Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Maria Inês Gambogi
Com tantos curtos casos
Com tantos curtos casos
Com dois amores admiráveis em mim
Com a fala sem muitos segundos
Com a morte absorta no viver
Com as feições todas
Com aquele ar de tudo às mãos
Bem visto,
sem revelação sem expiação
vou dando sem sobra sem sombra insólita
sem amor estranho
Cato sem vida conhecida o que não escapou
Cato sem amor conhecido
o que envelhecido, caiu
Cato atrozmente as aparências caídas
quedo como quem deve
como quem não oferece
sua humanidade a desejos em disputa
Sem amor conhecido
no mais sem ninguém em totalidade
Em atenção
qualquer coisa que cai eu sei
Silente vou indo como quem não vai
Inindentificada, surpreendo sem deslustre
os vãos devidos a este mundo de pessoas
Quero sem preito
Quero sem o amor conhecido por tanta gente
Descodifico e não me encabulo
Vivenciada em novidades
não forço o coração a repetidas forças
vou sendo o que menos se esperava
vou viva
deixando concretas as advinhações de ser.
Com dois amores admiráveis em mim
Com a fala sem muitos segundos
Com a morte absorta no viver
Com as feições todas
Com aquele ar de tudo às mãos
Bem visto,
sem revelação sem expiação
vou dando sem sobra sem sombra insólita
sem amor estranho
Cato sem vida conhecida o que não escapou
Cato sem amor conhecido
o que envelhecido, caiu
Cato atrozmente as aparências caídas
quedo como quem deve
como quem não oferece
sua humanidade a desejos em disputa
Sem amor conhecido
no mais sem ninguém em totalidade
Em atenção
qualquer coisa que cai eu sei
Silente vou indo como quem não vai
Inindentificada, surpreendo sem deslustre
os vãos devidos a este mundo de pessoas
Quero sem preito
Quero sem o amor conhecido por tanta gente
Descodifico e não me encabulo
Vivenciada em novidades
não forço o coração a repetidas forças
vou sendo o que menos se esperava
vou viva
deixando concretas as advinhações de ser.
692
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
782
1
Maria Rita Kehl
recurso
O método faz milagres.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.
O método tece uma teia ——
horários —— rotas de ônibus —— receitas ——
telefonemas na 6a. ——
caderninhos ——
quando a trama é bem firme e cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.
O método tece uma teia ——
horários —— rotas de ônibus —— receitas ——
telefonemas na 6a. ——
caderninhos ——
quando a trama é bem firme e cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.
1 098
1
António Manuel Couto Viana
Bandeira Rota
Eu chego sempre tarde quando chego;
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
1 483
1
Linhares Filho
Das Coisas
Meus cabelos captam a voz das coisas
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
637
1
Washington Queiroz
Sei que não me Amas
No entanto continuo azul,
Prússio: urso no horizonte
e violinos no coração.
Prússio: urso no horizonte
e violinos no coração.
1 009
1
David Mourão-Ferreira
Sala de Espera
Quem foi
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
4 715
1
Valéry Larbaud
Amnésia
Perdi toda memória do presente.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
Não sei quem sou, nem sei por onde mora
A mente que seguia vida afora
Contando para mim o que se sente.
Fugi de toda rua. Estou ausente
De mim, daqui e deste tempo agora.
Meu corpo disse adeus e foi-se embora
Deixando-me um soneto tão somente.
Recordo-me de mim: eu era louco,
Não costumava rir, falava pouco,
Mas foge-me o momento e o endereço.
E como não me lembro o que isso fosse,
Habito este papel, em que eu me trouxe
A mim, num me lembrar que logo esqueço.
1 026
1
Capinan
Poeta e Realidade
III
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
(Outra Didática)
Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.
Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.
Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.
Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.
VI
(A viagem lúcida)
De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.
Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.
Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.
Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.
1 422
1
Gregório de Matos
Soneto
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.
7 644
1
Ildásio Tavares
Água Brusca
Eis que de dentro de mim
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
Jorrou uma água brusca,
Ladeira abaixo, sem sonho,
Morrendo sem ter vivido, —
E eu, no espelho crucente
Das hortas de sempre fuga,
Tentei por detrás da fuga
Remover o meu retrato,
O resolver sempre falho,
Enxergar o que não via;
Mas cansado, sem relíquias,
Deixei que escorresse plena,
Que fosse na doida arena
Da areia se dissolver.
957
1
Capinan
De Não Ser, Sendo Constantemente
Não sou o mesmo de olhar vazio
e palavra sem conseqüência usada.
Andei pesando este medo
em interrogações do que seria o poeta
ante estruturas que o antecederam,
cercos de ferro, fechos de ferro, cercos.
