Poemas neste tema
Alma
D. Pedro II
I - À Morte do Príncipe D Pedro
Pode o artista pintar a imagem morta
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.
A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.
A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,
Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.
A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.
A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,
Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
1 725
Neide Archanjo
No jardim do mosteiro
No jardim do mosteiro
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
silêncios envolvem o monge
e seu livro de horas.
Ele sabe da sombra infinita
que espera lá fora.
É velho o monge
e morrerá com ele
alguma frase em latim
uma entonação gregoriana
seu rosário suas sandálias
e um pouco de mim.
Poema integrante da série I - Da Morte.
In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 238
Régis Bonvicino
RB Resolve Ser Poeta
Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
1 535
Rubens Rodrigues Torres Filho
Figura
Esse sorriso justo, pontuado por vírgulas abstratas,
e no caminho, seguramente em cena, mira
o claro desejo: desmisturar-nos, por qual arte,
em meio a tanto. Mexer com esses relevos
subordinados ao fio da ausência. E o que se supõe
dispõe flores avulsas e laços de linguagem.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Figura. São Paulo: Ed. do artista, 1987
e no caminho, seguramente em cena, mira
o claro desejo: desmisturar-nos, por qual arte,
em meio a tanto. Mexer com esses relevos
subordinados ao fio da ausência. E o que se supõe
dispõe flores avulsas e laços de linguagem.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Figura. São Paulo: Ed. do artista, 1987
1 267
Régis Bonvicino
O Tempo
O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
1 355
Rubens Rodrigues Torres Filho
Clorofila
Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 664
Alberto da Costa e Silva
Aparição de Fortaleza, setembro de 1950
Ruas e sombras de Fortaleza, meninas doces,
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.
Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.
Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
árvores velhas onde esqueci a infância que foi
tão triste e tão pouca, cidade onde o amor
está tombado a teus pés,
frágil e puro
como uma flor.
Onde caminho cercado pelos meus fantasmas,
entregue aos meninos que são o que fui,
embalado pela pureza de minhas próprias palavras,
cansado, tão cansado, Fortaleza,
quase perdido por vos haver perdido.
Roteiros de bicicletas pela Praça do Carmo,
ganhando as distâncias das longas alamedas,
revendo as frágeis moças que passam
na doçura morna das tardes,
recompondo a imagem dos vendeiros encarapitados nos burricos
[mansos,
a suavidade dos contornos, a brisa envolvente, os oscilantes jardins,
os longos e inesperados encontros com o desconhecido,
os pressentimentos de inúteis e infindáveis viagens
do menino triste, sentado no muro, a mãozinha no queixo.
Cidade de meu pai enfermo. Minha cidade.
Cidade onde se pode chorar sobre os muros de saudade.
Cidade feita para as lágrimas e para adeuses,
para as súbitas e inexplicáveis alegrias.
Cidade onde o mar quebra
com o impulso de velhos marinheiros náufragos
que subitamente retornassem à pureza das praias.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 514
Armindo Trevisan
Elegia 9
No enxame
dos dedos
a água cerze orifícios.
Noite fora a lua afia pastagens.
Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.
Outra precisão,
outra imobilidade:
a do pião
na retina
de uma criança.
In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
dos dedos
a água cerze orifícios.
Noite fora a lua afia pastagens.
Molda-se a argila do corpo
com lágrimas.
Outra precisão,
outra imobilidade:
a do pião
na retina
de uma criança.
In: TREVISAN, Armindo. A mesa do silêncio. Porto Alegre: L± Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Os Velhos
1 118
Alberto da Costa e Silva
Flumen, Fluminis, setembro de 1950
Ouçamos o fluir deste curso de rio
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte
em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte
em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 702
Claudio Willer
Poema Transparente
Agora você treme observada pelas paredes do seu próprio quarto
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
agora você espreita atravessada pelo último aguilhão do cansaço
em um tempo sem memória
um tempo que é um punhal atravessado nos intestinos
um tempo em que nenhum sobressalto
deixará de aparecer sob forma de monstro adormecido
quando as últimas guerras forjam o grande rodamoinho
a alma é vibrada em todas as suas cordas
agora você está você espreita você busca
pelas estações desertas
pelas fendas do musgo
pelos assoalhos de cinza
pelas multidões que gritam
no entanto você ainda escuta
tem o pressentimento do beijo comprimido entre paredes
e sabe coisas sobre a mão que pode emergir da lava
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976
1 281
Eudoro Augusto
Ana C
Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 139
Gilberto Mendonça Teles
Caiporismo
Um dia um caipora, baixinho, gordo e nu,
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.
Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.
Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.
Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.
Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 72. Poema integrante da série Sombras da Terra
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.
Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.
Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.
Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.
Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 72. Poema integrante da série Sombras da Terra
1 912
Lila Ripoll
Anunciação
Voam-me pássaros em torno,
numa ciranda sem motivos.
A estrada é fria.
Estou de branco.
Brilha uma estrela em minha mão.
Revoam pássaros em torno.
Meu ombro esquerdo vai ferido.
Medrosos passos vão levando
a fina sombra do meu corpo.
Volteiam folhas,
dança o vento
e a gaze clara do vestido.
Minha cabeça vai pendida
e há uma estrela em minha mão.
Que estranho o caminho andado,
de branco, na estrada fria,
por entre pássaros voando,
por sobre flores caindo
e o ombro esquerdo sangrando.
O mar canta em meus ouvidos
e a Montanha inacessível
estende ramos de paz.
Passam âncoras e cruzes
e há uma estrela em minha mão.
Por que me levam de branco,
na fria estrada de pedra,
com este ombro sangrando,
entre perfumes e asas?
Que anunciam essas cruzes?
Essas âncoras partidas?
Esses pássaros revoando?
E essa estrela em minha mão?
Quem me leva e para onde
com essa estrela na mão?
Publicado no livro Por Quê? (1947).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.53-5
numa ciranda sem motivos.
A estrada é fria.
Estou de branco.
Brilha uma estrela em minha mão.
Revoam pássaros em torno.
Meu ombro esquerdo vai ferido.
Medrosos passos vão levando
a fina sombra do meu corpo.
Volteiam folhas,
dança o vento
e a gaze clara do vestido.
Minha cabeça vai pendida
e há uma estrela em minha mão.
Que estranho o caminho andado,
de branco, na estrada fria,
por entre pássaros voando,
por sobre flores caindo
e o ombro esquerdo sangrando.
O mar canta em meus ouvidos
e a Montanha inacessível
estende ramos de paz.
Passam âncoras e cruzes
e há uma estrela em minha mão.
Por que me levam de branco,
na fria estrada de pedra,
com este ombro sangrando,
entre perfumes e asas?
Que anunciam essas cruzes?
Essas âncoras partidas?
Esses pássaros revoando?
E essa estrela em minha mão?
Quem me leva e para onde
com essa estrela na mão?
Publicado no livro Por Quê? (1947).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.53-5
1 651
Lila Ripoll
No Casarão
Nasci num casarão velho, de esquina,
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento.
Eu fui uma criança sem infância.
Senti, desde pequena, esse tormento
Que o sonho traz depois de cada ânsia,
E que é o maior dos males que conheço!
Às vezes, noite alta, eu levantava,
Vestia minha roupa pelo avesso
E saía sozinha (a lua espiava!)
Para olhar as estrelas e os céus altos...
O quintal era um mundo diferente,
Que eu percorria sem temer assaltos.
Meu corpo, que já era um pobre doente,
Tiritava de frio e de emoção
Quando o vento arrepiava os velhos salsos
Que arrastavam os braços pelo chão...
Meia-noite... Fantasmas... Bruxas brancas...
Eu sozinha vagando pelo escuro...
Minha casa fechada com mil trancas,
E as pedras a cair do velho muro...
Quando a lua fugia, já cansada,
Meus passos, silenciosos, apagados,
Voltavam pelas pedras da calçada
Que a nossa casa tinha de um dos lados.
De manhã: os olhares, as perguntas...
(Eu estava tão branca. Tão sem cor.
As olheiras iguais às de defuntas...)
— "Era o vento!" "Era o frio!" "Era o calor!":
A mentira que achava na ocasião...
E de noite, outra vez, às escondidas,
Abandonava o velho casarão...
Publicado no livro De Mãos Postas (1938).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
Escondido entre salsos pensativos.
E foi lá que a minha alma, ainda menina,
Olhando dia e noite os poentes vivos,
Aprendeu a viajar no pensamento.
Eu fui uma criança sem infância.
Senti, desde pequena, esse tormento
Que o sonho traz depois de cada ânsia,
E que é o maior dos males que conheço!
Às vezes, noite alta, eu levantava,
Vestia minha roupa pelo avesso
E saía sozinha (a lua espiava!)
Para olhar as estrelas e os céus altos...
O quintal era um mundo diferente,
Que eu percorria sem temer assaltos.
Meu corpo, que já era um pobre doente,
Tiritava de frio e de emoção
Quando o vento arrepiava os velhos salsos
Que arrastavam os braços pelo chão...
