Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Herberto Helder
Irmãos Humanos Que Depois de Mim Vivereis
irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
941
Fernão Rodrigues Lobo Soropita
Quanto mais pode amor
Quanto mais pode amor num peito humano,
Tanto se mostra mais não ter firmeza,
Pois quando dá mor gosto e mor alteza,
Então é mais cruel e desumano;
Põe debaixo do bem um falso engano,
Promete-vos prazer, dá-vos tristeza,
Seus afagos e gostos são crueza,
O mor gosto que tem é ser tirano.
Alto me pôs a fé e o pensamento,
Por que mor queda assim fizesse dar-me
Amor, que em ser cruel é tão isento;
Foi-me desenganar por segurar-me;
Assim, quanto me deu, foi tudo vento,
Desenganou-me enfim, para enganar-me!
Tanto se mostra mais não ter firmeza,
Pois quando dá mor gosto e mor alteza,
Então é mais cruel e desumano;
Põe debaixo do bem um falso engano,
Promete-vos prazer, dá-vos tristeza,
Seus afagos e gostos são crueza,
O mor gosto que tem é ser tirano.
Alto me pôs a fé e o pensamento,
Por que mor queda assim fizesse dar-me
Amor, que em ser cruel é tão isento;
Foi-me desenganar por segurar-me;
Assim, quanto me deu, foi tudo vento,
Desenganou-me enfim, para enganar-me!
598
Maria Teresa Rita Lopes
Poema do Amor Difícil – II
Agora não
agora nunca mais
Passou a hora
Agora já fechei as portas todas
e atirei as chaves ao mar
Agora marquei bilhete para partir de madrugada
Agora já vou a caminho
Houve um tempo
em que todos os caminhos do meu corpo
teriam tido os nomes que lhes desses
Agora não
Devolveste-os ao nada
ao sem sentido de coisas
existindo
Passou a hora
O equilíbrio refez-se do vazio
das madrugadas sem nada
O equilíbrio refez-se
sem ti
Houve um tempo
em que uma primavera inteira
esteve suspensa
dos teus gestos
Agora é tarde
As árvores reabrigaram
os rebentos
na casca dura
e souberam que só podiam contar
com seus lenhosos braços
Nus
Agora não
desisti de ti
expulsei-te do aço dos espelhos
Devolveste-me o nítido e duro perfil
das coisas
e puro recorte do silêncio
agora nunca mais
Passou a hora
Agora já fechei as portas todas
e atirei as chaves ao mar
Agora marquei bilhete para partir de madrugada
Agora já vou a caminho
Houve um tempo
em que todos os caminhos do meu corpo
teriam tido os nomes que lhes desses
Agora não
Devolveste-os ao nada
ao sem sentido de coisas
existindo
Passou a hora
O equilíbrio refez-se do vazio
das madrugadas sem nada
O equilíbrio refez-se
sem ti
Houve um tempo
em que uma primavera inteira
esteve suspensa
dos teus gestos
Agora é tarde
As árvores reabrigaram
os rebentos
na casca dura
e souberam que só podiam contar
com seus lenhosos braços
Nus
Agora não
desisti de ti
expulsei-te do aço dos espelhos
Devolveste-me o nítido e duro perfil
das coisas
e puro recorte do silêncio
743
Valter Hugo Mãe
o homem que já não sou
não me olhes agora que estou
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que
amaste, procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a
dor. para ti
quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o
cuidado meticuloso de quem
ama. não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão
esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri. não deste
por nada. julgaste que voltei a
ressonar e até terás esboçado um
sorriso. e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto
deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca de tudo o que
já não existe. não pode ser, levo a
faca maior para debaixo do meu
travesseiro, juro-te que me
mato se continuares assim
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que
amaste, procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a
dor. para ti
quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o
cuidado meticuloso de quem
ama. não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão
esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri. não deste
por nada. julgaste que voltei a
ressonar e até terás esboçado um
sorriso. e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto
deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca de tudo o que
já não existe. não pode ser, levo a
faca maior para debaixo do meu
travesseiro, juro-te que me
mato se continuares assim
764
Luís Filipe Castro Mendes
Música Calada
Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
543
Pero da Ponte
Martim de Cornes Vi Queixar
Martim de Cornes vi queixar
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
537
Pero da Ponte
Vistes, Madr', o Escudeiro Que M'houver'a Levar Sigo?
