo com sua tradição de Whitmam a Emily Dickinson. Prova disso são os estudos cada vez mais amplos sobre esses poetas. Suas obras hoje são canônicas e ninguém se sente antiquado por lê-las.
No Brasil, até há pouco tempo caçávamos obras de Murilo Mendes nos sebos. Graças ao belo trabalho de Isabel Lacerda, na Nova Aguilar, temos as obras completas dele publicadas. Ele está sendo descoberto com encantamento por um público jovem. Pecisamos, portanto, fazer circular novamente a obra de poetas importantes que foram um tanto sombreados pelos mais famosos. Peço licença para puxar a sardinha para poetas de minha predileção como Emílio Moura, Dante Milano, Mario Faustino e Cassiano Ricardo. Mesmo uma poeta celebrada como Cecília Meireles não é muito estudada em nossas universidades. Precisamos dar valor aos nossos criadores. Sem medo de parecermos provincianos. Caipira é quem está deslumbrado com a globalização e faz questão de ecoar com alarde a última novidade de Manhattan.
Nem todo mundo, entretanto, foi iludido por essas falácias e ficou com medo de cair nas falésias. Entre os poetas do meu conhecimento cito Floriano Martins, Paulo Henriques Britto, Alexei Bueno, Ruy Espinheira Filho, Fábio Weintraub, Paulo Octa
1 625 2
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Falésias e falácias

