Poemas neste tema
Desejo
Rose Marie Muraro
Tu vieste como um pássaro
Tu vieste como um pássaro
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.
Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.
Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento
Ligando o instante à sua profundidade eterna.
Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.
Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.
Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=273067 © Luso-Poemas
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.
Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.
Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento
Ligando o instante à sua profundidade eterna.
Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.
Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.
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752
Fernando Echevarría
Amor à Vista
Entras como um punhal
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida.
Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.
Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
para quem a suporte.
Mas o mar e os montes...
isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.
Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.
Mar e montes teus beijos, meu amor,
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.
Mar e montes teus beijos, meu amor!...
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida.
Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.
Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
para quem a suporte.
Mas o mar e os montes...
isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.
Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.
Mar e montes teus beijos, meu amor,
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.
Mar e montes teus beijos, meu amor!...
816
António Borges Coelho
Quando a noite curva os ombros
Quando a noite curva os ombros
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre
Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre
Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol
731
Soares de Passos
Desejo
Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.
Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.
Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?
A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.
E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.
A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.
Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.
Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.
Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.
Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?
A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.
E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.
A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.
Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.
Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.
1 009
Júlio Maria dos Reis Pereira
Nua
I
Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...
Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!
Roseira que enflora...!
Desflorada por tanta gente...
II
Teu corpo,
mal o toquei...
Só te abracei
de leve...
Foi todo neve
o sonho que alonguei...
Asas em voo,
quem, um dia, as teve?
Os sonhos que eu sonhei!
III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!
Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!
Quem destrançou os teus cabelos de oiro?
IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...
Tão macio,
tão modelado...
Beijos... Beijos... Beijos...
V
No meu sono
ela flutua
a cada passo...
Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...
Apenas nos cabelos
um azulado laço...
E assim enlaço
a imagem sua...
Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...
Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!
Roseira que enflora...!
Desflorada por tanta gente...
II
Teu corpo,
mal o toquei...
Só te abracei
de leve...
Foi todo neve
o sonho que alonguei...
Asas em voo,
quem, um dia, as teve?
Os sonhos que eu sonhei!
III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!
Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!
Quem destrançou os teus cabelos de oiro?
IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...
Tão macio,
tão modelado...
Beijos... Beijos... Beijos...
V
No meu sono
ela flutua
a cada passo...
Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...
Apenas nos cabelos
um azulado laço...
E assim enlaço
a imagem sua...
719
Eucanaã Ferraz
O ATOR
Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
702
Paul von Heyse
SE O AMOR TE ATINGIU
Se o amor te atingiu
tranquila entre buliçosa gente
numa nuvem dourada segues para frente
imune, guiada por Deus.
Parecendo estar sem rumo
deixas teu olhar vagar em volta
e a seus prazeres a distante escolta
–governada por um só desejo.
Em vão negando, contestarias,
assim, timidamente, em si mesma encantada,
que, neste instante, a coroa da vida
resplandecendo, enfeita tua fronte.
tranquila entre buliçosa gente
numa nuvem dourada segues para frente
imune, guiada por Deus.
Parecendo estar sem rumo
deixas teu olhar vagar em volta
e a seus prazeres a distante escolta
–governada por um só desejo.
Em vão negando, contestarias,
assim, timidamente, em si mesma encantada,
que, neste instante, a coroa da vida
resplandecendo, enfeita tua fronte.
679
Eucanaã Ferraz
PEDIDO
Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
799
Júlio Maria dos Reis Pereira
Amo-te Tanto
Amo-te tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?
Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!
Indiferente
quero-te assim.
- Sê bem de mim,
de toda a gente...
Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?
Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!
Indiferente
quero-te assim.
- Sê bem de mim,
de toda a gente...
Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.
729
Carlito Azevedo
NOVA PASSANTE
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
722
Manuel Laranjeira
A TRISTEZA DE VIVER
Ânsia de amar! Oh ânsia de viver!
um’hora só que seja, mas vivida
e satisfeita… e pode-se morrer,
- porque se morre abençoando a vida!
Mas ess’hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!
E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca a tiveram
uma hora de amor como a sonharam!
Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!
um’hora só que seja, mas vivida
e satisfeita… e pode-se morrer,
- porque se morre abençoando a vida!
Mas ess’hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!
E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca a tiveram
uma hora de amor como a sonharam!
Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!
796
José Anastácio da Cunha
O Abraço
Não vês inda, de gosto sufocados,
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
– Meu bem, eu não sou tu?… Tu não és eu?
Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos… -Oh!… e estás tão perto!…
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas… Ah! que faço?…
É ar… Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?… Dize, não és seu, meu peito?…
...
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! – É meu!…
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
– Meu bem, eu não sou tu?… Tu não és eu?
Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos… -Oh!… e estás tão perto!…
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas… Ah! que faço?…
É ar… Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?… Dize, não és seu, meu peito?…
...
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! – É meu!…
768
Everardo Norões
Corpo
Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
639
José Anastácio da Cunha
Já quasi até Morria
Já quasi até morria
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.
Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.
Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
707
Ademir Assunção
CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS
O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
998
João Filho
UMA MULHER TODA MÚSICA
Eu pretendi colhê-la num só gesto,
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
que fosse imaterial, também tangível,
tentei a forma livro, o sonho aberto,
estive atento ao peso do invisível.
Busquei coisas menores, mais modesto,
— uma manhã urbana, a luz possível.
Tudo inútil, desejo o cerne e aperto
o escuro, mesmo sendo tão legível
o corpo branco, nu, dentro da tarde.
