Poemas neste tema
Desejo
Renato Rezende
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
942
Renato Rezende
Asas de Papel
Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
1 044
Renato Rezende
Águas Além da Mente
Anseio por nadar nu
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.
A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.
Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.
O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.
Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.
Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.
Nova York, 20 de fevereiro 1996
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.
A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.
Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.
O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.
Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.
Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.
Nova York, 20 de fevereiro 1996
1 013
Renato Rezende
Desejo
Um anjo desejou outro anjo.
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.
Nova York, agôsto 1993
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.
Nova York, agôsto 1993
1 161
Renato Rezende
Recordo
Cada desejo do teu coração
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
999
Renato Rezende
A Mão
...
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados
por esta mão
(qual?)
que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados
por esta mão
(qual?)
que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
1 001
Renato Rezende
A Boca
Quando, deitada na cama, me inclino
para beijar
suspirando
minha almofada;
o quê, quem, que boca
(delicadamente
delicadamente beijada)
estou beijando?
Boston, novembro 1990
para beijar
suspirando
minha almofada;
o quê, quem, que boca
(delicadamente
delicadamente beijada)
estou beijando?
Boston, novembro 1990
964
Renato Rezende
A Perna
Numa esquina perto da minha casa
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
1 098
Zulmira Ribeiro Tavares
Juízos
O amor é essa intrépida
imaginação da carne
essa carne destemida
que se julga autora.
Essa vigilância que aguarda
no recuo,
pronta para o salto.
O amor é o salto
o vértice de um pensamento
que por demais repleto
de mundo percebido pela fresta
perde os seus limites de conceito nítido:
escorre.
O amor é a perda do mundo,
o sal e a água chorados
pelo outro lado dos olhos:
o lado do impulso e do arremate
o lado que celebra as normas.
O amor é o bravo
destemido riso
de toda a epiderme rindo
perdidamente
da imaginação traída.
imaginação da carne
essa carne destemida
que se julga autora.
Essa vigilância que aguarda
no recuo,
pronta para o salto.
O amor é o salto
o vértice de um pensamento
que por demais repleto
de mundo percebido pela fresta
perde os seus limites de conceito nítido:
escorre.
O amor é a perda do mundo,
o sal e a água chorados
pelo outro lado dos olhos:
o lado do impulso e do arremate
o lado que celebra as normas.
O amor é o bravo
destemido riso
de toda a epiderme rindo
perdidamente
da imaginação traída.
738
Paulo Henriques Britto
VILEGIATURA
Munidos de maçãs, lápis e fósforos,
conquistaremos Nínive amanhã,
se não der praia e a noite for de sono.
Porque afinal os dias são dourados
e tudo é matinal nessa estação
de água fresca, madrigais e cópulas.
São tantas mãos e bocas, tantas cópulas,
tantas razões de se riscar um fósforo,
é tão horizontal essa estação,
que é puro engodo a idéia do amanhã.
E por que não beber o sol dourado
enquanto não nos sobrevém o sono?
Idéias sussurradas pelo sono,
pela sofreguidão de muitas cópulas.
Enquanto isso, Nínive dourada
aguarda a combustão de nossos fósforos
ao primeiro suspiro da manhã.
Rechacemos o torpor da estação
(e como é modorrenta essa estação,
tempo de bandolins, maçãs e sono!)
e vamos nus, na bruma da manhã,
buscar a glória, traduzida em cópulas,
claustros, tributos, castiçais e fósforos,
caixas de música e ídolos dourados.
Tomaremos a cidade dourada
na hora derradeira da estação,
quando já não restar nem mais um fósforo,
uma gota de sol, de céu, de sono.
A entrada triunfal será uma cópula
na imensidão da última manhã.
Quando acordarmos, já será amanhã,
os olhos turvos de sonhos dourados,
as peles mornas recendendo a cópulas,
bagagens esquecidas na estação,
jornais, explicações, ressaca e sono,
um alvoroço de café e fósforos.