De tempos em tempos, nos deparamos com ensaios, artigos ou entrevistas com opiniões de poetas, romancistas ou críticos falando da falésia Joyce, do abismo Mallarmé ou do enigma Valéry. Já virou lugar comum dizer que não há romance possível depois de Joyce ou que Mallarmé levou a poesia a um reino de refinamento que não pode ser alcançado. Um desses colunistas que pululam na imprensa chegou a determinar de forma ditatorial que o romance acabou em Joyce, o teatro em Racine e a pintura em Velázquez. Qualquer tentativa de levar adiante qualquer uma dessas artes resultará, para esses adoradores de ídolos, em fracasso. O romance acabou. Não existe mais pintura. E a poesia está em extinção.
O engraçado é que os mesmos que colocam esses autores no panteão de super-homens continuam escrevendo. Portanto, não fazem exercício de modéstia diante da grandeza desses autores. Na minha infância havia um caderno muito comum, usado pelas crianças pobres, que trazia na capa um moleque carregando uma enorme bandeira onde se lia Avante! A impressão é de que essas pessoas carregam essa bandeira levando sempre na vanguarda as conquistas dos artistas acima citados. Estamos no final do século e ainda insistem que sejam seguidos os evangelhos de Pound ou Mallarmé.
Uma passada rápida pela literatura do século XX mostra que muitos autores não se sentiram intimidados ou obrigados a seguir uma linha programática em suas obras. Yeats, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Marianne Moore, Seféris, Rilke, Paul Celan, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes não teriam criado suas obras fundamentais se acreditassem nesse falso impasse. E nomes como Herrmann Broch, Elias Canetti, Lawrence Durrell, Guimarães Rosa ou Julio Cortázar jamais teriam escrito seus romances se julgassem que nada mais havia para ser criado depois de Ullisses ou Finnegans Wake. Mesmo autores influenciados por Joyce, como Anthony Burgess, não se recusaram a criar, esbirrados pela grandiosidade do irlandês.
Dante Milano num curto e brilhante ensaio chamado Mallarmé e sua influência chama muito bem a atenção para o problema daqueles que querem superar o poeta. Aponta a excessiva idealização da arte como um produto divino, artificial, um bibelô estético. Presos a essa corrente que faz do poema um artefato e do poeta uma máquina de fazer poemas, muitos giram em falso em sua esterilidade. Muitos tentam imitar sua técnica, sem conseguir chegar à sua poética.
Os angustiados pela sua influência buscam sem sucesso atingir seu refinamento. Tiram da poesia tudo que há de humano, de vivacidade, de espírito e, digamos a temida palavra, de pensamento. Tontos pelo slogan de que poesia "não se faz com idéias, mas com palavras," jogam-nas aos quatro cantos da página, imaginando que esse lance de dados vá inaugurar a poesia. Pensar pode ser, sim, um ato poético. Dão prova disso a poesia de Leopardi, W. H. Auden e a do próprio Milano. Jovens poetas bem intencionados tentam seguir os mesmos slogans de make it new, ostinato rigore, miglior fabbro, sem saber que eles passam pelo conhecimento e diálogo com a tradição.
Parte desse emaranhado conceitual resulta numa poesia sem tutano, diluída e livresca. Perde-se, assim, sua ligação com a língua e a identificação com os leitores que não são especialistas. Tentando cortar gorduras, cortam a carne e os ossos do poema. Embora produzam faíscas de beleza, não conseguem ir além do flash, do insight, da charada sutil. Nesses casos, a brevidade deixa de ser concisão como bem observou Waly Salomão no poema em que fala de João Cabral de Melo Neto. De citação em citação, de colagem em colagem, de slogans e trocadilhos surge uma poesia desprovida de qualquer voz própria ou cor, que pode ser chamada conversação entre homens inteligentes e elegantes.
Nós, poetas, herdeiros de uma geração fortíssima estamos com medo do grande salto. Insistimos muitas vezes no apuro técnico, na brevidade, por receio de parecermos líricos, indulgentes, rídiculos. Muito da poesia dos poetas de 30 a 40 anos peca pelo excesso de delicadeza, pela busca exagerada de um tom poético, pela intricada rede de desleituras. Como bem observou Cioran o excesso de poesia também faz mal à poesia. Essa contenção, embora produza poemas de qualidade média, tolhe vôos maiores.
Além disso, parte dos recursos que eram considerados radicais estão completamente banalizados. A fragmentação, as colagens, as elipses tornaram-se lugar comum da publicidade e da dita estética MTV. Poetas que insistem em usar o Corel Draw ou o Page Maker fazem produções muito inferiores em termos de qualidade técnica a qualquer videoclip.
Hoje, o que choca não é a pintora performática que pinta seus quadros com o sangue de sua menstruação ou o artista que corta a língua como ato estético. Causaria mais espanto um jovem que aparecesse desenhando como Picasso ou, no caso do Brasil, tivesse o traço de um Flávio de Carvalho ou Marcelo Grassmann. Deve ser por isso que as pinturas de um Francis Bacon ou de um Lucien Freund ganham uma nova dimensão. Depois de tanta obra conceitual e interativa nada como um quadro bem pintado por quem tem uma visão densa das coisas para nos mostrar que até mesmo auto-retratos não estão fora de moda. Ressalte-se aqui que a arte abstrata atinge sim uma região do sublime. Kandinsky, Paul Klee, Yves Klein e, mais recentemente, Anish Kapoor provocam-nos um mergulho na origem sagrada, há um fio espiritual conduzindo suas obras. Espiritual, reafirmo, não exlusivamente mental ou conceitual. Deve ser por isso que Jackson Pollock só teve imitadores, nunca seguidores que atingissem o seu grau de intensidade.
Vivemos um período em que nos enriquecemos por traduções de nomes importantes. Descobrimos a poesia de outros países. Foi uma abertura de fronteiras. Somos gratos aos tradutores como os irmãos Campos, José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Aíla da Silva Gomes, Paulo Vizioli, Dora Ferreira da Silva e tantos outros que nos permitiram o acesso às obras de poetas importantes. Como diz um ditado mineiro, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. Bem, nos lambuzamos e nos deliciamos com tantos ares novos. Certamente, o saldo será altamente benéfico para a poesia. A língua portuguesa ganhou muito com essas traduções.
Houve, entretanto, um efeito colateral. Deixamos de lado nomes importantes da poesia brasileira. Esquecemo-nos muito rapidamente deles. E passamos a ter necessidade de dialogar com a poesia norte-americana contemporânea. Estarão esses interessados em dialogar com a poesia brasileira? O que observamos é que mesmo os poetas mais experimentais dos EUA sempre mantiveram um diálogo com sua tradição de Whitmam a Emily Dickinson. Prova disso são os estudos cada vez mais amplos sobre esses poetas. Suas obras hoje são canônicas e ninguém se sente antiquado por lê-las.
No Brasil, até há pouco tempo caçávamos obras de Murilo Mendes nos sebos. Graças ao belo trabalho de Isabel Lacerda, na Nova Aguilar, temos as obras completas dele publicadas. Ele está sendo descoberto com encantamento por um público jovem. Pecisamos, portanto, fazer circular novamente a obra de poetas importantes que foram um tanto sombreados pelos mais famosos. Peço licença para puxar a sardinha para poetas de minha predileção como Emílio Moura, Dante Milano, Mario Faustino e Cassiano Ricardo. Mesmo uma poeta celebrada como Cecília Meireles não é muito estudada em nossas universidades. Precisamos dar valor aos nossos criadores. Sem medo de parecermos provincianos. Caipira é quem está deslumbrado com a globalização e faz questão de ecoar com alarde a última novidade de Manhattan.
Nem todo mundo, entretanto, foi iludido por essas falácias e ficou com medo de cair nas falésias. Entre os poetas do meu conhecimento cito Floriano Martins, Paulo Henriques Britto, Alexei Bueno, Ruy Espinheira Filho, Fábio Weintraub, Paulo Octa
1 625 2
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Lágrima de Sangues

