Poemas neste tema
Alma
Barrie Phillip Nichol
Poema do segundo livro deThe Martyrology
santo do sem-nome
santo de ósculos
teus lábios estão sobre mim
dentágil& gargolhada
vozes terminais na sala-de-estar
enfermo de cama na tristeza
saí porta afora aquela última vez& disse
esvaí-me em sangue por palavras pela boca
adiante:
tenta escrever o poema em que respiro
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
saint of no-names
saint of kisses
your lips are on me
sharp-tooth & giggle-eye
final voices in the living room
sick in bed with grief
walked out the door that last time & told you
bled my mouth dry for words
later:
try to write the poem i breathe in
(from Martyrology 2)
440
Blanca Varela
Monsieur Monod não sabe cantar
meu querido
me lembro de ti como a melhor canção
essa apoteose de galos e estrelas que já não és
que já não sou que já não seremos
e contudo sabemos muito bem ambos
que falo pela boca pintada do silêncio
com agonia de mosca
no final do verão
e por todas as portas mal fechadas
conjurando ou chamando esse vento aleivoso da memória
esse disco arranhado antes de usar
tingido segundo o humor do tempo
e suas velhas doenças
ou de vermelho
ou de preto
como um rei em desgraça na frente do espelho
na véspera
e amanhã e depois de amanhã e sempre
noite que te precipitas
(assim deveria dizer a canção)
carregada de presságios
cadela insaciável (un peu fort)
mãe esplêndida (plus doux)
parideira e descalça sempre
para não ser escutada pelo néscio que em ti crê
para melhor esmagar o coração
do desvelado
que se atreve a ouvir o passo arrastado
da vida
da morte
uma casca de mosquito uma torrente de plumas
uma tempestade num copo de vinho
um tango
a ordem altera o produto
erro do maquinista
podre técnica continuar vivendo tua história
ao contrário como no cinema
um sonho grosso
e misterioso que se adelgaça
the end is the beginning
uma luzinha vacilante como a esperança
cor de clara de ovo
com cheiro de peixe e más intenções
obscura boca-de-lobo que te leva
de Cluny ao Parque Salazar
esteira rolante tão veloz e tão negra
que já não sabes
se és ou te fazes de vivo
ou de morto
e sim uma flor de ferro
como um último bocado torto e sujo e lento
para melhor devorar-te
meu querido
adoro tudo o que não é meu
tu por exemplo
com tua pele de asno sobre a alma
e essas asas de cera que te dei
e que jamais te atreveste a usar
não sabes como me arrependo de minhas virtudes
já não sei o que fazer com a minha coleção de chaves falsas
e mentiras
com minha indecência de menino que deve terminar este conto
agora já é tarde
porque a recordação como as canções
a pior a que quiseres a única
não resiste a outra página em branco
e não tem sentido que eu esteja aqui
destruindo
o que não existe
meu querido
apesar disso
tudo continua igual
o arrepio filosófico depois do chuveiro
o café frio o cigarro amargo O Lodo Verde
no Montecarlo
continua livre para todos os públicos a vida perdurável
intacta a estupidez das nuvens
intacta a obscenidade dos gerânios
intacta a vergonha do alho
os pardaizinhos cagando divinamente em pleno céu
de abril
Mandrake criando coelhos em algum círculo
do inferno
e sempre a patinha de caranguejo presa
na trapaça do ser
ou do não ser
ou de não quero isto mas aquilo
tu sabes
essas coisas que nos acontecem
e que devem ser esquecidas para que existam
por exemplo a mão com asas
e sem mão
a história do canguru - aquela da bolsa ou a vida -
ou a do capitão preso na garrafa
para sempre vazia
e o ventre vazio mas com asas
e sem ventre
tu sabes
a paixão a obsessão
a poesia a prosa
o sexo o êxito
ou vice-versa
o vazio congênito
o ovinho pintado
entre milhões e milhões de ovinhos pintados
tu e eu
you and me
toi and moi
tea for two na imensidão do silêncio
no mar intemporal
no horizonte da história
porque ácido ribonucleico somos
mas ácido ribonucleico apaixonado sempre
me lembro de ti como a melhor canção
essa apoteose de galos e estrelas que já não és
