Poemas neste tema
Avós e Antepassados
Ricardo Aleixo
ÁLBUM DE FAMÍLIA
Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
756
Maria Lúcia Dal Farra
Herança
Para Zeba e Acê Dal Farra
Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.
Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.
Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.
Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.
Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.
Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.
Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
712
José Paulo Paes
A Casa
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
1 765
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 150
Charles Bukowski
Árvore Genealógica
nada de mais na minha árvore genealógica, bem, houve o meu tio
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.
meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.
bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.
meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.
bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
1 266
Charles Bukowski
Verrugas
eu me lembro melhor da minha vó
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
1 217
Charles Bukowski
Um Relógio de Bolso Dourado
meu avô era um alemão alto
com um cheiro estranho no hálito.
ele permanecia muito ereto
em frente à sua casinha
e sua esposa o odiava
e seus filhos o achavam estranho.
eu tinha seis anos a primeira vez que nos vimos
e ele me deu todas as suas medalhas de guerra.
na segunda vez que nos vimos
ele me deu seu relógio de bolso dourado.
era muito pesado e eu o levei para casa
e dei corda bem forte
e ele parou de funcionar
o que me fez sentir mal.
nunca mais voltei a vê-lo
e meus parentes nunca falavam dele
nem mesmo minha avó
que muito tempo atrás
deixou de viver em sua companhia.
uma vez perguntei por ele
e me disseram
que bebia demais
mas na melhor imagem que guardo dele
ele está muito ereto
em frente a sua casa
e dizendo, “olá, Henry, você
e eu, nós nos
conhecemos”.
com um cheiro estranho no hálito.
ele permanecia muito ereto
em frente à sua casinha
e sua esposa o odiava
e seus filhos o achavam estranho.
eu tinha seis anos a primeira vez que nos vimos
e ele me deu todas as suas medalhas de guerra.
na segunda vez que nos vimos
ele me deu seu relógio de bolso dourado.
era muito pesado e eu o levei para casa
e dei corda bem forte
e ele parou de funcionar
o que me fez sentir mal.
nunca mais voltei a vê-lo
e meus parentes nunca falavam dele
nem mesmo minha avó
que muito tempo atrás
deixou de viver em sua companhia.
uma vez perguntei por ele
e me disseram
que bebia demais
mas na melhor imagem que guardo dele
ele está muito ereto
em frente a sua casa
e dizendo, “olá, Henry, você
e eu, nós nos
conhecemos”.
1 043
Manuel Bandeira
Portugal, Meu Avozinho
Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
1 951
Manuel Bandeira
Miguelzinho e Isabel
I
— Que menino inteligente
Minha gente!
— Saiba você que é o menino
Bisneto de Zeferino.
— Que menina! Que feitiço
Tem no olhar!
— Pudera! O avô é Ademar...
O pai, Miguel... — É por isso!
II
— Quem é a mãe de Miguelzinho?
— De Miguelzinho? Gisah.
— Ah!
Por isso é tão bonitinho.
— As avós desta menina
Quem são?
— Dona Isa, Dona Edina.
— Tem a quem sair então!
III
Miguelito
Pequetito
De olhozito
Redondito
Gaiatito;
Miguelito
Todo em ito:
Cabelito
Narizito;
Miguelito
Queridito,
Miguelito
Tão bonito.
IV
Isabel
Anjozinho aloof
De boca de mel,
De olhar triste e fundo,
Mandado a este mundo
De tristezas, uf!
Para ser mulher:
Enquanto és criança
Conta o que ainda resta,
Em tua lembrança
Da pátria perdida.
E eu possa, ouvindo esta
História, esquecer
A madrasta vida.
— Que menino inteligente
Minha gente!
— Saiba você que é o menino
Bisneto de Zeferino.
— Que menina! Que feitiço
Tem no olhar!
— Pudera! O avô é Ademar...
O pai, Miguel... — É por isso!
II
— Quem é a mãe de Miguelzinho?
— De Miguelzinho? Gisah.
— Ah!
Por isso é tão bonitinho.
— As avós desta menina
Quem são?
— Dona Isa, Dona Edina.
— Tem a quem sair então!
III
Miguelito
Pequetito
De olhozito
Redondito
Gaiatito;
Miguelito
Todo em ito:
Cabelito
Narizito;
Miguelito
Queridito,
Miguelito
Tão bonito.
IV
Isabel
Anjozinho aloof
De boca de mel,
De olhar triste e fundo,
Mandado a este mundo
De tristezas, uf!
