Poemas neste tema
Outros
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
1 001
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
1 001
Mário-Henrique Leiria
claridade dada pelo tempo
I
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
680
Mário-Henrique Leiria
claridade dada pelo tempo
I
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
680
Baltazar Dias
História da Imperatriz Porcina
Como a noite foi chegada
às horas que anoitecia,
manda que seja levada
por dois homens de valia;
com ela, duas mulheres,
para ir em companhia
para que fosse guardada
sua honra como devia.
Em um navio veleiro,
a Imperatriz se metia
com lágrimas de seus olhos
da terra se despedia.
Chegaram à dita ilha,
à noite do outro dia,
a princesa deixam em terra
com grão choro em demasia.
Tornaram-se com o navio
porque assim fazer cumpria.
Quando a nobre imperatriz
em tal lugar só se via
numa ilha tão deserta,
onde ninguém não vivia
senão bravos animais
de que ela manjar seria,
chorando lágrimas tristes
desta maneira dizia:
― Ó meu nobre Imperador
meu bem e minha alegria
não pouca é vossa lembrança
de quem tanto vos queria.
Quão pouco tempo durou
vossa doce companhia!
Sempre cuidei de vos ver,
algum tempo ou algum dia,
agora por meus pecados,
eu mais nunca vos veria.
Deus perdôe a vosso irmão,
a Virgem Sancta Maria,
que eu lhe perdôo aqui
todo o mal que me fazia.
Ó Senhor, e ó meu pai,
Príncipe e Rei da Ungria,
quão triste vida será
a vossa, sem alegria,
em ouvindo tão má fama
que em Roma de mim corria!
Mais sinto vosso pezar,
que minha grande agonia,
porque morrerei uma vez,
vós morrereis cada dia.
A vossa desonra sinto,
que a morte não a temia;
porque mais há-de temer
que tão sem culpa, morria.
Estas palavras dizendo
mui grande ruido ouvia,
tão terrível e espantoso
que sofrer-se não podia,
Ouvindo isto a Senhora
a força lhe falecia,
como era delicada,
Estes eram animais
em terra logo caía
de muitos que na terra havia,
que tanto que a sentiram
com gram pressa em demasia,
correram para a comerem
cada um qual mais podia.
Antes que a ela chegassem
um resplendor aparecia.
Ficaram todos quedos,
com o temor de uma Senhora
de quem o inferno tremia,
logo vinha com majestade
a Virgem Santa Maria,
para guardar a limpeza
de quem se a ela recorria.
às horas que anoitecia,
manda que seja levada
por dois homens de valia;
com ela, duas mulheres,
para ir em companhia
para que fosse guardada
sua honra como devia.
Em um navio veleiro,
a Imperatriz se metia
com lágrimas de seus olhos
da terra se despedia.
Chegaram à dita ilha,
à noite do outro dia,
a princesa deixam em terra
com grão choro em demasia.
Tornaram-se com o navio
porque assim fazer cumpria.
Quando a nobre imperatriz
em tal lugar só se via
numa ilha tão deserta,
onde ninguém não vivia
senão bravos animais
de que ela manjar seria,
chorando lágrimas tristes
desta maneira dizia:
― Ó meu nobre Imperador
meu bem e minha alegria
não pouca é vossa lembrança
de quem tanto vos queria.
Quão pouco tempo durou
vossa doce companhia!
Sempre cuidei de vos ver,
algum tempo ou algum dia,
agora por meus pecados,
eu mais nunca vos veria.
Deus perdôe a vosso irmão,
a Virgem Sancta Maria,
que eu lhe perdôo aqui
todo o mal que me fazia.
Ó Senhor, e ó meu pai,
Príncipe e Rei da Ungria,
quão triste vida será
a vossa, sem alegria,
em ouvindo tão má fama
que em Roma de mim corria!
Mais sinto vosso pezar,
que minha grande agonia,
porque morrerei uma vez,
vós morrereis cada dia.
A vossa desonra sinto,
que a morte não a temia;
porque mais há-de temer
que tão sem culpa, morria.
Estas palavras dizendo
mui grande ruido ouvia,
tão terrível e espantoso
que sofrer-se não podia,
Ouvindo isto a Senhora
a força lhe falecia,
como era delicada,
Estes eram animais
em terra logo caía
de muitos que na terra havia,
que tanto que a sentiram
com gram pressa em demasia,
correram para a comerem
cada um qual mais podia.
Antes que a ela chegassem
um resplendor aparecia.
Ficaram todos quedos,
com o temor de uma Senhora
de quem o inferno tremia,
logo vinha com majestade
a Virgem Santa Maria,
para guardar a limpeza
de quem se a ela recorria.