Taedet animam meam vitae meae.
Jó

Ao pé das aras no clarão dos círios
Eu te devera consagrar meus dias;
Perdão, meu Deus! perdão
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!

Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma Saudade calma;
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minhalma.

Pela treva do espírito lancei-me,
Das esperanças suicidei-me rindo...
Sufoquei-as sem dó.
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.

Indolente Vestal, deixei no templo
A pira se apagar — na noite escura
O meu gênio descreu.
Voltei-me para a vida... só contemplo
A cinza da ilusão que ali murmura:
Morre! — tudo morreu!

Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias
À alma que se perdeu bradar de novo:
Ressurge-te ao amor!
Malicento, da minhas agonias
Eu deixaria as multidões do povo
Para amar o Senhor!

Do leito aonde o vício acalentou-me
O meu primeiro amor fugiu chorando.
Pobre virgem de Deus!
Um vendaval sem norte arrebatou-me,
Acordei-me na treva... profanando
Os puros sonhos meus!

Oh! se eu pudesse amar!... — É impossível!
Mão fatal escreveu na minha vida;
A dor me envelheceu.
O desespero pálido, impassível
Agoirou minha aurora entristecida,
De meu astro descreu.

Oh! se eu pudesse amar! Mas não:
agora Que a dor emurcheceu meus breves dias,
Quero na cruz sangrenta
Derramá-los na lágrima que implora,
Que mendiga perdão pela agonia
Da noite lutulenta!

Quero na solidão — nas ermas grutas
A tua sombra procurar chorando
Com meu olhar incerto:
As pálpebras doridas nunca enxutas
Queimarei... teus fantasmas invocando
No vento do deserto.

De meus dias a lâmpada se apaga:
Roeram meu viver mortais venenos;
Curvo-me ao vento forte.
Teu fúnebre clarão que a noite alaga,
Como a estrrla oriental me guie ao menos
Té o vale da morte!

No mar dos vivos o cadáver bóia
— A lua é descorada como um crânio,
Este sol não reluz:
Quando na morte a pálpebra se engóia,
O anjo se acorda em nós — e subitâneo
Voa ao mundo da luz!

Do val de Josafá pelas gargantas
Uiva na treva o temporal sem norte
E os fantasmas murmuram...
Irei deitar-me nessas trevas santas,
Banhar-me na frieza lustral da morte
Onde as almas se apuram!

Mordendo as clinas do corcel da sombra,
Sufocando, arquejante passarei
Na noite do infinito.
Ouvirei essa voz que a treva assombra,
Dos lábios de minhalma entornarei
O meu cântico aflito!

