Poemas neste tema
Desejo
Charles Bukowski
Como Você Não Está Fora da Lista?
os homens ligam e me perguntam isto.
você é realmente Charles Bukowski
o escritor?
sou escritor de vez em quando, eu digo,
na maior parte do tempo eu não faço nada.
escute, eles dizem, eu gosto das suas
coisas – se importa se eu aparecer aí
com uma dúzia de latinhas?
você pode trazê-las, eu digo
desde que não entre...
quando as mulheres ligam, eu digo,
ó, sim, escrevo, sou um escritor
apenas não estou escrevendo nada neste exato momento.
me sinto tola ligando para você,
elas dizem, e fiquei surpresa
de achar seu nome na lista telefônica.
tenho meus motivos, eu digo,
a propósito, por que você não aparece
pra tomar uma cerveja?
você não se importaria?
e elas chegam
mulheres lindas
boas de corpo e mente e olho.
frequentemente não há sexo
mas estou acostumado
ainda assim é bom
bom demais apenas olhar para elas...
e em alguns raros momentos
tenho uma maré inesperada de sorte
para variar.
para um homem de 55 que não transou
até os 23
e não muitas vezes mais até os 50
creio que deva continuar listado
na Pacific Telephone
até conseguir o mesmo número de mulheres
que os homens normais conseguiram.
claro, terei que continuar
escrevendo poemas imortais
mas a inspiração está lá.
você é realmente Charles Bukowski
o escritor?
sou escritor de vez em quando, eu digo,
na maior parte do tempo eu não faço nada.
escute, eles dizem, eu gosto das suas
coisas – se importa se eu aparecer aí
com uma dúzia de latinhas?
você pode trazê-las, eu digo
desde que não entre...
quando as mulheres ligam, eu digo,
ó, sim, escrevo, sou um escritor
apenas não estou escrevendo nada neste exato momento.
me sinto tola ligando para você,
elas dizem, e fiquei surpresa
de achar seu nome na lista telefônica.
tenho meus motivos, eu digo,
a propósito, por que você não aparece
pra tomar uma cerveja?
você não se importaria?
e elas chegam
mulheres lindas
boas de corpo e mente e olho.
frequentemente não há sexo
mas estou acostumado
ainda assim é bom
bom demais apenas olhar para elas...
e em alguns raros momentos
tenho uma maré inesperada de sorte
para variar.
para um homem de 55 que não transou
até os 23
e não muitas vezes mais até os 50
creio que deva continuar listado
na Pacific Telephone
até conseguir o mesmo número de mulheres
que os homens normais conseguiram.
claro, terei que continuar
escrevendo poemas imortais
mas a inspiração está lá.
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1
Charles Bukowski
Como Uma Flor Na Chuva
cortei a unha do dedo médio
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
1 543
1
Charles Bukowski
Você Já Beijou Uma Pantera?
essa mulher acha que é uma pantera
e às vezes quando estamos fazendo amor
ela solta grunhidos e cospe
e seu cabelo vem abaixo
e ela olha por entre os fios
e me mostra suas presas
mas eu a beijo mesmo assim e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea desfrutando
o ato do amor?
você não amou, amigo.
você com suas loirinhas tingidas
você com seus esquilos e tâmias
e elefantes e ovelhas.
você deveria dormir com uma pantera
nunca mais você vai querer
esquilos, tâmias, elefantes, ovelhas, raposas,
carcajus,
nunca nada exceto a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando a sala
a pantera fêmea atravessando a sua alma;
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pelagem preta e macia se roça em você
e o céu desaba nas suas costas,
a pantera fêmea é o sonho que chegou real
e não há como voltar atrás
ou querer voltar –
a pelagem roçando em você,
a busca terminou
enquanto seu pau avança diante da beira do Nirvana
e você fica preso diante dos olhos de uma pantera.
e às vezes quando estamos fazendo amor
ela solta grunhidos e cospe
e seu cabelo vem abaixo
e ela olha por entre os fios
e me mostra suas presas
mas eu a beijo mesmo assim e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea desfrutando
o ato do amor?
você não amou, amigo.
você com suas loirinhas tingidas
você com seus esquilos e tâmias
e elefantes e ovelhas.
você deveria dormir com uma pantera
nunca mais você vai querer
esquilos, tâmias, elefantes, ovelhas, raposas,
carcajus,
nunca nada exceto a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando a sala
a pantera fêmea atravessando a sua alma;
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pelagem preta e macia se roça em você
e o céu desaba nas suas costas,
a pantera fêmea é o sonho que chegou real
e não há como voltar atrás
ou querer voltar –
a pelagem roçando em você,
a busca terminou
enquanto seu pau avança diante da beira do Nirvana
e você fica preso diante dos olhos de uma pantera.
1 282
1
Manuel Bandeira
Piscina
Que silêncio enorme!
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
Na piscina verde
Gorgoleja trépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
— Lua gorda e branca —
Na piscina verde.
Como a lua é branca!
Corre um arrepio
Silenciosamente
Na piscina verde:
Lua ela não quer.
Ah o que ela quer
A piscina verde
É o corpo queimado
De certa mulher
Que jamais se banha
Na espadana branca
Da água da carranca.
Petrópolis, 25.3.1943
1 549
1
Manuel Bandeira
Pierrette
O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria...
Gemem ondinas nos repuxos
Das fontes. Faunos aparecem.
E salamandras desfalecem
Nas sarças, nos braços dos bruxos.
Corro à floresta: entre miríades
De vaga-lumes, junto aos troncos,
Gênios caprípedes e broncos
Estupram virgens hamadríades.