Os fósforos primeiros da manhã
riscam o sono e o sonho do Eldorado.
Dessa estação só vão restar as cópulas.
conquistaremos Nínive amanhã,
se não der praia e a noite for de sono.
Porque afinal os dias são dourados
e tudo é matinal nessa estação
de água fresca, madrigais e cópulas.
São tantas mãos e bocas, tantas cópulas,
tantas razões de se riscar um fósforo,
é tão horizontal essa estação,
que é puro engodo a idéia do amanhã.
E por que não beber o sol dourado
enquanto não nos sobrevém o sono?
Idéias sussurradas pelo sono,
pela sofreguidão de muitas cópulas.
Enquanto isso, Nínive dourada
aguarda a combustão de nossos fósforos
ao primeiro suspiro da manhã.
Rechacemos o torpor da estação
(e como é modorrenta essa estação,
tempo de bandolins, maçãs e sono!)
e vamos nus, na bruma da manhã,
buscar a glória, traduzida em cópulas,
claustros, tributos, castiçais e fósforos,
caixas de música e ídolos dourados.
Tomaremos a cidade dourada
na hora derradeira da estação,
quando já não restar nem mais um fósforo,
uma gota de sol, de céu, de sono.
A entrada triunfal será uma cópula
na imensidão da última manhã.
Quando acordarmos, já será amanhã,
os olhos turvos de sonhos dourados,
as peles mornas recendendo a cópulas,
bagagens esquecidas na estação,
jornais, explicações, ressaca e sono,
um alvoroço de café e fósforos.
Os fósforos primeiros da manhã
riscam o sono e o sonho do Eldorado.
Dessa estação só vão restar as cópulas.
760
Reynaldo Jardim
Maternal
la se deita,
Diz que não se importa
E deixa a porta
Escancarada e nua
Ela projeta
Uma sombra torta,
Iluminada pela luz da rua.
A lua bate e ela
se comporta
Como se a lua fosse
Seu cachorro
que amestrado
Lhe beijasse a boca,
que sensitivo
Lhe aplacasse o choro.
E esse quarto
vira uma loucura
de bocas,de cachorro
de ternuras
de luas espalhadas
Água em chamas.
No incêndio dourado
de seus pêlos
queimam-se desvarios
e desvelos.
O mel de leite
Brota em suas mamas.
Diz que não se importa
E deixa a porta
Escancarada e nua
Ela projeta
Uma sombra torta,
Iluminada pela luz da rua.
A lua bate e ela
se comporta
Como se a lua fosse
Seu cachorro
que amestrado
Lhe beijasse a boca,
que sensitivo
Lhe aplacasse o choro.
E esse quarto
vira uma loucura
de bocas,de cachorro
de ternuras
de luas espalhadas
Água em chamas.
No incêndio dourado
de seus pêlos
queimam-se desvarios
e desvelos.
O mel de leite
Brota em suas mamas.
854
Ricardo Aleixo
Até perder
Meus 5 sentidos querem
olhar os seus 5 sentidos ouvir os seus
5 sentidos tocar os seus 5
sentidos cheirar os seus 5 sentidos até perder
os sentidos
olhar os seus 5 sentidos ouvir os seus
5 sentidos tocar os seus 5
sentidos cheirar os seus 5 sentidos até perder
os sentidos
780
Cida Pedrosa
O CAMINHO DA FACA
parte em arco
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga
cruza a dor, o sonho
escuta
zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes
parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança
desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade
pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
rumo ao corpo amado
flecha a fera, exposta
à chaga
cruza a dor, o sonho
escuta
zunindo a lâmina
flamejante alcança
artérias e vasos
aquedutos pontes
parte em seta
rumo ao corpo amado
serena ira, ao amor
alcança
desdobra a carne
desnuda a veia
instala certeira
a eternidade
pára qual âncora
dentro do corpo amado
ferina flor, ao corpo
planta
695
Horácio Costa
A rã
Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
798
Horácio Costa
Cuneiforme
Continuo “imerso em mim e
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
613
Horácio Costa
Três laranjas
vida maior que eu próprio
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
727
Simone Brantes
O sol na cama
O dedo na rama e o sol na cama:
quanto vale o dia de quem ama?,
quanto? passá-lo em sua faina de
amor lado a lado, moita, mão, e
o sol derramado?
quanto vale o dia de quem ama?,
quanto? passá-lo em sua faina de
amor lado a lado, moita, mão, e
o sol derramado?
