Poemas neste tema
Avós e Antepassados
Martha Medeiros
minha bisavó reclamava que minha avó
minha bisavó reclamava que minha avó
era muito tímida
minha avó pressionou minha mãe a ser
menos cética
minha mãe me educou para ser bem lúcida
e eu espero que minhas filhas fujam desse
cárcere
que é passar a vida transferindo dívidas
era muito tímida
minha avó pressionou minha mãe a ser
menos cética
minha mãe me educou para ser bem lúcida
e eu espero que minhas filhas fujam desse
cárcere
que é passar a vida transferindo dívidas
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1
Adélia Prado
O Que Pode Ser Dito
Quase indizível o experimento histórico,
porque o mês é setembro,
o ano, o de 2011
e às três da manhã me percebo acordada
me equilibrando à beira de um buraco
de que só agora meço o fundo e escuto
a radiação contínua de uma dor
por anos de distração ignorada.
Quem pode me consolar
a não ser Vós, face desfigurada de solidão e tormento?
Que fiz eu, desatenta a vida inteira?
Com que ocupava as horas
quando, à minha frente, muda
levantáveis os olhos para mim
esperando mais que migalhas?
Chorem comigo, céus,
para que o desvão transborde.
Me socorre, pai, mãe, me socorre,
irmãos meus, ancestrais, pecadores todos.
Quem viu o que vejo
venha me socorrer.
Sempre quis ver Jesus
e Ele esteve comigo o tempo todo.
Só era preciso um olhar,
um olhar atento meu.
Era só ficar junto e de modo perfeito
tudo estaria bem, de modo miraculoso.
Ó Vós que me fizestes,
bendigo-Vos pela cruz
da qual ainda viva me desprendes.
Eu não preciso mais acreditar.
Na minha carne eu sei que sois o amor
e é dele que renasço
e posso voltar a dormir.
porque o mês é setembro,
o ano, o de 2011
e às três da manhã me percebo acordada
me equilibrando à beira de um buraco
de que só agora meço o fundo e escuto
a radiação contínua de uma dor
por anos de distração ignorada.
Quem pode me consolar
a não ser Vós, face desfigurada de solidão e tormento?
Que fiz eu, desatenta a vida inteira?
Com que ocupava as horas
quando, à minha frente, muda
levantáveis os olhos para mim
esperando mais que migalhas?
Chorem comigo, céus,
para que o desvão transborde.
Me socorre, pai, mãe, me socorre,
irmãos meus, ancestrais, pecadores todos.
Quem viu o que vejo
venha me socorrer.
Sempre quis ver Jesus
e Ele esteve comigo o tempo todo.
Só era preciso um olhar,
um olhar atento meu.
Era só ficar junto e de modo perfeito
tudo estaria bem, de modo miraculoso.
Ó Vós que me fizestes,
bendigo-Vos pela cruz
da qual ainda viva me desprendes.
Eu não preciso mais acreditar.
Na minha carne eu sei que sois o amor
e é dele que renasço
e posso voltar a dormir.
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1
Adélia Prado
Exercício Espiritual
Maria,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Imagens sobrevêm:
homem, vinheta, instrumento,
o que ameaça ser um leque de penas
e é uma cabeça de naja,
a perigosa serpente.
Quero ver o Pai, insisto,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Um dente, uma vulva,
um molho de nabos comparecem,
gerados, como eu, do nada.
De onde vêm os nabos, Maria?
Onde está o Pai?
De onde vim?
Move-se na parede um cavalo de sol.
É o Pai?
Não,
é só uma sombra e já se desfaz.
O Pai, então, é uma usina?
Meu pai dizia: ó Pai!
E levantava os braços respeitoso.
Também meu avô: Deus é Pai!
E tirava o chapéu.
