Poemas neste tema
Alma
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Nuvem cor de rosa
Passaste como nuvem cor de rosa
no firmamento azul, em horas mansas.
Da graça, comovida e luminosa,
retrataste a doçura das lembranças.
E conduziste os sonhos meus, formosa,
e acentelha de afeto, em que descansas.
Talvez sejas feliz, ou inditosa,
tu que levaste as minhas esperanças.
Fico-me só. Sozinho, e suave, e triste...
Mas, neste peito, há vibrações sadias
do que foi, e será, e agora existe...
Cardos e flores, com que o ser se junca,
resultam, pela vida, em harmonias,
se o amor, no coração, não morre nunca.
no firmamento azul, em horas mansas.
Da graça, comovida e luminosa,
retrataste a doçura das lembranças.
E conduziste os sonhos meus, formosa,
e acentelha de afeto, em que descansas.
Talvez sejas feliz, ou inditosa,
tu que levaste as minhas esperanças.
Fico-me só. Sozinho, e suave, e triste...
Mas, neste peito, há vibrações sadias
do que foi, e será, e agora existe...
Cardos e flores, com que o ser se junca,
resultam, pela vida, em harmonias,
se o amor, no coração, não morre nunca.
822
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
A que não veio
Setembro. Nesta noite perfumada
espero-te. E não sei se vens, ao certo.
Pode ser que te percas pela estrada,
temerosa da chama que te oferto.
Neste leito - sozinho, inquieto. E cada
rumor que ouço, me torna mais desperto.
Iluzão...Não chegaste, minha amada,
nem me troxeste o níveo seio aberto.
Já se adelgaça a névoa dos caminhos.
Ante a luz matinal, que se anuncia,
há bulícios e músicas nos ninhos.
E eu, taciturno, mas, em ti pensando,
fecho os olhos cansados para o dia
como quem fica ainda te esperando.
espero-te. E não sei se vens, ao certo.
Pode ser que te percas pela estrada,
temerosa da chama que te oferto.
Neste leito - sozinho, inquieto. E cada
rumor que ouço, me torna mais desperto.
Iluzão...Não chegaste, minha amada,
nem me troxeste o níveo seio aberto.
Já se adelgaça a névoa dos caminhos.
Ante a luz matinal, que se anuncia,
há bulícios e músicas nos ninhos.
E eu, taciturno, mas, em ti pensando,
fecho os olhos cansados para o dia
como quem fica ainda te esperando.
873
Marcelo Tápia
pedreira
para Paulo Leminski
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda
mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo
pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente
ascensão e queda
no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago
iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender
aos céus
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda
mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo
pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente
ascensão e queda
no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago
iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender
aos céus
1 071
Severiano de Resende
Bellua
Como, neste lagoal surdo, surde elétrica e lesta
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
670
José Carlos Souza Santos
As Canções de Amor
Poema I
Amor,
porque te consigo imaginar
o gosto da boca,
a força dos braços,
o calor do corpo,
porque te consigo imaginar
a luz do olhar
o pulsar do peito
o faminto desejo
me dou,
em tremor profundo,
ainda que me desmanche
inteira
em seiva, gemidos, sussurros,
me tornando dessa maneira
em alguns versos do nosso
livro ...
Poema II
Em minhas mãos,
entregaste o corpo alvo
e nu ,
de incenso e mirra esquecido,
permitindo tatuar o vale
com a lava do vulcão
amanhecido
juntos, derramados os pudores em
branda taça,
um torpor de vinhos nos cimos
duros, debruçado o grito em tua âncora,
meu espanto findo
Iniciando escrever o livro
transfiro em ti a minha força, vinda
do vermelho das ameixas
roxas,
quando teu corpo sobre o meu
derramado, calar a sede da serpente
hirta.
Na página primeira escrita
à memória do milenar gozo
no alvo corpo a escorrida lava
desmente a aridez da futura estrada.
Poema III
Porque te amo
me divido, e em mim se multiplica
o que antes sem saber
subtraído me havia.
