Outros
Nuno Júdice
Branco (a Eugénio de Andrade)
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
Susana Thénon
Não é um Poema
os corpos são os mesmos,
as palavras voam para o desluzido,
as ideias de cadáver antigo.
Isto não é um poema:
é um ataque de raiva,
raiva pelos olhos ocos,
pelas palavras torpes
que digo e que me dizem,
por baixar a cabeça
para ratos,
para cérebros cheios de mijo,
para mortos persistentes
que interrompem o ar do jardim.
Isto não é um poema:
é um pontapé universal,
um soco no estômago do céu,
uma enorme náusea
vermelha
como era o sangue antes de ser água.
Manuel António Pina
Os tempos não
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.
Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 11 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Os tempos não
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.
Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 11 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Os tempos não
Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.
Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 11 | Assírio & Alvim, 2012
Raquel Nobre Guerra
O fim do mundo
O vietnamita eleva uma maçã acima da cabeça
como se me atravessasse nesse seu gesto corso.
Gente que está viva, diria, pasto para as sensações
e isto não quer dizer nada senão que sigo a forma
dos objectos mortos para que as coisas passem.
Que me esforço por um certo sossego.
Ainda sou essa criança predadora
que empurra a noite para o lado com os dentes.
Acordo no lado mais duro da terra
faço contas ao corpo antes de ser bicho.
Penso, esta obsessão não é verdade
estou morta, sou infinita
e a manhã despenca como uma grua.
Agora vou ao café todos os dias
para que o mundo que me percorre
entre pela ordem exacta dos punhos.
Respiro com as raparigas da cidade
digo, como é quente e pesado este fato preto
que vai doendo menos abrir os olhos debaixo de água
que se canta melhor na Praça das Flores
de frente como estás para mim.
Que eu só queria existir um pouco
na de definitiva passagem do fogo
e suster a passo veloz os estragos
a força de um corpo resumido ao vento.
Agora escrevo diários íntimos
para cumprir o instinto canalha
de quem rouba para ser apanhado
de quem mata pela beleza de um corpo
por onde se enfiou um dos braços
até não saber a que altura se pôs a noite.
Depois nada, a minha vida é só a minha vida
um olhar bovino treinado para devolver ao mundo
o mínimo insulto sem me mexer um milímetro.
E eu já não sei a que altura se pôs a noite
nem da fraqueza do sol que cai de borco.
O café ilumina-se de todos os anjos filhos da puta.
Daqui a pouco sairei de casa
estou certa que daqui sairá o poema mais triste.
Raquel Nobre Guerra
O fim do mundo
O vietnamita eleva uma maçã acima da cabeça
como se me atravessasse nesse seu gesto corso.
Gente que está viva, diria, pasto para as sensações
e isto não quer dizer nada senão que sigo a forma
dos objectos mortos para que as coisas passem.
Que me esforço por um certo sossego.
Ainda sou essa criança predadora
que empurra a noite para o lado com os dentes.
Acordo no lado mais duro da terra
faço contas ao corpo antes de ser bicho.
Penso, esta obsessão não é verdade
estou morta, sou infinita
e a manhã despenca como uma grua.
Agora vou ao café todos os dias
para que o mundo que me percorre
entre pela ordem exacta dos punhos.
Respiro com as raparigas da cidade
digo, como é quente e pesado este fato preto
que vai doendo menos abrir os olhos debaixo de água
que se canta melhor na Praça das Flores
de frente como estás para mim.
Que eu só queria existir um pouco
na de definitiva passagem do fogo
e suster a passo veloz os estragos
a força de um corpo resumido ao vento.
Agora escrevo diários íntimos
para cumprir o instinto canalha
de quem rouba para ser apanhado
de quem mata pela beleza de um corpo
por onde se enfiou um dos braços
até não saber a que altura se pôs a noite.
Depois nada, a minha vida é só a minha vida
um olhar bovino treinado para devolver ao mundo
o mínimo insulto sem me mexer um milímetro.
E eu já não sei a que altura se pôs a noite
nem da fraqueza do sol que cai de borco.
O café ilumina-se de todos os anjos filhos da puta.
Daqui a pouco sairei de casa
estou certa que daqui sairá o poema mais triste.
Manuel António Pina
Já não é possível
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?
O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.
Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 12 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Imagem do mundo
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice | "Geometria variável", 2005
Nuno Júdice
Imagem do mundo
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice | "Geometria variável", 2005
Nuno Júdice
Os ferozes habitantes do sono
vem um barulho de aves em luta com o réptil.