No caminho de minha volta
esqueci canções, dupliquei memórias,
e aceito como verdade humana
que o homem é um caminho ao homem,
processo e pouso, caminhante e rota.
e palavra sem conseqüência usada.
Andei pesando este medo
em interrogações do que seria o poeta
ante estruturas que o antecederam,
cercos de ferro, fechos de ferro, cercos.
No caminho de minha volta
esqueci canções, dupliquei memórias,
e aceito como verdade humana
que o homem é um caminho ao homem,
processo e pouso, caminhante e rota.
1 426
1
Fábio Afonso de Almeida
É só
Não me importa se vais,
Não tenho medo, é só.
O silêncio que restar
Junto com a solidão que ficou
E sufoco com decoro.
Náo quero chorar, é só.
Não foi eu que escolhi
O caminho que tomei.
Se não quero te perder,
Mas me perco no meu ego,
Mesmo assim eu me aceito,
Não tenho forças, é só.
Contudo, espero, não divago,
Apenas tenho pudor.
Se assim sou, não renego,
Tenho brios que sustentam.
Tenho apenas eu e é só.
Não tenho medo, é só.
O silêncio que restar
Junto com a solidão que ficou
E sufoco com decoro.
Náo quero chorar, é só.
Não foi eu que escolhi
O caminho que tomei.
Se não quero te perder,
Mas me perco no meu ego,
Mesmo assim eu me aceito,
Não tenho forças, é só.
Contudo, espero, não divago,
Apenas tenho pudor.
Se assim sou, não renego,
Tenho brios que sustentam.
Tenho apenas eu e é só.
908
1
Gabriel Archanjo de Mendonça
Auto-Suficiente
Sei do meu pouco
sei das limitações do meu domínio.
Sei do que é meu
e sei do que não é meu.
Que não me venham precisar a chave
do sucesso trabalhado
no empirismo da bigorna.
Nem me venham ofertar motivações
da paz que não é minha.
Seja a sombra do meu nada
o Cirineu amigo
que a cada impulso do meu sangue
responda aos meus porquês.
sei das limitações do meu domínio.
Sei do que é meu
e sei do que não é meu.
Que não me venham precisar a chave
do sucesso trabalhado
no empirismo da bigorna.
Nem me venham ofertar motivações
da paz que não é minha.
Seja a sombra do meu nada
o Cirineu amigo
que a cada impulso do meu sangue
responda aos meus porquês.
869
1
Dora Ferreira da Silva
Mulher e Pássaro
Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.
2 171
1
Ruy Cinatti
Vigília
Paralelamente sigo dois caminhos
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.
Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.
Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.
Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.
Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.
2 505
1
António Manuel Couto Viana
4 Poetas em Macau
Camões
"Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?
Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?
Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
-Até o longínquo China navegou…
Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?"
"Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?
Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?
Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
-Até o longínquo China navegou…
Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?"
1 692
1
Antônio Massa
Eu, Papel
Amarelado semblante tortuoso
redefinido na manhã do meu ser
difuso e frágilforte no todo
retratado no torneio interior
onde o prêmio sou eu
que me perdi
n’eu
Sou batida acidental, porém compassada
ao painel de refúgio e angústia
estragando ao som dos fungos
guias de minhas almas
Sou pessoa trânsfuga
que apoio eu inimigo
Eu paragem e transgressão
Eu sou quantos? Não sei tanto!
Talvez nada
talvez tudo
talvez todos
todos tortos
Sou folha escrita
em branco
dentro do livro de mim
redefinido na manhã do meu ser
difuso e frágilforte no todo
retratado no torneio interior
onde o prêmio sou eu
que me perdi
n’eu
Sou batida acidental, porém compassada
ao painel de refúgio e angústia
estragando ao som dos fungos
guias de minhas almas
Sou pessoa trânsfuga
que apoio eu inimigo
Eu paragem e transgressão
Eu sou quantos? Não sei tanto!
Talvez nada
talvez tudo
talvez todos
todos tortos
Sou folha escrita
em branco
dentro do livro de mim
1 048
1
Manoel de Barros
Rome Page de Eduardo Lohmann
Uma Didática da Invenção
do "O Livro das Ignorãnças" ed. Civilização Brasileira.
I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras
IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
do "O Livro das Ignorãnças" ed. Civilização Brasileira.
I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras
IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
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1
Altemar Pontes de Oliveira
Nu
Primeiro lugar no concurso do
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.
811
1
Arnaldo Jabor
Escrevo hoje um artigo sobre quase nada
O poeta Manoel de Barros lançou um novo livro: "Livro sobre Nada" é o nome. Esse surrealista-minimalista- pantaneiro, poeta das insignificâncias, dos detritos, descobre dramas na vida dos caramujos e nos ovos de formiga e faz os sapos do lodo denunciar nossa fragilidade. Leia este seu poema antigo, onde a morte de uma lacraia furada de espinho tem a pungência da morte de Isolda: "Chega de escombros, centopeia antúria!
