Poemas neste tema
Alma
Amadeu Amaral
Jamais
A Gastão Bousquet
Jamais, jamais encontrarei aquela
que eu procurava pelo mundo outrora,
como quem mira um céu que não se estrela,
um véu de névoa que não se evapora.
Jamais, jamais. E, solitária vela,
vai-se a Esperança, Desalento em fora.
Jamais há de cessar esta procela,
jamais há de raiar aquela aurora.
Há de morrer esta vontade pura
(o coração aniquilado diz-mo)
na intimidade das secretas mágoas.
E este imenso tesouro de ternura
será como um regato num abismo,
rolando oculto as cristalinas águas.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.81. (Obras de Amadeu Amaral
Jamais, jamais encontrarei aquela
que eu procurava pelo mundo outrora,
como quem mira um céu que não se estrela,
um véu de névoa que não se evapora.
Jamais, jamais. E, solitária vela,
vai-se a Esperança, Desalento em fora.
Jamais há de cessar esta procela,
jamais há de raiar aquela aurora.
Há de morrer esta vontade pura
(o coração aniquilado diz-mo)
na intimidade das secretas mágoas.
E este imenso tesouro de ternura
será como um regato num abismo,
rolando oculto as cristalinas águas.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.81. (Obras de Amadeu Amaral
1 337
Domingos Carvalho da Silva
O Pastor de Hienas
Madrugada madrugada
fugirei de madrugada
com um sol em cada nuvem
e uma lua em cada estrada.
Levarei nas mãos a grade
da cela em que encerrei.
Fugirei de madrugada
contigo ou outra qualquer
pra violar os caminhos
que pelo mundo se perdem.
Fugirei de madrugada
entre embarcações do porto:
os pulsos cheios de sangue,
veias rotas pelo corpo.
Fugirei do teu abraço.
Fugirei do teu castigo.
Abraçarei as hienas.
Queimarei medas de trigo.
Serei fantasma nos campos.
Morto nas encruzilhadas.
Só os corvos hão de encontrar
o meu corpo, que abraçavas...
Fugirei de madrugada
como um ciclone inclemente,
beijando o ventre das águas,
como beijava o teu ventre.
Madrugada madrugada
Esponja que apaga estrelas.
Fugirei de madrugada
estilhaçando as algemas.
Irei como um incendiário
com o olhar em labaredas
e a mão erguida agitando
o facho de teus cabelos.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
fugirei de madrugada
com um sol em cada nuvem
e uma lua em cada estrada.
Levarei nas mãos a grade
da cela em que encerrei.
Fugirei de madrugada
contigo ou outra qualquer
pra violar os caminhos
que pelo mundo se perdem.
Fugirei de madrugada
entre embarcações do porto:
os pulsos cheios de sangue,
veias rotas pelo corpo.
Fugirei do teu abraço.
Fugirei do teu castigo.
Abraçarei as hienas.
Queimarei medas de trigo.
Serei fantasma nos campos.
Morto nas encruzilhadas.
Só os corvos hão de encontrar
o meu corpo, que abraçavas...
Fugirei de madrugada
como um ciclone inclemente,
beijando o ventre das águas,
como beijava o teu ventre.
Madrugada madrugada
Esponja que apaga estrelas.
Fugirei de madrugada
estilhaçando as algemas.
Irei como um incendiário
com o olhar em labaredas
e a mão erguida agitando
o facho de teus cabelos.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
1 203
Joaquim Cardozo
Cemitério da Infância
Semana da criança, 1953
No cemitério da Infância
Era manhã quando entrei,
Das plantas que vi florindo
De tantas me deslumbrei...
Era manhã reluzindo
Quando ao meu país cheguei,
Dos rostos que vi sorrindo
De poucos me lembrarei.
Vinha de largas distâncias
No meu cavalo veloz,
Pela noite, sobre a noite,
Na pesquisa de arrebóis;
E ouvia, sinistramente,
Longínqua, esquecida voz...
Galos cantavam, cantavam.
— Auroras de girassóis.
Por esses aléns de serras,
Pelas léguas de verão,
Quantos passos repetidos
Trilhados no mesmo chão;
Pelas margens das estradas:
Rosário, cruz, coração...
Mulheres rezando as lágrimas,
Passando as gotas na mão.