Do cântaro no peito ressecado
renasceu a flor que não morrera,
pois que estava em nós, e não
sabíamos
pois que nos lambera, e não
sentíamos.
O teu rosto desconhecido perpetua a
chama , que no peito ainda ardia.
Porque te amo
louco me derramo, corajoso e vasto
entre as lavas do teu vulcão em
chamas,
e nos teus olhos me revejo
cálice, âmbula, patena e sacrário
inteira catedral de êxtase erguida
Nos teus braços
do cansaço me exilo,
ao longe numa curva do caminho,
vejo
o meu retrato de ontens pendurado,
do riso frouxo que da boca se me
expande,
o silêncio pleno de vidraças que se
abrem.
Em tua boca, gestamos nosso
vinho
no seio túmido, a flor que
embriaga,
em nosso gozo,
um poema de Hilda Hilst.
Poema IV
À sombra do pessegueiro,
aconchegada no meu peito
em silêncio, a solidão
urdia o caminho dos nossos passos
nos mails tímidos, travados
na virtual estrada descoberta
Tomei para mim o teu ardor
de fome de ontens tecida,
tomei toda a febre das tuas dores,
tomei-a em júbilo até o apagar
das tuas cinzas, de nomes esquecidas
Passo a passo ensaiei, cingir
em grilhões a desesperança
e nos dividimos para sermos únicos
Poema V - O Recado
Estarei ausente da tua ceia, mas deixo o pão em beijo transformado,
e mesmo que as minhas bússolas,
navegassem rotas,
encontrariam a sombra do
pessegueiro azul em teu corpo
refletido.
Dos astrolábios tantos
que nos guiaram os passos
de quilhas, conveses e tombadilhos
que nos encheram os sonhos,
estarei na milenar memória das tuas
mãos
na hora de cortares o pão,
e no cálice ausente, de vinhos e
ontens sorvido
Espera-me amor!
abre a janela e me deixa ver refletida
a tua luz.
A estrela que me guia os passos
enlouquecida de sombras,
haverá de reconhecer o teu sinal
e o advento estará em nossas mãos,
... lúdicas mãos,
de amanhãs tecida.
Poema VI
Chove lá fora,
na minha janela
a chuva insiste em dizer
que por um momento,
me exilei de você
Caiu a linha,
lá fora é noite fria
e sem estrelas onde vê-la
Nesse instante
carrego a solidão do mundo
lembro do teu riso
ao dizer-me manco
e lembro do teu pranto
ao incomentar a renda preta
Ainda chove lá fora
pe é estranho... não somos os
dois a sentir o frio.
Poema VII
Tens no seio nu
o segredo das minhas algemas
e do incansável galopar do meu
corcel
na busca embriagada do teu mel,
porque não me basta
a memória escrita do teu rosto,
nem me alcança
as janelas abertas
onde derramamos nossa solidão, e
ainda que por mil anos
galope a crina azul do meu cavalo,
o meu segredo
inatingível em tuas mãos,
escutará somente o arpejo
de correntes,
desandadas em tua busca.
Poema VIII
Porque me sabe a boca
o teu gosto, por dentro e fora
revelado,
em nuvens meus sentidos
se desfaz, enquanto sacralizo o vinho
amanhecido na tua concha pérola
Porque te descobri me deixei ficar
nas tuas ilhas, conquistado,
e me fiz pescador , dos teus silêncios,
dos frêmitos esquecidos
no tremor da carne nua, e
porque me sabe a boca o teu gosto,
te faço um poema com o sabor da lava
escorrida no meu peito.
Sinto o grito do vulcão
em minha língua enternecido,
e o rio desaflito em plena noite derramado
nas correntezas do prazer e da poesia
Me toma, conquistado por querer,
me leva, e me perde no teu canto,
deixe que sepulte o meu inferno
e esqueça a ira dos mares navegados,
renasça em mim o brilho do anjo e do demônio
igualmente opostos na carne da mesma carne,
me faça em carneiro e lã, ou musgo em cama macia,
me deite, me nine, ordene,
me ame, me ame, me ame.