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
1 331
1
William Blake
A MOSCA
Pequena Mosca,
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
4 585
1
João Cabral de Melo Neto
Meu Álcool
Marques Rabelo garantia
que bêbado era quem bebia
por se inventar duplo motivo:
sentir-se invivo ou sobrevivo.
Querer-se lúcido, acordar,
ser todo o agudo que nele há,
ser quando está de todo aceso,
tem o ser na ponta dos dedos.
Ou estar num ser tão extreme
que ser é insuportavelmente,
que ser é estar-se num incêndio
e sentir-se esse incêndio sendo.
Por isso, é que o bêbado bebe:
porque triste quer ser alegre,
e bebe porque chega a demais
a alegria de que ele é capaz.
2
Um pôde achar álcool melhor,
não tóxico, sem qualquer depois,
um álcool que não tem veneno
nem contém amanhãs de inferno.
Que, se é preciso, apaga o incêndio
e se é preciso, vem e acende-o;
um álcool que possui duas pontas,
que age a favor como age contra,
nem precisa que alguém lhe diga
quando dar mais ou menos vida
(como lâmpada do escritor russo,
põe o quarto aceso ou escuro).
Mais: que não se bebe, contempla;
é um álcool para a convivência,
álcool que dá a chama e o sopro
com tê-lo ao alcance do corpo.
3
Esse álcool não é de vender:
ninguém engarrafou um ser.
É álcool sem quandos, sem ondes,
de perto, ou pelo telefone.
Vê-lo e usá-lo foi de imediato:
depois de álcoois mais variados,
da familiar cana de cana
de suas várzeas pernambucanas,
viajou por outros tão diversos
(os de Appolinaire, o dos versos)
que até empregou como bebida
o fluido ambíguo de Sevilha.
E de nenhum deles renega:
nem das úlceras que eles legam
nem da intestina homorragia
em hospitais ao fio da vida.
3
Se a um novo álcool se entregou,
se o vê como álcool superior,
não foi por causa de conselho,
prescrição de médico, ou medo.
É que no novo álccol de agora
pode alcançar mais alta quota
de álcool na vida, e é mais contínua
a vida que acende, e seu clima:
um clima mais claro, e tão limpo
como toalha ou lençol de linho,
e ao mesmo tempo tão intenso
de um ser vivo vivendo pleno.
(E isso, só, com a convivência
de mulher, com a nua presença
de mulher, que como Sevilha
é interna-externa, é noitedia.)
que bêbado era quem bebia
por se inventar duplo motivo:
sentir-se invivo ou sobrevivo.
Querer-se lúcido, acordar,
ser todo o agudo que nele há,
ser quando está de todo aceso,
tem o ser na ponta dos dedos.
Ou estar num ser tão extreme
que ser é insuportavelmente,
que ser é estar-se num incêndio
e sentir-se esse incêndio sendo.
Por isso, é que o bêbado bebe:
porque triste quer ser alegre,
e bebe porque chega a demais
a alegria de que ele é capaz.
2
Um pôde achar álcool melhor,
não tóxico, sem qualquer depois,
um álcool que não tem veneno
nem contém amanhãs de inferno.
Que, se é preciso, apaga o incêndio
e se é preciso, vem e acende-o;
um álcool que possui duas pontas,
que age a favor como age contra,
nem precisa que alguém lhe diga
quando dar mais ou menos vida
(como lâmpada do escritor russo,
põe o quarto aceso ou escuro).
Mais: que não se bebe, contempla;
é um álcool para a convivência,
álcool que dá a chama e o sopro
com tê-lo ao alcance do corpo.
3
Esse álcool não é de vender:
ninguém engarrafou um ser.
É álcool sem quandos, sem ondes,
de perto, ou pelo telefone.
Vê-lo e usá-lo foi de imediato:
depois de álcoois mais variados,
da familiar cana de cana
de suas várzeas pernambucanas,
viajou por outros tão diversos
(os de Appolinaire, o dos versos)
que até empregou como bebida
o fluido ambíguo de Sevilha.
E de nenhum deles renega:
nem das úlceras que eles legam
nem da intestina homorragia
em hospitais ao fio da vida.
3
Se a um novo álcool se entregou,
se o vê como álcool superior,
não foi por causa de conselho,
prescrição de médico, ou medo.
É que no novo álccol de agora
pode alcançar mais alta quota
de álcool na vida, e é mais contínua
a vida que acende, e seu clima:
um clima mais claro, e tão limpo
como toalha ou lençol de linho,
e ao mesmo tempo tão intenso
de um ser vivo vivendo pleno.
(E isso, só, com a convivência
de mulher, com a nua presença
de mulher, que como Sevilha
é interna-externa, é noitedia.)
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