Meia-noite... Fantasmas... Bruxas brancas...
Eu sozinha vagando pelo escuro...
Minha casa fechada com mil trancas,
E as pedras a cair do velho muro...
Quando a lua fugia, já cansada,
Meus passos, silenciosos, apagados,
Voltavam pelas pedras da calçada
Que a nossa casa tinha de um dos lados.
De manhã: os olhares, as perguntas...
(Eu estava tão branca. Tão sem cor.
As olheiras iguais às de defuntas...)
— "Era o vento!" "Era o frio!" "Era o calor!":
A mentira que achava na ocasião...
E de noite, outra vez, às escondidas,
Abandonava o velho casarão...
Publicado no livro De Mãos Postas (1938).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.1
2 083
Lila Ripoll
Canção da Chuva
Cai uma chuva tão fina
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
2 038
Sílvio Romero
VII - José de Anchieta
Cansada do repouso, a América ofegante,
Com seu olhar profundo e lânguido cismar,
Um dia despertando aos tépidos bafejos,
Deu seu colo moreno aos homens de além-mar.
Deu seus lábios de fogo aos bravos navegantes,
Sedentos d'emoções, de lutas e de amor,
Que achando pouco o mar e a pátria, cá tiveram
Nas frontes mais suor, nos peitos mais ardor.
E na macia trança, impávida a cabocla,
Que a cútis cetinosa às flores imitou,
Prendendo de uma vez os nobres lutadores,
De uma alma de amazona a fé lhes confiou.
De uns sonhos de amazona o mel de eflúvios tantos
Colhido no fervor da força e da paixão,
Foi como um filtro mago em corações de deuses,
Como um beijo da brisa em juba de leão!
A vida estua aqui. Nos leques das palmeiras
Pensamento do céu se move impresso em luz;
São raios deste sol eterno que nos ama,
São mimos que este ar brilhante aqui produz.
Exala a natureza em tudo um devaneio,
Sua alma inda mais fulge aos toques do luar;
E o belo navegante, envolto na magia,
Cativo, se esqueceu das terras de além-mar.
Poema integrante da série O Primeiro Instante.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
Com seu olhar profundo e lânguido cismar,
Um dia despertando aos tépidos bafejos,
Deu seu colo moreno aos homens de além-mar.
Deu seus lábios de fogo aos bravos navegantes,
Sedentos d'emoções, de lutas e de amor,
Que achando pouco o mar e a pátria, cá tiveram
Nas frontes mais suor, nos peitos mais ardor.
E na macia trança, impávida a cabocla,
Que a cútis cetinosa às flores imitou,
Prendendo de uma vez os nobres lutadores,
De uma alma de amazona a fé lhes confiou.
De uns sonhos de amazona o mel de eflúvios tantos
Colhido no fervor da força e da paixão,
Foi como um filtro mago em corações de deuses,
Como um beijo da brisa em juba de leão!
A vida estua aqui. Nos leques das palmeiras
Pensamento do céu se move impresso em luz;
São raios deste sol eterno que nos ama,
São mimos que este ar brilhante aqui produz.
Exala a natureza em tudo um devaneio,
Sua alma inda mais fulge aos toques do luar;
E o belo navegante, envolto na magia,
Cativo, se esqueceu das terras de além-mar.
Poema integrante da série O Primeiro Instante.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
1 648
Gilberto Mendonça Teles
Coreografia do Mito
4. "Un pas de trois"
Houve um reino qualquer e três sereias
que afinavam seu canto na linguagem:
a virgem, a casada e a que passava
seus dias na janela.
E havia a forma
de sirene e silêncio,
essas metades,
renda de bilro, milongagem, força
oculta e sem governo,
latejantes
nas têmporas do mito.
A primeira voltou à sua estância,
leu Bandeira, fez versos,
desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
foi banhar-se num rio de água doce.
A segunda voltou-se para o mar,
tomou banho lustral de fevereiro,
fez cirandas na areia e ouviu lendas
da lira pendurada no coqueiro.
A terceira me deu esta janela
com desenho de peixe na vidraça.
E está sempre acenando
lá do fundo
do rio que não passa.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 69-70. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 partes: 1. Lorelei; 2. Iemanjá; 3. Iara; 4. Un pas de troi
Houve um reino qualquer e três sereias
que afinavam seu canto na linguagem:
a virgem, a casada e a que passava
seus dias na janela.