Amor,
porque te consigo imaginar
o gosto da boca,
a força dos braços,
o calor do corpo,
porque te consigo imaginar
a luz do olhar
o pulsar do peito
o faminto desejo
me dou,
em tremor profundo,
ainda que me desmanche
inteira
em seiva, gemidos, sussurros,
me tornando dessa maneira
em alguns versos do nosso
livro ...
Poema II
Em minhas mãos,
entregaste o corpo alvo
e nu ,
de incenso e mirra esquecido,
permitindo tatuar o vale
com a lava do vulcão
amanhecido
juntos, derramados os pudores em
branda taça,
um torpor de vinhos nos cimos
duros, debruçado o grito em tua âncora,
meu espanto findo
Iniciando escrever o livro
transfiro em ti a minha força, vinda
do vermelho das ameixas
roxas,
quando teu corpo sobre o meu
derramado, calar a sede da serpente
hirta.
Na página primeira escrita
à memória do milenar gozo
no alvo corpo a escorrida lava
desmente a aridez da futura estrada.
Poema III
Porque te amo
me divido, e em mim se multiplica
o que antes sem saber
subtraído me havia.
Do cântaro no peito ressecado
renasceu a flor que não morrera,
pois que estava em nós, e não
sabíamos
pois que nos lambera, e não
sentíamos.
O teu rosto desconhecido perpetua a
chama , que no peito ainda ardia.
Porque te amo
louco me derramo, corajoso e vasto
entre as lavas do teu vulcão em
chamas,
e nos teus olhos me revejo
cálice, âmbula, patena e sacrário
inteira catedral de êxtase erguida
Nos teus braços
do cansaço me exilo,
ao longe numa curva do caminho,
vejo
o meu retrato de ontens pendurado,
do riso frouxo que da boca se me
expande,
o silêncio pleno de vidraças que se
abrem.
Em tua boca, gestamos nosso
vinho
no seio túmido, a flor que
embriaga,
em nosso gozo,
um poema de Hilda Hilst.
Poema IV
À sombra do pessegueiro,
aconchegada no meu peito
em silêncio, a solidão
urdia o caminho dos nossos passos
nos mails tímidos, travados
na virtual estrada descoberta
Tomei para mim o teu ardor
de fome de ontens tecida,
tomei toda a febre das tuas dores,
tomei-a em júbilo até o apagar
das tuas cinzas, de nomes esquecidas
Passo a passo ensaiei, cingir
em grilhões a desesperança
e nos dividimos para sermos únicos
Poema V - O Recado
Estarei ausente da tua ceia, mas deixo o pão em beijo transformado,
e mesmo que as minhas bússolas,
navegassem rotas,
encontrariam a sombra do
pessegueiro azul em teu corpo
refletido.
Dos astrolábios tantos
que nos guiaram os passos
de quilhas, conveses e tombadilhos
que nos encheram os sonhos,
estarei na milenar memória das tuas
mãos
na hora de cortares o pão,
e no cálice ausente, de vinhos e
ontens sorvido
Espera-me amor!
abre a janela e me deixa ver refletida
a tua luz.
A estrela que me guia os passos
enlouquecida de sombras,
haverá de reconhecer o teu sinal
e o advento estará em nossas mãos,
... lúdicas mãos,
de amanhãs tecida.
Poema VI
Chove lá fora,
na minha janela
a chuva insiste em dizer
que por um momento,
me exilei de você
Caiu a linha,
lá fora é noite fria
e sem estrelas onde vê-la
Nesse instante
carrego a solidão do mundo
lembro do teu riso
ao dizer-me manco
e lembro do teu pranto
ao incomentar a renda preta
Ainda chove lá fora
pe é estranho... não somos os
dois a sentir o frio.
Poema VII
Tens no seio nu
o segredo das minhas algemas
e do incansável galopar do meu
corcel
na busca embriagada do teu mel,
porque não me basta
a memória escrita do teu rosto,
nem me alcança
as janelas abertas
onde derramamos nossa solidão, e
ainda que por mil anos
galope a crina azul do meu cavalo,
o meu segredo
inatingível em tuas mãos,
escutará somente o arpejo
de correntes,
desandadas em tua busca.