Mas os seus bicos vorazes não encontram
a carne mole; o tronco petrificado rasteja,
procurando o abrigo do corpo,
e volto-me para a parede cuspindo terra
e sangue. Assim veio ter às minhas mãos
a carcassa destruída do animal. Restos duros
e viscosos que a podridão e o musgo devoram
já; e dois olhos inexplicavelmente abertos,
postos em mim até de manhã, ao acordar
com a luz na cara e este poema na cabeça.
Nuno Júdice
Os ferozes habitantes do sono
vem um barulho de aves em luta com o réptil.
Mas os seus bicos vorazes não encontram
a carne mole; o tronco petrificado rasteja,
procurando o abrigo do corpo,
e volto-me para a parede cuspindo terra
e sangue. Assim veio ter às minhas mãos
a carcassa destruída do animal. Restos duros
e viscosos que a podridão e o musgo devoram
já; e dois olhos inexplicavelmente abertos,
postos em mim até de manhã, ao acordar
com a luz na cara e este poema na cabeça.
Manuel António Pina
Escrito de memória
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando-
te atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Manuel António Pina
Escrito de memória
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando-
te atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Manuel António Pina
Escrito de memória
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando-
te atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
José Miguel Silva
O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
Manuel António Pina
Os lugares
Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 43 | Assírio & Alvim, 2012
Susana Thénon
Carrasco
me repete: descansa,
e eu
descansar não poderia
senão como em sonho
latente,
como flecha que repousa
em sua aljava.
Cada dia
minhas horas
se tornam mais agudas,
mais ásperas,
desde que estou sufocada
e o sol me arde.
Conheço as palavras
cujo som
as portas voam como plumas
e o céu é uma almofada para os pés.
Conheço o castigo.
Conheço todos os castigos.
Mas hoje amanheci carrasco.
Nuno Júdice
Poema
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.
Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.
Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
Nuno Júdice
Poema
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.
Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.
Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
Raquel Nobre Guerra
Onde se come
assim cantará no meu epitáfio.
Sais de casa porque a morte te agita
transpiras pelo empregado de mesa
que lê Balzac, tens ambições literárias
razões, enfim, para andar mal vestido
despenteado com um saco na cabeça
para que se diga ali vai a poesia portuguesa.
Queres até salvar o mundo do enxofre
da má sina dos coitados que aspiram
à avara sedução do matadouro.
Serei breve.
Quero entrar para a história da literatura
com um verso roubado a alguém,
por exemplo,
uma adolescente grávida com um grande espaço entre os dentes
a dar na chinesa com a mãe.
Grande imagem sacada à presteza dos dias
mas que importa? Se aqui neste bairro ninguém sabe ler
e eu ardo na cupidez de ganhar para a lírica
porque nestes casos o melhor é ser-se culinário
e fazer segredo, dizer apenas que sou feliz
no meio da porcaria a dez minutos da humanidade.
Senhor Roubado-Café Lenita - Senhor Roubado
Quero escrever o poema mais feliz do meu bairro
levantar ao alto os olhos do dealer
dizer que é possível remediar os dias
fazer magia, dizer sim, moro aqui
com uma reserva de Foucault e uma mesinha
que me dá liberdade a um combro do lixo.
Mas sou uma criatura tão pequena quanto a certeza
de que esta gente toda me perdoaria se eu dissesse
que me envergonha morar aqui
e que lhes levo a vida com a ligeireza de um carteirista.
Fernando Pessoa
Se já não torna a eterna primavera
Que em sonhos conheci,
O que é que o exausto coração espera
Do que não tem em si?
Se não há mais florir de árvores feitas
Só de alguém as sonhar,
Que coisas quer o coração perfeitas,
Quando, e em que lugar?
Não: contentemo-nos com ter a aragem
Que, porque existe, vem
Passar a mão sobre o alto da folhagem
E assim nos faz um bem.
Manuel António Pina
Calo-me
assim as palavras falam mais alto e mais baixo
Nada no poema é impossível e tudo é possível
mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo ( e como me calarei?)
no entanto ninguém é tão falador como eu
nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.
e vós também: não me faleis de nada ou falai-me
porque não sabeis o que dizeis
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
Calo-me
assim as palavras falam mais alto e mais baixo
Nada no poema é impossível e tudo é possível
mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo ( e como me calarei?)
no entanto ninguém é tão falador como eu
nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.
e vós também: não me faleis de nada ou falai-me
porque não sabeis o que dizeis
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2001