946
Joaquim Paço d'arcos
Negra que vieste da sanzala
Negra que vieste da sanzala
E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,
Recusando o leito branco e macio;
Negra que trazias no corpo o cheiro do capim
E da terra molhada,
E o travo das queimadas;
Negra que trazias nos olhos castanhos
Sede de submissão,
Que tudo aceitaste em silêncio
E lentamente desnudaste o teu corpo...
Estátua de ébano,
Animada pelo sopro da lascívia
e pela febre do desejo;
Negra vinda das terras altas de Chimoio
À cidade que o branco plantou à beira-mar.
Vinda para te venderes...
Comprada a uma preta velha e desdentada,
A troco dum gramofone;
Vendida e trespassada de mão em mão.
Que é do pano branco de chita
Em que envolvias teu corpo
E escondias tua carne tremente
De tanta volúpia que guardava?
Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo
E vibrou tua carne?
Onde vão as noites de África,
Encharcadas de cacimba,
Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?
Luminosas, serenas...
Vinham do pátio as vozes em surdina
Dos teus irmãos em cor...
Vinham do mato os gritos roucos das hienas
E o seu choro lamentoso,
De acentos prolongados,
Tal o de meninos magoados...
Tu prendias-te a mim.
Abandonava-te na esteira
E, quando o dia surgia,
No soalho nu havia a esteira nua
E nada mais.
Tinhas partido para a sanzala,
Envolta no pano de chita branca
E no silêncio molhado da cacimba
Da noite transluzente e profunda.
Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.
Fazia por te odiar...
Mas, ao sol escaldante do dia,
Queimava-me de novo,
Em ardência e secura,
A sede do teu corpo,
Até que a noite voltava,
Tudo aguando de cacimba...
E na esteira gasta
O teu corpo nu
Voltava a ser
Uma serpe negra...
Negra que vieste da sanzala..
E na esteira, sobre o soalho, te estendeste,
Recusando o leito branco e macio;
Negra que trazias no corpo o cheiro do capim
E da terra molhada,
E o travo das queimadas;
Negra que trazias nos olhos castanhos
Sede de submissão,
Que tudo aceitaste em silêncio
E lentamente desnudaste o teu corpo...
Estátua de ébano,
Animada pelo sopro da lascívia
e pela febre do desejo;
Negra vinda das terras altas de Chimoio
À cidade que o branco plantou à beira-mar.
Vinda para te venderes...
Comprada a uma preta velha e desdentada,
A troco dum gramofone;
Vendida e trespassada de mão em mão.
Que é do pano branco de chita
Em que envolvias teu corpo
E escondias tua carne tremente
De tanta volúpia que guardava?
Que é da esteira gasta em que repousou teu corpo
E vibrou tua carne?
Onde vão as noites de África,
Encharcadas de cacimba,
Impregnadas de álcool do hálito e dos beijos?
Luminosas, serenas...
Vinham do pátio as vozes em surdina
Dos teus irmãos em cor...
Vinham do mato os gritos roucos das hienas
E o seu choro lamentoso,
De acentos prolongados,
Tal o de meninos magoados...
Tu prendias-te a mim.
Abandonava-te na esteira
E, quando o dia surgia,
No soalho nu havia a esteira nua
E nada mais.
Tinhas partido para a sanzala,
Envolta no pano de chita branca
E no silêncio molhado da cacimba
Da noite transluzente e profunda.
Eu esquecia, saciado, o segredo do teu corpo.
Fazia por te odiar...
Mas, ao sol escaldante do dia,
Queimava-me de novo,
Em ardência e secura,
A sede do teu corpo,
Até que a noite voltava,
Tudo aguando de cacimba...
E na esteira gasta
O teu corpo nu
Voltava a ser
Uma serpe negra...
Negra que vieste da sanzala..
660
Antônio Olinto
V
A paisagem
Nesse ínterim
esvaziam-se as palavras
inúteis
vindas na enxurrada
em queda no vazio
de listas e sinais.
Sem elas
desaparece o pleno sentido
some ajusta aceitação
de morros e flores
de rios e mares
e ao longo da planície
as palavras renascem
para que delas saia de novo
a paisagem.
Nesse ínterim
esvaziam-se as palavras
inúteis
vindas na enxurrada
em queda no vazio
de listas e sinais.
Sem elas
desaparece o pleno sentido
some ajusta aceitação
de morros e flores
de rios e mares
e ao longo da planície
as palavras renascem
para que delas saia de novo
a paisagem.
646
Antônio Olinto
V
A paisagem
Nesse ínterim
esvaziam-se as palavras
inúteis
vindas na enxurrada
em queda no vazio
de listas e sinais.
Sem elas
desaparece o pleno sentido
some ajusta aceitação
de morros e flores
de rios e mares
e ao longo da planície
as palavras renascem
para que delas saia de novo
a paisagem.
