Poemas neste tema
Alma
Rainer Maria Rilke
A hora inclina-se
A hora inclina-se
e toca-me
com golpe claro,metálico:
Tremem-me os sentido.Sinto : eu posso-
e agarro o dia plástico.
Nenhuma coisa
era perfeita antes de eu a olhar,
todo o devir parara.
A cada um dos meus olhares,agora já maduros,
vem,como noiva,a coisa apetecida.
Nada é
pequeno para mim,e amo-o apesar de tudo
e pinto-o em fundo de ouro,e grande,
e ergo-o ao alto,e não sei a quem
libertará a alma...
e toca-me
com golpe claro,metálico:
Tremem-me os sentido.Sinto : eu posso-
e agarro o dia plástico.
Nenhuma coisa
era perfeita antes de eu a olhar,
todo o devir parara.
A cada um dos meus olhares,agora já maduros,
vem,como noiva,a coisa apetecida.
Nada é
pequeno para mim,e amo-o apesar de tudo
e pinto-o em fundo de ouro,e grande,
e ergo-o ao alto,e não sei a quem
libertará a alma...
1 354
Amparo Jimenez
Obsequio
(A Rosamaría)
Este orgasmo,
tan celosamente
guardado
para tí,
hoy,
amorosa,
lo entregué a mi mano.
Este orgasmo,
tan celosamente
guardado
para tí,
hoy,
amorosa,
lo entregué a mi mano.
1 270
Bocage
Arreitada donzela em fofo leito
Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachocho estreito.
De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.
A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.
Como é inda boçal, perder os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachocho estreito.
De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.
A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.
Como é inda boçal, perder os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.
3 922
Bocage
Se tu visses, Josino, a minha amada
Se tu visses, Josino, a minha amada,
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto,
Às mais formosas não inveja nada:
Na sua boca Vénus faz morada:
Nos olhos Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:
Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!
Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto,
Às mais formosas não inveja nada:
Na sua boca Vénus faz morada:
Nos olhos Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:
Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!
Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"
1 358
Walt Whitman
Uma mulher espera por mim
Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta,
No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando.
O sexo contém tudo, corpos, almas,
Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,
Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,
Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra,
Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra,
Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo.
Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo,
Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas.
Agora vou dispensar-me de mulheres frias,
Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem,
Vejo que me compreendem e não me negam,
Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres.
Elas não são em nada menos do que eu,
Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos,
A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia,
Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se,
São irrevogáveis quanto a seus direitos - são calmas, claras, seguras de si próprias.
Trago-as para perto de mim, vocês mulheres,
Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês,
Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros,
Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos,
Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu.
Sou eu, mulheres, faço meu caminho,
Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as,
Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês,
Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento,
Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas,
Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim.
Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo,
Em vocês contenho mil lágrimas progressivas,
Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América,
Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez,
Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso,
Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora,
Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou,
Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora.
No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando.
O sexo contém tudo, corpos, almas,
Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,
Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,
Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra,
Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra,
Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo.
Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo,
Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas.
Agora vou dispensar-me de mulheres frias,
Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem,
Vejo que me compreendem e não me negam,
Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres.
Elas não são em nada menos do que eu,
Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos,
A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia,
Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se,
São irrevogáveis quanto a seus direitos - são calmas, claras, seguras de si próprias.
Trago-as para perto de mim, vocês mulheres,
Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês,
Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros,
Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos,
Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu.
Sou eu, mulheres, faço meu caminho,
Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as,
Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês,
Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento,
Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas,
Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim.
Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo,
Em vocês contenho mil lágrimas progressivas,
Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América,
Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,
As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez,
Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso,
Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora,
Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou,
Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora.
1 999
Bocage
Esse disforme e rígido porraz
Esse disforme e rígido porraz
Do semblante me faz perder a cor;
E assombrado despanto e de terror
Dar mais de cinco passos para trás;
A espada do membrudo Ferrabraz
Decerto não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz
Creio que nas fodais recreações
Não te hão-de a rija máquina sofre
Os mais corridos, sórdidos cações:
De Vénus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções
É porra para mostrar, não de foder.
Do semblante me faz perder a cor;
E assombrado despanto e de terror
Dar mais de cinco passos para trás;
A espada do membrudo Ferrabraz
Decerto não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz
Creio que nas fodais recreações
Não te hão-de a rija máquina sofre
Os mais corridos, sórdidos cações:
De Vénus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções
É porra para mostrar, não de foder.
2 178
Augusto dos Anjos
Depois da orgia
O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!
Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.
Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,
Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!
Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.
Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,
Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!
