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Desejo

Nuno Júdice

Nuno Júdice

Trabalho de casa

O que faço na memória de um degelo de rios, quando
as águas caem sobre as águas, sob a espuma redundante
de ideias brancas? Aqui me afundo até ao próprio
fundo de mim próprio, aqui onde os gestos humanos
da despedida e do amor não têm outro sentido
além do que nasce das próprias águas: efémeros,
como o tempo, e como o tempo presos ao que, cada um de nós,
ignora do outro. Acendo cigarros nos cigarros,
respirando o fumo húmido das origens, vigiando
a transparência que se desfaz no intervalo das folhas,
quando o vento as empurra para a estrada, pergunto
de onde vem a minha saudade de ti, e até onde
vai o meu desejo de te ouvir, de novo, à minha frente,
enquanto as horas passam como se não tivessem de passar,
e os teus lábios bebem todo o tempo da minha vida. Como
se o desejo não se esgotasse, também ele, como
estas águas que acabam em cada instante em que se renovam,
trazendo as chuvas eternas do norte para dentro de poços
sem fundo, até ao fundo dos lagos mais subterrâneos,
puxando com a sua negra densidade os meus
impulsos de treva: cama obscura para onde desço
quando adormeço. Mas tu, com os teus braços de raiz aérea,
puxas-me para esse cimo de montanha onde o silêncio
se transforma em sílaba - a sílaba inicial
do mundo, a interrogação do gesto nascente de todas as
origens, o soluço de um suicídio de murmúrios,
percorrida pela única percepção inútil: a da vida
que se esvai no instante do amor. E encostamo-nos à pedra
abstracta do horizonte, a que nos deixou sem voz quando
as grutas do litoral se abriram; para que a pedra nos beba,
gota a gota, todo o sangue. Então, é nas suas veias
que correm as nossas pulsações. E afastamo-nos, devagar,
para que a terra viva através de nós
uma existência puramente interior, despida
do fulgor animal das manhãs. Sentamo-nos
no mais longínquo dos quartos, de janelas fechadas, e
abraçamo-nos com o rumor de primaveras clandestinas,
com o inverno nos olhos.


Nuno Júdice | "Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX" | Angelus Novus & Cotovia, 2003
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Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Entre mim mesmo e a morte

p/ a música de Jimmy Blanton:
SOPHISTICATED LADY, BODY AND SOUL
O ardor vem e te resseca às vezes,
Você se curva sobre ele, quieta,
Cruel e tímida; às vezes
Você se assusta com a devassidão
E me oferece apenas desespero.
Às vezes enroscados nas cobertas,
Protegendo nosso tédio, fingindo
Que nossos curativos são as feridas.
Mas a roda da mudança pára às vezes;
A ilusão desaparece em paz;
E aí a altivez te ilumina a carne –
Diamante lúcido, sábio como pérola –
Teu rosto vago, absoluto,
Definitivo como o de um animal.
É um barato observar você
Mulher vivente num quarto
Cheio de gente careta, estéril,
E pensar no arco das tuas ancas
Sob a seda do teu vestido de noite,
No fogo derramado lindamente
Do teu sexo, queimando carne e ossos,
No tecido incrível e complexo
Do teu cérebro vivo
Debaixo da bagunça esplêndida do teu cabelo.
~
Gosto de pensar em você nua.
De pôr teu corpo nu
Entre mim mesmo e a morte.
Se imerso no meu cérebro
Ateio fogo ao bico doce dos teus peitos,
E aos tendões dos teus joelhos,
Posso ver muito além de mim.
É bem vazio onde minha vista alcança,
Mas pelo menos é iluminado.
Conheço o brilho dos teus ombros,
O modo de teu rosto entrar em transe,
Teus olhos como os de um sonâmbulo,
Teus lábios de mulher cruel
Consigo mesma.
Gosto de
Pensar em você vestida, teu corpo
Fechado para o mundo, auto-contido,
Sua adorável arrogância
Que faz com que te invejem as mulheres.
Posso lembrar de todos os vestidos,
Mais altivos que uma freira nua.
Eu vou dormir e meus olhos
Fecham numa trama da memória.
A nuvem dos seus cheiros íntimos
É que sonha em meu lugar.
BETWEEN MYSELF AND DEATH
to Jimmy Blanton’s music:
SOPHISTICATED LADY, BODY AND SOUL
A fervor parches you sometimes,
And you hunch over it, silent,
Cruel, and timid; and sometimes
You are frightened with wantonness
And give me your desperation.
Mostly we lurk in our coverts,
Protecting our spleens, pretending
That our bandages are our wounds.
But sometimes the wheel of change stops;
Illusion vanishes in peace;
And suddenly pride lights your flesh –
Lucid as diamond, wise as pearl –
And your face, remote, absolute,
Perfect and final like a beast’s.
It is wonderful to watch you,
A living woman in a room
Full of frantic, sterile people,
And think of your arching buttocks
Under your velvet evening dress,
And the beautiful fire spreading
From your sex, burning flesh and bone,
The unbelievable complex
Tissues of your brain all alive
Under your coiling, splendid hair.
~
I like to think of you naked.
I put your naked body
Between myself alone and death.
If I go into my brain
And set fire to your sweet nipples,
To the tendons beneath your knees,
I can see far before me.
It is empty there where I look,
But at least it is lighted.
I know how your shoulders glisten,
How your face sinks into trance,
And your eyes like a sleepwalker’s,
And your lips of a woman
Cruel to herself.
I like to
Think of you clothed, your body
Shut to the world and self contained,
Its wonderful arrogance
That makes all women envy you.
I can remember every dress,
Each more proud than a naked nun.
When I go to sleep my eyes
Close in a mesh of memory.
Its cloud of intimate odor
Dreams instead of myself.
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