Poemas neste tema
Destino e Superação
José Albano
Soneto
Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.
Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas. tão pouco dura;
E ainda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.
Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia,
E só com saudades me atormento;
Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
Senão de ter cantado o que sofria.
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.
Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas. tão pouco dura;
E ainda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.
Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia,
E só com saudades me atormento;
Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
Senão de ter cantado o que sofria.
1 953
4
Paulo Leminski
Asas e azares
Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.
3 707
4
Luís de Camões
Em prisões baixas fui um tempo atado
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.
11 250
4
Fernando Pessoa
Minha mulher, a solidão,
Minha mulher, a solidão,
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é ao coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminho.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só – veste de seda –,
E fala só – leque animado.
27/08/1930
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é ao coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminho.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só – veste de seda –,
E fala só – leque animado.
27/08/1930
4 818
4
Luís de Camões
Nunca em amor danou o atrevimento
Nunca em amor danou o atrevimento;
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.
Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
São u~as ilusões que leva o vento.
Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.
Atrever-se é valor e não loucura;
Perderá por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.
Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
São u~as ilusões que leva o vento.
Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.
Atrever-se é valor e não loucura;
Perderá por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.
5 644
4
Pablo Neruda
A Lâmpada Marinha
Portugal,
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua terra volta, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isto?
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
aprenderás de novo a ser estrela.
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua terra volta, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isto?
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
aprenderás de novo a ser estrela.
2 257
3
José Saramago
Signo do Escorpião
Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.
2 041
3
Carlos Drummond de Andrade
Aos Atletas
Os poetas haviam composto suas odes
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
2 139
3
Konstantínos Kaváfis
Ítaca
Quando , de volta , viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os sucitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.
4 052
3
Cora Coralina
Amigo
Vamos conversar
Como dois velhos que se encontram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.
Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens
É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.
Mas... ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo.
O medo que todo homem sente
da mulher letrada.
Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.
Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois... depois...
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.
Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
Como dois velhos que se encontram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.
Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens
É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.
Mas... ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo.
O medo que todo homem sente
da mulher letrada.
Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.
Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois... depois...
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.
Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
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3
Carlos Nejar
Sentença
"Vistos.
Fulano de Tal, nascido
nesta cidade do reino,
em tempo desconhecido.
Nascido
sem explicação ou sentido,
como o arremesso de um disco.
Nascido
como quem diz uma palavra e pronto:
ei-lo lançado no andamento do mundo.
Nascido
como se planta um figo ou ameixa
e se planta
um grito na garganta.
Nascido e agora,
viajor por profissão,
inquilino das coisas,
armazena culpas e velos de lã.
E eu, julgador, sentencio,
considerando o réu
e o estar aqui, opresso,
dividido na noite
que se dividiu,
como mulher no cio,
resolvo condená-lo
a viver em danação,
além do fojo de seus pais,
com avarias e receios,
entre iguais.
Depois, suspendo-lhe a pena,
para que pereça como veio."
Publicado no livro Danações (1969).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.227-228. (Poiesis
Fulano de Tal, nascido
nesta cidade do reino,
em tempo desconhecido.
Nascido
sem explicação ou sentido,
como o arremesso de um disco.
Nascido
como quem diz uma palavra e pronto:
ei-lo lançado no andamento do mundo.
Nascido
como se planta um figo ou ameixa
e se planta
um grito na garganta.
Nascido e agora,
viajor por profissão,
inquilino das coisas,
armazena culpas e velos de lã.
E eu, julgador, sentencio,
considerando o réu
e o estar aqui, opresso,
dividido na noite
que se dividiu,
como mulher no cio,
resolvo condená-lo
a viver em danação,
além do fojo de seus pais,
com avarias e receios,
entre iguais.
Depois, suspendo-lhe a pena,
para que pereça como veio."