- Vistes, madr', o escudeiro que m'houver'a levar sigo?
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
Menti-lh'e vai-mi sanhudo, mia madre, bem vo-lo digo.
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Madre, vós que me mandastes que mentiss'a meu amigo,
que conselho mi daredes ora, poilo nom hei migo?
Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Filha, dou-vos por conselho que, tanto que vos el veja,
que toda rem lhi façades que vosso pagado seja.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
- Pois escusar nom podedes, mia filha, seu gasalhado,
des oimais eu vos castigo que lh'andedes a mandado.
- Madre, namorada me leixou,
madre, namorada mi há leixada,
madre, namorada me leixou.
618
Pero da Ponte
Vistes, Madr', o Que Dizia
Vistes, madr', o que dizia
que por mi era coitado?
Pois mandado nom m'envia,
entend'eu do perjurado
que já nom teme mia ira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E vistes u s'el partia
de mi, mui sem o meu grado,
e jurando que havia
por mi penas e cuidado?
Tod'andava com mentira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E já qual molher devia
creer per nulh'home nado?
Pois o que assi morria
polo meu bom gasalhado
já x'i por outra sospira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
Mais Deus, quen'o cuidaria:
del viver tam alongado
d'u el os meus olhos vira?
que por mi era coitado?
Pois mandado nom m'envia,
entend'eu do perjurado
que já nom teme mia ira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E vistes u s'el partia
de mi, mui sem o meu grado,
e jurando que havia
por mi penas e cuidado?
Tod'andava com mentira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E já qual molher devia
creer per nulh'home nado?
Pois o que assi morria
polo meu bom gasalhado
já x'i por outra sospira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
Mais Deus, quen'o cuidaria:
del viver tam alongado
d'u el os meus olhos vira?
561
Nuno Fernandes Torneol
Ora Vej'eu Que Me Nom Fará Bem
Ora vej'eu que me nom fará bem
a mia senhor, pois me mandou dizer
que me partisse de a bem querer.
Pero sei eu que lhe farei por en:
mentr'eu viver, sempre lhe bem querrei
e sempre a já "senhor" chamarei.
[...]
a mia senhor, pois me mandou dizer
que me partisse de a bem querer.
Pero sei eu que lhe farei por en:
mentr'eu viver, sempre lhe bem querrei
e sempre a já "senhor" chamarei.
[...]
489
Pero da Ponte
Ai Madr', o Que Me Namorou
- Ai madr', o que me namorou
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
foi-se noutro dia daqui
e, por Deus, que faremos i?
Ca namorada me leixou.
- Filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
- Ca me nom sei [i] conselhar,
mia madre, se Deus mi perdom.
- Dized', ai filha, por que nom?
Quero-me vo-lo eu mostrar:
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
Que o recebades mui bem,
filha, quand'ante vós veer,
e todo quanto vos disser
outorgade-lho e, por en,
filha, fazed'end'o melhor:
pois vos seu amor enganou,
que o engane voss'amor.
882
Rui Queimado
Pois Que Eu Ora Morto For
Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
462
Rui Queimado
Dize[M]-Mi Ora Que Nom Verrá
Dize[m]-mi ora que nom verrá
o meu amigo, porque quer
mui gram bem a outra molher,
mais esto quen'o creerá:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom?