2 704
Bocage
Cante a guerra quem for arrenegado
Cante a guerra quem for arrenegado,
Que eu nem palavra gastarei com ele;
Minha Musa será sem par canela
Coum felpudo coninho abraseado:
Aqui descreverei com arreitado
Num mar de bimbas navegando à vela,
Cheguei, propício o vento, à doce, àquela
Enseada dAmor, rei coroado:
Direi também os beijos sussurrantes,
Os intrincados nós das línguas ternas,
E o aturado fungar de dois amantes :
Estas glórias serão na fama eternas;
Às minhas cinzas me farão descantes
Fêmeos vindouros, alargando as pernas.
Que eu nem palavra gastarei com ele;
Minha Musa será sem par canela
Coum felpudo coninho abraseado:
Aqui descreverei com arreitado
Num mar de bimbas navegando à vela,
Cheguei, propício o vento, à doce, àquela
Enseada dAmor, rei coroado:
Direi também os beijos sussurrantes,
Os intrincados nós das línguas ternas,
E o aturado fungar de dois amantes :
Estas glórias serão na fama eternas;
Às minhas cinzas me farão descantes
Fêmeos vindouros, alargando as pernas.
1 553
Ernesto de Melo e Castro
Os erros de Eros
Eros olha o espelho e vê narciso arder
nas tetas insufladas um diabo qualquer
prolonga a se fusão do orgasmo
meus erros são meus erros
aqui presentes todos
nesta escrita de pernas
os penetro de fodas
circulares
que inadequados ais
ou dúvidas se alinham
nas sevícias venais
dos polícias que tinham
nas tetas insufladas um diabo qualquer
prolonga a se fusão do orgasmo
meus erros são meus erros
aqui presentes todos
nesta escrita de pernas
os penetro de fodas
circulares
que inadequados ais
ou dúvidas se alinham
nas sevícias venais
dos polícias que tinham
1 178
Hilda Hilst
Aquele outro não via
Aquele Outro não via minha muita amplidão
Nada LHE bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma Fome irada e obsessiva?
Nada LHE bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)
Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma Fome irada e obsessiva?
1 480
Elisa Lucinda
Cor-respondência
Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que voce tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que voce tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito
ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.
1 767
Rainer Maria Rilke
Solidão
Não:
uma torre se faça do meu peito
e eu próprio seja posto à sua beira:
onde nada mais há,haja inda uma vez dores
e inefabilidade,mais uma vez mundo.
Mais uma coisa
só no desmedido,
que se faz escura e de novo se ilumina,
mais uma última,ansiosa face,
repelida para o nunca-alcalmável,
mais uma extrema
face de pedra,
dócil aos seus pesos interiores,
que as amplidões,que serenamente a aniquilam,
obrigam a ser sempre mais feliz.
(tradução
de Paulo Quintela)
uma torre se faça do meu peito
e eu próprio seja posto à sua beira:
onde nada mais há,haja inda uma vez dores
e inefabilidade,mais uma vez mundo.
Mais uma coisa
só no desmedido,
que se faz escura e de novo se ilumina,
mais uma última,ansiosa face,
repelida para o nunca-alcalmável,
mais uma extrema
face de pedra,
dócil aos seus pesos interiores,
que as amplidões,que serenamente a aniquilam,
obrigam a ser sempre mais feliz.
(tradução
de Paulo Quintela)
1 783
Paul Celan
ESTOU SOZINHO,coloco a flor de cinza
no corpo cheio de negrume amadurecido.Boca de irmã,
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa,o que eu sonhei,por mim acima.
Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico,atravessa o verão.
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa,o que eu sonhei,por mim acima.
Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico,atravessa o verão.
1 199
Paul Celan
DO AZUL
DO AZUL,que ainda busca o seu olho,bebo eu em primeiro lugar.
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos,pérola,e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas:o granizo preto da melancolia
cai num lenço,todo branco de dizer adeus.
(tradução
de João Barrento e y.k.Centeno)
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos,pérola,e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas:o granizo preto da melancolia
cai num lenço,todo branco de dizer adeus.
(tradução
de João Barrento e y.k.Centeno)
1 245
Chico Buarque
Amando sobre os jornais
Amando noite afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias
Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes
Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar
o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nosso olhos vidrados
De mistério
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogados fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias
Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes
Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar
o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nosso olhos vidrados
De mistério
1 499
Octavio Paz
Bajo tu clara sombra
Bajo tu clara sombra
vivo como la llama al aire,
en tenso aprendizaje de lucero.
vivo como la llama al aire,
en tenso aprendizaje de lucero.
