Poemas neste tema
Alma
Mário Faustino
A Reconstrução
(...)
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
2 537
Ribeiro Couto
Viola Caipira no Sítio Vista Alegre
A casa de palha
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
1 114
Maria Helena Nery Garcez
Quarteto
Camões, grande Camões, quão concertados
estamos,
no desconcerto da Babilônia em que vivemos!
(Sabei que segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento do universo!)
Jerusalém é cidade bem edificada,
porém Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
têm do confuso mundo o regimento.
Se é tudo quanto vejo um desconcerto,
se d'alma um grito me sai,
da vista um rio,
o melhor seria,
quando há bruma,
esperar por Dom Sebastião?
Quer ele venha ou não.
Camões, grande Camões, quão concordados
estamos,
em que o melhor é ter muito visto,
mas o melhor de tudo
é crer em Cristo!
(que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...)
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
estamos,
no desconcerto da Babilônia em que vivemos!
(Sabei que segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento do universo!)
Jerusalém é cidade bem edificada,
porém Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
têm do confuso mundo o regimento.
Se é tudo quanto vejo um desconcerto,
se d'alma um grito me sai,
da vista um rio,
o melhor seria,
quando há bruma,
esperar por Dom Sebastião?
Quer ele venha ou não.
Camões, grande Camões, quão concordados
estamos,
em que o melhor é ter muito visto,
mas o melhor de tudo
é crer em Cristo!
(que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...)
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
996
Glauco Mattoso
Cor Local, 1978
(trova semi(patri)ótica)
Minha terra tem mais terra
minha fome tem mais cores
minha cor que menos berra
é que sente minhas dores
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982.
NOTA: Citação do poema "Canto do Regresso à Pátria", do livro PAU-BRASIL (1925), de Oswald de Andrade. Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
Minha terra tem mais terra
minha fome tem mais cores
minha cor que menos berra
é que sente minhas dores
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982.
NOTA: Citação do poema "Canto do Regresso à Pátria", do livro PAU-BRASIL (1925), de Oswald de Andrade. Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
1 587
Armando Freitas Filho
Na Mesa Morta
Da idade mídia de todos os meios
espremo o que escrevo
e o que sobra, só
é o nu sem nuvens
tão no extremo terrível do trampolim
que é expresso somente por si:
o mínimo múltiplo comum
sol, sinal, soul
eu, íntimo
exprimo o que escravo
ficou no fim, e não foi ao ar.
In: FREITAS FILHO, Armando. De cor, 1983/1987. Pref. José Miguel Wisnik. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. (Poesia brasileira)
espremo o que escrevo
e o que sobra, só
é o nu sem nuvens
tão no extremo terrível do trampolim
que é expresso somente por si:
o mínimo múltiplo comum
sol, sinal, soul
eu, íntimo
exprimo o que escravo
ficou no fim, e não foi ao ar.
In: FREITAS FILHO, Armando. De cor, 1983/1987. Pref. José Miguel Wisnik. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. (Poesia brasileira)
1 320
Ribeiro Couto
Fado de Maria Serrana
Se a memória não me engana,
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?
Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.
Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.
Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.
Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.
Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?
Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.
Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.
Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.
Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.
Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
1 136
Ricardo Gonçalves
Serão
Noite; silêncio lúgubre e completo.
No rancho de paredes barreadas,
Uma velha caipira conta ao neto
Coisa de assombração e almas penadas.
Correm as lagartixas pelo teto,
E o pequeno, as pupilas dilatadas,
Ouve a história macabra do esqueleto,
Que foi visto a dançar pelas estradas.
Na rede, os olhos fitos na fogueira,
Uma bela morena feiticeira
Sonha com sapateados e fandangos.
Mas a velha se cala de repente,
Porque lá fora ouviu, distintamente,
Um soturno queixume de curiangos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
No rancho de paredes barreadas,
Uma velha caipira conta ao neto
Coisa de assombração e almas penadas.
Correm as lagartixas pelo teto,
E o pequeno, as pupilas dilatadas,
Ouve a história macabra do esqueleto,
Que foi visto a dançar pelas estradas.
Na rede, os olhos fitos na fogueira,
Uma bela morena feiticeira
Sonha com sapateados e fandangos.