que já não sou que já não seremos
e contudo sabemos muito bem ambos
que falo pela boca pintada do silêncio
com agonia de mosca
no final do verão
e por todas as portas mal fechadas
conjurando ou chamando esse vento aleivoso da memória
esse disco arranhado antes de usar
tingido segundo o humor do tempo
e suas velhas doenças
ou de vermelho
ou de preto
como um rei em desgraça na frente do espelho
na véspera
e amanhã e depois de amanhã e sempre
noite que te precipitas
(assim deveria dizer a canção)
carregada de presságios
cadela insaciável (un peu fort)
mãe esplêndida (plus doux)
parideira e descalça sempre
para não ser escutada pelo néscio que em ti crê
para melhor esmagar o coração
do desvelado
que se atreve a ouvir o passo arrastado
da vida
da morte
uma casca de mosquito uma torrente de plumas
uma tempestade num copo de vinho
um tango
a ordem altera o produto
erro do maquinista
podre técnica continuar vivendo tua história
ao contrário como no cinema
um sonho grosso
e misterioso que se adelgaça
the end is the beginning
uma luzinha vacilante como a esperança
cor de clara de ovo
com cheiro de peixe e más intenções
obscura boca-de-lobo que te leva
de Cluny ao Parque Salazar
esteira rolante tão veloz e tão negra
que já não sabes
se és ou te fazes de vivo
ou de morto
e sim uma flor de ferro
como um último bocado torto e sujo e lento
para melhor devorar-te
meu querido
adoro tudo o que não é meu
tu por exemplo
com tua pele de asno sobre a alma
e essas asas de cera que te dei
e que jamais te atreveste a usar
não sabes como me arrependo de minhas virtudes
já não sei o que fazer com a minha coleção de chaves falsas
e mentiras
com minha indecência de menino que deve terminar este conto
agora já é tarde
porque a recordação como as canções
a pior a que quiseres a única
não resiste a outra página em branco
e não tem sentido que eu esteja aqui
destruindo
o que não existe
meu querido
apesar disso
tudo continua igual
o arrepio filosófico depois do chuveiro
o café frio o cigarro amargo O Lodo Verde
no Montecarlo
continua livre para todos os públicos a vida perdurável
intacta a estupidez das nuvens
intacta a obscenidade dos gerânios
intacta a vergonha do alho
os pardaizinhos cagando divinamente em pleno céu
de abril
Mandrake criando coelhos em algum círculo
do inferno
e sempre a patinha de caranguejo presa
na trapaça do ser
ou do não ser
ou de não quero isto mas aquilo
tu sabes
essas coisas que nos acontecem
e que devem ser esquecidas para que existam
por exemplo a mão com asas
e sem mão
a história do canguru - aquela da bolsa ou a vida -
ou a do capitão preso na garrafa
para sempre vazia
e o ventre vazio mas com asas
e sem ventre
tu sabes
a paixão a obsessão
a poesia a prosa
o sexo o êxito
ou vice-versa
o vazio congênito
o ovinho pintado
entre milhões e milhões de ovinhos pintados
tu e eu
you and me
toi and moi
tea for two na imensidão do silêncio
no mar intemporal
no horizonte da história
porque ácido ribonucleico somos
mas ácido ribonucleico apaixonado sempre
961
Tite de Lemos
Fiducai. Confissões
1.
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
806
Vasko Popa
- No começo
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
657
Nizâr Qabbânî
pensei ontem no meu amor por ti
pensei ontem no meu amor por ti
lembrei-me logo
das gotas de mel nos teus lábios
e então lambi o açúcar das paredes da minha memória
(tradução de André Simões)
718
João Apolinário
os infinitos íntimos
Não me cinjas
a voz
não me limites
não me queiras
assim
antecipado
Eu não existo
onde me pensas
Eu estou aqui
agora
é tudo
____
Esta causa
Que me retoma
Em cada dia
Age na esperança
Em que respira
Esta necessidade
De estar vivo
____
No círculo
em que se fecha
o que em mim
respira
há um suicídio
de memórias
que não cabem
no que em mim
existe
____
Já fui longe demais
matando-me nas pedras
que atiro contra mim
sentindo o que não sei
____
Há por aí alguém
que queira vir comigo
atrás do que seremos
quando tivermos sido?