Poema VIII
Porque me sabe a boca
o teu gosto, por dentro e fora
revelado,
em nuvens meus sentidos
se desfaz, enquanto sacralizo o vinho
amanhecido na tua concha pérola
Porque te descobri me deixei ficar
nas tuas ilhas, conquistado,
e me fiz pescador , dos teus silêncios,
dos frêmitos esquecidos
no tremor da carne nua, e
porque me sabe a boca o teu gosto,
te faço um poema com o sabor da lava
escorrida no meu peito.
Sinto o grito do vulcão
em minha língua enternecido,
e o rio desaflito em plena noite derramado
nas correntezas do prazer e da poesia
Me toma, conquistado por querer,
me leva, e me perde no teu canto,
deixe que sepulte o meu inferno
e esqueça a ira dos mares navegados,
renasça em mim o brilho do anjo e do demônio
igualmente opostos na carne da mesma carne,
me faça em carneiro e lã, ou musgo em cama macia,
me deite, me nine, ordene,
me ame, me ame, me ame.
1 066
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Pátria
Vasto no solo, forte pela raça,
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
na livre América um país prospera.
E desde os Guararapes o encouraça
o nume do valor que retempera.
Os conceitos pacíficos abraça,
e no labor refaz a sua esfera.
Dando o exemplo benéfico, sem jaça,
na norma da igualdade persevera.
Altos cimos de luz que a fé redoura !
Do belo e verdadeiro na confiança,
a justiça reside, imorredoura.
É esse país, que a humanidade inteira
contem no coração e na esperança,
outro não é que a pátria brasileira.
975
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
A que revive
Não me culpes. Amor, nos teus pesares,
nem aumentes, por mim, as tuas dores.
Acamponham-te sempre os meus cismares
e o espírito solícito, aonde fores.
Se ouvires cantilenas pelos ares,
em dias claros e reveladores,
imagina-as quais ondas singulares
de carícias, que envio como flores.
E se vires, em noites silenciosas
- e olhos fechados, como adormecida -
entrar alguém de formas vaporosas,
aconchega-o, amor, na soledade,
e prolonga, no sonho, a tua vida,
revivendo nos beijos de saudade.
nem aumentes, por mim, as tuas dores.
Acamponham-te sempre os meus cismares
e o espírito solícito, aonde fores.
Se ouvires cantilenas pelos ares,
em dias claros e reveladores,
imagina-as quais ondas singulares
de carícias, que envio como flores.
E se vires, em noites silenciosas
- e olhos fechados, como adormecida -
entrar alguém de formas vaporosas,
aconchega-o, amor, na soledade,
e prolonga, no sonho, a tua vida,
revivendo nos beijos de saudade.
791
Tereza Cristina Fraga
Querendo
O sol penetra
Traz as pessoas para começar o dia.
As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.
Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.
Sobre um céu
Dentro da terra
E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.
Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.
Traz as pessoas para começar o dia.
As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.
Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.
Sobre um céu
Dentro da terra
E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.
Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.
834
José Carlos Souza Santos
A Visão
Mirei-me na profundeza
dos teus olhos
negros
e desejei-me Senhor
do tempo
Vi-me alado nas tuas crinas
e o mar de desejos
por onde cavalgávamos
transformava cúmplice a branca espuma
em dossel carmin
dos teus olhos
negros
e desejei-me Senhor
do tempo
Vi-me alado nas tuas crinas
e o mar de desejos
por onde cavalgávamos
transformava cúmplice a branca espuma
em dossel carmin
889
Salette Tavares
Amor Silêncio
Amor silêncio amargo a roçar-me a morte
grito partido do vidro sobre o peito
ilha deserta no meio das capitais do norte
grilhetas ajustadas no rio em que me deito.
Distância cumulada remanso duma espera
ponte de aventura do dois à unidade
amor brilho raiando a chave do desejo
minuto adormecido ao pé da eternidade.