Pode meu amigo dizer
que ama ou[t]rem mais ca si
nem que outra rem nem ca mi,
mais esto nom é de creer:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
Enfinta faz el, eu o sei,
que morre por outra d'amor
e que nom há mim por senhor;
mais eu esto nom creerei:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
o meu amigo, porque quer
mui gram bem a outra molher,
mais esto quen'o creerá:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom?
Pode meu amigo dizer
que ama ou[t]rem mais ca si
nem que outra rem nem ca mi,
mais esto nom é de creer:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
Enfinta faz el, eu o sei,
que morre por outra d'amor
e que nom há mim por senhor;
mais eu esto nom creerei:
que nunca el de coraçom
molher muit'ame, se mim nom.
469
Pedro Amigo de Sevilha
Moitos S'enfingem Que Ham Gaanhado
Moitos s'enfingem que ham gaanhado
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.
Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.
Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.
E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.
Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.
Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.
E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
518
Paio Soares de Taveirós
Meus Olhos, Quer-Vos Deus Fazer
Meus olhos, quer-vos Deus fazer
ora veer tam gram pesar,
onde me nom poss'eu quitar
sem mort'! E nom poss'eu saber
porque vos faz agora Deus
tam muito mal, ai olhos meus!
Ca vos farám cedo veer
a por que eu moiro casar;
e nunca me dela quis dar
bem; e nom poss'or'entender
porque vos faz agora Deus
tam muito mal, ai olhos meus!
E de quem vos esto mostrar,
nunca vos mostrará prazer,
ca log'eu i cuid'a morrer,
olhos; e nom poss'eu osmar
porque vos faz agora Deus
tam muito mal, ai olhos meus!
ora veer tam gram pesar,
onde me nom poss'eu quitar
sem mort'! E nom poss'eu saber
porque vos faz agora Deus
tam muito mal, ai olhos meus!
Ca vos farám cedo veer
a por que eu moiro casar;
e nunca me dela quis dar
bem; e nom poss'or'entender
porque vos faz agora Deus
tam muito mal, ai olhos meus!
E de quem vos esto mostrar,
nunca vos mostrará prazer,
ca log'eu i cuid'a morrer,
olhos; e nom poss'eu osmar
porque vos faz agora Deus
tam muito mal, ai olhos meus!
692
Paio Gomes Charinho
Voss'amigo Que Vos Sempre Serviu
- Voss'amigo que vos sempre serviu,
dized', amiga, que vos mereceu
pois que s'agora convosco perdeu?
Se per vossa culpa foi, nom foi bem.
- Nom sei, amiga, dizem que oiu
dizer nom sei quê e morre por en.
- Nom sei, amiga, que foi ou que é
ou que será, ca sabemos que nom
vos errou nunca voss'amigo, e som
maravilhados todos end'aqui.
- Nom sei, amiga, el, cada u é,
aprende novas com que morr'assi.
- Vós, amiga, nom podedes partir
que nom tenham por cousa desigual
servir-vos sempr'e fazerdes-lhi mal;
e que diredes de s'assi perder?
- Nom sei, amiga, el quer sempr'oír
novas de pouca prol pera morrer.
dized', amiga, que vos mereceu
pois que s'agora convosco perdeu?
Se per vossa culpa foi, nom foi bem.
- Nom sei, amiga, dizem que oiu
dizer nom sei quê e morre por en.
- Nom sei, amiga, que foi ou que é
ou que será, ca sabemos que nom
vos errou nunca voss'amigo, e som
maravilhados todos end'aqui.
- Nom sei, amiga, el, cada u é,
aprende novas com que morr'assi.
- Vós, amiga, nom podedes partir
que nom tenham por cousa desigual
servir-vos sempr'e fazerdes-lhi mal;
e que diredes de s'assi perder?
- Nom sei, amiga, el quer sempr'oír
novas de pouca prol pera morrer.
754
Paio Gomes Charinho
Ua Dona Que Eu Quero Gram Bem
Ũa dona que eu quero gram bem,
por mal de mi, par Deus, que nom por al,
pero que sempre mi fez e faz mal
e fará, direi-vo-lo que m'avém:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar
do coraçom. E que será de mim?