Publicado no livro Danações (1969).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.227-228. (Poiesis
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3
Alice Ruiz
topa um pacto de sangue
topa um pacto de sangue
com essa cigana do futuro
que lê
o passado na tua boca
o presente no teu corpo
e nos teus olhos
tanto quanto nos astros?
Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
com essa cigana do futuro
que lê
o passado na tua boca
o presente no teu corpo
e nos teus olhos
tanto quanto nos astros?
Publicado no livro Paixão xama paixão (1983).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
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3
Augusto dos Anjos
Vencedor
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração - estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo enfim ninguém,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração - estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo enfim ninguém,
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3
Olavo Bilac
As Cartomantes
OS JORNAIS PUBLICARAM, há dias, uma longa lista de nomes de homens e de mulheres, — principalmente de mulheres, — que se dedicam ao estudo e à prática da quiromancia, da cartomancia, do sonambulismo, e não sei se também da lampadomancia, da alectoromancia, da hidromancia, e de outras das inumeráveis subciências em que se divide a grande ciência da mântica, a cujos sacerdotes Severiano de Rezende dá o nome, admiravelmente bem achado, de "Charlatas do Além".
Parece que a polícia, depois de organizar o catálogo estatístico dessa gente, vai persegui-Ia sem piedade, devassando-lhe os antros proféticos, varejando-lhe as cavernas sibilinas, vascolejando-lhe as criptas misteriosas, opondo ao Tarô o Código e à trípode de Delfos o banco dos réus.
Dir-se-á, sem maior exame, encarando a cousa pela rama, que a polícia se vai assim empenhar num simples e fácil trabalho de saneamento moral, perseguindo algumas dúzias de exploradores da credulidade pública, com o mesmo direito com que persegue os passadores do "conto do vigário" ou de notas falsas.
Não há tal. O que a polícia vai fazer é pôr a sua mão imprudente numa tradição multissecular, numa eterna e indestrutível mentira, criada pelo medo ou pela curiosidade dos primeiros homens, e sustentada pela irremediável tolice de todos os outros que lhes sucederam e lhes hão de suceder no gozo e no sofrimento dos bens e dos males da vida. Querer destruir uma mentira, que há de viver perpetuamente, e combater uma tolice, contra a qual nunca se há de achar remédio, — é a preocupação mais vã de quantas podemos ter neste mundo vão. E desde já podemos lamentar que a polícia vá perder nesse trabalho ingrato e inútil um tempo preciosíssimo, que poderia ser benéfica e providencialmente aproveitado em outras empresas muito mais fáceis e urgentes.
A superstição é velha e eterna como a inteligência.
Que fez a inteligência, assim que desabrochou, como uma flor luminosa, no primeiro cérebro humano? Quis saber o que era ela própria, e o que era a humanidade, e o que era a Terra, e o que era o universo. E endereçou então a tudo essa grande pergunta ansiosa e dolorosa, que ainda não teve resposta...
Naturalmente, a primeira interrogação foi dirigida ao céu distante e profundo, onde os astros esplendem, na sua eterna viagem, cegando-nos com o seu brilho e intrigando-nos com o seu segredo inatingível; nasceu assim a astrologia. Depois, a pergunta foi dirigida pelo homem a si mesmo, aos seus pensamentos, aos mistérios da sua vida fisiológica: aos sonhos, às linhas da mão, à configuração da face, à faculdade da visão, à loucura, à epilepsia, ao sonambulismo. Depois, o eterno curioso interrogou os acidentes físicos do meio que o cercava: o fogo, a luz, o ar, o curso dos rios, a inquietação do oceano, as correrias das nuvens pelo céu. Passou depois a investigar todo o reino animal: e foi assim que se fundou a classe dos arúspices que procuravam ler o futuro nas entranhas dos animais, no vôo dos pássaros, no rastejar dos répteis, no canto dos galos, nos círculos que as aves de rapina traçam no céu, no grunhir dos bácoros; depois chegou a vez do reino vegetal, do reino mineral: examinavam-se a forma e a direção dos ramos, o barulho dos galhos sacudidos pelo vento, a forma e a estrutura das folhas e das flores, o peso e o brilho das pedras preciosas, o fulgor e a dureza dos metais; fundou-se uma ciência, a aleuromancia, sobre o estudo da farinha! o âmbar foi adorado como uma divindade! e milhões e milhões de cérebros arderam e estouraram no trabalho vão de criar a pedra filosofal!