____
O que resta de nós
Dorme a noite invisível
Que ainda nos sobra
____
O que me cansa
é o diabo da esperança
____
O que ficará de mim
nos restos digitais
do tempo
quando chegar
o fim
de que me ausento
a voz
não me limites
não me queiras
assim
antecipado
Eu não existo
onde me pensas
Eu estou aqui
agora
é tudo
____
Esta causa
Que me retoma
Em cada dia
Age na esperança
Em que respira
Esta necessidade
De estar vivo
____
No círculo
em que se fecha
o que em mim
respira
há um suicídio
de memórias
que não cabem
no que em mim
existe
____
Já fui longe demais
matando-me nas pedras
que atiro contra mim
sentindo o que não sei
____
Há por aí alguém
que queira vir comigo
atrás do que seremos
quando tivermos sido?
____
O que resta de nós
Dorme a noite invisível
Que ainda nos sobra
____
O que me cansa
é o diabo da esperança
____
O que ficará de mim
nos restos digitais
do tempo
quando chegar
o fim
de que me ausento
1 215
Irene Lisboa
Pequenos poemas mentais
Mental: nada, ou quase nada sentimental.
I
Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indômitos ódios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.
II
Como sempre, há-de-chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunirá, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
É provável, mas desconfiados e inválidos,
Rosnando estúpidos, com cães.
Ó inúteis, aquietai-vos!
Voltai como os cães das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.
III
Esse gesto...
Esse desânimo e essa vaidade...
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!
A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela, e curiosa!
E então assim acabrunhada...
Com franqueza, enternece-me.
Subtil
A minha mão que, julgo, ridicularizas,
de que desconheces a suavidade,
cerra-te pacificamente os olhos
e aquieta benignamente o ar.
Paira sobre a tua cabeça, móbil, branda,
na prática de um velho rito,
feminil, piedoso, desconhecido e inconfesso.
IV
Ó luxúria brutal, perversa e felina,
dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.
Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...
solidão, infinita solidão!
E neste movimento, neste balouço, adormeço,
Cá, lá... morte, vida... morte, vida...
Todas as ausências, todas as negações.
V
Os poetas cumprimentam-se, delicados.
Cada um como seu metro, o seu espírito, a sua forma;
as suas credenciais...
Mas são simpáticos os poetas!
Sensíveis, femininos, curiosos.
Envolve-os um mistério.
Não! Esta é a linguagem de toda gente: o mistério...
Que mistério?
Os poetas são apenas reservados, são apenas...
perturbados e capciosos.
VI
Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.
E as árvores soturnas não se mexem.
Estio!
Não se vêem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos,, estampadas...
Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem de manhã.
A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.
Aqui, uma janela discreta que se abre, preta, cega.
Ali outra fechada.
E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se...
E eu, ai eu! Prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!
I
Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indômitos ódios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.
II
Como sempre, há-de-chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunirá, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
É provável, mas desconfiados e inválidos,
Rosnando estúpidos, com cães.
Ó inúteis, aquietai-vos!
Voltai como os cães das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.
III
Esse gesto...
Esse desânimo e essa vaidade...
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!
A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela, e curiosa!
E então assim acabrunhada...
Com franqueza, enternece-me.
Subtil
A minha mão que, julgo, ridicularizas,
de que desconheces a suavidade,
cerra-te pacificamente os olhos
e aquieta benignamente o ar.
Paira sobre a tua cabeça, móbil, branda,
na prática de um velho rito,
feminil, piedoso, desconhecido e inconfesso.
IV
Ó luxúria brutal, perversa e felina,
dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.
Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...
solidão, infinita solidão!
E neste movimento, neste balouço, adormeço,
Cá, lá... morte, vida... morte, vida...
Todas as ausências, todas as negações.
V
Os poetas cumprimentam-se, delicados.
Cada um como seu metro, o seu espírito, a sua forma;
as suas credenciais...
Mas são simpáticos os poetas!
Sensíveis, femininos, curiosos.
Envolve-os um mistério.
Não! Esta é a linguagem de toda gente: o mistério...
Que mistério?
Os poetas são apenas reservados, são apenas...
perturbados e capciosos.
VI
Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.
E as árvores soturnas não se mexem.
Estio!
Não se vêem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos,, estampadas...
Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem de manhã.
A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.
Aqui, uma janela discreta que se abre, preta, cega.
Ali outra fechada.
E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se...
E eu, ai eu! Prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!