Aqui caíram as asas
Dos anjos. Rudes caminhos
Adornam covas pequenas
De urtiga branca e de espinhos;
Mais perto cheguei meus passos,
Mais e demais, de mansinho:
As almas do chão revoaram:
Um bando de passarinhos.
Oh! aflições pequeninas
Em corações de brinquedos;
Em sono se desfolharam
Tuas roseiras de medo...
Teus choros trazem relentos:
Ternuras de manhã cedo;
Oh! Cemitério da Infância
Abre a luz do teu segredo.
Carne, cinza, terra, adubo
Guardam mistérios mortais;
Meninos, depois adultos:
Os grandes canaviais...
— Crescem bagas nos arbustos,
Como riquezas reais,
Pasta o gado nas planuras
Dos vastos campos gerais.
Publicado no livro Signo estrelado (1960). Poema integrante da série Elegias.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.78-8
No cemitério da Infância
Era manhã quando entrei,
Das plantas que vi florindo
De tantas me deslumbrei...
Era manhã reluzindo
Quando ao meu país cheguei,
Dos rostos que vi sorrindo
De poucos me lembrarei.
Vinha de largas distâncias
No meu cavalo veloz,
Pela noite, sobre a noite,
Na pesquisa de arrebóis;
E ouvia, sinistramente,
Longínqua, esquecida voz...
Galos cantavam, cantavam.
— Auroras de girassóis.
Por esses aléns de serras,
Pelas léguas de verão,
Quantos passos repetidos
Trilhados no mesmo chão;
Pelas margens das estradas:
Rosário, cruz, coração...
Mulheres rezando as lágrimas,
Passando as gotas na mão.
Aqui caíram as asas
Dos anjos. Rudes caminhos
Adornam covas pequenas
De urtiga branca e de espinhos;
Mais perto cheguei meus passos,
Mais e demais, de mansinho:
As almas do chão revoaram:
Um bando de passarinhos.
Oh! aflições pequeninas
Em corações de brinquedos;
Em sono se desfolharam
Tuas roseiras de medo...
Teus choros trazem relentos:
Ternuras de manhã cedo;
Oh! Cemitério da Infância
Abre a luz do teu segredo.
Carne, cinza, terra, adubo
Guardam mistérios mortais;
Meninos, depois adultos:
Os grandes canaviais...
— Crescem bagas nos arbustos,
Como riquezas reais,
Pasta o gado nas planuras
Dos vastos campos gerais.
Publicado no livro Signo estrelado (1960). Poema integrante da série Elegias.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.78-8
1 261
Luís Guimarães Júnior
Misticismo
À luz do teu sorriso
Meigo como o luar,
Sinto minha alma entrar
No azul do Paraíso;
E junto a Deus divino
Bela a me contemplar,
Quem há de me amparar
No dia do Juízo
Oh doce Formosura,
Pura! mil vezes pura!
Enquanto me sorris,
Minha alma delirante
Pensa na dor do Dante
E pensa em Beatriz.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Meigo como o luar,
Sinto minha alma entrar
No azul do Paraíso;
E junto a Deus divino
Bela a me contemplar,
Quem há de me amparar
No dia do Juízo
Oh doce Formosura,
Pura! mil vezes pura!
Enquanto me sorris,
Minha alma delirante
Pensa na dor do Dante
E pensa em Beatriz.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 462
Renata Pallottini
Cântico dos Cânticos - 2:16
(O meu amor é meu e eu sou dele; ele apascenta
o seu rebanho entre os lírios.)
O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.
Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.
Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.
Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.
28-09-59
Publicado no livro Livro de Sonetos (1961).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.9
o seu rebanho entre os lírios.)
O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.
Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.
Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.
Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.
28-09-59
Publicado no livro Livro de Sonetos (1961).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.9
1 906
Colombina
Banco de Jardim
Amo os céus iluminados
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 957
Carlos Nejar
O Homem e as Coisas
As coisas não se submetem
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.
Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?
Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?
Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?
Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.
Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.
As coisas não se submetem
à nossa vestidura.
Publicado no livro Ordenações (1971). Poema integrante da série Ordenação Quinta: Formal de Partilha.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.329-330. (Poiesis
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.
Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?
Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?
Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?
Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.
Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.
As coisas não se submetem
à nossa vestidura.
Publicado no livro Ordenações (1971). Poema integrante da série Ordenação Quinta: Formal de Partilha.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.329-330. (Poiesis
1 090
Henriqueta Lisboa
Caboclo-d'Água
Caboclo-d'água Ô
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
2 393
Amadeu Amaral
Rios
A Adalgiso Pereira
Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;
vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;
fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...
Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.60. (Obras de Amadeu Amaral
Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;
vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;
fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...
Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.60. (Obras de Amadeu Amaral
1 640
Geir Campos
Parábola da Madurez
Ocioso olhar
o fruto que vai de verde a maduro:
leve mudança há de ser contemplável
na pigmentação da casca,
mas do amargo despreparo
até o sumo dulçor
a seiva passará despercebida
— outro desses mistérios naturais
que a alma interroga
e o corpo sabe mais.
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
o fruto que vai de verde a maduro:
leve mudança há de ser contemplável
na pigmentação da casca,
mas do amargo despreparo
até o sumo dulçor
a seiva passará despercebida
— outro desses mistérios naturais
que a alma interroga
e o corpo sabe mais.
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 134
Colombina
Intimidade
Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.
Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... Sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.
Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... E, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...
E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual de delícias sem conta...
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.
Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... Sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.
Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... E, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...
E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual de delícias sem conta...
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 368
Carlos Nejar
Purificação
Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.
Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.
Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.
A alma! Que o ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!
Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!
O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.
Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.262-263. (Poiesis
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.
Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.
Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.
A alma! Que o ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!
Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!
O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.
Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.262-263. (Poiesis
866
Geir Campos
9a Cantiga de Acordar Mulher
Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 262
Carlos Nejar
Comparecimento
Compareço
do leito ou da pedra,
com pólvora em todos os sentidos.
Compareço:
gatilho na ponta dos gestos,
em fogo e bala, à espreita.
Compareço e me vou.
Aceitei por condição.
Não oculto
as linhas de loucura
que me lutam.
Rebento em pleno vôo.
Aqui estou
por própria culpa.
Possuo o desespero
residente
naquilo que construo.
Não recuo
dos deuses. Enfrento
o seu semblante satisfeito,
rejeito
a luz e o erro,
com a mesma carnação
e o mesmo jeito.
E se a recusa vier de vossa parte,
vivo em metade,
vivo separado.
Não pretendo ser salvo.
Vivo explosivo, áspero,
mas vivo.
E sou meu próprio alvo.
Publicado no livro Danações (1969).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.198-199. (Poiesis
do leito ou da pedra,
com pólvora em todos os sentidos.
Compareço:
gatilho na ponta dos gestos,
em fogo e bala, à espreita.
Compareço e me vou.
Aceitei por condição.
Não oculto
as linhas de loucura
que me lutam.
Rebento em pleno vôo.
Aqui estou
por própria culpa.
Possuo o desespero
residente
naquilo que construo.
Não recuo
dos deuses. Enfrento
o seu semblante satisfeito,
rejeito
a luz e o erro,
com a mesma carnação
e o mesmo jeito.
E se a recusa vier de vossa parte,
vivo em metade,
vivo separado.
Não pretendo ser salvo.
Vivo explosivo, áspero,
mas vivo.
E sou meu próprio alvo.
Publicado no livro Danações (1969).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.198-199. (Poiesis
1 058
Aureliano Lessa
Mensagem
(...)
Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.
Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...
Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.
Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.
Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,
Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.
Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...
Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.
Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...
Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.
Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.
Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,
Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.
Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...
Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 222
Colombina
Exaltação
Olhas nos olhos meus. E eu vejo nesse instante
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 458
Olga Savary
David
Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
Rio, dezembro de 1974
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
Rio, dezembro de 1974
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 965
Colombina
Episódio
O reflexo do ocaso ensanguentado
doirava ainda aquele fim de dia...
De um frasco de cristal, mal arrolhado,
um cálido perfume se esvaía...
Junto ao teu corpo nu, convulsionado,
que de desejo e de volúpia ardia,
o meu corpo, nessa hora de pecado,
uma ânfora de gozo parecia.
Na quietude da tarde agonizante,
um beijo prolongado, delirante,
a flama da paixão veio acender.
E toda a minha feminilidade
era uma taça de sensualidade,
transbordante de vida e de prazer!
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
doirava ainda aquele fim de dia...
De um frasco de cristal, mal arrolhado,
um cálido perfume se esvaía...
Junto ao teu corpo nu, convulsionado,
que de desejo e de volúpia ardia,
o meu corpo, nessa hora de pecado,
uma ânfora de gozo parecia.
Na quietude da tarde agonizante,
um beijo prolongado, delirante,
a flama da paixão veio acender.