Ergo olhos súplices: e vejo,
Ante as minhas pupilas tontas,
No sete-estrelo as sete pontas
De sete espadas de desejo.
O sexo obsidente alucina
A minha índole surpresa:
As imagens da natureza
São um delírio de morfina.
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra...
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômana e noctâmbula!...
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria...
Gemem ondinas nos repuxos
Das fontes. Faunos aparecem.
E salamandras desfalecem
Nas sarças, nos braços dos bruxos.
Corro à floresta: entre miríades
De vaga-lumes, junto aos troncos,
Gênios caprípedes e broncos
Estupram virgens hamadríades.
Ergo olhos súplices: e vejo,
Ante as minhas pupilas tontas,
No sete-estrelo as sete pontas
De sete espadas de desejo.
O sexo obsidente alucina
A minha índole surpresa:
As imagens da natureza
São um delírio de morfina.
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra...
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômana e noctâmbula!...
1 265
1
Manuel Bandeira
O Silêncio
Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contato das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.
É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
Ao contato das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.
É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
2 100
1
Manuel Bandeira
Na Solidão das Noites Úmidas
Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
1 693
1
Manuel Bandeira
Boda Espiritual
Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
1 388
1
Pablo Neruda
12
Para meu coração basta teu peito,
para a tua liberdade, minhas asas.
Da minha boca chegará até o céu
o que estava adormecido em tua alma.
Está em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho sobre as corolas.
Cavava o horizonte a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que cantavas com o vento
como cantam os pinheiros e os mastros.
E como eles és alta e taciturna.
E entristeces de rojo, como as viagens.
Anfitriã como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e ora emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.
para a tua liberdade, minhas asas.
Da minha boca chegará até o céu
o que estava adormecido em tua alma.
Está em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho sobre as corolas.
Cavava o horizonte a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que cantavas com o vento
como cantam os pinheiros e os mastros.
E como eles és alta e taciturna.
E entristeces de rojo, como as viagens.
Anfitriã como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e ora emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.
1 459
1
Manuel Bandeira
Ingênuo Enleio
Ingênuo enleio de surpresa,
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
À tua voz nos meus ouvidos.
Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.
Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... Musical adejo...
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.
Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
À tua voz nos meus ouvidos.
Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.
Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... Musical adejo...
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.
Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.
1 429
1
Ana Martins Marques
Um café com a Medusa
Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café?
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
1 891
1
Manuel Bandeira
Tempo-será
A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
2 127
1
Marina Colasanti
Sim, mas também
Porque é meu amor
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
1 362
1
Pablo Neruda
Manhã - XI
Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
1 382
1
Affonso Romano de Sant'Anna
Luar Na Toscana
A mim me tocou uma lua cheia em San Geminiano.
O que mais pode querer a alma de um homem
amado por uns, por outros detestado,
que segue os pássaros com os olhos
que deixa fluir com os rios o seu desejo
e tem no bolso uns quatro ou cinco segredos?
A mim me tocou, de novo, a lua cheia
e foi em Certaldo Alto.
Recebi-a calado.
E como era por demais extasiante
depositei-a
– nos olhos de minha amante.
O que mais pode querer a alma de um homem
amado por uns, por outros detestado,
que segue os pássaros com os olhos
que deixa fluir com os rios o seu desejo
e tem no bolso uns quatro ou cinco segredos?
A mim me tocou, de novo, a lua cheia
e foi em Certaldo Alto.
Recebi-a calado.
E como era por demais extasiante
depositei-a
– nos olhos de minha amante.
1 307
1
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
1 303
2
José Saramago
Mitologia
Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.
Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.
Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.
Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.
Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.
Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.
Quando castos os deuses se tornaram,
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.
1 299
1
Vinicius de Moraes
História Passional, Hollywood, Califórnia
Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervoso meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
“Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...”
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando...
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervoso meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
“Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...”
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando...
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
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José Saramago
Incêndio
Convoco o cheiro, a polpa sensitiva
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.
Convoco o grito, o espanto e o tremor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece, e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.
Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.
Convoco o grito, o espanto e o tremor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece, e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.
Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.
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Vinicius de Moraes
A Ausente
Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
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José Saramago
Aprendamos, Amor
Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
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José Saramago
Analogia
Que é o mar? Lonjura desmedida
De largos movimentos e marés,
Como um corpo dormente que respira?
Ou isto que mais perto nos alcança,
Bater de azul na praia rebrilhante,
Onde a água se torna aérea espuma?
Amor será o abalo que percorre
No vermelho do sangue as veias tensas
E os nervos arrepia como um gume?
Ou antes esse gesto indefinível
Que o meu corpo transporta para o teu
Quando o tempo recolhe ao seu começo?
Como é o mar, amor é paz e guerra,
Acesa agitação, calma profunda,
Roçar leve de pele, unha que ferra.
De largos movimentos e marés,
Como um corpo dormente que respira?
Ou isto que mais perto nos alcança,
Bater de azul na praia rebrilhante,
Onde a água se torna aérea espuma?
Amor será o abalo que percorre
No vermelho do sangue as veias tensas
E os nervos arrepia como um gume?
Ou antes esse gesto indefinível
Que o meu corpo transporta para o teu
Quando o tempo recolhe ao seu começo?
Como é o mar, amor é paz e guerra,
Acesa agitação, calma profunda,
Roçar leve de pele, unha que ferra.
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Vinicius de Moraes
Soneto À Lua
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
Rio, 1938
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
Rio, 1938
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Adélia Prado
O Pelicano
Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi — como vi o navio — um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
— a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria.
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi — como vi o navio — um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
— a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria.
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
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