1 754
Irene Lisboa
Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno
[ luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada,
[ da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
998
Mario Wirz
Autorretrato
Dos muitos
que eu sou
desconheço
todos eles
só de boato
conheço eu
este aqui
aquele ali
de passagem
eu permaneço
por mim
na busca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Selbstbild
Von den vielen
die ich bin
sind alle
mir unbekannt
nur vom Hörensagen
kenne ich
den einen
die andere
flüchtig
bleibe ich
mir
auf der Spur
.
.
.
816
Tite de Lemos
Altamira's gift
Esboça um caçador a sua caça
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores
874
Tite de Lemos
God (short) story
Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
762
Jean-Joseph Rabearivelo
Ler
Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 280
Vasko Popa
- No Final
Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
662
Vasko Popa
- Debaixo da terra
Músculo da treva músculo da carne
Isso dá no mesmo
E o que faremos agora
Convocaremos os ossos de todos os tempos
Subiremos até o sol
E então o que faremos
Cresceremos então limpos
Continuaremos crescendo à vontade
E depois o que faremos
Nada um vagar de cá para lá
Seremos um eterno ser ósseo
Espera só o bocejo da terra
674
Vasko Popa
- Sob o sol
É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
745
Tite de Lemos
áspera Prisma lápice cria'anza
áspera Prisma lápice cria'anza
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap
? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar
os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo
nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas
: prisma. Ver
la flecsa sena pied ah! senz' aPap
a imagignota iu velo, cino, manza
lar a mañan lefeu los fus deh lap
? ah , ssim, Uz prism a sphera vossos olhos
des fhh' olhamsse çus brutos vanall'ar
y oyo loero siam lahor come si molhan
as cquerras infinitamente du vagar
os músculos extrêmeros a musa
quem trouxe o ver a nua nau a única
rainha do oceano acolhedor e fundo
nozes loslazos vozla te enlaçassem
eu sou teu caçador e eu sou a tua casa
e si un undécimo varvar das Portas
: prisma. Ver
824
Ai Qing
Mensagem do Sol
Janelas, abri-vos!
Portas, abri-vos!
Deixai-me entrar, deixai-me entrar,
Deixai-me pôr os pés na vossa casa humilde.
Entro com ramos de flores douradas,
Entro com a fragrância fresca da floresta,
Entro com a luz e o calor,
Entro com o corpo molhado de orvalho.
Levantai-vos, depressa!
Erguei as cabeças da almofada,
Abri os olhos estremunhados,
Para presenciar a minha chegada.
Abre-me os corações, casa humilde, construída de tábuas.
Abre-me as janelas de há muito fechadas,
Deixa-me encher os teus corações de flores, fragrância, luz,
[calor e orvalho.
14 de Junho de 1942
.
.
.
1 181
João Apolinário
ecologia lírica
A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
1 236
Vasko Popa
- Depois do começo
O que faremos agora
Realmente o que faremos
Agora jantaremos a medula
Comemos a medula no almoço
Agora o oco dói em mim
Pois toquemos música
Gostamos de música
O que faremos quando os cães vierem
Eles gostam de ossos
Entalaremos em suas gargantas
E gozaremos
590
Tite de Lemos
Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão
essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor
dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro
da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo
1 001
Sóror Maria do Céu
Cidra, ciúme
É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça a seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
1 195
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 198
Lucebert
eu desligo uma revolução
eu desligo uma revolução
eu desligo uma pequena revolução deleitável
eu não sou mais da terra
eu sou de novo da água
eu carrego capacetes espumantes na cabeça
eu carrego fantasmas fotógrafos na cabeça
em minhas costas descansa uma sereia
em minhas costas descansa o vento
o vento e a sereia cantarolam
os capacetes espumantes sussurram
os fantasmas fotógrafos despencam
eu desligo uma pequena deleitável revolução revoluteante
e despenco e sussuro e cantarolo
:
ik draai een kleine revolutie af
ik draai een kleine mooie revolutie af
ik ben niet langer van land
ik ben weer water
ik draag schuimende koppen op mijn hoofd
ik draag schietende schimmen in mijn hoofd
op mijn rug rust een zeemeermin
op mijn rug rust de wind
de wind en de zeemeermin zingen
de schuimende koppen ruisen
de schietende schimmen vallen
ik draai een kleine mooie ritselende revolutie af
en ik val en ik ruis en ik zing
Lucebert, "O domador de animais" (pintura a óleo, 1959).
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.
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657
Marina Tsvetaeva
Ensaio de ciúme
Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
.
.
.
Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
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Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
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Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
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