Amor tempo suspenso, ó lânguido receio,
no pranto do meu canto és a presença forte
estame estremecido dissimulado anseio
amor milagre gesto incandescente porte.
Amor olhos perdidos a riscar desenhos
em largo movimento o espaço circular
amor segundo breve, lanceta, tempo eterno
no rápido castigo da lua a gotejar.
grito partido do vidro sobre o peito
ilha deserta no meio das capitais do norte
grilhetas ajustadas no rio em que me deito.
Distância cumulada remanso duma espera
ponte de aventura do dois à unidade
amor brilho raiando a chave do desejo
minuto adormecido ao pé da eternidade.
Amor tempo suspenso, ó lânguido receio,
no pranto do meu canto és a presença forte
estame estremecido dissimulado anseio
amor milagre gesto incandescente porte.
Amor olhos perdidos a riscar desenhos
em largo movimento o espaço circular
amor segundo breve, lanceta, tempo eterno
no rápido castigo da lua a gotejar.
1 607
Sílvia Rocha
Haicai
chuva de verão
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
1 002
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Do eterno motivo
Quando nasceu o amor na humanidade,
os símbolos do mal foram fugindo.
A fonte redentora, que persuade,
fixou à vida seu poder benvindo.
Nós surgimos da dor para a bondade,
do sono obscuro para o sonho lindo.
Tal a mudez ambiente que se evade,
ante acordes pruríssimos, defluindo.
A atração seletiva configura
o enlevo ascensional da primazia,
na graça, na beleza, na ternura...
E, unida à idéia a fórmula corpórea,
o amor por entre os seres se anuncia
para a perpetuidade, além da glória.
os símbolos do mal foram fugindo.
A fonte redentora, que persuade,
fixou à vida seu poder benvindo.
Nós surgimos da dor para a bondade,
do sono obscuro para o sonho lindo.
Tal a mudez ambiente que se evade,
ante acordes pruríssimos, defluindo.
A atração seletiva configura
o enlevo ascensional da primazia,
na graça, na beleza, na ternura...
E, unida à idéia a fórmula corpórea,
o amor por entre os seres se anuncia
para a perpetuidade, além da glória.
828
Salette Tavares
Enigma Lua
Esqueceste
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
1 555
Salette Tavares
Espelho Cego
Eu leio o meu destino nos jornais.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.
Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.
Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.
1 857
José Carlos Souza Santos
O Romanceiro
Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
acesos no meu caminho
um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro
Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim
um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé
Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei
Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho
e lançaste o pregão ao vento :
- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos
- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido
Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido
- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito
O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro
- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar
- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho
- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto
- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado
- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear
- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam
- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor
Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce
Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã
Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres
Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas
- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade
- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados
- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento
Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas
As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído
Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver
- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia
Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz
- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito
1 147
Tasso da Silveira
Poema 17
Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.
Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...
Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,
foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.
Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...
Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,
foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...
1 087
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Mátria
Terra natal, formosa entre as formosas,
abriste para nós a tua luz.
Nesse teu seio, trescalante a rosas,
existe um povo altivo que seduz.
As fibras imortais e generosas
daqueles que te honraram, faze, flux,
que as imitem, viris e justiçosas,
no culto à liberdade que transluz.
O’ gleba de operários e guerreiros !
No trabalho geral ou na cultura,
ante a paz, nunca fomos derradeiros.
Tu, Alagoas, que o valor constróis,
orgulha-te de ler a história pura:
nos campos de batalha - teus heróis.
( datados de novembro de 1956)
abriste para nós a tua luz.
Nesse teu seio, trescalante a rosas,
existe um povo altivo que seduz.
As fibras imortais e generosas
daqueles que te honraram, faze, flux,
que as imitem, viris e justiçosas,
no culto à liberdade que transluz.
O’ gleba de operários e guerreiros !
No trabalho geral ou na cultura,
ante a paz, nunca fomos derradeiros.
Tu, Alagoas, que o valor constróis,
orgulha-te de ler a história pura:
nos campos de batalha - teus heróis.
( datados de novembro de 1956)
871
Sérgio de Castro Pinto
3 X 4
entro na fotografia
como quem do mundo
se homizia.
sem livrar o flagrante.