Tudo foi inútil; mas a inteligência não desesperou. Não há século que não veja nascer uma nova religião; e as superstições, suas filhas, nascem todos os dias, — e às vezes nascem por si mesmas, espontaneamente, por um processo de autocriação; há ateus, ateus convencidos, inimigos e negadores de todas as religiões, e, entretanto, profundamente supersticiosos: não crêem em Jeová, nem em Brahma, nem em Júpiter, nem em Ísis, — mas crêem na fatalidade da concorrência de 13 convivas à mesa, ou na influência do mau-olhado dos jettatores, ou na ascendência nefasta dos sapatos que se deixam no chão com a sola para cima.
Há quem pense que, com o progredir da civilização, diminui o número dos supersticiosos. Completa ilusão. Nunca houve tantos supersticiosos e tantas superstições como agora. A civilização causa o naufrágio e a bancarrota das religiões, mas não aplaca esta sede de saber e esta ânsia de compreender que ainda não foram satisfeitas. Morrem e sucedem-se as religiões, mas não se altera o instinto religioso; reformam-se as superstições, mas a Superstição é eterna.
Todos nós costumamos rir das crendices... É um riso exterior e postiço, com que mascaramos o nosso medo. É de crer que, para não perder o seu ganha-pão, os delegados de polícia, obedecendo às ordens do chefe, varejem as casas das cartomantes; muitos deles, porém, cumprirão esse dever com um certo terror. E até o chefe... quem sabe que superstições terá o chefe? a investidura de tão alto cargo não destrói dentro da alma de um homem as estratificações de preconceitos que séculos e séculos de humanidade e de fraqueza têm deposto nas almas de todos os homens.
Eu, por mim, confesso que não creio na ciência das cartomantes. Mas...
Foi há muitos anos, — há 22 ou 23 anos, se me não engano. Fui consultar Madama X, cartomante famosa, que tinha a sua trípode assentada num sobradinho da rua de São José. Não sei por que lá fui: provavelmente para rir dela... Subi uma escada íngreme, andei por um corredor escuro, bati a uma porta, entrei em uma saleta quase sem luz. E, ocupando uma vastíssima poltrona, vi a profetisa; quarentona gorda e vermelha, de mãos papudas e colo enorme estalando o corpete. Recebeu-me com um sorriso cativante, e indagou logo o que ali me levava: — tinha perdido alguma cousa? ia casar? queria conhecer o autor de alguma carta anônima?... Expliquei que não: queria conhecer o meu futuro, queria espiar por uma fresta dessa janela sempre fechada que deita para o porvir. Ela examinou, primeiro, as linhas da minha mão esquerda, palpou-me longamente as falangetas, — e, tomando o baralho, misturou as cartas, remexeu-as, estendeu-as em leque sobre a mesa, — e, antes de falar do meu futuro, começou a falar do meu passado.
Não posso aqui reproduzir tudo quanto me disse. Vinte e dois anos de vida varrem na memória da gente cousas tão sérias, que pareciam eternas!... como não hão de varrer futilidades e tolices? Lembra-me só que a anafada senhora me disse tantas cousas falsas e absurdas, que desatei a rir perdidamente.
Ela, apoplética, indignou-se. Labaredas de cólera crepitaram nos seus olhos, entre as pálpebras gordas. Mas conteve-se, antegozando a vingança: e, fixando os olhos nos meus, principiou a falar do meu futuro. Já eu não ria... O futuro!... todo o terror, toda a curiosidade, todo o sofrimento da ignorância dos meus brutíssimos avós do período mioceno despertavam na minha alma: e foi com um frio agudo na medula que eu ouvi a profecia tremenda. Combinando as revelações do Tarô com uma cerra interrupção da linha da vida na palma da minha mão, disse-me a sacerdotisa da rua de s. José: "O senhor há de morrer de morte violenta: desastre, assassinato ou suicídio!"