Assim, um pai remetendo a outro
e mais outro e outro mais,
enfim, a milhões de pais até Adão,
que sou eu acordando de um sonho,
apenas “raia sanguínea e fresca
a madrugada”, filha de parnasiano,
que me encantava quando eu era mocinha,
filha de ferroviário,
cansada agora
como feirante ao meio-dia:
ai, meu pai,
me ajuda a torrar o resto
deste lote de abóboras,
me tira da cabeça
a ideia de ver Deus-Pai,
me dá um pito e um café.
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Imagens sobrevêm:
homem, vinheta, instrumento,
o que ameaça ser um leque de penas
e é uma cabeça de naja,
a perigosa serpente.
Quero ver o Pai, insisto,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Um dente, uma vulva,
um molho de nabos comparecem,
gerados, como eu, do nada.
De onde vêm os nabos, Maria?
Onde está o Pai?
De onde vim?
Move-se na parede um cavalo de sol.
É o Pai?
Não,
é só uma sombra e já se desfaz.
O Pai, então, é uma usina?
Meu pai dizia: ó Pai!
E levantava os braços respeitoso.
Também meu avô: Deus é Pai!
E tirava o chapéu.
Assim, um pai remetendo a outro
e mais outro e outro mais,
enfim, a milhões de pais até Adão,
que sou eu acordando de um sonho,
apenas “raia sanguínea e fresca
a madrugada”, filha de parnasiano,
que me encantava quando eu era mocinha,
filha de ferroviário,
cansada agora
como feirante ao meio-dia:
ai, meu pai,
me ajuda a torrar o resto
deste lote de abóboras,
me tira da cabeça
a ideia de ver Deus-Pai,
me dá um pito e um café.
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1
Carlos Drummond de Andrade
Os Bens E o Sangue
I
Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847
nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanesia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais fino,
nossas lavras mto nossas por herança de nossos pais e sogros bem amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.
Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor letra
estes nomes c] em qualquer tempo desafiarão tramóia trapaça e treta:
ESMERIL PISSARRÃO
CANDONGA CONCEIÇÃO
E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo
[o snr Raimundo Procópio
e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não fôr vendido, por alborque
de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas,
que trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e
[rutilantes portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.
LAVRA DA PACIÊNCIA
LAVRINHA DE CUBAS
ITABIRUÇU
II
Mais que todos deserdamos
deste nosso oblíquo modo
um menino inda não nado
(e melhor não fora nado)
que de nada lhe daremos
sua parte de nonada
e que nada, porém nada
o há de ter desenganado.
E nossa rica fazenda
já presto se desfazendo
vai-se em sal cristalizando
na porta de sua casa
ou até na ponta da asa
de seu nariz fino e frágil,
de sua alma fina e frágil,
de sua certeza frágil
frágil frágil frágil frágil
mas que por frágil é ágil,
e na sua mala-sorte
se rirá êle da morte.
III
Este figura em nosso
pensamento secreto.
Num magoado alvoroço
o queremos marcado
a nos negar; depois
de sua negação
nos buscará. Em tudo
será pelo contrário
seu fado extra-ordinário.
Vergonha da família
que de nobre se humilha
na sua malincônica
tristura meio cômica,
dulciamara nux-vomica.
IV
Este hemos por bem
reduzir à simples
condição ninguém.
Não lavrará campo.
Tirará sustento
de algum mel nojento.
Há de ser violento
sem ter movimento.
Sofrerá tormenta
no melhor momento.
Não se sujeitando
a um poder celeste
ei-lo senão quando
de nudez se veste,
roga à escuridão
abrir-se em clarão.
Este será tonto
e amará no vinho
um novo equilíbrio
e seu passo tíbio
sairá na cola
de nenhum caminho.
V
— Não judie com o menino
compadre.
Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847
nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanesia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais fino,
nossas lavras mto nossas por herança de nossos pais e sogros bem amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.
Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor letra
estes nomes c] em qualquer tempo desafiarão tramóia trapaça e treta:
ESMERIL PISSARRÃO
CANDONGA CONCEIÇÃO
E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo
[o snr Raimundo Procópio
e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não fôr vendido, por alborque
de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas,
que trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e
[rutilantes portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.