E havia a forma
de sirene e silêncio,
essas metades,
renda de bilro, milongagem, força
oculta e sem governo,
latejantes
nas têmporas do mito.
A primeira voltou à sua estância,
leu Bandeira, fez versos,
desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
foi banhar-se num rio de água doce.
A segunda voltou-se para o mar,
tomou banho lustral de fevereiro,
fez cirandas na areia e ouviu lendas
da lira pendurada no coqueiro.
A terceira me deu esta janela
com desenho de peixe na vidraça.
E está sempre acenando
lá do fundo
do rio que não passa.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 69-70. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 partes: 1. Lorelei; 2. Iemanjá; 3. Iara; 4. Un pas de troi
1 675
Alberto da Costa e Silva
Elegia, outubro de 1950
Sofrer esta infância, esta morte, este início.
As cousas não param. Elas fluem, inquietas,
como velhos rios soluçantes. As flores
que apenas sonhamos em frutos se tornaram.
Sazonar, eis o destino. Porém, não esquecer
a promessa de flores nas sementes dos frutos,
o rosto de teu pai na face do teu filho,
as ondas que voltam sobre as mesmas praias,
noivas desconhecidas a cada novo encontro.
As cousas fluem, não param. As folhas nascem,
as folhas tombam longe, em longínquos jardins.
Em silêncio, vives a infância de teus olhos
e, morto, és tão puro que te tornas menino.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
As cousas não param. Elas fluem, inquietas,
como velhos rios soluçantes. As flores
que apenas sonhamos em frutos se tornaram.
Sazonar, eis o destino. Porém, não esquecer
a promessa de flores nas sementes dos frutos,
o rosto de teu pai na face do teu filho,
as ondas que voltam sobre as mesmas praias,
noivas desconhecidas a cada novo encontro.
As cousas fluem, não param. As folhas nascem,
as folhas tombam longe, em longínquos jardins.
Em silêncio, vives a infância de teus olhos
e, morto, és tão puro que te tornas menino.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
1 920
Eudoro Augusto
Pelo Telefone
Você me liga querendo saber
o que estou fazendo neste exato minuto.
Ando meio agitado.
Neste exato minuto estou consertando a janela
que ficou torta desde a morte de Amélia.
Estou no terceiro Cutty Sark
e devendo um monte de grana.
Pior que a janela continua torta
e Amélia continua morta.
Meu amigo foi demitido anteontem
por um babaca que era oposição
mas hoje não é mais não.
Agora mesmo aquela mesma idéia
volta a sacudir minha cabeça
e não consegue transformar-se em nada.
Uma idéia não quer dizer nada.
Sou um projeto muito arriscado.
Acho que vou desligar.
A respeito do velho mestre
a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.
Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.
Vou desligar.
A melhor coisa é o intervalo preciso
entre as emoções mais fortes.
Só duas ou três, como nos bons filmes.
Neste momento
procuro encontrar no escuro
o outro par do meu olhar perdido.
Neste exato minuto
estou comendo o fio do telefone.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
o que estou fazendo neste exato minuto.
Ando meio agitado.
Neste exato minuto estou consertando a janela
que ficou torta desde a morte de Amélia.
Estou no terceiro Cutty Sark
e devendo um monte de grana.
Pior que a janela continua torta
e Amélia continua morta.
Meu amigo foi demitido anteontem
por um babaca que era oposição
mas hoje não é mais não.
Agora mesmo aquela mesma idéia
volta a sacudir minha cabeça
e não consegue transformar-se em nada.
Uma idéia não quer dizer nada.
Sou um projeto muito arriscado.
Acho que vou desligar.
A respeito do velho mestre
a melhor coisa ainda é o livro do Truffaut.
Eu tinha, mas emprestei pra Martinha.
Vou desligar.
A melhor coisa é o intervalo preciso
entre as emoções mais fortes.
Só duas ou três, como nos bons filmes.
Neste momento
procuro encontrar no escuro
o outro par do meu olhar perdido.