831
Simone Brantes
Pote
Você acha que sexo é isso:
três
ou quatro
posições
e executá-las?
Você quer
muito
muito mesmo
que eu goze?
Então vamos por partes –
não se vai com tanta sede ao pote –
Primeiro: fabricar a sede
Segundo: fabricar o pote
Terceiro: deixar que a água jorre
três
ou quatro
posições
e executá-las?
Você quer
muito
muito mesmo
que eu goze?
Então vamos por partes –
não se vai com tanta sede ao pote –
Primeiro: fabricar a sede
Segundo: fabricar o pote
Terceiro: deixar que a água jorre
868
Simone Brantes
Lapso
Um homem tira um grito das tripas,
do seu flautim medonho,
enquanto esfrega seu sexo contra a porta
do carro — pau e porra lhe pesando,
terríveis como poderíamos sentir se
por um acaso se tornasse
de um dolorido espanto este lapso:
não saber o que fazer com o que cai
de repente em nossas mãos.
do seu flautim medonho,
enquanto esfrega seu sexo contra a porta
do carro — pau e porra lhe pesando,
terríveis como poderíamos sentir se
por um acaso se tornasse
de um dolorido espanto este lapso:
não saber o que fazer com o que cai
de repente em nossas mãos.
570
Maria Lúcia Dal Farra
Fruto proibido
Com suas nádegas lascivas de mulher
a maçã se deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
– no ponto da voragem,
caverna de pevides.
Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim de delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.
a maçã se deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
– no ponto da voragem,
caverna de pevides.
Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim de delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.
728
Simone Brantes
O pau do doidinho
I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
657
Paulo Teixeira
Os contendores
Eles lutaram a medir a sua por uma força maior,
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.
Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.
Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.
O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.
Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.
Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.
Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.
O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.
Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
646
Paulo Teixeira
O quarto selo
… ceux qui se suffisent de l’ homme et de son
pauvre et terrible amour.
ALBERT CAMUS, La Peste
Obscuramente adivinhada era entre as sombras
e os reflexos de uma carne defendida
contra as marés do princípio do tempo.
Sobre este corpo duas vezes convertido
em mito, os seus escudos indestrutíveis,
labirintos onde se perdiam sonho e amor
e receio, repousa hoje uma fatalidade garantida.
Satisfeito de ti, em ti guardas espaço
para esse cancro imaginado, sorrindo
consolado nas pretensões de uma religião
que declina com a coragem no só desejo de morrer
frente ao crepúsculo, com a janela em chamas.
Iludido por imagens sempre falsas
de um fim tão próximo, podes esperar,
corpo meu, o teu demandado cumprimento
pauvre et terrible amour.
ALBERT CAMUS, La Peste
Obscuramente adivinhada era entre as sombras
e os reflexos de uma carne defendida
contra as marés do princípio do tempo.
Sobre este corpo duas vezes convertido
em mito, os seus escudos indestrutíveis,
labirintos onde se perdiam sonho e amor
e receio, repousa hoje uma fatalidade garantida.
Satisfeito de ti, em ti guardas espaço
para esse cancro imaginado, sorrindo
consolado nas pretensões de uma religião
que declina com a coragem no só desejo de morrer
frente ao crepúsculo, com a janela em chamas.
Iludido por imagens sempre falsas
de um fim tão próximo, podes esperar,
corpo meu, o teu demandado cumprimento
688
Carlos Soulié do Amaral
Tragédia da monja
Incendiou-se a virilha da monja
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
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