Morto sõ[o], se cedo nom morrer:
ela já nunca bem mi há de fazer,
mais sempre mal; e pero est assi:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar
do coraçom. Ora mi vai peior,
ca mi vem dela, por vos nom mentir,
mal se a vej', e mal se a nom vir,
que de coitas mais cuid[o] a maior:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar.
por mal de mi, par Deus, que nom por al,
pero que sempre mi fez e faz mal
e fará, direi-vo-lo que m'avém:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar
do coraçom. E que será de mim?
Morto sõ[o], se cedo nom morrer:
ela já nunca bem mi há de fazer,
mais sempre mal; e pero est assi:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar
do coraçom. Ora mi vai peior,
ca mi vem dela, por vos nom mentir,
mal se a vej', e mal se a nom vir,
que de coitas mais cuid[o] a maior:
mar, nem terra, nem prazer, nem pesar,
nem bem, nem mal, nom mi a podem quitar.
645
Paio Gomes Charinho
Ora Me Venh'eu, Senhor, Espedir
Ora me venh'eu, senhor, espedir
de vós, a que muit'há que aguardei;
e ora me quero de vós partir
sem galardom de camanho temp'hei
que vos servi, e quero-m'ir viver
em atal terra, u nunca prazer
veja, nem cante, nem possa riir.
Ca sõo certo, des que vos nom vir,
que outro prazer nunca veerei;
e, mal que haja, nom hei de sentir
senom o voss'; e assi andarei
triste, cuidando no vosso parecer,
e, chorando, muitas vezes dizer:
- Senhor, já nunca vos posso servir!
E do meu corpo que será, senhor,
quand'el d'alá o vosso desejar?
E que fará quem vos há tal amor
e vos nom vir, nem vos poder falar?
Ca vejo vós e por vós morr'aqui
- pois que farei ou que será de mim
quand'em terra u vós fordes nom for?
Ora com graça de vós, a melhor
dona do mundo – ca muit'hei d'andar;
e vós ficades de mim pecador,
ca vos servi muit'e galardoar
nom mi o quisestes; e vou-m'eu daqui,
d'u eu tanto lazerei e servi,
buscar u viva pouc'e sem sabor.
E, mia senhor, tod'est'eu mereci
a Deus; mais vós, de como vos servi,
mui sem vergonha irei per u for
- ora com graça de vós, mia senhor.
de vós, a que muit'há que aguardei;
e ora me quero de vós partir
sem galardom de camanho temp'hei
que vos servi, e quero-m'ir viver
em atal terra, u nunca prazer
veja, nem cante, nem possa riir.
Ca sõo certo, des que vos nom vir,
que outro prazer nunca veerei;
e, mal que haja, nom hei de sentir
senom o voss'; e assi andarei
triste, cuidando no vosso parecer,
e, chorando, muitas vezes dizer:
- Senhor, já nunca vos posso servir!
E do meu corpo que será, senhor,
quand'el d'alá o vosso desejar?
E que fará quem vos há tal amor
e vos nom vir, nem vos poder falar?
Ca vejo vós e por vós morr'aqui
- pois que farei ou que será de mim
quand'em terra u vós fordes nom for?
Ora com graça de vós, a melhor
dona do mundo – ca muit'hei d'andar;
e vós ficades de mim pecador,
ca vos servi muit'e galardoar
nom mi o quisestes; e vou-m'eu daqui,
d'u eu tanto lazerei e servi,
buscar u viva pouc'e sem sabor.
E, mia senhor, tod'est'eu mereci
a Deus; mais vós, de como vos servi,
mui sem vergonha irei per u for
- ora com graça de vós, mia senhor.