E toda a minha feminilidade
era uma taça de sensualidade,
transbordante de vida e de prazer!
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 198
Joaquim Manuel de Macedo
Bonita e marotinha, (Ato IV, Cena III)
(...)
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
2 311
Carlos Nejar
Considerações sobre a Morte e seus Hábitos
I Visitante insólita
A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.
Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.
Limpa nos parece:
arroio, lebre.
O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.
Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?
Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?
Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.
O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.
E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.
Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.241-242. (Poiesis)
NOTA: Poema composto de 5 partes: II. Disciplina; III. Da roupa final; IV. Do hábito; V. Sepultament
A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.
Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.
Limpa nos parece:
arroio, lebre.
O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.
Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?
Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?
Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.
O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.
E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.
Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.
Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.241-242. (Poiesis)
NOTA: Poema composto de 5 partes: II. Disciplina; III. Da roupa final; IV. Do hábito; V. Sepultament
1 034
Colombina
Maldição
Maldito sejas tu que eu encontrei na vida,
como se não bastasse a tormenta sofrida
sem culpa e sem perdão;
por tudo o que eu quis ser e que alcançar não pude;
por toda essa amargura e toda essa inquietude
da minha solidão.
Maldito sejas tu, pelas noites sem sono,
pelos dias sem sol e as horas de abandono,
de tristeza sem fim...
Pelo amor que esbanjei, generosa, às mãos-cheias,
e apenas vi florir pelas searas alheias
e nunca para mim.
Pelos passos que dei sem rumo, desnorteada,
nas trevas tateando... (é sempre escura a estrada,
quando a gente vai só).
Por toda essa extensão de enganos percorrida,
pela enseada de paz para sempre perdida
e transformada em pó...
Maldito sejas tu, que por capricho, um dia,
do meu ser transformaste a serena harmonia
num rugir de paixão.
Maldito sejas tu! Teu riso, tua boca!
Para cuja mentira e hipocrisia é pouca
a minha maldição.
Maldito sejas tu, que infiltraste em meu sangue
todo o calor macio, aveludado e langue
da tua voz sem par.
Por tudo o que eu perdi por te haver encontrado,
pelo tempo tão longo e tão triste passado,
em silêncio a chorar...
Maldito sejas tu... Mas, se um dia voltasses,
e o remorso no olhar, e lágrimas nas faces,
me pedisses perdão,
eu, na porta entreaberta e mal iluminada,
sem nada te dizer, sem perguntar-te nada,
te estenderia a mão.
Publicado no livro Sândalo: versos (1941). Poema integrante da série Flamas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
como se não bastasse a tormenta sofrida
sem culpa e sem perdão;
por tudo o que eu quis ser e que alcançar não pude;
por toda essa amargura e toda essa inquietude
da minha solidão.
Maldito sejas tu, pelas noites sem sono,
pelos dias sem sol e as horas de abandono,
de tristeza sem fim...
Pelo amor que esbanjei, generosa, às mãos-cheias,
e apenas vi florir pelas searas alheias
e nunca para mim.
Pelos passos que dei sem rumo, desnorteada,
nas trevas tateando... (é sempre escura a estrada,
quando a gente vai só).
Por toda essa extensão de enganos percorrida,
pela enseada de paz para sempre perdida
e transformada em pó...
Maldito sejas tu, que por capricho, um dia,
do meu ser transformaste a serena harmonia
num rugir de paixão.
Maldito sejas tu! Teu riso, tua boca!
Para cuja mentira e hipocrisia é pouca
a minha maldição.
Maldito sejas tu, que infiltraste em meu sangue
todo o calor macio, aveludado e langue
da tua voz sem par.
Por tudo o que eu perdi por te haver encontrado,
pelo tempo tão longo e tão triste passado,
em silêncio a chorar...
Maldito sejas tu... Mas, se um dia voltasses,
e o remorso no olhar, e lágrimas nas faces,
me pedisses perdão,
eu, na porta entreaberta e mal iluminada,
sem nada te dizer, sem perguntar-te nada,
te estenderia a mão.
Publicado no livro Sândalo: versos (1941). Poema integrante da série Flamas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 949
Joaquim Manuel de Macedo
Cântico: A Incógnita
(...)
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
2 375
Carlos Frydman
Metamorfose de Minha Anatomia
Na espiral heterogênea da vida,
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
990
Ribeiro Couto
Monólogo da Noite
Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
1 544