Para ser mulher:
Enquanto és criança
Conta o que ainda resta,
Em tua lembrança
Da pátria perdida.
E eu possa, ouvindo esta
História, esquecer
A madrasta vida.
713
Manuel Bandeira
Tomy
Este menino, que só
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
1 148
Manuel Bandeira
Mônica Maria
Seu avô me disse:
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
1 082
Manuel Bandeira
Álvaro Augusto
Hoje, afilhado, és pirralho.
Mas a infância terá fim
E a herança ilustre comanda:
Álvaro, olha que és Carvalho!
Olha que és Cesário Alvim!
Olha que és Buarque de Holanda!
Mas a infância terá fim
E a herança ilustre comanda:
Álvaro, olha que és Carvalho!
Olha que és Cesário Alvim!
Olha que és Buarque de Holanda!
1 183
Manuel Bandeira
Omoussi
Omoussi, quero ver neste
Teu neto o divino intento
De te dar complemento
Num filho que não tiveste.
Teu neto o divino intento
De te dar complemento
Num filho que não tiveste.
1 127
Manuel Bandeira
Carlos Chagas Filho
Não degenera quem sai
Aos seus — é a lição da História.
Este, que com grande brilho
Já foi Carlos Chagas Filho,
Junta à do pai nova glória,
E hoje é Carlos Chagas pai.
Aos seus — é a lição da História.
Este, que com grande brilho
Já foi Carlos Chagas Filho,
Junta à do pai nova glória,
E hoje é Carlos Chagas pai.
1 035
Manuel Bandeira
Maria Helena
Sou a única bisneta
De meu bisavô Bandeira,
Que era pessoa discreta,
Mansa, desinteresseira,
— Que era, em pessoa, a bondade:
Que responsabilidade!
De meu bisavô Bandeira,
Que era pessoa discreta,
Mansa, desinteresseira,
— Que era, em pessoa, a bondade:
Que responsabilidade!
1 007
Manuel Bandeira
Prudente de Morais Neto
O autêntico poeta, dileto
Meu crítico e companheirão,
Deu-me a maior prova de afeto
De que eu podia ser objeto:
Fez-me tio por adoção.
Prudente! Prudente e discreto
Como o avô, o Santo Varão.
Bem grande avô! Bem grande neto,
O autêntico!
Tomo aqui o tom mais circunspeto
E dou a bênção — ou benção,
Como seria mais correto —
Ao sobrinho do coração,
A Prudente de Morais Neto,
O autêntico.
Meu crítico e companheirão,
Deu-me a maior prova de afeto
De que eu podia ser objeto:
Fez-me tio por adoção.
Prudente! Prudente e discreto
Como o avô, o Santo Varão.
Bem grande avô! Bem grande neto,
O autêntico!
Tomo aqui o tom mais circunspeto
E dou a bênção — ou benção,
Como seria mais correto —
Ao sobrinho do coração,
A Prudente de Morais Neto,
O autêntico.
1 104
Manuel Bandeira
Infância
Corrida de ciclistas.
Só me recordo de um bambual debruçado no rio.
Três anos?
Foi em Petrópolis.
Procuro mais longe em minhas reminiscências.
Quem me dera me lembrar da teta negra de minh'ama-de-leite...
... Meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.
Ainda em Petrópolis... um pátio de hotel... brinquedos pelo chão...
Depois a casa de São Paulo.
Miguel Guimarães, alegre, míope e mefistofélico,
Tirando reloginhos de plaquê da concha de minha orelha.
O urubu pousado no muro do quintal.
Fabrico uma trombeta de papel.
Comando...
O urubu obedece.
Fujo, aterrado do meu primeiro gesto de magia.
Depois... a praia de Santos...
Corridas em círculos riscados na areia...
Outra vez Miguel Guimarães, juiz de chegada, com os seus presentinhos.
A ratazana enorme apanhada na ratoeira.
Outro bambual...
O que inspirou a meu irmão o seu único poema:
Eu ia por um caminho,
Encontrei um maracatu.
O qual vinha direitinho
Pelas flechas de um bambu.
As marés de equinócio,
O jardim submerso...
Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado.
Poesia dos naufrágios!
Depois Petrópolis novamente.
Eu, junto do tanque, de linha amarrada no incisivo de leite, sem coragem de puxar.
Véspera de Natal... Os chinelinhos atrás da porta...
E a manhã seguinte, na cama, deslumbrado com os brinquedos trazidos pela fada.