Flores cheias de aroma e de alegria,
Por que na primavera abrir cheirosas
E orvalhar-vos abrindo?
As torrentes da morte vêm sombrias,
Hão de amanhã nas águas tenebrosas
Vos rebentar bramindo.

Morrer! morrer! É voz das sepulturas!
Como a lua nas salas festivais
A morte em nós se estampa!
E os pobres sonhadores de venturas
Roxeiam amanhã nos funerais
E vão rolar na campa!

Que vale a glória, a saudação que enleva
Dos hinos triunfais na ardente nota,
E as turbas devaneia?
Tudo isso é vão, e cala-se na treva
— Tudo é vão, como em lábios de idiota
Cantiga sem idéia.

Que importa? quando a morte se descarna,
A esperança do céu flutua e brilha
Do túmulo no leito:
O sepulcro é o ventre onde se encama
Um verbo divinal que Deus perfilha
E abisma no seu peito!

Não chorem! que essa lágrima profunda
Ao cadáver sem luz não dá conforto...
Não o acorda um momento!
Quando a treva medonha o peito inunda,
Derrama-se nas pálpebras do morto
Luar de esquecimento!

Caminha no deserto a caravana,
Numa noite sem lua arqueja e chora...
O termo... é um sigilo!
O meu peito cansou da vida insana;
Da cruz à sombra, junto aos meus, agora
Eu dormirei tranqüilo!

Dorme ali muito amor... muitas amantes,
Donzelas puras que eu sonhei chorando
E vi adormecer.
Ouço da terra cânticos errantes,
E as almas saudosas suspirando,
Que falam em morrer...

Aqui dormem sagradas esperanças,
Almas sublimes que o amor erguia...
E gelaram tão cedo!
Meu pobre sonhador! aí descansas,
Coração que a existência consumia
E roeu um segredo! ...

Quando o trovão romper as sepulturas,
Os crânios confundidos acordando
No lodo tremerão.
No lodo pelas tênebras impuras
Os ossos estalados tiritando
Dos vales surgirão!

Como rugindo a chama encarcerada
Dos negros flancos do vulcão rebenta
Goltejando nos céus,
Entre nuvem ardente e trovejada
Minhalma se erguerá, fria, sangrenta,
Ao trono de meu Deus...

Perdoa, meu Senhor! O errante crente
Nos desesperos em que a mente abrasas
Não o arrojes plo crime!
Se eu fui um anjo que descreu demente
E no oceano do mal rompeu as asas,
Perdão! arrependi-me!

2 685 2
Castro Alves

Castro Alves

A Visão dos Mortos

On rapporte encore quun berger
ayant été introduit une fois par un
nain dans le Hyffhaese, lempereur
(Barberousse) se leva et lui demanda
si les corbeaux volaient encore autour
de la montagne. Et, sur la réponse
afíirmative du berger, il sécria en
soupirant: i1 faut donc que je dors
encore pendant cent ans"!
H. Heine (Allemagne)

Nas horas tristes que em neblinas densas
A terra envolta num sudário dorme,
E o vento geme na amplidão celeste
- Cúpula imensa dum sepulcro enorme, -
Um grito passa despertando os ares,
Levanta as lousas invisível mão.
Os mortos saltam, poeirentos, lívidos.
Da lua pálida ao fatal clarão.

Do solo adusto do africano Saara
Surge um fantasma com soberbo passo,
Presos os braços, laureada a fronte,
Louco poeta, como fora o Tasso.
Do sul, do norte... do oriente irrompem
Dórias, Siqueiras e Machado então.
Vem Pedro lvo no cavalo negro
Da lua pálida ao fatal clarão.

O Tiradentes sobre o poste erguido
Lá se destaca das cerúleas telas,,
Pelos cabelos a cabeça erguendo,
Que rola sangue, que espadana estrelas.
E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,
Que amassa um povo na robusta mão:
O vento agita do tribuno a toga
Da lua pálida ao fatal clarão.