Neste exato minuto
estou comendo o fio do telefone.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
970
Antônio Barreto
Peixe
é
uma
pedra
que eu
vejo viva
entre as águas
molhando a linha
torta do horizonte
e não o peixe
que sustenta
algo táctil
entre
nós
e
não
será mais
necessário
despertar-lhe
o sonho o sono
o limo o cheiro
o ar porque
o talvez
só assim entenda o rio
que a pedra o peixe e o vento são apenas
pequenos enigmas que o silêncio e a água
não sabem decifrar
In: BARRETO, Antônio. Isca de pássaro é peixe na gaiola: pequeno concerto para realejo, caniço & vitrola. Il. Débora Camisasca. 2.ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1990. p.24. (Rimas). Poema integrante da série Isca de Peixe É o Silêncio.
uma
pedra
que eu
vejo viva
entre as águas
molhando a linha
torta do horizonte
e não o peixe
que sustenta
algo táctil
entre
nós
e
não
será mais
necessário
despertar-lhe
o sonho o sono
o limo o cheiro
o ar porque
o talvez
só assim entenda o rio
que a pedra o peixe e o vento são apenas
pequenos enigmas que o silêncio e a água
não sabem decifrar
In: BARRETO, Antônio. Isca de pássaro é peixe na gaiola: pequeno concerto para realejo, caniço & vitrola. Il. Débora Camisasca. 2.ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1990. p.24. (Rimas). Poema integrante da série Isca de Peixe É o Silêncio.
1 562
Antônio Barreto
Por Motivo de Mudança
Oferece-se
em liquidação
e por necessária deposição de armas
o cheiro absurdo das máquinas
nenhuma fonte
nenhum vôo
de ave livre sobre as cidades
Oferece-se
a preços módicos
e absoluta falta de outros motivos
o carbono das noites
que foram escritas no peito
onde alguém se esqueceu
de ficar
O abandono de velhas músicas
um álbum de fotografias
um dicionário insonte
e uma folha em branco
Por não ter mais o que malhar
oferece-se
apenas o carvão das oficinas
e um coração que já não molda
o aço
nem mais rebate
nas bigornas
Oferece-se, enfim, por motivo de mudança,
a gaiola das metáforas
o poleiro das imagens
e a porta das palavras
(a chave escondida no fundo do espelho)
E por último, por falta de endereço,
— o poeta mudou de ramo —
oferece-se
dez musas mal cantadas
o pistilo dos deuses
o alçapão dos demônios
e o alpiste dos anjos.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.33-34. Poema integrante da série Revelações do Abismo
em liquidação
e por necessária deposição de armas
o cheiro absurdo das máquinas
nenhuma fonte
nenhum vôo
de ave livre sobre as cidades
Oferece-se
a preços módicos
e absoluta falta de outros motivos
o carbono das noites
que foram escritas no peito
onde alguém se esqueceu
de ficar
O abandono de velhas músicas
um álbum de fotografias
um dicionário insonte
e uma folha em branco
Por não ter mais o que malhar
oferece-se
apenas o carvão das oficinas
e um coração que já não molda
o aço
nem mais rebate
nas bigornas
Oferece-se, enfim, por motivo de mudança,
a gaiola das metáforas
o poleiro das imagens
e a porta das palavras
(a chave escondida no fundo do espelho)
E por último, por falta de endereço,
— o poeta mudou de ramo —
oferece-se
dez musas mal cantadas
o pistilo dos deuses
o alçapão dos demônios
e o alpiste dos anjos.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.33-34. Poema integrante da série Revelações do Abismo
1 346
Gilberto Mendonça Teles
Era um moinho sem vento
Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 943
Eudoro Augusto
Meu Brasil Brasileiro
Que uma lua mais verde
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
venha libertar nossos olhos enredados
da indiferença amarela
que ora habitamos.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera.
NOTA: O título do poema é um verso da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barros
1 412
José Bonifácio, o Moço
A Camões
Entre dois sonhos — lida mal sonhada —
De fantasias mil a fantasia
Viveu, como sua alma desvivia
De seus fundos cuidados mal cuidada.
Em lembrança da pátria deslembrada
A glória sua e a glória dela erguia;
Escura noite lhe surgira um dia
Na viva luz da formosura amada.
Partido o coração, a alma partida
Naqueles sonhos, vasta imensidade,
Era-lhe a vida morte e a morte, vida!
Hoje renasce a imortal saudade:
Tem nos versos a pátria aos céus erguida,
E o seu amor num templo — a eternidade.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado na Revista Brasileira, 10 jun. 188
De fantasias mil a fantasia
Viveu, como sua alma desvivia
De seus fundos cuidados mal cuidada.
Em lembrança da pátria deslembrada
A glória sua e a glória dela erguia;
Escura noite lhe surgira um dia
Na viva luz da formosura amada.
Partido o coração, a alma partida
Naqueles sonhos, vasta imensidade,
Era-lhe a vida morte e a morte, vida!
Hoje renasce a imortal saudade:
Tem nos versos a pátria aos céus erguida,
E o seu amor num templo — a eternidade.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado na Revista Brasileira, 10 jun. 188
1 518