LAVRA DA PACIÊNCIA
LAVRINHA DE CUBAS
ITABIRUÇU
II
Mais que todos deserdamos
deste nosso oblíquo modo
um menino inda não nado
(e melhor não fora nado)
que de nada lhe daremos
sua parte de nonada
e que nada, porém nada
o há de ter desenganado.
E nossa rica fazenda
já presto se desfazendo
vai-se em sal cristalizando
na porta de sua casa
ou até na ponta da asa
de seu nariz fino e frágil,
de sua alma fina e frágil,
de sua certeza frágil
frágil frágil frágil frágil
mas que por frágil é ágil,
e na sua mala-sorte
se rirá êle da morte.
III
Este figura em nosso
pensamento secreto.
Num magoado alvoroço
o queremos marcado
a nos negar; depois
de sua negação
nos buscará. Em tudo
será pelo contrário
seu fado extra-ordinário.
Vergonha da família
que de nobre se humilha
na sua malincônica
tristura meio cômica,
dulciamara nux-vomica.
IV
Este hemos por bem
reduzir à simples
condição ninguém.
Não lavrará campo.
Tirará sustento
de algum mel nojento.
Há de ser violento
sem ter movimento.
Sofrerá tormenta
no melhor momento.
Não se sujeitando
a um poder celeste
ei-lo senão quando
de nudez se veste,
roga à escuridão
abrir-se em clarão.
Este será tonto
e amará no vinho
um novo equilíbrio
e seu passo tíbio
sairá na cola
de nenhum caminho.
V
— Não judie com o menino
compadre.
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1
Adélia Prado
Páscoa
Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui loura e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
‘põe o agasalho’
‘tens coragem?’
‘por que não vais de óculos?’
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui loura e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
‘põe o agasalho’
‘tens coragem?’
‘por que não vais de óculos?’
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.
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1
Carlos Drummond de Andrade
Onde Há Pouco Falávamos
É um antigo
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.
E êle toca e êle chora e êle canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.
Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
Êle estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidencia.
É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.
Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o linho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?
Está no fundo
da casa, por baixo
da zona sensível, muito
por baixo do sangue.
Está por cima do teto, mais alto
que a palmeira, mais alto
que o terraço, mais alto
que a cólera, a astúcia, o alarme.
Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?
Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.
Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem notícia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?
(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.
E êle toca e êle chora e êle canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.
Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
Êle estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidencia.
É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.
Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o linho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?
Está no fundo
da casa, por baixo
da zona sensível, muito
por baixo do sangue.
Está por cima do teto, mais alto
que a palmeira, mais alto
que o terraço, mais alto
que a cólera, a astúcia, o alarme.
Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?
Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.
Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem notícia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?
(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)
1 369
1
Carlos Drummond de Andrade
A Montanha Pulverizada
Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.
Era coisa dos índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é sua vista e contemplá-la.
De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.
Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões
no trem-monstro de 5 locomotivas
— o trem maior do mundo, tomem nota —
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo e na paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.
Era coisa dos índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é sua vista e contemplá-la.
De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.
Esta manhã acordo e
não a encontro.
Britada em bilhões de lascas
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões
no trem-monstro de 5 locomotivas
— o trem maior do mundo, tomem nota —
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo e na paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.
6 140
1
Al Berto
Incêndio
se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
continua e miudinha - não te assustes
são os teu antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
continua e miudinha - não te assustes
são os teu antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão
2 883
1
Mário António
Uma negra convertida
Minha avó negra, de panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...
Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...
Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...
Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...
Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
1 294
1
Tomaz Vieira da Cruz
N'gola - Flor de Bronze
Filha de branco que morreu na guerra
e de uma preta linda do Libolo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas do Catolo!
Ó flor estranha! já não tem consolo
a tua magoa, a tua dor na terra!
Ó flor estranha do febril Capolo
neta dum soba que perdeu a guerra!
Estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!
Neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!
e de uma preta linda do Libolo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas do Catolo!
Ó flor estranha! já não tem consolo
a tua magoa, a tua dor na terra!
Ó flor estranha do febril Capolo
neta dum soba que perdeu a guerra!
Estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!
Neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!
2 232
1
José Luandino Vieira
Sons
A guitarra
é som antepassado.
Partiram-se as cordas
esticadas pela vida.
Chorei fado.
Que importa hoje
se o recuso:
o ngoma é o som adivinhado!
é som antepassado.
Partiram-se as cordas
esticadas pela vida.
Chorei fado.
Que importa hoje
se o recuso:
o ngoma é o som adivinhado!
2 698
1
Bernardo Guimarães
Gentil Sofia
BALADA
"Fia já minha Sofia,
Fia
"Enquanto eu faço esta ceia,
Eia!
"Estás hoje com tamanha
Manha,
"Que não sais dessa janela;
Nela
"Queres ver os estudantes
Antes
"Do que acabar depressa
Essa
"Tarefa, que aí fica à banda,
Anda!...
"Pega já no teu serviço;
Isso!...
"Antes que as ventas te esbarre!
Arre!..."
(...)
"Minha avó, não vos zangueis:
Eis,
"Como o caso sucedeu:
Eu
"Já casei com esse inocente
Ente
"A quem votais tão seródio
Ódio,
"A ele, a quem agradei,
Dei
"O que mais uma donzela
Zela,
"Seu amor, sua fé constante
Ante
"Vosso vizinho compadre
Padre;
"Ele possui de antemão
Mão
"Que há muito tua netinha
Tinha
"Ao esposo bem-fadado
Dado."
(...)
Do padre a fala singela
Gela
As fúrias da muxibenta
Benta,
E a ferrenha catadura
Dura
Em um instante quedou-se
Doce,
E todo aquele seródio
Ódio,
Qual palha aos golpes da foice,
Foi-se
Enquanto a pobre netinha
Tinha
Nos olhos cheios de mágoa
Água,
Lhe diz a vovó materna
Terna:
"Já que, como tu pudeste,
Deste
"Tua mão a esse inocente
Ente,
"Também dentro desta casa
Casa,
"Que eu darei a teu esposo
Pouso."
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
"Fia já minha Sofia,
Fia
"Enquanto eu faço esta ceia,
Eia!
"Estás hoje com tamanha
Manha,
"Que não sais dessa janela;
Nela
"Queres ver os estudantes
Antes
"Do que acabar depressa
Essa
"Tarefa, que aí fica à banda,
Anda!...
"Pega já no teu serviço;
Isso!...
"Antes que as ventas te esbarre!
Arre!..."
(...)
"Minha avó, não vos zangueis:
Eis,
"Como o caso sucedeu:
Eu
"Já casei com esse inocente
Ente
"A quem votais tão seródio
Ódio,
"A ele, a quem agradei,
Dei
"O que mais uma donzela
Zela,
"Seu amor, sua fé constante
Ante
"Vosso vizinho compadre
Padre;
"Ele possui de antemão
Mão
"Que há muito tua netinha
Tinha
"Ao esposo bem-fadado
Dado."
(...)
Do padre a fala singela
Gela
As fúrias da muxibenta
Benta,
E a ferrenha catadura
Dura
Em um instante quedou-se
Doce,
E todo aquele seródio
Ódio,
Qual palha aos golpes da foice,
Foi-se
Enquanto a pobre netinha
Tinha
Nos olhos cheios de mágoa
Água,
Lhe diz a vovó materna
Terna:
"Já que, como tu pudeste,
Deste
"Tua mão a esse inocente
Ente,
"Também dentro desta casa
Casa,
"Que eu darei a teu esposo
Pouso."
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
3 248
1
Aureliano Lessa
A Tarde
II
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 591
1
Jorge de Lima
Cristo Redentor do Corcovado
O avô
de minha avó
Morreu também corcovado
Carregando um cristo de maçaranduba
Que protegia os passos vagarosos da família.