Mas a velha se cala de repente,
Porque lá fora ouviu, distintamente,
Um soturno queixume de curiangos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 136
Carlos Frydman
Asfalto
Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...
Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.
Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.
(...)
Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.
Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.
Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.
(...)
Imagem - 00700004
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...
Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.
Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.
(...)
Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.
Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.
Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.
(...)
Imagem - 00700004
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 056
Lara de Lemos
Cantiga do Pressentir
A noite já nos espreita
e permaneço esquecida
à beira do meu destino.
És tardo porque ignoras
que vivo do que adivinho.
Repele a palavra esquiva
não te cubras de distância,
estende um lenço, um soluço,
troca teus olhos de ausente
por dois claros de esperança.
E vem, que te aguardo ainda
nesses linhos de aconchego,
em braços de puro embalo,
em plumagens de mornura,
em claras nuvens de espuma.
Enquanto não me descobres
me perco em falas menores,
me reparto sem vontade,
tropeço pedras amargas,
naufrago secretos mares.
Poema integrante da série Canto Breve.
In: LEMOS, Lara de. Canto breve: poesia. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1962
e permaneço esquecida
à beira do meu destino.
És tardo porque ignoras
que vivo do que adivinho.
Repele a palavra esquiva
não te cubras de distância,
estende um lenço, um soluço,
troca teus olhos de ausente
por dois claros de esperança.
E vem, que te aguardo ainda
nesses linhos de aconchego,
em braços de puro embalo,
em plumagens de mornura,
em claras nuvens de espuma.
Enquanto não me descobres
me perco em falas menores,
me reparto sem vontade,
tropeço pedras amargas,
naufrago secretos mares.
Poema integrante da série Canto Breve.
In: LEMOS, Lara de. Canto breve: poesia. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1962
1 496
Carlos Frydman
Mocambo
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —
Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
não é macumba do destino,
é teimosia de pobre,
é maldade de rico.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
semente brava
rolando do sertão
— flor ardente e ativa
brotando em lameirão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga,
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
tem menino barrigudo,
tem velho indolente
dos tempos coloniais,
que a civilização mocambeou,
pois, de novo,
o estrangeiro se aproveitou.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo" —
Mocambo
tem mãe de prenhez fácil,
de amor sem preconceito,
onde tudo cresce
sem urbanização,
sem asfalto, sem livro,
sem jardim, sem timão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
Mocambo
de amor bem agarrado,
de família comprimida,
com fácil união
de pele jambo e preta,
sob desembestado sol de tição.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Verde-Amarelo".
Mocambo,
casa de anão,
cabendo brasileiro grande,
mulata de corpo bom,
que, sem charque, sem feijão,
tem busto bonito e oco pulmão.
Mocambo, mocambo,
calunga, calunga
— "Ordem e Progresso".
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 188
Carlos Frydman
Questionário
Meus ávidos olhos fotografam sentimentos;
minhalma, porém, nem sempre os revela com exatidão
O certo é que sou um barco,
carregando uma crescente carga humana e ativa,
densa e colorida.
Trago evidente um contínuo horizonte,
embora proibido de aportar nos portos da sofreguidão.
(...)
Hoje, quando volto ao mundo do egoísmo,
ao mundo do medo e do fetichismo,
te peço, encantadora aeromoça,
de nebulosa e inconsequente expressão,
que respondas meu questionário informal,
proposto por meu conturbado coração:
Como apreciar-te,
Neste sorriso multi-adestrado?
Como encontrar-te,
nesta fosforescência do grande nada?
Como será tua meiguice
em tua bondade-assalariada?
Como será o brilho dos teus olhos
sem o reflexo dos "neons"
das más intenções?
Que dirás ao teu noivo,
ao teu marido, ao teu amante,
depois de multifazer tuas atenções,
depois de estudar
um mundo de feições,
depois de viver
tantas efêmeras aproximações?
Ainda tens noção profunda do que é a firmeza
em tua profissionalidade aérea?
Como sabes o que preferem;
se um sorriso sensual ou teu olhar de pureza?
Estarás feliz na rota íntima que vôas?
Poderás voar ao além do pão de cada dia,
ao além dos "nylons" que te amaciam,
ao além dos cosméticos que te escondem?
....................................................
Venho voando dum mundo
de curtas asas para ilusões
e encontro teus olhos
perdidos em "neons".