Paguei à cartomante, sorrindo, — com o sorriso exterior dos fortes, — e saí. Mas, ao descer a escada, vim pisando cautelosamente os degraus com medo de alguma queda. No largo da Carioca, esperei que passasse um bond que ainda vinha longe. Aproximou-se um cão: encolhi-me. Vi um andaime: afastei-me... E assim vivi alguns meses, sempre sorrindo da profecia, e sempre pensando nela. Já lá se vão 22 ou 23 anos! ainda não me assassinaram, nunca me vi a braços com um desastre sério, e nunca pensei (como espero que nunca hei de pensar) no suicídio. Mas, às vezes, —
Parece que a polícia, depois de organizar o catálogo estatístico dessa gente, vai persegui-Ia sem piedade, devassando-lhe os antros proféticos, varejando-lhe as cavernas sibilinas, vascolejando-lhe as criptas misteriosas, opondo ao Tarô o Código e à trípode de Delfos o banco dos réus.
Dir-se-á, sem maior exame, encarando a cousa pela rama, que a polícia se vai assim empenhar num simples e fácil trabalho de saneamento moral, perseguindo algumas dúzias de exploradores da credulidade pública, com o mesmo direito com que persegue os passadores do "conto do vigário" ou de notas falsas.
Não há tal. O que a polícia vai fazer é pôr a sua mão imprudente numa tradição multissecular, numa eterna e indestrutível mentira, criada pelo medo ou pela curiosidade dos primeiros homens, e sustentada pela irremediável tolice de todos os outros que lhes sucederam e lhes hão de suceder no gozo e no sofrimento dos bens e dos males da vida. Querer destruir uma mentira, que há de viver perpetuamente, e combater uma tolice, contra a qual nunca se há de achar remédio, — é a preocupação mais vã de quantas podemos ter neste mundo vão. E desde já podemos lamentar que a polícia vá perder nesse trabalho ingrato e inútil um tempo preciosíssimo, que poderia ser benéfica e providencialmente aproveitado em outras empresas muito mais fáceis e urgentes.
A superstição é velha e eterna como a inteligência.
Que fez a inteligência, assim que desabrochou, como uma flor luminosa, no primeiro cérebro humano? Quis saber o que era ela própria, e o que era a humanidade, e o que era a Terra, e o que era o universo. E endereçou então a tudo essa grande pergunta ansiosa e dolorosa, que ainda não teve resposta...
Naturalmente, a primeira interrogação foi dirigida ao céu distante e profundo, onde os astros esplendem, na sua eterna viagem, cegando-nos com o seu brilho e intrigando-nos com o seu segredo inatingível; nasceu assim a astrologia. Depois, a pergunta foi dirigida pelo homem a si mesmo, aos seus pensamentos, aos mistérios da sua vida fisiológica: aos sonhos, às linhas da mão, à configuração da face, à faculdade da visão, à loucura, à epilepsia, ao sonambulismo. Depois, o eterno curioso interrogou os acidentes físicos do meio que o cercava: o fogo, a luz, o ar, o curso dos rios, a inquietação do oceano, as correrias das nuvens pelo céu. Passou depois a investigar todo o reino animal: e foi assim que se fundou a classe dos arúspices que procuravam ler o futuro nas entranhas dos animais, no vôo dos pássaros, no rastejar dos répteis, no canto dos galos, nos círculos que as aves de rapina traçam no céu, no grunhir dos bácoros; depois chegou a vez do reino vegetal, do reino mineral: examinavam-se a forma e a direção dos ramos, o barulho dos galhos sacudidos pelo vento, a forma e a estrutura das folhas e das flores, o peso e o brilho das pedras preciosas, o fulgor e a dureza dos metais; fundou-se uma ciência, a aleuromancia, sobre o estudo da farinha! o âmbar foi adorado como uma divindade! e milhões e milhões de cérebros arderam e estouraram no trabalho vão de criar a pedra filosofal!