Agora me concentro em não fixá-la
em pauta ou pensamento para dar-lhe
o ritmo necessário de quem cala,
a música a envolvê-la sem alarde
enquanto ela caminha pela sala.
587
João Filho
Quase Gregas - Oitava
Sigo a senhora mestiça,
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
632
José Anastácio da Cunha
Os Porquês do Amor
Céu, porque tão convulso e consternado
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
683
Halldór Laxness
Assoma, ó Lua
Assoma, ó Lua,
Por trás das nuvens!
Brilhem no céu
estrelas nocturnas!
Luzes guiadoras,
levem-me junto do meu amor
para onde ele repousa, dormindo e só.
Silenciem um pouco
ventos rugidores,
silenciem torrentes velozes,
para que meus cantos
se oiçam nas colinas das tormentas
e me tragam o meu amado.
Gente Independente, edição Cavalo de Ferro
Por trás das nuvens!
Brilhem no céu
estrelas nocturnas!
Luzes guiadoras,
levem-me junto do meu amor
para onde ele repousa, dormindo e só.
Silenciem um pouco
ventos rugidores,
silenciem torrentes velozes,
para que meus cantos
se oiçam nas colinas das tormentas
e me tragam o meu amado.
Gente Independente, edição Cavalo de Ferro
773
Salgado Maranhão
ALQUIMIA
Para T.T.
Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
821
Charles Bukowski
Olhando Para Os Colhões Do Gato
sentado aqui junto à janela
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
1 213
Charles Bukowski
Sopa, Cosmos e Lágrimas
conheci muitas mulheres loucas
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
1 204
Charles Bukowski
Seis
10:30 da manhã
5 bebedores de café no Café Pickwick
os garotos que trabalham nas cocheiras
em Hollywood Park
dão voltas em suas cadeiras giratórias
juntos,
um, dois, três, quatro, cinco,
dão voltas
largando seus cafés que esfriam e seus
papos furados
para olhar uma garota que passa
e que chega para sentar-se em uma mesa separada.
dificilmente seria uma garota incomum,
apenas uma garota,
e um, dois, três, quatro,
quatro deles voltam a seus cafés;
o 50, um jovem loiro e saudável
continua a olhar
com seus olhos azuis belos e vazios.
então, enfim, ele retorna a seu café.
tem que ser mais do que parece, eu penso,
ah, sim, deixe-me ver,
eles estão pensando, essa aí é aquela que fodeu com Mick
atrás das cocheiras a noite passada.
sim, sim, é claro, eles a estão punindo
por não foder com eles.
garotos malvados; pequenos egos de bosta de cavalo.
todos eles acham que têm caralhos de garanhões.
"mais um café?", pergunta-me a garçonete.
"sim, obrigado", eu digo, pensando que eu deveria
dar uma olhada melhor
naquela garota.
5 bebedores de café no Café Pickwick
os garotos que trabalham nas cocheiras
em Hollywood Park
dão voltas em suas cadeiras giratórias
juntos,
um, dois, três, quatro, cinco,
dão voltas
largando seus cafés que esfriam e seus
papos furados
para olhar uma garota que passa
e que chega para sentar-se em uma mesa separada.
dificilmente seria uma garota incomum,
apenas uma garota,
e um, dois, três, quatro,
quatro deles voltam a seus cafés;
o 50, um jovem loiro e saudável
continua a olhar
com seus olhos azuis belos e vazios.
então, enfim, ele retorna a seu café.
tem que ser mais do que parece, eu penso,
ah, sim, deixe-me ver,
eles estão pensando, essa aí é aquela que fodeu com Mick
atrás das cocheiras a noite passada.
sim, sim, é claro, eles a estão punindo
por não foder com eles.
garotos malvados; pequenos egos de bosta de cavalo.
todos eles acham que têm caralhos de garanhões.
"mais um café?", pergunta-me a garçonete.
"sim, obrigado", eu digo, pensando que eu deveria
dar uma olhada melhor
naquela garota.
1 209
Charles Bukowski
O Sonho, O Sonho
sempre há uma nova Carmem dobrando
alguma esquina
em algum lugar
mas então as Carmens nunca parecem
durar;
as Carmens dificilmente duram algum
tempo.
vejo isso nos olhos dos homens
em todo lugar -
homens sentados em balcões de lanchonete
homens dirigindo ônibus
homens fazendo discursos políticos
homens limpando dentes
homens em jaulas de tigres
homens que vejo em todo lugar...
o homem que vejo enquanto faço a barba
me devolve o olhar através de olhos semicerrados
sua Carmem também se foi -
este homem (eu) agora está
pensando no que esta
lâmina realmente poderia
fazer, o pensamento sempre está
ali -
mas o jogo nos faz
seguir em frente: há sempre alguma nova Carmem
à espera
em algum lugar
só dobrando alguma
esquina.
alguma esquina
em algum lugar
mas então as Carmens nunca parecem
durar;
as Carmens dificilmente duram algum
tempo.
vejo isso nos olhos dos homens
em todo lugar -
homens sentados em balcões de lanchonete
homens dirigindo ônibus
homens fazendo discursos políticos
homens limpando dentes
homens em jaulas de tigres
homens que vejo em todo lugar...
o homem que vejo enquanto faço a barba
me devolve o olhar através de olhos semicerrados
sua Carmem também se foi -
este homem (eu) agora está
pensando no que esta
lâmina realmente poderia
fazer, o pensamento sempre está
ali -
mas o jogo nos faz
seguir em frente: há sempre alguma nova Carmem
à espera
em algum lugar
só dobrando alguma
esquina.
1 031