E a chácara da Gávea?
E a casa da Rua Don'Ana?
Boy, o primeiro cachorro.
Não haveria outro nome depois
(Em casa até as cadelas se chamavam Boy).
Medo de gatunos...
Para mim eram homens com cara de pau.
A volta a Pernambuco!
Descoberta dos casarões de telha-va.
Meu avô materno — um santo...
Minha avó batalhadora.
A casa da Rua da União.
O pátio — núcleo de poesia.
O banheiro — núcleo de poesia.
O cambrone — núcleo de poesia (la fraicheur des latrines!).
A alcova de música — núcleo de mistério.
Tapetinhos de peles de animais.
Ninguém nunca ia lá... Silêncio... Obscuridade...
O piano de armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas.
Descoberta da rua!
Os vendedores a domicílio.
Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha!
Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de Dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.
Depois meu avô... Descoberta da morte!
Com dez anos vim para o Rio.
Conhecia a vida em suas verdades essenciais.
Estava maduro para o sofrimento
E para a poesia!
Só me recordo de um bambual debruçado no rio.
Três anos?
Foi em Petrópolis.
Procuro mais longe em minhas reminiscências.
Quem me dera me lembrar da teta negra de minh'ama-de-leite...
... Meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.
Ainda em Petrópolis... um pátio de hotel... brinquedos pelo chão...
Depois a casa de São Paulo.
Miguel Guimarães, alegre, míope e mefistofélico,
Tirando reloginhos de plaquê da concha de minha orelha.
O urubu pousado no muro do quintal.
Fabrico uma trombeta de papel.
Comando...
O urubu obedece.
Fujo, aterrado do meu primeiro gesto de magia.
Depois... a praia de Santos...
Corridas em círculos riscados na areia...
Outra vez Miguel Guimarães, juiz de chegada, com os seus presentinhos.
A ratazana enorme apanhada na ratoeira.
Outro bambual...
O que inspirou a meu irmão o seu único poema:
Eu ia por um caminho,
Encontrei um maracatu.
O qual vinha direitinho
Pelas flechas de um bambu.
As marés de equinócio,
O jardim submerso...
Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado.
Poesia dos naufrágios!
Depois Petrópolis novamente.
Eu, junto do tanque, de linha amarrada no incisivo de leite, sem coragem de puxar.
Véspera de Natal... Os chinelinhos atrás da porta...
E a manhã seguinte, na cama, deslumbrado com os brinquedos trazidos pela fada.
E a chácara da Gávea?
E a casa da Rua Don'Ana?
Boy, o primeiro cachorro.
Não haveria outro nome depois
(Em casa até as cadelas se chamavam Boy).
Medo de gatunos...
Para mim eram homens com cara de pau.
A volta a Pernambuco!
Descoberta dos casarões de telha-va.
Meu avô materno — um santo...
Minha avó batalhadora.
A casa da Rua da União.
O pátio — núcleo de poesia.
O banheiro — núcleo de poesia.
O cambrone — núcleo de poesia (la fraicheur des latrines!).
A alcova de música — núcleo de mistério.
Tapetinhos de peles de animais.
Ninguém nunca ia lá... Silêncio... Obscuridade...
O piano de armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas.
Descoberta da rua!
Os vendedores a domicílio.
Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha!
Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de Dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.
Depois meu avô... Descoberta da morte!
Com dez anos vim para o Rio.
Conhecia a vida em suas verdades essenciais.
Estava maduro para o sofrimento
E para a poesia!
2 381
Manuel Bandeira
José Cláudio
Da outra vida,
Moreno,
Olha-me de face,
Com o bonito sorriso Pontual
Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.
Olha-me de face,
Bem de face,
Com os olhos leais,
Moreno.
Conta-me o que tens visto,
Que músicas ouves agora.
Lembras-te ainda do cheiro dos bangiês de Pernambuco?
Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?
Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?
Do pastoril de Cícero?
Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?
(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,
Moreno.)
O espanto que nos deixaste!
Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!
Todavia,
Não te lamento não:
A vida,
Esta vida,
Carlos já disse,
Não presta.
Mas o vazio de quem
Eras marido e filho?
— Filho único, Moreno.
Moreno,
Olha-me de face,
Com o bonito sorriso Pontual
Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.
Olha-me de face,
Bem de face,
Com os olhos leais,
Moreno.
Conta-me o que tens visto,
Que músicas ouves agora.
Lembras-te ainda do cheiro dos bangiês de Pernambuco?
Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?
Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?
Do pastoril de Cícero?
Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?
(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,
Moreno.)
O espanto que nos deixaste!
Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!
Todavia,
Não te lamento não:
A vida,
Esta vida,
Carlos já disse,
Não presta.
Mas o vazio de quem
Eras marido e filho?
— Filho único, Moreno.
939
Marina Colasanti
Migração
Crescem
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
1 216
Marina Colasanti
Da Passeggiata Archeologica, em Roma
A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
1 004
Marina Colasanti
VERÃO DE CHUVA EM SAITAMA
Grand-mother me chamou
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram por mim
saias em festa
íamos todos na mesma direção.
Chovia sobre o desfile
as sandálias de palha
se empapavam na lama
o andor
ou como là se chame em japonês
pesava sobre os ombros
dos homens encharcados de sakê
mas o tambor batia no mesmo ritmo
e além das cordas
as crianças olhavam submersas
na longa ondulação dos guarda-chuvas.
A avó veio por fim.
Presas as longas mangas do quimono
- não fosse a foice decepar a seda -
ceifou com graça as hastes invisíveis
fez tombar as espigas
atou os feixes
celebrando a abundância
sobre o asfalto.
E o sol
abriu-se inteiro
no seu leque.
Satums 2988
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram por mim
saias em festa
íamos todos na mesma direção.
Chovia sobre o desfile
as sandálias de palha
se empapavam na lama
o andor
ou como là se chame em japonês
pesava sobre os ombros
dos homens encharcados de sakê
mas o tambor batia no mesmo ritmo
e além das cordas
as crianças olhavam submersas
na longa ondulação dos guarda-chuvas.
A avó veio por fim.
Presas as longas mangas do quimono
- não fosse a foice decepar a seda -
ceifou com graça as hastes invisíveis
fez tombar as espigas
atou os feixes
celebrando a abundância
sobre o asfalto.
E o sol
abriu-se inteiro
no seu leque.
Satums 2988
533
Murillo Mendes
Panfletos
Eu recebi o mal e a miséria
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
558
Adélia Prado
Expiatório
Meus ancestrais levantam-se das tumbas,
tiram o dia pra me flagelar.
O que tinha apego a moedas,
a que morreu num parto de trigêmeos,
tão pobre,
mal coube no casebre seu caixão.
Minha mãe a minutos da morte me ordenou profética:
‘Vai calçar um trem,
agora mesmo a casa enche de gente.’
Urge consolar os mortos,
fazer por eles a oferenda da tarde
para que voltem, espectros, às suas tumbas
e chegando a noite
me permitam dormir.
tiram o dia pra me flagelar.
O que tinha apego a moedas,
a que morreu num parto de trigêmeos,
tão pobre,
mal coube no casebre seu caixão.
Minha mãe a minutos da morte me ordenou profética:
‘Vai calçar um trem,
agora mesmo a casa enche de gente.’
Urge consolar os mortos,
fazer por eles a oferenda da tarde
para que voltem, espectros, às suas tumbas
e chegando a noite
me permitam dormir.
734
Adélia Prado
História de Jó
Porque fazes
e calcas aos pés tua pobre criatura,
teu sofrimento é enorme, deus,
a dor de tua consciência ingovernada.
Difícil me acreditares,
pois tenho um céu na boca.
Tem piedade de nós,
dá um sinal de que não foi um erro,
ilusão de medrosos,
fantasia gerada na penúria,
a crença de que és bom.
O medo regride à sua estação primeva,
à sua luz branca.
E quero a vida nos álbuns:
assim eram as avós e suas criadas negras.
Não posso ir aos teatros,
convocada que sou pra esta vigília
de segurar teu braço pusilânime,
eu criatura digo-Te, coragem.
Perdoa-me, contudo, perdoa-me.
e calcas aos pés tua pobre criatura,
teu sofrimento é enorme, deus,
a dor de tua consciência ingovernada.
Difícil me acreditares,
pois tenho um céu na boca.
Tem piedade de nós,
dá um sinal de que não foi um erro,
ilusão de medrosos,
fantasia gerada na penúria,
a crença de que és bom.
O medo regride à sua estação primeva,
à sua luz branca.
E quero a vida nos álbuns:
assim eram as avós e suas criadas negras.
Não posso ir aos teatros,
convocada que sou pra esta vigília
de segurar teu braço pusilânime,
eu criatura digo-Te, coragem.
Perdoa-me, contudo, perdoa-me.
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