Tudo foi inútil; mas a inteligência não desesperou. Não há século que não veja nascer uma nova religião; e as superstições, suas filhas, nascem todos os dias, — e às vezes nascem por si mesmas, espontaneamente, por um processo de autocriação; há ateus, ateus convencidos, inimigos e negadores de todas as religiões, e, entretanto, profundamente supersticiosos: não crêem em Jeová, nem em Brahma, nem em Júpiter, nem em Ísis, — mas crêem na fatalidade da concorrência de 13 convivas à mesa, ou na influência do mau-olhado dos jettatores, ou na ascendência nefasta dos sapatos que se deixam no chão com a sola para cima.
Há quem pense que, com o progredir da civilização, diminui o número dos supersticiosos. Completa ilusão. Nunca houve tantos supersticiosos e tantas superstições como agora. A civilização causa o naufrágio e a bancarrota das religiões, mas não aplaca esta sede de saber e esta ânsia de compreender que ainda não foram satisfeitas. Morrem e sucedem-se as religiões, mas não se altera o instinto religioso; reformam-se as superstições, mas a Superstição é eterna.
Todos nós costumamos rir das crendices... É um riso exterior e postiço, com que mascaramos o nosso medo. É de crer que, para não perder o seu ganha-pão, os delegados de polícia, obedecendo às ordens do chefe, varejem as casas das cartomantes; muitos deles, porém, cumprirão esse dever com um certo terror. E até o chefe... quem sabe que superstições terá o chefe? a investidura de tão alto cargo não destrói dentro da alma de um homem as estratificações de preconceitos que séculos e séculos de humanidade e de fraqueza têm deposto nas almas de todos os homens.
Eu, por mim, confesso que não creio na ciência das cartomantes. Mas...
Foi há muitos anos, — há 22 ou 23 anos, se me não engano. Fui consultar Madama X, cartomante famosa, que tinha a sua trípode assentada num sobradinho da rua de São José. Não sei por que lá fui: provavelmente para rir dela... Subi uma escada íngreme, andei por um corredor escuro, bati a uma porta, entrei em uma saleta quase sem luz. E, ocupando uma vastíssima poltrona, vi a profetisa; quarentona gorda e vermelha, de mãos papudas e colo enorme estalando o corpete. Recebeu-me com um sorriso cativante, e indagou logo o que ali me levava: — tinha perdido alguma cousa? ia casar? queria conhecer o autor de alguma carta anônima?... Expliquei que não: queria conhecer o meu futuro, queria espiar por uma fresta dessa janela sempre fechada que deita para o porvir. Ela examinou, primeiro, as linhas da minha mão esquerda, palpou-me longamente as falangetas, — e, tomando o baralho, misturou as cartas, remexeu-as, estendeu-as em leque sobre a mesa, — e, antes de falar do meu futuro, começou a falar do meu passado.
Não posso aqui reproduzir tudo quanto me disse. Vinte e dois anos de vida varrem na memória da gente cousas tão sérias, que pareciam eternas!... como não hão de varrer futilidades e tolices? Lembra-me só que a anafada senhora me disse tantas cousas falsas e absurdas, que desatei a rir perdidamente.
Ela, apoplética, indignou-se. Labaredas de cólera crepitaram nos seus olhos, entre as pálpebras gordas. Mas conteve-se, antegozando a vingança: e, fixando os olhos nos meus, principiou a falar do meu futuro. Já eu não ria... O futuro!... todo o terror, toda a curiosidade, todo o sofrimento da ignorância dos meus brutíssimos avós do período mioceno despertavam na minha alma: e foi com um frio agudo na medula que eu ouvi a profecia tremenda. Combinando as revelações do Tarô com uma cerra interrupção da linha da vida na palma da minha mão, disse-me a sacerdotisa da rua de s. José: "O senhor há de morrer de morte violenta: desastre, assassinato ou suicídio!"