622
Paio Soares de Taveirós
Quando Se Foi Meu Amigo
Quando se foi meu amigo,
jurou que cedo verria,
mais, pois nom vem falar migo,
por en, por Santa Maria,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
Quando se foi, fez-mi preito
que se verria mui cedo,
e mentiu-mi, tort'há feito,
e pois de mi nom há medo,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
O que vistes que dizia
que andava namorado,
pois que nom veo o dia
que lh'eu havia mandado,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
jurou que cedo verria,
mais, pois nom vem falar migo,
por en, por Santa Maria,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
Quando se foi, fez-mi preito
que se verria mui cedo,
e mentiu-mi, tort'há feito,
e pois de mi nom há medo,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
O que vistes que dizia
que andava namorado,
pois que nom veo o dia
que lh'eu havia mandado,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
718
Martim Soares
Nunca Bom Grad'amor Haja de Mi
Nunca bom grad'Amor haja de mi
nem d'al, porque me mais leixa viver;
e direi-vos porque o dig'assi
e a gram coita que mi o faz dizer:
hei gram pavor de me fazer levar
coit'alongadament'e m'ar matar,
por me fazer peor morte prender.
Por en me leixa viver des aqui
Amor; e ben'o pod'hom'entender;
ca muit'há que lh'eu morte mereci,
se dev'homem per amar a morrer.
Mais nom me mata nem me quer guarir!
Pero nom m'hei del, pois viv', a partir,
nom me quer [el] matar a meu prazer.
E d'Amor nunca um prazer prendi,
por mil pesares que m'el faz sofrer;
e a senhor que eu por meu mal vi
nom me quer el contra ela valer,
nem dar-m'esforço, que m'era mester.
Pois m'esto faz e matar nom me quer,
por que lh'hei eu tal vid'agradecer?
Ca des que m'eu em seu poder meti
nom desejei bem que podess'haver;
sequer mia morte desejei des i,
que ant'eu muito soía temer.
E Amor nom me mata nem mi val,
mais matar-m'-ia, se fosse meu mal,
ou eu cuidass'em mia mort'a perder.
nem d'al, porque me mais leixa viver;
e direi-vos porque o dig'assi
e a gram coita que mi o faz dizer:
hei gram pavor de me fazer levar
coit'alongadament'e m'ar matar,
por me fazer peor morte prender.
Por en me leixa viver des aqui
Amor; e ben'o pod'hom'entender;
ca muit'há que lh'eu morte mereci,
se dev'homem per amar a morrer.
Mais nom me mata nem me quer guarir!
Pero nom m'hei del, pois viv', a partir,
nom me quer [el] matar a meu prazer.
E d'Amor nunca um prazer prendi,
por mil pesares que m'el faz sofrer;
e a senhor que eu por meu mal vi
nom me quer el contra ela valer,
nem dar-m'esforço, que m'era mester.
Pois m'esto faz e matar nom me quer,
por que lh'hei eu tal vid'agradecer?
Ca des que m'eu em seu poder meti
nom desejei bem que podess'haver;
sequer mia morte desejei des i,
que ant'eu muito soía temer.
E Amor nom me mata nem mi val,
mais matar-m'-ia, se fosse meu mal,
ou eu cuidass'em mia mort'a perder.
618
Paio Gomes Charinho
A Mia Senhor, Que Por Mal Destes Meus
A mia senhor, que por mal destes meus
olhos eu vi, fui-lhe gram bem querer;
e o melhor que dela pud'haver,
des que a vi, direi-vo-lo, par Deus:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E por esto que me disso cuidou
mim a guarir, que já moiro; mais nom
perdi por en coita do coraçom,
pero bem foi mais do que me matou:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E por aquesto cuida que seu prez
tod'há perdudo - e vedes qual senhor
me faz amar muito Deus e Amor.