Aeroporto de Zurich, 22/10/1962
In: Nossa Voz, São Paulo, 29 nov. 196
minhalma, porém, nem sempre os revela com exatidão
O certo é que sou um barco,
carregando uma crescente carga humana e ativa,
densa e colorida.
Trago evidente um contínuo horizonte,
embora proibido de aportar nos portos da sofreguidão.
(...)
Hoje, quando volto ao mundo do egoísmo,
ao mundo do medo e do fetichismo,
te peço, encantadora aeromoça,
de nebulosa e inconsequente expressão,
que respondas meu questionário informal,
proposto por meu conturbado coração:
Como apreciar-te,
Neste sorriso multi-adestrado?
Como encontrar-te,
nesta fosforescência do grande nada?
Como será tua meiguice
em tua bondade-assalariada?
Como será o brilho dos teus olhos
sem o reflexo dos "neons"
das más intenções?
Que dirás ao teu noivo,
ao teu marido, ao teu amante,
depois de multifazer tuas atenções,
depois de estudar
um mundo de feições,
depois de viver
tantas efêmeras aproximações?
Ainda tens noção profunda do que é a firmeza
em tua profissionalidade aérea?
Como sabes o que preferem;
se um sorriso sensual ou teu olhar de pureza?
Estarás feliz na rota íntima que vôas?
Poderás voar ao além do pão de cada dia,
ao além dos "nylons" que te amaciam,
ao além dos cosméticos que te escondem?
....................................................
Venho voando dum mundo
de curtas asas para ilusões
e encontro teus olhos
perdidos em "neons".
Aeroporto de Zurich, 22/10/1962
In: Nossa Voz, São Paulo, 29 nov. 196
1 042
Ricardo Gonçalves
O Batuque
Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 032
Armando Freitas Filho
Micro
Boca de rato. Morte.
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.
16 nov. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.
16 nov. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 341
Ribeiro Couto
Ilha Distante
Ilha de melancolia,
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;
Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;
Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;
Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;
Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —
Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Litoral Bravio.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;
Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;
Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;
Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;
Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —
Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Litoral Bravio.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
1 351
Ribeiro Couto
Modinha do Exílio
Os moinhos têm palmeiras
Onde canta o sabiá.
Não são arte feiticeiras!
Por toda parte onde eu vá,
Mar e terras estrangeiras,
Posso ouvir o sabiá,
Posso ver mesmo as palmeiras
Em que ele cantando está.
Meu sabiá das palmeiras
Canta aqui melhor que lá.
Mas, em terras estrangeiras,
E por tristezas de cá,
Só à noite e às sextas-feiras.
Nada mais simples não há!
Canta modas brasileiras.
Canta — e que pena me dá!
Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.278
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
Onde canta o sabiá.
Não são arte feiticeiras!
Por toda parte onde eu vá,
Mar e terras estrangeiras,
Posso ouvir o sabiá,
Posso ver mesmo as palmeiras
Em que ele cantando está.
Meu sabiá das palmeiras
Canta aqui melhor que lá.
Mas, em terras estrangeiras,
E por tristezas de cá,
Só à noite e às sextas-feiras.
Nada mais simples não há!
Canta modas brasileiras.
Canta — e que pena me dá!
Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.278
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
3 328
Carlos Frydman
Garoa em Pequim
Cai uma lânguida chuva em Pequim,
igual às nostálgicas chuvas que já vi;
vagarosa como o tédio,
dentro de um sombrio cinzento,
mergulhando em dúvida
a colorida alegria,
deixando meus olhos indecisos,
que procuram rever e fixar
a nítida silhueta milenar,
com a alma se debatendo para não ficar
entre as recordações da garoa paulista
e a envolvente realidade chinesa.
Debate-se meu ser apaixonado
entre o saudoso chuvisco paulista
e o véu úmido, cinzento e contínuo,
cobrindo a silhueta velha, nova e divina.
Cai lenta e persistente em Pequim
uma bruma afogando na abstração
minh'alma suspensa entre dois mundos,
atonando um desconhecido passado.
me afastando do indelével presente,
me levando a "Paulicéia Desvairada",
me trazendo a Pequim encantada.