Paguei à cartomante, sorrindo, — com o sorriso exterior dos fortes, — e saí. Mas, ao descer a escada, vim pisando cautelosamente os degraus com medo de alguma queda. No largo da Carioca, esperei que passasse um bond que ainda vinha longe. Aproximou-se um cão: encolhi-me. Vi um andaime: afastei-me... E assim vivi alguns meses, sempre sorrindo da profecia, e sempre pensando nela. Já lá se vão 22 ou 23 anos! ainda não me assassinaram, nunca me vi a braços com um desastre sério, e nunca pensei (como espero que nunca hei de pensar) no suicídio. Mas, às vezes, —
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3
Luís de Camões
Enquanto quis Fortuna que Tivesse
Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Pera que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Pera que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
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3
Renato Russo
Só por hoje
Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou e o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz
Hoje eu já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez
Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte e quatro horas
Quase joguei minha vida inteira fora
Não não não não
Viver é uma dádiva fatal,
No fim das contas ninguém sai vivo daqui mas -
Vamos com calma !
Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi
Yeah
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou e o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz
Hoje eu já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez
Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte e quatro horas
Quase joguei minha vida inteira fora
Não não não não
Viver é uma dádiva fatal,
No fim das contas ninguém sai vivo daqui mas -
Vamos com calma !
Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi
Yeah
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3
Camilo Pessanha
Quando?
Quando se erguerão as seteiras,
Outra vez, do castelo em ruína?
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?
Se ouvirá tocar a rebate,
- Sobre a planície abandonada?
E partiremos ao combate,
De cota, e elmo, e a longa espada?
Quando iremos, tristes e sérios,
Nas prolixas e vãs contendas,
Lançando juras, impropérios,
Pelas divisas e legendas?
E voltaremos, - os antigos,
Os puríssimos lidadores,-
Quantos trabalhos e perigos!
Quase mortos e vencedores?
E quando, ó Doce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
Magra figura de vitral
Por quem nós fomos combater.
Outra vez, do castelo em ruína?
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?
Se ouvirá tocar a rebate,
- Sobre a planície abandonada?
E partiremos ao combate,
De cota, e elmo, e a longa espada?
Quando iremos, tristes e sérios,
Nas prolixas e vãs contendas,
Lançando juras, impropérios,
Pelas divisas e legendas?
E voltaremos, - os antigos,
Os puríssimos lidadores,-
Quantos trabalhos e perigos!
Quase mortos e vencedores?
E quando, ó Doce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
Magra figura de vitral
Por quem nós fomos combater.
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3
Olavo Bilac
Só
Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
— Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.
De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.
Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!
E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão!
sem lar!
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
— Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.
De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.
Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!
E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;
E, homem há de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão!
sem lar!
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3
Luís de Camões
Posto me tem Fortuna em tal estado
Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.
Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,
Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.
E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.
Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,
Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.
E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.
7 058
3
Fernando Pessoa
VI. OS COLOMBOS
Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
7 026
3
Luís de Camões
No mundo quis o Tempo que se achasse
No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
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3
Manuel Alegre
Como Ulisses te busco e desespero
Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.
Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não tendo tudo são castigos.
Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar -- Pátria Sereia
Penélope que não te rendes -- tu
que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo o teu povo empunhe o arco
como Ulisses por ti nesta Odisseia.
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.
Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não tendo tudo são castigos.
Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar -- Pátria Sereia
Penélope que não te rendes -- tu
que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo o teu povo empunhe o arco
como Ulisses por ti nesta Odisseia.
5 341
3
José Saramago
Ergo Uma Rosa
Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me dói de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou vento de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontuam de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me dói de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.
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