E o melhor que m'ela nunca fez:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E entend'eu ca me quer atal bem
em que nom perde, nem gaanh'eu, rem.
olhos eu vi, fui-lhe gram bem querer;
e o melhor que dela pud'haver,
des que a vi, direi-vo-lo, par Deus:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E por esto que me disso cuidou
mim a guarir, que já moiro; mais nom
perdi por en coita do coraçom,
pero bem foi mais do que me matou:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E por aquesto cuida que seu prez
tod'há perdudo - e vedes qual senhor
me faz amar muito Deus e Amor.
E o melhor que m'ela nunca fez:
disse-m'hoje ca me queria bem,
pera que nunca me faria bem.
E entend'eu ca me quer atal bem
em que nom perde, nem gaanh'eu, rem.
714
Martim Soares
Senhor, Pois Deus Nom Quer Que Mi Queirades
Senhor, pois Deus nom quer que mi queirades
creer a coita que me por vós vem,
por Deus, creede ca vos quero bem
e jamais nunca m'outro bem façades;
e se mi aquesto queredes creer,
poderei eu mui gram coita perder;
e vós, senhor, nom sei que i perçades
em guarirdes voss'homem, que matades,
e que vos ama mais que outra rem;
por mim vos digo, que nom acho quem
me dê conselho, nem vós nom mi o dades.
Pero Deus sabe quam de coraçom
hoj'eu vos amo e, se El me perdom,
desamo mi porque me desamades,
per bõa fé, mia senhor; e sabiades
ca por aquest'hei perdudo meu sem;
mais se Deus quiser que vos dig'alguém
quam bem vos quero e que o vós creades,
poderei eu meu sem cobrar des i;
e se a vós prouguer que seja assi,
sempre por en bõa ventura hajades.
creer a coita que me por vós vem,
por Deus, creede ca vos quero bem
e jamais nunca m'outro bem façades;
e se mi aquesto queredes creer,
poderei eu mui gram coita perder;
e vós, senhor, nom sei que i perçades
em guarirdes voss'homem, que matades,
e que vos ama mais que outra rem;
por mim vos digo, que nom acho quem
me dê conselho, nem vós nom mi o dades.
Pero Deus sabe quam de coraçom
hoj'eu vos amo e, se El me perdom,
desamo mi porque me desamades,
per bõa fé, mia senhor; e sabiades
ca por aquest'hei perdudo meu sem;
mais se Deus quiser que vos dig'alguém
quam bem vos quero e que o vós creades,
poderei eu meu sem cobrar des i;
e se a vós prouguer que seja assi,
sempre por en bõa ventura hajades.
575
Martim Soares
Mal Conselhado Que Fui, Mia Senhor
Mal conselhado que fui, mia senhor,
quando vos fui primeiro conhocer!
Ca nunca pudi gram coita perder,
nem perderei já, mentre vivo for;
nem viss'eu vós, nem quem mi o conselhou,
nem viss'aquel que me vos amostrou,
nem viss'o dia 'm que vos fui veer!
Ca des entom me fez o voss'amor
na mui gram coita 'm que vivo viver;
e, por mi a nom leixar escaecer
e mi a fazer cada dia maior,
faz-me, senhor, em vós sempre cuidar
e faz-mi a Deus por mia morte rogar
e faz a vós a mim gram mal fazer.
E quem se fez de mim conselhador
que eu viss'o vosso bom parecer,
aquant'eu posso de vós entender,
de mia morte houve, e de meu mal, sabor;
e, mal pecado!, nom moir'eu por en,
nem moiro, porque seria meu bem,
nem moiro, porque queria morrer.
E porque mi seria mui melhor
morte ca mais esta coita sofrer,
pois nom mi há prol de vo-la eu dizer,
nem vos faz outrem por mim sabedor,
nem mi val rem de queixar-m'end'assi,
nem me val coita que por vós sofri,
nem mi val Deus, nem me poss'eu valer.
Pero, entanto com'eu vivo for,
queixar-m'-ei sempre de vós e d'Amor,
pois conselh'outro nom poss'i prender.
quando vos fui primeiro conhocer!