Cai lenta uma chuva em Pequim,
pesando positivamente dentro de mim.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
igual às nostálgicas chuvas que já vi;
vagarosa como o tédio,
dentro de um sombrio cinzento,
mergulhando em dúvida
a colorida alegria,
deixando meus olhos indecisos,
que procuram rever e fixar
a nítida silhueta milenar,
com a alma se debatendo para não ficar
entre as recordações da garoa paulista
e a envolvente realidade chinesa.
Debate-se meu ser apaixonado
entre o saudoso chuvisco paulista
e o véu úmido, cinzento e contínuo,
cobrindo a silhueta velha, nova e divina.
Cai lenta e persistente em Pequim
uma bruma afogando na abstração
minh'alma suspensa entre dois mundos,
atonando um desconhecido passado.
me afastando do indelével presente,
me levando a "Paulicéia Desvairada",
me trazendo a Pequim encantada.
Cai lenta uma chuva em Pequim,
pesando positivamente dentro de mim.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
963
Joaquim Cardozo
Território entre o Gesto e a Palavra
Entre o gesto e a palavra: território escondido dentro de mim
Marcas de mortas visões; tentativas, indecisões, regozijos,
Entre o gesto e a palavra. Território:
Um silêncio, um gemido, um esforço imaturo
Possibilidade de um grito, modulação de uma dor.
— Ritmos mais doces que os das águas,
— Ternuras mais íntimas que as do amor
Entre o gesto e a palavra. Território
Onde as idéias se ocultam e os pensamentos se perdem
Os conceitos se escondem, os problemas se dissolvem
Entre o gesto e a palavra. Território.
— Os problemas da escolha, os princípios;
Transcendências: transparências, mediante
Uma luz que não se acende, existem
No território contido entre o gesto e a palavra.
— Um axioma, um lema, um versículo, um fonema,
Uma ameaça, uma tolice, o som velar, o eco,
Talvez a estátua de uma atitude.
Estão no campo depois do gesto
E antes da palavra.
Também estás para mim, amiga, entre esses dois expressivos
Entre alguma coisa de mímico ou de sonoro
Alguma coisa que é aceno ou que é voz:
Entre o de mim e o de ti: Tu estou
Tu vivo
Tu falo
Tu choro
Estás, mesmo que entre nós dois não exista
Um aparato gramático — uma sentença verdadeira
— ou uma síntese poética
Ilusória expressão com que se conformam os ingênuos —
Mesmo que a palavra se reduza a simples gesto verbal
Entre o gesto e este gesto há um infinito real.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.207-208. Poema integrante da série Mundos Paralelos
Marcas de mortas visões; tentativas, indecisões, regozijos,
Entre o gesto e a palavra. Território:
Um silêncio, um gemido, um esforço imaturo
Possibilidade de um grito, modulação de uma dor.
— Ritmos mais doces que os das águas,
— Ternuras mais íntimas que as do amor
Entre o gesto e a palavra. Território
Onde as idéias se ocultam e os pensamentos se perdem
Os conceitos se escondem, os problemas se dissolvem
Entre o gesto e a palavra. Território.
— Os problemas da escolha, os princípios;
Transcendências: transparências, mediante
Uma luz que não se acende, existem
No território contido entre o gesto e a palavra.
— Um axioma, um lema, um versículo, um fonema,
Uma ameaça, uma tolice, o som velar, o eco,
Talvez a estátua de uma atitude.
Estão no campo depois do gesto
E antes da palavra.
Também estás para mim, amiga, entre esses dois expressivos
Entre alguma coisa de mímico ou de sonoro
Alguma coisa que é aceno ou que é voz:
Entre o de mim e o de ti: Tu estou
Tu vivo
Tu falo
Tu choro
Estás, mesmo que entre nós dois não exista
Um aparato gramático — uma sentença verdadeira
— ou uma síntese poética
Ilusória expressão com que se conformam os ingênuos —
Mesmo que a palavra se reduza a simples gesto verbal
Entre o gesto e este gesto há um infinito real.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.207-208. Poema integrante da série Mundos Paralelos
2 185
Capinan
Canção de Minha Descoberta
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
1 237
Frei Francisco de São Carlos
Em Assis Belém se mostra
Em Assis Belém se mostra
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
Com assombrosos sinais:
Qual Jesus, Francisco nasce
Entre brutos animais.