A estátua range... estremecendo move-se
O rei de bronze na deserta praça.
O povo grita: Independência ou Morte!
Vendo soberbo o Imperador, que passa.
Duas coroas seu cavalo pisa,
Mas duas cartas ele traz na mão.
Por guarda de honra tem dous povos livres,
Da lua pálida ao fatal clarão.

Então, no meio de um silêncio lúgubre,
Solta este grito a legião da morte:
"Aonde a terra que talhamos livre,
Aonde o povo que fizemos forte?
Nossas mortalhas o presente inunda
No sangue escravo, que nodoa o chão.
Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,
Da lua pálida ao fatal clarão.

"Brutus renega a tribunícia toga,
O apostlo cospe no Evangelho Santo,
E o Cristo - Povo, no Calvário erguido,
Fita o futuro com sombrio espanto.
Nos ninhos dáguias que nos restam? - Corvos,
Que vendo a pátria se estorcer no chão,
Passam, repassam, como alados crimes,
Da lua pálida ao fatal clarão.

"Oh! é preciso inda esperar cem anos...
Cem anos. . . " brada a legião da morte.
E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,
Sacode o grito soluçando, - o norte.
Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos
Pelo infinito a galopar lá vão...
Erguem-se as névoas como pó do espaço
Da lua pálida ao fatal clarão.

3 040 2
Castro Alves

Castro Alves

PERSEVERANDO

(Tradução de V. Hugo)

a Regueira Costa

A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro,
Que do monte arremete altivo píncaro,
Quergue um grito aos fulgores do arrebol,
Cuja garra jamais se peia em lodo,
E cujo olhar de fogo troca raios
— Contra os raios do sol.

Não tem ninho de palhas... tem um antro
— Rocha talhada ao martelar do raio,
— Brecha em serra, anta qual o olhar tremeu ...
No flanco da montanha — asilo trêmulo,
Que sacode o tufão entre os abismos
— O precipício e o céu.

Nem pobre verme, nem dourada abelha
Nem azul borboleta... sua prole
Faminta, boquiaberta espera ter...
Não! São aves da noite, são serpentes,
São lagartos imundos, que ela arroja
Aos filhos pra viver.

Ninho de rei!... palácio tenebroso,
Que a avalanche a saltar cerca tombando!...
O gênio aí enseiba a geração...
E ao céu lhe erguendo os olhos flamejantes
Sob as asas de fogo aquenta as almas
Que um dia voarão.

Por que espantas-te, amigo, se tua fronte
Já de raios pejada, choca a nuvem?...
Se o réptil em seu ninho se debate?...
É teu folgar primeiro... é tua festa!...
Águias! Pra vós cadhora é uma tormenta,
Cada festa um combate!

Radia!... É tempo!... E se a lufada erguer-se
Muda a noite feral em prisma fúlgido!
De teu alto pensar completa a lei!...
Irmão! — Prende esta mão de irmão na minha!...
Toma a lira — Poeta! Águia! — esvoaça!
Sobe, sobe, astro rei!...

De tua aurora a bruma vai fundir-se
Águia! faz-te mirar do sol, do raio;
Arranca um nome no febril cantar.
Vem! A glória, que é o alvo de vis setas,
É bandeira arrogante, que o combate
Embeleza ao rasgar.

O meteoro real — de coma fúlgida —
Rola e se engrossa ao devorar dos mundos...
Gigante! Cresces todo o dia assim!...
Tal teu gênio, arrastando em novos trilhos
No curso audaz constelações de idéias,
Marcha e recresce no marchar sem fim! ...

2 698 2
Castro Alves

Castro Alves

PERSEVERANDO

(Tradução de V. Hugo)

a Regueira Costa

A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro,
Que do monte arremete altivo píncaro,
Quergue um grito aos fulgores do arrebol,
Cuja garra jamais se peia em lodo,
E cujo olhar de fogo troca raios
— Contra os raios do sol.