1 471
Luiza Neto Jorge
E do Espanto II
consagraram-me
ao espanto
que de minúsculo há
no mar
e ímpar sobre a pele
criança
circuncidada a fogo e morte
(no céu da boca a memória absurda
das abóbadas)
mais
que na cidade
a matriz
dos arranha-céus líquidos
muito mais
que nos cartões
as clandestinas chagas
digitais
o espanto permanece
por frestas e
por ombros
qualquer
onde e
quando
de Quarta Dimensão
ao espanto
que de minúsculo há
no mar
e ímpar sobre a pele
criança
circuncidada a fogo e morte
(no céu da boca a memória absurda
das abóbadas)
mais
que na cidade
a matriz
dos arranha-céus líquidos
muito mais
que nos cartões
as clandestinas chagas
digitais
o espanto permanece
por frestas e
por ombros
qualquer
onde e
quando
de Quarta Dimensão
1 523
Luiza Neto Jorge
A cabeça em ambulância
Há feridas cíclicas
há violentos voosdentro de câmaras de ar
curvasferidas que se pensam de noitee rebentam pela
manhãou que de noite se abreme pela amanhã são
pensadascom todos os pensamentosque os órgãos são
hábeisem inventar como pensosligaduras
capacetessacramentoscom que se prende a cabeçaquando ela se nos
afastaquando ela nos pressenteem síncope ou
desnudamentoou num erro mais espaçosoou numa letra mais
mudaou na sala de torturana sala escura,de
infância
há violentos voosdentro de câmaras de ar
curvasferidas que se pensam de noitee rebentam pela
manhãou que de noite se abreme pela amanhã são
pensadascom todos os pensamentosque os órgãos são
hábeisem inventar como pensosligaduras
capacetessacramentoscom que se prende a cabeçaquando ela se nos
afastaquando ela nos pressenteem síncope ou
desnudamentoou num erro mais espaçosoou numa letra mais
mudaou na sala de torturana sala escura,de
infância
1 740
Natália Correia
A demiurgia do riso
E cada vez que celebrei o
Deus Riso floresceu em mim
um novo invento.
Cortaram-me os pulsos.Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
O ímpeto aéreo das águas secretas.
Partiram-me ao meio dizendo "é agora!"
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.
Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira à passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.
E os anjos à volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada nos cumes acesos:
Bandeira de tudo o que trago comigo.
de Passaporte(1958)
Deus Riso floresceu em mim
um novo invento.
Cortaram-me os pulsos.Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
O ímpeto aéreo das águas secretas.
Partiram-me ao meio dizendo "é agora!"
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.
Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira à passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.
E os anjos à volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada nos cumes acesos:
Bandeira de tudo o que trago comigo.
de Passaporte(1958)
2 263
Murillo Mendes
Pré-História
Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta, não mais olhou
Para mim, para ninguém:
Cai no álbum de retratos.
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta, não mais olhou
Para mim, para ninguém:
Cai no álbum de retratos.
2 552
José Augusto Seabra
Ícone
Cada lado de Deus tem a sua sombrailuminando a morte: a luz só
pousalevemente em seus ombros:entre a luz e a rosa,sobre a
sombrae a sombra
pousalevemente em seus ombros:entre a luz e a rosa,sobre a
sombrae a sombra
956
Luiza Neto Jorge
A casa do mundo
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:
1 983
Natália Correia
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
de Poemas (1955)
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
de Poemas (1955)
2 524
Murillo Mendes
A Cadeira Elétrica
Uma noite – talvez avisem no jornal –
Apertarei um botão no rochedo de carne,
O mar jorrará assim, aos borbotões,
Das minhas veias onde desliza modesto e manso, sem fazer barulho.
Alguém oferecerá o socorro das padiolas
Da terra vermelha, talvez não atenderei.
Várias figueiras murcharão de inveja,
Os clarins das vitrolas anunciarão inutilmente
Que estou morre não morre, ninguém escutará.
As árvores – noivas que eu nunca amei dia nenhum
Torcerão a cabeleira, as filhas do relâmpago
Virão me buscar – o noivo está chegando –,
Mas eu preferia que num canto anônimo do mundo
Alguma menina meiga e pensativa
Desfolhasse um malmequer em minha intenção.
Apertarei um botão no rochedo de carne,
O mar jorrará assim, aos borbotões,
Das minhas veias onde desliza modesto e manso, sem fazer barulho.
Alguém oferecerá o socorro das padiolas
Da terra vermelha, talvez não atenderei.
Várias figueiras murcharão de inveja,
Os clarins das vitrolas anunciarão inutilmente
Que estou morre não morre, ninguém escutará.
As árvores – noivas que eu nunca amei dia nenhum
Torcerão a cabeleira, as filhas do relâmpago
Virão me buscar – o noivo está chegando –,
Mas eu preferia que num canto anônimo do mundo
Alguma menina meiga e pensativa
Desfolhasse um malmequer em minha intenção.
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