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991. p.94
NOTA: Esse poema foi pintado no retábulo da capela do Nascimento de São Francisco de Assis, no claustro do convento de Santo Antônio, no Rio de Janeir
1 365
Marcelo Gama
Sugestões do Ocaso
Para o Carlos Torelly
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma à hora do sol posto!
Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o sol.
E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o sol ressurgiria!
A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, à noite, em cemitérios!
Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.
Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.
Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.
E estávamos nós dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e puz-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.
Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!
Ai! como foram más, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!
Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e puz-me a escrever dísticos...
Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.
Que se a idéia de morte às vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.
E fiquei-me a cismar. Além, a lua triste
tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma, à hora do sol posto!...
Publicado no livro Via Sacra (1902).
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.31-3
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma à hora do sol posto!
Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o sol.
E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o sol ressurgiria!
A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, à noite, em cemitérios!
Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.
Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.
Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.
E estávamos nós dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e puz-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.
Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!
Ai! como foram más, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!
Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e puz-me a escrever dísticos...
Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.
Que se a idéia de morte às vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.
E fiquei-me a cismar. Além, a lua triste
tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma, à hora do sol posto!...
Publicado no livro Via Sacra (1902).
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.31-3
1 062
Edimilson de Almeida Pereira
Cuidado
"Terra-mãe, água das lagoas e das fontes,
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."
A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.
Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
1 263
Joaquim Cardozo
Não tenho pátria, nem glória
(...)
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
1 233
Carlos Felipe Moisés
O Dia Segue o Curso Itinerante
I
Assim te amei, amada, assim te amei
de amor tão grande e puro que secou
no peito meu o rio que corria
submisso e atento para os braços teus.
Nos ermos vales agora percorro
os gestos esquecidos, densas brumas
do rio que fui, o rio que fomos,
largas águas seguindo o mar da noite.
Assim te amei o amor maior que pude.
E, mais ainda, a minha vida foi
uma desfeita nau vagando a esmo
o mar do tempo, o mar janeiro, o mar
que perdi. E agora, de ti disperso,
nos desertos de mim, sem fim, caminho.
(...)
III
E sempre neste calmo amor prestante
o peito nu crescendo em solidão.
A tarde passa, tudo passa quando
amor refaz o pó de que foi feito.
O dia segue o curso itinerante
e é sempre neste ocaso o tom de afago,
o ar desfeito, o mundo ignorado
apascentando o peito de quem ama.
É o vago som de um gesto soluçante.
Amor, um nome, o deus que nasce e vai,
o passo incerto em direção da noite
que vem. É treva, é o sono agonizante
de quem, por muito amar, deixou o mundo
inerte e foi empós do amor errante.
(...)
Publicado no livro A Tarde e o Tempo (1964).
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 1974
NOTA: Poema composto de 4 parte
Assim te amei, amada, assim te amei
de amor tão grande e puro que secou
no peito meu o rio que corria
submisso e atento para os braços teus.
Nos ermos vales agora percorro
os gestos esquecidos, densas brumas
do rio que fui, o rio que fomos,
largas águas seguindo o mar da noite.
Assim te amei o amor maior que pude.
E, mais ainda, a minha vida foi
uma desfeita nau vagando a esmo
o mar do tempo, o mar janeiro, o mar
que perdi. E agora, de ti disperso,
nos desertos de mim, sem fim, caminho.
(...)
III
E sempre neste calmo amor prestante
o peito nu crescendo em solidão.
A tarde passa, tudo passa quando
amor refaz o pó de que foi feito.
O dia segue o curso itinerante
e é sempre neste ocaso o tom de afago,
o ar desfeito, o mundo ignorado
apascentando o peito de quem ama.
É o vago som de um gesto soluçante.
Amor, um nome, o deus que nasce e vai,
o passo incerto em direção da noite
que vem. É treva, é o sono agonizante
de quem, por muito amar, deixou o mundo
inerte e foi empós do amor errante.
(...)
Publicado no livro A Tarde e o Tempo (1964).
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 1974
NOTA: Poema composto de 4 parte
993
Capinan
O Poeta
O poeta não mente. Dificulta.
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.
Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.
O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.
O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)
O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.
A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.
É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.
O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 44-4
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.
Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.
O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.
O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)
O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.
A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.
É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.
O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 44-4
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