Arranjei velocidade.
Virei homem de cimento armado.
Adoro esse Cristo turista
De braços abertos
Que procura equilíbrio
Na montanha brasileira.
Os homens de fé têm esperança n Ele,
Porque Ele é ligeiro, porque Ele é ubíquo,
Porque Ele é imutável.
Ele acompanha o homem de cimento armado
Através de todas as substancias,
Através de todas as perspectivas,
Através de todas as distancias
de minha avó
Morreu também corcovado
Carregando um cristo de maçaranduba
Que protegia os passos vagarosos da família.
Arranjei velocidade.
Virei homem de cimento armado.
Adoro esse Cristo turista
De braços abertos
Que procura equilíbrio
Na montanha brasileira.
Os homens de fé têm esperança n Ele,
Porque Ele é ligeiro, porque Ele é ubíquo,
Porque Ele é imutável.
Ele acompanha o homem de cimento armado
Através de todas as substancias,
Através de todas as perspectivas,
Através de todas as distancias
5 260
1
Virgílio Maia
Fotos
Deste antigo retrato, com firmeza,
meu avô me interroga bem de perto,
com aquela usual branda aspereza
que, criança, me punha em desconcerto.
(Na lapela, uma flor, que ele por certo
deixou emurchecida sobre a mesa
e do alto colarinho o branco aperto
incomodava-o um pouco, com certeza).
Tendo ao lado meu pai, que é filho seu,
certamente renovam velhos planos
de terra e gado, açudes e destino.
No fervor de seus vinte e tantos anos,
miram-me assim, mais novos do que eu:
assim mesmo, para eles sou menino.
meu avô me interroga bem de perto,
com aquela usual branda aspereza
que, criança, me punha em desconcerto.
(Na lapela, uma flor, que ele por certo
deixou emurchecida sobre a mesa
e do alto colarinho o branco aperto
incomodava-o um pouco, com certeza).
Tendo ao lado meu pai, que é filho seu,
certamente renovam velhos planos
de terra e gado, açudes e destino.
No fervor de seus vinte e tantos anos,
miram-me assim, mais novos do que eu:
assim mesmo, para eles sou menino.
952
1
Cora Coralina
A gleba me transfigura
Sinto que sou abelha no seu artesanato.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(...)
Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.
Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.
pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que
vão pelas estradas.
Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
(...)
Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
(...)
Em mim a planta renasce e flosrece, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada
e fecundada no ventre escuro da terra.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(...)
Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.
Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.
pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que
vão pelas estradas.
Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
(...)
Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
(...)
Em mim a planta renasce e flosrece, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada
e fecundada no ventre escuro da terra.
4 657
1
José Honório
Meu caralho hoje namora dois pelancudos culhões
Glosa:
Perguntei a meu avô
que anda meio caduco
como estava seu trabuco
ele então me confessou:
- A mão do tempo roubou
prazeres e sensações
não tem mais aptidões
para foder como outrora
MEU CARALHO HOJE NAMORA
DOIS PELANCUDOS CULHÕES.
Perguntei a meu avô
que anda meio caduco
como estava seu trabuco
ele então me confessou:
- A mão do tempo roubou
prazeres e sensações
não tem mais aptidões
para foder como outrora
MEU CARALHO HOJE NAMORA
DOIS PELANCUDOS CULHÕES.
1 634
1
Fernando Pessoa
Quinto: D. AFONSO HENRIQUES
QUINTO
D. AFONSO HENRIQUES
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!
D. AFONSO HENRIQUES
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!
8 029
1
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 26
Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.
591
Herberto Helder
44
à memória de meu bisavô Francisco Ferreira,
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
613
Herberto Helder
Os Ritmos 5
Estou no fundo da casa, no abismo possível dos oito anos.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
1 078
Francesca Angiolillo
Etiópia, Etiópia
Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
729
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
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