(instantâneo eu sei que sou
neste mundo lambe-lambe).
como quem do mundo
se homizia.
sem livrar o flagrante.
(instantâneo eu sei que sou
neste mundo lambe-lambe).
1 096
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Dos rios
Os rios nascem. É um filete, antes, revel,
ou provenha de fonte, ou mesmo de geleira:
mas, alongando o curso, emerge undoso mel
que, agora, largo, investe...e o trajeto aligeira...
Eles vivem. Por isso, a existêencia a tropel
de emoções se reduz, através da carreira:
vezes, são areias que os tragam - lei cruel:
vezes, um lago os prende a afeição derradeira.
Mas, se alcançam delir, com todo o zêlo insano,
os riscos do percurso, ei-los fortes, bravios,
premendo, delirando os seios nus do oceano !
- Homem, ama ! a paixão te exalte sem cessar !
Pois é só por amor que as águas destes rios
vão correndo...correndo...em busca do mar !
ou provenha de fonte, ou mesmo de geleira:
mas, alongando o curso, emerge undoso mel
que, agora, largo, investe...e o trajeto aligeira...
Eles vivem. Por isso, a existêencia a tropel
de emoções se reduz, através da carreira:
vezes, são areias que os tragam - lei cruel:
vezes, um lago os prende a afeição derradeira.
Mas, se alcançam delir, com todo o zêlo insano,
os riscos do percurso, ei-los fortes, bravios,
premendo, delirando os seios nus do oceano !
- Homem, ama ! a paixão te exalte sem cessar !
Pois é só por amor que as águas destes rios
vão correndo...correndo...em busca do mar !
941
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
Das montanhas
As montanhas, que vês, são rasgos de conquistas,
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.
E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...
As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...
E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.
- o arroubo mineral às alturas supremas.
Elas trazem no seio a centêlha imprevista
da persistência ideal a refulgir em poemas.
E sempre as convulsiona o gênio imperialista
do domínio rochaz as ascensões extremas.
Daí, por elas só - armas que a força enrista -
a audácia dos vulcões, dos aludes, das gemas...
As montanhas - palor nevado, a espaços... longes
branqueamentos sem fim nas cristas milenárias:
a sombra dos heróis, dos mártires, dos monges...
E, ao vencer a distância, o mistério da morte,
ei-las dentro do Sonho, altivas, legendárias,
ensinando a ser nobre, a ser grande, a ser forte !
.
764
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
A que deixa posteridade
Quando contemplo as rugas do teu rosto,
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
902
Rodrigo Carvalho
Súplica
É noite.
Deitei-me triste e vazio.
Procurei uma fuga,
no vasto mundo dos sonhos.
Enganei-me.
Minha vida não mudou enquanto eu dormia.
Estou entregue à amargura, ao sofrimento.
Minha alma agora sofre,
meu coração está sedento.
Como dói relembrar cada momento!
A minha vontade, agora, é de gritar.
Gritar minhas desesperanças!
Gritar minhas desgraças!
Mas a vida é breve, a vida é vã,
como uma borboleta que passa. . .
Mas tenho que sofrer sem um murmúrio sequer.
Meus olhos banham-se na pureza de minhas lágrimas.
E faço silêncio.
Um silêncio tão intenso,
a ponto de perder-me,
na minha mudez aterrorizada.
Entenda, mundo insano!!
Hoje, respiro um ar sôfrego
e expiro tristeza.
A decepção dói no meu corpo.
Poupem-me, ainda que por um momento!!
Não afastem-se de mim,
temendo a minha revolta!
Não retirem-se da minha presença,
desprezando o meu silêncio,
pois que neste silêncio,
revela-se o mal da minha existência. . .
Deitei-me triste e vazio.
Procurei uma fuga,
no vasto mundo dos sonhos.
Enganei-me.
Minha vida não mudou enquanto eu dormia.
Estou entregue à amargura, ao sofrimento.
Minha alma agora sofre,
meu coração está sedento.