Não tem ninho de palhas... tem um antro
— Rocha talhada ao martelar do raio,
— Brecha em serra, anta qual o olhar tremeu ...
No flanco da montanha — asilo trêmulo,
Que sacode o tufão entre os abismos
— O precipício e o céu.

Nem pobre verme, nem dourada abelha
Nem azul borboleta... sua prole
Faminta, boquiaberta espera ter...
Não! São aves da noite, são serpentes,
São lagartos imundos, que ela arroja
Aos filhos pra viver.

Ninho de rei!... palácio tenebroso,
Que a avalanche a saltar cerca tombando!...
O gênio aí enseiba a geração...
E ao céu lhe erguendo os olhos flamejantes
Sob as asas de fogo aquenta as almas
Que um dia voarão.

Por que espantas-te, amigo, se tua fronte
Já de raios pejada, choca a nuvem?...
Se o réptil em seu ninho se debate?...
É teu folgar primeiro... é tua festa!...
Águias! Pra vós cadhora é uma tormenta,
Cada festa um combate!

Radia!... É tempo!... E se a lufada erguer-se
Muda a noite feral em prisma fúlgido!
De teu alto pensar completa a lei!...
Irmão! — Prende esta mão de irmão na minha!...
Toma a lira — Poeta! Águia! — esvoaça!
Sobe, sobe, astro rei!...

De tua aurora a bruma vai fundir-se
Águia! faz-te mirar do sol, do raio;
Arranca um nome no febril cantar.
Vem! A glória, que é o alvo de vis setas,
É bandeira arrogante, que o combate
Embeleza ao rasgar.

O meteoro real — de coma fúlgida —
Rola e se engrossa ao devorar dos mundos...
Gigante! Cresces todo o dia assim!...
Tal teu gênio, arrastando em novos trilhos
No curso audaz constelações de idéias,
Marcha e recresce no marchar sem fim! ...

2 698 2
Castro Alves

Castro Alves

PERSEVERANDO

(Tradução de V. Hugo)

a Regueira Costa

A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro,
Que do monte arremete altivo píncaro,
Quergue um grito aos fulgores do arrebol,
Cuja garra jamais se peia em lodo,
E cujo olhar de fogo troca raios
— Contra os raios do sol.

Não tem ninho de palhas... tem um antro
— Rocha talhada ao martelar do raio,
— Brecha em serra, anta qual o olhar tremeu ...
No flanco da montanha — asilo trêmulo,
Que sacode o tufão entre os abismos
— O precipício e o céu.

Nem pobre verme, nem dourada abelha
Nem azul borboleta... sua prole
Faminta, boquiaberta espera ter...
Não! São aves da noite, são serpentes,
São lagartos imundos, que ela arroja
Aos filhos pra viver.

Ninho de rei!... palácio tenebroso,
Que a avalanche a saltar cerca tombando!...
O gênio aí enseiba a geração...
E ao céu lhe erguendo os olhos flamejantes
Sob as asas de fogo aquenta as almas
Que um dia voarão.

Por que espantas-te, amigo, se tua fronte
Já de raios pejada, choca a nuvem?...
Se o réptil em seu ninho se debate?...
É teu folgar primeiro... é tua festa!...
Águias! Pra vós cadhora é uma tormenta,
Cada festa um combate!

Radia!... É tempo!... E se a lufada erguer-se
Muda a noite feral em prisma fúlgido!
De teu alto pensar completa a lei!...
Irmão! — Prende esta mão de irmão na minha!...
Toma a lira — Poeta! Águia! — esvoaça!
Sobe, sobe, astro rei!...

De tua aurora a bruma vai fundir-se
Águia! faz-te mirar do sol, do raio;
Arranca um nome no febril cantar.
Vem! A glória, que é o alvo de vis setas,
É bandeira arrogante, que o combate
Embeleza ao rasgar.

O meteoro real — de coma fúlgida —
Rola e se engrossa ao devorar dos mundos...
Gigante! Cresces todo o dia assim!...
Tal teu gênio, arrastando em novos trilhos
No curso audaz constelações de idéias,
Marcha e recresce no marchar sem fim! ...

2 698 2