Nesse ínterim
esvaziam-se as palavras
inúteis
vindas na enxurrada
em queda no vazio
de listas e sinais.
Sem elas
desaparece o pleno sentido
some ajusta aceitação
de morros e flores
de rios e mares
e ao longo da planície
as palavras renascem
para que delas saia de novo
a paisagem.
646
Joaquim Paço d'arcos
Medo
Medo não o temor dos piratas no Rio do Oeste,
Nem dos tufões no mar.
Não é o receio dos tiros, pela noite,
No rio povoado de lorchas e traições;
Nem o susto dos enforcados,
Ao luar branco,
No mangal da Areia Preta.
Medo não é o temor da guerra,
nem da for, nem do cólera,
Nem das chagas dos leprosos
na Ilha de S. João;
Não é suspeita
De que a morte espreita,
Continuadamente,
E nos levará.
Medo não é contágio da tristeza
Quando a tarde tomba
E o ocaso ensanguenta
O mar de água barrenta,
As terras e o céu,
Até as ilhas serem tragadas pelo negrume
E as montanhas pelo escuro,
E nada restar senão a treva
E os gritos que atravessam a noites,
Vindos não sei donde,
Para não sei onde.
Medo não é o temor das ciladas,
Nem dos punhais,
Nem dos beijos vermelhos que enganam
E sorvem lentamente as vidas...
Medo é est pavor de que tu partas|
E me deixes só.
Nem dos tufões no mar.
Não é o receio dos tiros, pela noite,
No rio povoado de lorchas e traições;
Nem o susto dos enforcados,
Ao luar branco,
No mangal da Areia Preta.
Medo não é o temor da guerra,
nem da for, nem do cólera,
Nem das chagas dos leprosos
na Ilha de S. João;
Não é suspeita
De que a morte espreita,
Continuadamente,
E nos levará.
Medo não é contágio da tristeza
Quando a tarde tomba
E o ocaso ensanguenta
O mar de água barrenta,
As terras e o céu,
Até as ilhas serem tragadas pelo negrume
E as montanhas pelo escuro,
E nada restar senão a treva
E os gritos que atravessam a noites,
Vindos não sei donde,
Para não sei onde.
Medo não é o temor das ciladas,
Nem dos punhais,
Nem dos beijos vermelhos que enganam
E sorvem lentamente as vidas...
Medo é est pavor de que tu partas|
E me deixes só.
1 022
Mário-Henrique Leiria
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
912
Mário-Henrique Leiria
facto diverso
Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
ao lado do meu túmulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma abúlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença real e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
(…)
697
Virgílio Martinho
Ouro
O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
1 095
Mário-Henrique Leiria
Cinegética
Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
799
Mário-Henrique Leiria
Triângulo cabalístico
Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
710
Mário-Henrique Leiria
canção do mundo novo
Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
545
Mário-Henrique Leiria
canção do mundo novo
Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
545
Antônio Olinto
VI
Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
715
Renato Rezende
[Equilibrista]
Agora que vivo a diferença de cultura radicalmente, minha convicção é de que sempre vivemos num sistema de vida muito específico, seja numa cultura, seja noutra, seja entre uma e outra. Poderíamos estar vivendo em outro completamente diferente, mas é esse que impera. Poderíamos ter cinco sexos em vez de dois. Poderíamos ter mais idades de vida ou menos.
É aqui onde eu queria chegar: quanto mais específico se torna o meu saber do mundo, mais levantam-se hipóteses de especificidades totalmente outras e mais aumenta minha convicção da miséria de tal especificidade observada.
O que me espanta é que a maioria acredita no jogo que está jogando, não percebe que se trata de um imenso teatro de um Deus ... nada maléfico, que apenas está nos dando pistas para sair de seu labirinto. Inclusive todos me fornecem pistas para sair do labirinto, todos e tudo. Mas você é um dos que encontrei que mais tem consciência, contudo, de que tudo isso é um teatro labiríntico ou um labirinto teatral.
Quando a gente fica mais madura, fica um pouco horrorizada quando pensa como éramos inconseqüentes, como brincamos de equilibrista à beira do precipício. Olhando para trás, pensamos: somente nossa inocência pode ter nos salvado do desastre.
Como é uma vida nova, receio perdê-la. Receio assustar-me, preocupar-me, angustiar-me, cair em ansiedade—como se para salvar-me eu viesse a botar tudo a perder. Então quero proteger este meu reino interior recém alcançado. Quero protegê-lo e não quero fazer nada, com medo de precipitar-me. Só quero me guiar pelo amor, e dele não quero me afastar—mesmo que pareça que naufragarei contra os rochedos.
Não quero ser útil, não quero produzir, quero apenas ser e amar. Apenas amar.