Ca nunca pudi gram coita perder,
nem perderei já, mentre vivo for;
nem viss'eu vós, nem quem mi o conselhou,
nem viss'aquel que me vos amostrou,
nem viss'o dia 'm que vos fui veer!
Ca des entom me fez o voss'amor
na mui gram coita 'm que vivo viver;
e, por mi a nom leixar escaecer
e mi a fazer cada dia maior,
faz-me, senhor, em vós sempre cuidar
e faz-mi a Deus por mia morte rogar
e faz a vós a mim gram mal fazer.
E quem se fez de mim conselhador
que eu viss'o vosso bom parecer,
aquant'eu posso de vós entender,
de mia morte houve, e de meu mal, sabor;
e, mal pecado!, nom moir'eu por en,
nem moiro, porque seria meu bem,
nem moiro, porque queria morrer.
E porque mi seria mui melhor
morte ca mais esta coita sofrer,
pois nom mi há prol de vo-la eu dizer,
nem vos faz outrem por mim sabedor,
nem mi val rem de queixar-m'end'assi,
nem me val coita que por vós sofri,
nem mi val Deus, nem me poss'eu valer.
Pero, entanto com'eu vivo for,
queixar-m'-ei sempre de vós e d'Amor,
pois conselh'outro nom poss'i prender.
725
Martim Soares
Pois Nom Hei de Dona Elvira
Pois nom hei de Dona Elvira
seu amor e hei sa ira,
esto farei, sem mentira:
pois me vou de Santa Vaia,
morarei cabo da Maia,
em Doiro, antr'o Porto e Gaia.
Se crevess'eu Martim Sira,
nunca m'eu dali partira
d'u m'el disse que a vira:
em Sam [J]oan'e em saia.
Morarei cabo da Maia,
em Doiro, antr'o Porto e Gaia.
seu amor e hei sa ira,
esto farei, sem mentira:
pois me vou de Santa Vaia,
morarei cabo da Maia,
em Doiro, antr'o Porto e Gaia.
Se crevess'eu Martim Sira,
nunca m'eu dali partira
d'u m'el disse que a vira:
em Sam [J]oan'e em saia.
Morarei cabo da Maia,
em Doiro, antr'o Porto e Gaia.
412
Paio Gomes Charinho
Dizem, Senhor, Ca Dissestes Por Mi
- Dizem, senhor, ca dissestes por mi
que foi já temp'e que foi já sazom
que vos prazia d'oirdes entom
em mi falar e que nom é já 'ssi.
- Dizem verdad', amigo, porque nom
entendia o que pois entendi.
- E, senhor, dizem, pero vos tal bem
quero que moiro, que rem nom me val,
ca vós dizedes dest'amor atal:
que nunca vos ende senom mal vem.
- Dizem verdad', amigo, e pois é mal,
nom i faledes, ca prol nom vos tem.
- Pero cuid'eu, fremosa mia senhor,
des que vos vi, que sempre me guardei
de vos fazer pesar. Mais que farei,
ca por vós moir'e nom hei d'al sabor?
- Nom vos há prol, amigo, ca já sei
o por que era todo o voss'amor.
que foi já temp'e que foi já sazom
que vos prazia d'oirdes entom
em mi falar e que nom é já 'ssi.
- Dizem verdad', amigo, porque nom
entendia o que pois entendi.
- E, senhor, dizem, pero vos tal bem
quero que moiro, que rem nom me val,
ca vós dizedes dest'amor atal:
que nunca vos ende senom mal vem.
- Dizem verdad', amigo, e pois é mal,
nom i faledes, ca prol nom vos tem.
- Pero cuid'eu, fremosa mia senhor,
des que vos vi, que sempre me guardei
de vos fazer pesar. Mais que farei,
ca por vós moir'e nom hei d'al sabor?
- Nom vos há prol, amigo, ca já sei
o por que era todo o voss'amor.
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