Como dói relembrar cada momento!
A minha vontade, agora, é de gritar.
Gritar minhas desesperanças!
Gritar minhas desgraças!
Mas a vida é breve, a vida é vã,
como uma borboleta que passa. . .
Mas tenho que sofrer sem um murmúrio sequer.
Meus olhos banham-se na pureza de minhas lágrimas.
E faço silêncio.
Um silêncio tão intenso,
a ponto de perder-me,
na minha mudez aterrorizada.
Entenda, mundo insano!!
Hoje, respiro um ar sôfrego
e expiro tristeza.
A decepção dói no meu corpo.
Poupem-me, ainda que por um momento!!
Não afastem-se de mim,
temendo a minha revolta!
Não retirem-se da minha presença,
desprezando o meu silêncio,
pois que neste silêncio,
revela-se o mal da minha existência. . .
972
Sérgio Milliet
Oh Valsa Latejante
Oh valsa latejante. . .
O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.
Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia
O espezinhamento usa batom
Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...
O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso
Oh valsa latejante...
O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.
Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia
O espezinhamento usa batom
Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...
O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso
Oh valsa latejante...
1 799
Scarlett Maciel
Variações
De novo,
Me vem à alma essa fome de palavras
Que não existe em mim.
Essa busca envolvida na tão companheira insônia.
Vazio repleto de ânsia.
Pelo quê?
Mundo?
Vida?
E é sempre o amor que vem de mim.
Por mim,
Pela minha alma.
Não existe outra base.
Acabo de ver Rimbaud.
Todos os escritores deveriam nascer mortos!
Será a felicidade,
Exatamente escondida,
À espera do bote,
Atrás da loucura, insanidade d’alma?
Me vejo em tantas coisas, lugares.
Principalmente palavras e sentimentos alheios.
Dentro de loucura, depressão, tristeza...
Sempre isso.
Não muda.
E é sempre a mesma fome por o desconhecido.
Vontade de falar o que não sinto.
Mostrar e fazer brilhar no coração do mundo
A minha ever confusa pessoa.
Tão cheia de teorias
Que nunca acham o caminho da prática.
E o desespero não vem!
Será você o meu anjo,
que dorme agora?
Essa fúria de pensar...
Mas não me sai nada
E o coração já não agüenta.
Precisa de ar.
O frio lá de fora não me atinge a alma nesse segundo.
Parado no tempo
Sei que não resiste.
É muito!
E com toda esta fome o medo não vem.
Estou só (sem ele)
Pela mesma sentença de sempre.
Carregar a fome das palavras nas costas
E devorá-las sem tomar.
Nem eu vejo.
É ato superior.
Me vem à alma essa fome de palavras
Que não existe em mim.
Essa busca envolvida na tão companheira insônia.
Vazio repleto de ânsia.
Pelo quê?
Mundo?
Vida?
E é sempre o amor que vem de mim.
Por mim,
Pela minha alma.
Não existe outra base.
Acabo de ver Rimbaud.
Todos os escritores deveriam nascer mortos!
Será a felicidade,
Exatamente escondida,
À espera do bote,
Atrás da loucura, insanidade d’alma?
Me vejo em tantas coisas, lugares.
Principalmente palavras e sentimentos alheios.
Dentro de loucura, depressão, tristeza...
Sempre isso.
Não muda.
E é sempre a mesma fome por o desconhecido.
Vontade de falar o que não sinto.
Mostrar e fazer brilhar no coração do mundo
A minha ever confusa pessoa.
Tão cheia de teorias
Que nunca acham o caminho da prática.
E o desespero não vem!
Será você o meu anjo,
que dorme agora?
Essa fúria de pensar...
Mas não me sai nada
E o coração já não agüenta.
Precisa de ar.
O frio lá de fora não me atinge a alma nesse segundo.
Parado no tempo
Sei que não resiste.
É muito!
E com toda esta fome o medo não vem.
Estou só (sem ele)
Pela mesma sentença de sempre.
Carregar a fome das palavras nas costas
E devorá-las sem tomar.
Nem eu vejo.
É ato superior.
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