A verdade é que sempre aspirei à derrota. Sempre busquei a derrota— flertei com o fracasso; o fracasso sempre me seduziu. O fracasso como método de ascese.
Peixe arredio, criatura das profundezas e das madrugadas,
Conformada com amores apenas prometidos,
países maravilhosos para não serem visitados,
vida apenas se for em versos:
Esta sou eu, por dentro e por fora. Meu querido,
Durante as noites tenho tido sonhos que revelam o mundo interior, que descolam a identidade do corpo, que me mergulham no que há aquém da linguagem.
A parte também é infinita, porque o todo é infinito.
(Ao invés de nada, tudo)
Tem muita visceralidade, uma visão do fenômeno poético vinculada à decomposição escatológica da linguagem.
Esse é o diário de um suicida.
Eu sou a cor dourada.
Invente um projeto doido para sua vida:
Gigantesco, Insensato.
É aqui onde eu queria chegar: quanto mais específico se torna o meu saber do mundo, mais levantam-se hipóteses de especificidades totalmente outras e mais aumenta minha convicção da miséria de tal especificidade observada.
O que me espanta é que a maioria acredita no jogo que está jogando, não percebe que se trata de um imenso teatro de um Deus ... nada maléfico, que apenas está nos dando pistas para sair de seu labirinto. Inclusive todos me fornecem pistas para sair do labirinto, todos e tudo. Mas você é um dos que encontrei que mais tem consciência, contudo, de que tudo isso é um teatro labiríntico ou um labirinto teatral.
Quando a gente fica mais madura, fica um pouco horrorizada quando pensa como éramos inconseqüentes, como brincamos de equilibrista à beira do precipício. Olhando para trás, pensamos: somente nossa inocência pode ter nos salvado do desastre.
Como é uma vida nova, receio perdê-la. Receio assustar-me, preocupar-me, angustiar-me, cair em ansiedade—como se para salvar-me eu viesse a botar tudo a perder. Então quero proteger este meu reino interior recém alcançado. Quero protegê-lo e não quero fazer nada, com medo de precipitar-me. Só quero me guiar pelo amor, e dele não quero me afastar—mesmo que pareça que naufragarei contra os rochedos.
Não quero ser útil, não quero produzir, quero apenas ser e amar. Apenas amar.
A verdade é que sempre aspirei à derrota. Sempre busquei a derrota— flertei com o fracasso; o fracasso sempre me seduziu. O fracasso como método de ascese.
Peixe arredio, criatura das profundezas e das madrugadas,
Conformada com amores apenas prometidos,
países maravilhosos para não serem visitados,
vida apenas se for em versos:
Esta sou eu, por dentro e por fora. Meu querido,
Durante as noites tenho tido sonhos que revelam o mundo interior, que descolam a identidade do corpo, que me mergulham no que há aquém da linguagem.
A parte também é infinita, porque o todo é infinito.
(Ao invés de nada, tudo)
Tem muita visceralidade, uma visão do fenômeno poético vinculada à decomposição escatológica da linguagem.
Esse é o diário de um suicida.
Eu sou a cor dourada.
Invente um projeto doido para sua vida:
Gigantesco, Insensato.
1 025
Samarone Lima de Oliveira
Um nome à minha sombra
Eu poderia jogar as mãos no mar
E endurecer porque há o infinito
E me completa.
E poderia recolher
O que disseram ser meu
E baixar os olhos em súplica
Como uma intenção desabitada.
Nada disso me levaria
A pontos extremos
(E sinto a respiração
Dos mesmos pássaros que sonhei).
Acedo. Aquieto.
A imensa ternura, engolfada pelas ondas
Murmura qualquer coisa indecifrável
Que julgava minha.
Elaboro a espera.
Mancho de branco o que restou
(As espumas diriam)
E sei que há um nome à minha sombra.
É quando o mar percebe a súplica.
E tudo devolve.
E endurecer porque há o infinito
E me completa.
E poderia recolher
O que disseram ser meu
E baixar os olhos em súplica
Como uma intenção desabitada.
Nada disso me levaria
A pontos extremos
(E sinto a respiração
Dos mesmos pássaros que sonhei).
Acedo. Aquieto.
A imensa ternura, engolfada pelas ondas
Murmura qualquer coisa indecifrável
Que julgava minha.
Elaboro a espera.
Mancho de branco o que restou
(As espumas diriam)
E sei que há um nome à minha sombra.
É quando o mar percebe a súplica.
E tudo devolve.
624
Samarone Lima de Oliveira
Resiliente
Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
636
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
653
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
653
Francesca Angiolillo
Uma carta não enviada de Teerã
Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
625
Francesca Angiolillo
Antropológica
cada mancha do
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
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